{"id":6427,"date":"2019-07-12T10:15:59","date_gmt":"2019-07-12T09:15:59","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6427"},"modified":"2019-07-12T10:15:59","modified_gmt":"2019-07-12T09:15:59","slug":"vincent-lambert-inumanidade-eternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/vincent-lambert-inumanidade-eternidade\/","title":{"rendered":"Vincent Lambert, inumanidade, eternidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo recolhido do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/vincent_lambert_inumanidade_eternidade.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou a velar a minha m\u00e3e. S\u00e3o, talvez, as \u00faltimas horas da sua longa jornada. Extingue-se lentamente por causa da fome e da sede. Deixou de conseguir engolir. Ontem teve uma crise muito forte, pensei que fosse o cora\u00e7\u00e3o; era a sede. O seu sofrimento atravessou-me a alma, e a mente lembrou-se espontaneamente de Vincent Lambert e aos muitos, como ele, deixados a sofrer t\u00e3o desumanamente [depois de ter sido privado de subst\u00e2ncias alimentares e de l\u00edquidos necess\u00e1rios para a sua exist\u00eancia].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha m\u00e3e, de 84 anos, tem uma vida plena, uma grande f\u00e9. Agora o seu corpo n\u00e3o pode receber soro, mas n\u00e3o queremos lev\u00e1-la para o hospital, para as m\u00e3os de outros. Morre aqui, onde a vimos trabalhar e amar, sofrer por n\u00f3s. Uma dor, sim, mas tamb\u00e9m uma gl\u00f3ria, um orgulho. Ao contr\u00e1rio, para os Lambert, para os Alfie de ontem e de hoje, com o seu secreto destino interrompido bruscamente, que gl\u00f3ria, que dignidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olho \u00e0 volta. Nas paredes de casa, as fotografias de fam\u00edlia trazem de volta a minha m\u00e3e como era antes, e como permanece indel\u00e9vel no cora\u00e7\u00e3o. Entre as imagens est\u00e1 tamb\u00e9m a reprodu\u00e7\u00e3o de uma pintura de Dal\u00ed: \u201cPersist\u00eancia da mem\u00f3ria\u201d. A minha m\u00e3e gostava da arte, vibrava com as coisas belas; muito lhe devo a minha sensibilidade e a minha paix\u00e3o atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Dal\u00ed, naquela noite, em angustiosa espera da sua mulher Gala, tinha diante dos olhos alguma coisa j\u00e1 vista: a paisagem marinha e rochosa do cabo de Creus, pintado anos antes e nunca conclu\u00eddo. Foi ent\u00e3o assaltado por uma dolorosa solid\u00e3o, e por um instante percebeu a futilidade de todas as coisas. Pegou na tela e come\u00e7ou a pintar sobre as rochas rel\u00f3gios derretidos. Queria exprimir assim o inexor\u00e1vel liquefazer-se de todas as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o rel\u00f3gio de bolso, em primeiro plano, formigas em movimento, sinal da mat\u00e9ria corrupt\u00edvel que n\u00e3o resiste ao choque do tempo. Ter\u00e1 Dal\u00ed percecionado o drama da eternidade? O nosso corpo n\u00e3o \u00e9 eterno, mas a exterioridade n\u00e3o \u00e9 mais do que o inv\u00f3lucro das coisas, como o vidro e o aro n\u00e3o s\u00e3o mais do que o recipiente do rel\u00f3gio. O nosso destino s\u00f3 pode ser outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O decl\u00ednio do corpo n\u00e3o pode ser a \u00faltima palavra sobre o ser humano, de outra maneira tamb\u00e9m n\u00f3s seremos um dia pasto para as formigas. Assim pensam, talvez, aqueles que desprezam o ser humano com defici\u00eancia. Mas n\u00e3o, n\u00e3o somos pasto para formigas, e precisamente aqui e agora, \u00e0 cabeceira da minha m\u00e3e, olhando o seu rosto t\u00e3o semelhante \u00e0 figura central pintada por Dal\u00ed, compreendo o dom enorme recebido, a espessura de uma vida que agora me est\u00e1 a dar \u00e0 luz de novo na dor, mas uma dor de outro g\u00e9nero e de outra natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o por isso para mim muito tristes aqueles que descem \u00e0s pra\u00e7as embandeirando um progresso que mata os inermes, denegrindo o valor inestim\u00e1vel da fam\u00edlia fundada sobre um homem e uma mulher, tro\u00e7ando de princ\u00edpios n\u00e3o negoci\u00e1veis em nome de uma civiliza\u00e7\u00e3o finalmente sem Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo nunca acaba quando se est\u00e1 \u00e0 cabeceira de uma pessoa que sofre, tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de viver minutos eternos. No entanto, \u00e9 neste tempo dilatado que se oculta a hora da verdade. A hora em que todas as hipocrisias, as teorias, as bandeiras mais ou menos vencedoras que erguemos desaparecem. As batalhas aqui na Terra n\u00e3o valem nada se n\u00e3o combatem pela eternidade, se n\u00e3o lutarem contra caminhos que n\u00e3o s\u00e3o nossos, mas &#8220;outros&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAve Maria, gratia plena, Dominus tecum\u00bb: a voz do papa Bento traz-me de volta \u00e0 realidade. A ora\u00e7\u00e3o em latim acalma a minha m\u00e3e. No estado de sonol\u00eancia em que se encontra, mal responde, movendo os l\u00e1bios. Sim, tudo \u00e9 vaidade, diz Qoh\u00e9let: s\u00f3 restam a ora\u00e7\u00e3o e a cruz, o verdadeiro mar que nos leva a outras praias, semelhantes \u00e0 paisagem sem limites por tr\u00e1s dos derretidos rel\u00f3gios de Dal\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Gloria Riva <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">In\u00a0<a href=\"https:\/\/www.avvenire.it\/rubriche\/pagine\/salvador-dali-e-il-morirdi-sete\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Avvenire<\/a> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Trad.: Rui Jorge Martins <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span class=\"autor\">Imagem: &#8220;Persist\u00eancia da mem\u00f3ria&#8221; | Salvador Dal\u00ed<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recolhido do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6428,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-6427","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6427","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6427"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6427\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6430,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6427\/revisions\/6430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6428"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}