{"id":6269,"date":"2019-06-21T23:13:44","date_gmt":"2019-06-21T22:13:44","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6269"},"modified":"2019-06-21T16:17:06","modified_gmt":"2019-06-21T15:17:06","slug":"stravinsky-o-momento-mais-autentico-da-sua-vida-foi-diante-de-santo-antonio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/stravinsky-o-momento-mais-autentico-da-sua-vida-foi-diante-de-santo-antonio\/","title":{"rendered":"Stravinsky: O momento \u00abmais aut\u00eantico\u00bb da sua vida foi diante de Santo Ant\u00f3nio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo e foto recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/stravinsky_o_momento_mais_autentico_da_sua_vida_foi_diante_de_santo_antonio.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No centro de Santa Fe, EUA, no interior da bas\u00edlica de S. Francisco de Assis, encastoada sobre uma grande l\u00e1pide contornada por uma moldura de ouro, podem ler-se estas palavras: \u00abNesta catedral (\u2026) o Maestro Stravinsky foi investido pelo vig\u00e1rio-geral de Santa Fe da Ordem Pontif\u00edcia Equestre de S. Silvestre com o grau de Comendador com Placa\u00bb. O reconhecimento tinha sido concedido ao compositor por Jo\u00e3o XXIII, pouco antes da sua morte, em 1963. Como sinal de reconhecimento, Stravinsky dedicou ao \u201cpapa bom\u201d a execu\u00e7\u00e3o da sua \u201cMissa\u201d, de que o pont\u00edfice tinha pedido uma execu\u00e7\u00e3o no Vaticano, no ano seguinte, infelizmente nunca realizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo da nave central da bas\u00edlica pode admirar-se um enorme dossel pintado em que, junto a uma figura\u00e7\u00e3o de Santa Rosa de Lima que toca a guitarra e a um S. Francisco Solano violinista, se destaca uma est\u00e1tua setecentista de S. Francisco de Assis, patrono da bas\u00edlica. Na solene cerim\u00f3nia de investidura do compositor (\u00abimagina que satisfa\u00e7\u00e3o!\u00bb, escreve a Nadia Boulanger), assiste tamb\u00e9m a est\u00e1tua do Pobrezinho de Assis, com quem Stravinskky podia orgulhar-se de uma rela\u00e7\u00e3o de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1925, quando devia apresentar a sua \u201cSonata para piano\u201d no festival da International Society for Contemporary Music, em Veneza, o compositor foi imprevistamente atingido por um abcesso no indicador direito: \u00abTinha rezado numa pequena igreja pr\u00f3ximo de Nizza, diante de um antigo e miraculoso \u00edcone, mas esperava que o concerto tivesse sido cancelado\u00bb. Como refere nos \u201cDialogues\u201d, o dedo estava ainda inflamado quanto o maestro estava para subir ao palco do Teatro La Fenice, pedindo antecipadamente desculpa ao p\u00fablico pela triste figura que teria de fazer. Ao sentar-se, tirou a ligadura e, repentinamente, a dor e a inlama\u00e7\u00e3o cessar\u00e3o. \u00abParece que, para todos os efeitos, me aconteceu um milagre\u00bb, escreve anos depois o compositor, comentando a evoca\u00e7\u00e3o com uma frase de car\u00e1cter particularmente claro e decidido: \u00abCertamente acredito num sistema al\u00e9m da Natureza\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o music\u00f3logo Roman Vlad \u2013 entre os maiores peritos no mestre russo \u2013, o compositor considera-se miraculado precisamente por S. Francisco de Assis. O primeiro verdadeiro \u201cencontro\u201d entre o santo e Stravinsky ocorre na verdade poucos dias depois, quando, regressando de Veneza, se deteve em G\u00e9nova, e passando os olhos pelas bancas dos livros, deu com a vers\u00e3o francesa da \u201cVida de S. Francisco de Assis\u201d, de Johannes J\u00f8rgensen, escritor dinamarqu\u00eas convertido do protestantismo \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica. Foi amor \u00e0 primeira vista: durante a noite l\u00ea o livro de uma s\u00f3 vez e chegou a uma importante resolu\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Havia tempo que o compositor projetava a cria\u00e7\u00e3o de uma obra monumental, da qual, no entanto, n\u00e3o conseguia desatar o n\u00f3 lingu\u00edstico: percebia a necessidade de fornecer \u00e0 sua m\u00fasica um car\u00e1cter solene e sacro, mas n\u00e3o conseguia encontrar em nenhuma das l\u00ednguas por ele praticadas \u2013 franc\u00eas, alem\u00e3o e italiano, definitas \u00abincompat\u00edveis por natureza\u00bb, e russo, para ele tornado \u00abmusicalmente impratic\u00e1vel\u00bb na sequ\u00eancia do ex\u00edlio \u2013 um car\u00e1cter hier\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que o desenvencilhou do impasse art\u00edstico foram algumas palavras de J\u00f8rgensen: \u00abO proven\u00e7al era para S. Francisco a linguagem da poesia, a linguagem da religi\u00e3o, a linguagem das suas mais belas mem\u00f3rias e das horas mais solenes, a linguagem a que recorria quando o seu cora\u00e7\u00e3o estava demasiado repleto para se exprimir na sua l\u00edngua, o italiano, que para ele se tinha tornado popular e baixo para o uso di\u00e1rio: o proven\u00e7al era a l\u00edngua da sua alma. De cada vez que falava em proven\u00e7al, aqueles que o conheciam percebiam que estava feliz\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as \u00e0 \u201cilumina\u00e7\u00e3o de G\u00e9nova\u201d e ao santo de Assis, Stravinsky compreendeu que a \u00fanica l\u00edngua adaptada para a sua ideia musical s\u00f3 podia ser o latim, \u00fanico idioma a manter unidos um car\u00e1cter ritual e um impulso universal. Destas experimenta\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas brota uma das obras mais importantes do per\u00edodo neocl\u00e1ssico do compositor: o \u00f3pera-orat\u00f3rio em dois atos \u201cOedipus rex\u201d, cujo libreto, escrito em franc\u00eas juntamente com Jean Cocteau, foi feito traduzir em latim ciceroniano pelo te\u00f3logo, depois cardeal, Jean Dani\u00e9lou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a liga\u00e7\u00e3o que une Stravinsky \u00e0 espiritualidade franciscana n\u00e3o termina aqui. O ano de 1926, o mesmo da composi\u00e7\u00e3o de \u201cOedipus rex\u201d, ficou tamb\u00e9m marcado pela reaproxima\u00e7\u00e3o do compositor \u00e0 f\u00e9. Muitas palavras j\u00e1 foram redigidas sobre o retorno do compositor ao redil da Igreja ortodoxa russa e sobre o forte ligame com o catolicismo romano. Entre os muitos exemplos, est\u00e1 o c\u00e9lebre epis\u00f3dio que o v\u00ea protagonista de uma peregrina\u00e7\u00e3o a P\u00e1dua, \u00e0 bas\u00edlica de Santo Ant\u00f3nio: 700 anos ap\u00f3s a morte de Francisco de Assis, Stravinsky teve a sua primeira e fundamental experi\u00eancia religiosa precisamente diante do corpo de um outro grande santo franciscano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAconteceu-me entrar na bas\u00edlica precisamente quando estava exposto o corpo do santo. Vi a urna, ajoelhei-me e orei. Pedi que me fosse dado um sinal que me indicasse se e quando as minhas ora\u00e7\u00f5es tivessem sido escutadas, e depois aconteceu uma resposta, com um sinal, n\u00e3o hesito em definir esse momento como o mais aut\u00eantico da minha vida.\u00bb Uma autenticidade religiosa que pouco depois investe tamb\u00e9m a sua produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica sacra, inaugurada pela entoa\u00e7\u00e3o do \u201cPai nosso\u201d para coro misto \u201ca cappella\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liga\u00e7\u00e3o com S. Francisco esteve tamb\u00e9m na base da sua profunda amizade com o pintor norte-americano William Congdon, que, precisamente na bas\u00edlica de Assis, recebe o Batismo. N\u00e3o sabemos se Stravinsky alguma vez esteve em Assis; nunca foram publicadas manchetes que o atestem, mas n\u00e3o nos surpreenderia, pois, como confirma a bisneta do compositor Marie Stravinsky, entre Igor e Francisco houve uma verdadeira \u00abhist\u00f3ria de amor\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Matteo Macinanti<br \/>\nIn <a href=\"http:\/\/www.osservatoreromano.va\/it\/news\/storia-di-una-devozione\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L&#8217;Osservatore Romano<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: D.R.<br \/>\nPublicado em 19.06.2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6271,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,10,91,14],"tags":[],"class_list":["post-6269","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-noticias","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6269"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6269\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6270,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6269\/revisions\/6270"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6271"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}