{"id":6259,"date":"2019-06-21T22:07:12","date_gmt":"2019-06-21T21:07:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6259"},"modified":"2019-06-21T16:12:22","modified_gmt":"2019-06-21T15:12:22","slug":"no-monologo-todos-perdemos-a-teologia-da-escuta-no-contexto-multicultural-e-religioso-do-mediterraneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/no-monologo-todos-perdemos-a-teologia-da-escuta-no-contexto-multicultural-e-religioso-do-mediterraneo\/","title":{"rendered":"\u00abNo mon\u00f3logo, todos perdemos\u00bb: a teologia da escuta no contexto multicultural e religioso do Mediterr\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo e imagem recolhidos do <a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/papa_diz_que_na_teologia_e_preciso_liberdade_e_encorajar_participacao_de_leigos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo como hermen\u00eautica teol\u00f3gica pressup\u00f5e e comporta a escuta consciente. Isto significa tamb\u00e9m escutar a hist\u00f3ria e a viv\u00eancia dos povos em torno do espa\u00e7o mediterr\u00e2nico para lhes poder decifrar os acontecimentos que ligam o passado ao hoje, e para poder deles colher as feridas juntamente com as potencialidades. Trata-se, em particular, de colher o modo em que as comunidades crist\u00e3s e as singulares exist\u00eancias prof\u00e9ticas souberam \u2013 inclusive recentemente \u2013 incarnar a f\u00e9 crist\u00e3 em contextos por vezes de conflito, de minoria e de conviv\u00eancia plural com outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa escuta deve ser profundamente interna \u00e0s culturas e aos povos, tamb\u00e9m por outro motivo. O Mediterr\u00e2neo \u00e9 precisamente o mar da miscigena\u00e7\u00e3o \u2013 se n\u00e3o compreendemos a miscigena\u00e7\u00e3o, nunca compreenderemos o Mediterr\u00e2neo \u2013, um mar geograficamente fechado em rela\u00e7\u00e3o aos oceanos, mas culturalmente sempre aberto ao encontro, ao di\u00e1logo e \u00e0 incultura\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Todavia, h\u00e1 necessidade de narra\u00e7\u00f5es renovadas e partilhas que \u2013 a partir da escuta das ra\u00edzes e do presente \u2013 falem ao cora\u00e7\u00e3o das pessoas, narra\u00e7\u00f5es em que seja poss\u00edvel reconhecer-se de maneira construtiva, pac\u00edfica e geradora de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade multicultural e plurirreligiosa do novo Mediterr\u00e2neo forma-se com essas narra\u00e7\u00f5es, no di\u00e1logo que nasce da escuta das pessoas e dos textos das grandes religi\u00f5es monote\u00edstas, e sobretudo na escuta dos jovens. Penso nos estudantes das nossas faculdades de teologia, nos das universidades \u201claicas\u201d ou de outras inspira\u00e7\u00f5es religiosas. \u00abQuando a Igreja \u2013 e, podemos acrescentar, a teologia \u2013 abandona esquemas r\u00edgidos e se abre \u00e0 escuta pronta e atenta dos jovens, esta empatia enriquece-a, porque \u201cpermite que os jovens deem a sua colabora\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade, ajudando-a a individuar novas sensibilidades e colocar-se perguntas in\u00e9ditas\u201d\u00bb (exorta\u00e7\u00e3o \u201cChristus vivit\u201d, 65). Colher sensibilidades novas: este \u00e9 o desafio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aprofundamento do \u201ckerygma\u201d [an\u00fancio\/testemunho das verdades essenciais da f\u00e9 crist\u00e3] faz-se com a experi\u00eancia do di\u00e1logo que nasce da escuta e que gera comunh\u00e3o. O pr\u00f3prio Jesus anunciou o Reino de Deus dialogando com todo o g\u00e9nero e categoria de pessoas do juda\u00edsmo do seu tempo: com o s escribas, os fariseus, os doutores da lei, os publicanos, os doutos, os simples, os pecadores. A uma mulher samaritana Ele revelou, na escuta e no di\u00e1logo, o dom de Deus e a sua pr\u00f3pria identidade: abre-lhe o mist\u00e9rio da sua comunh\u00e3o com o Pai e da superabundante plenitude que brota dessa comunh\u00e3o. A sua divina escuta do cora\u00e7\u00e3o humano abre este cora\u00e7\u00e3o a acolher por sua vez a plenitude do Amor e a alegria da vida. N\u00e3o se perde nada com o dialogar. Ganha-se sempre. No mon\u00f3logo todos perdemos, todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Exemplos de di\u00e1logo para uma teologia do acolhimento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDi\u00e1logo\u201d n\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula m\u00e1gica, mas certamente a teologia \u00e9 ajudada na sua renova\u00e7\u00e3o quando o assume seriamente, quando ele \u00e9 encorajado e favorecido entre docentes e estudantes, como tamb\u00e9m com as outras formas do saber e com as outras religi\u00f5es, sobretudo o juda\u00edsmo e o isl\u00e3o. Os estudantes de teologia dever\u00e3o ser educados para o di\u00e1logo com o juda\u00edsmo e o isl\u00e3o, para compreender as ra\u00edzes comuns e as diferen\u00e7as das nossas identidades religiosas, e contribuir assim mais eficazmente para a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade que estima a diversidade e favorece o respeito, a fraternidade e a conviv\u00eancia pac\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Educar os estudantes nisto. Eu estudei no tempo da teologia decadente, da escol\u00e1stica decadente, no tempo dos manuais. Entre n\u00f3s circulava uma anedota, todas as teses teol\u00f3gicas se provam com este esquema, um silogismo: primeiro, as coisas parecem ser assim; segundo, o catolicismo tem sempre raz\u00e3o; terceiro, logo\u2026 Ou seja, uma teologia de tipo defensivo, apolog\u00e9tico, fechada num manual. N\u00f3s brinc\u00e1vamos com isso, mas eram as coisas que nos eram apresentadas naquele tempo da escol\u00e1stica decadente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurar uma conviv\u00eancia pac\u00edfica dial\u00f3gica. Com os mu\u00e7ulmanos somos chamados a dialogar para construir o futuro das nossas sociedades e das nossas cidades; somos chamados a considera-los parceiros para construir uma conviv\u00eancia pac\u00edfica, mesmo quando se verificam epis\u00f3dios perturbadores pela m\u00e3o de grupos fan\u00e1ticos inimigos do di\u00e1logo, como a trag\u00e9dia da passada P\u00e1scoa no Sri Lanka. Ontem o cardeal de Colombo disse-me isto: \u00abDepois de ter feito aquilo que devia fazer, dei-me conta que um grupo de pessoas, crist\u00e3os, queria ir ao bairro dos mu\u00e7ulmanos para os matar. Convidei o im\u00e3 para ir comigo, de autom\u00f3vel, e juntos fomos l\u00e1 para convencer os crist\u00e3os de que somos amigos, que aqueles s\u00e3o extremistas, que n\u00e3o s\u00e3o dos nossos\u00bb. Esta \u00e9 uma atitude de proximidade e de di\u00e1logo. Formar os estudantes para o di\u00e1logo com os judeus implica educ\u00e1-los para o conhecimento da sua cultura, do seu modo de pensar, da sua l\u00edngua, para compreender e viver melhor a nossa rela\u00e7\u00e3o no plano religioso. Nas faculdades de teologia e nas universidades eclesi\u00e1sticas s\u00e3o de encorajar os cursos de l\u00edngua e cultura \u00e1rabe e hebraica, e o conhecimento rec\u00edproco entre estudantes crist\u00e3os, judeus e mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queria dar dois exemplos concretos de como o di\u00e1logo que caracteriza uma teologia do acolhimento pode ser aplicada aos estudos eclesi\u00e1sticos. Antes de tudo, o di\u00e1logo pode ser um m\u00e9todo de estudo, al\u00e9m de ensinamento. Quando lemos um texto, dialogamos com ele e com o \u201cmundo\u201d de que \u00e9 express\u00e3o; e isto vale tamb\u00e9m para os textos sagrados, como a B\u00edblia, o Talmude e o Cor\u00e3o. Muitas vezes, depois, interpretamos um determinado texto em di\u00e1logo com outros da mesma \u00e9poca ou de \u00e9pocas diferentes. Os textos das grandes tradi\u00e7\u00f5es monote\u00edstas, em alguns casos, s\u00e3o o resultado de um di\u00e1logo. Podem dar-se casos de textos que s\u00e3o escritos para responder a perguntas sobre quest\u00f5es importantes da vida colocadas por textos que os precederam. Tamb\u00e9m esta \u00e9 uma forma de di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo exemplo \u00e9 que o di\u00e1logo pode realizar-se como hermen\u00eautica teol\u00f3gica num tempo e num lugar espec\u00edfico. No nosso caso: o Mediterr\u00e2neo no in\u00edcio do terceiro mil\u00e9nio. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ler realisticamente esse espa\u00e7o a n\u00e3o ser em di\u00e1logo e como uma ponte \u2013 hist\u00f3rica, geogr\u00e1fica, humana \u2013 entre a Europa, a \u00c1frica e a \u00c1sia. Trata-se de um espa\u00e7o em que a aus\u00eancia de paz produziu m\u00faltiplos desequil\u00edbrios regionais, mundiais, e cuja pacifica\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da pr\u00e1tica do di\u00e1logo, poderia contribuir grandemente para desencadear processos de reconcilia\u00e7\u00e3o e de paz. Giorgio La Pira dir-nos-ia que se trata, para a teologia, de contribuir para construir em toda a bacia mediterr\u00e2nica uma \u00abgrande tenda de paz\u00bb, onde possam conviver no respeito rec\u00edproco os diferentes filhos do comum pai Abra\u00e3o. N\u00e3o esquecer o pai comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Papa Francisco<br \/>\nPontif\u00edcia Faculdade de Teologia da It\u00e1lia Meridional, N\u00e1poles, 21.6.2019<br \/>\nFonte:<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2019\/june\/documents\/papa-francesco_20190621_teologia-napoli.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0Sala de Imprensa da Santa S\u00e9\u00a0<\/a><br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: D.R.<br \/>\nPublicado em\u00a021.06.2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e imagem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6263,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,10],"tags":[],"class_list":["post-6259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6259"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6268,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6259\/revisions\/6268"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}