{"id":6103,"date":"2019-06-05T13:20:01","date_gmt":"2019-06-05T12:20:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=6103"},"modified":"2019-06-05T13:22:14","modified_gmt":"2019-06-05T12:22:14","slug":"agustina-o-segundo-milagre-do-seculo-xx-portugues-a-mais-original-das-contribuicoes-da-prosa-lusa-para-a-literatura-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/agustina-o-segundo-milagre-do-seculo-xx-portugues-a-mais-original-das-contribuicoes-da-prosa-lusa-para-a-literatura-mundial\/","title":{"rendered":"Agustina: O segundo milagre do s\u00e9culo XX portugu\u00eas, a mais original das contribui\u00e7\u00f5es da prosa lusa para a literatura mundial"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo e foto publicados no<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/agustina_bessa_luis_o_segundo_milagre_do_seculo_xx_portugues.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Agustina Bessa-Lu\u00eds (15.10.1922 \u2013 3.6.2019), o mundo sort\u00edlego que a sua imagina\u00e7\u00e3o, a sua penetra\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e a sua magia verbal erguem, n\u00e3o deixa de ser um universo existencial sintomaticamente revelado com\u00a0Mundo Fechado\u00a0(1948): sem teleologia de reden\u00e7\u00e3o, os homens permanecem\u00a0Os Incur\u00e1veis\u00a0(1956) de paix\u00f5es e h\u00e1bitos sem outro horizonte que o de\u00a0A Muralha\u00a0(1957); a pr\u00f3pria oracularidade, n\u2019A Sibila\u00a0(1954) ou em\u00a0O Serm\u00e3o de Fogo\u00a0(1963), n\u00e3o visa al\u00e9m do c\u00edrculo vital das puls\u00f5es e da circunst\u00e2ncia &#8211; em que, no registo de atualidade, na recria\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, na reelabora\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica ou m\u00edtica, se insere o catolicismo epid\u00e9rmico (etnol\u00f3gico e sociol\u00f3gico) das personagens, mesmo se padres ou freiras. O universo romanesco de Agustina \u00e9 atravessado pela vol\u00fapia ante o sentido tr\u00e1g\u00edco da vida, mas tamb\u00e9m por um sentido de orgulho perante o insond\u00e1vel abismo da morte (decisivo, afinal, porque \u00abAh, sim, a verdadeira presen\u00e7a est\u00e1 na morte!\u00bb).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, vislumbra-se porventura outro sentido em moment\u00e2neas fulgura\u00e7\u00f5es do fluxo congeminativo e sentencioso que distingue o discurso de Agustina. N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o, decerto, que\u00a0O Susto\u00a0pondera que \u00abA perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o agrada a Deus se ela n\u00e3o \u00e9 \u00e1gil como o rel\u00e2mpago\u00bb. Nem ser\u00e1 despiciendo o alcance que, vindo de t\u00e3o prestigiada e cativante ficcionista, t\u00eam na vida cultural contempor\u00e2nea os seus textos de evoca\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica e de digress\u00e3o aforism\u00e1tica em torno de figuras como Santo Ant\u00f3nio ou Santo In\u00e1cio de Loiola. Nem a profundidade (desigualou controversa) da vis\u00e3o intuitiva inscrita nas hist\u00f3rias contadas e nas personagens inventadas, ou das infer\u00eancias que o narrador vai retirando em registo humoralmente faceta, deixa de atingir a zona de mist\u00e9rio das rela\u00e7\u00f5es entre os seres (por exemplo, n\u2019O Manto).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As personagens de Agustina parecem pulverizar-se ou enredar-se na dissemina\u00e7\u00e3o que o mundo nelas provoca; mas, quando assumem a crise, parecem dispor-se a partir. Por seu turno a imagina\u00e7\u00e3o mediatriz do narrador (e da autora textual) adverte contra a verosimilhan\u00e7a f\u00e1cil do senso comum; e por a\u00ed, porventura, liberta para o salto, a cargo das personagens ou do leitor, do existir nas situa\u00e7\u00f5es para o Ser da origem transcendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diria Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Saraiva, para muitos leitores e cr\u00edticos Agustina Bessa-Lu\u00eds \u00e9, depois de Fernando Pessoa, o segundo milagre do s\u00e9culo XX portugu\u00eas e, a par do brasileiro Guimar\u00e3es Rosa, a mais original das contribui\u00e7\u00f5es da prosa portuguesa para a literatura mundial \u2013 com romance, novela e conto, teatro e gui\u00e3o f\u00edlmico, biografia romanceada e cr\u00f3nica, ensaio e especula\u00e7\u00e3o aforism\u00e1tica, literatura infantojuvenil. Agustina sobressai pela singularidade genial, eticamente norteada e esteticamente criativa, que \u00e9 a da seriedade brincada da escrita sob o princ\u00edpio da incerteza &#8211; com seus estilemas de cogni\u00e7\u00e3o inferencial e sentenciosa, que dotam o discurso de uma aura sapiencial e conferem \u00e0 sua rece\u00e7\u00e3o um \u00edndice abissal de profundidade ou um \u00edndice sideral de proje\u00e7\u00e3o (mas tamb\u00e9m certamente, de quando em vez, motivos de reticente questiona\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte do texto, em Agustina, deslumbra quase sempre pela fei\u00e7\u00e3o fulgurante, desconcerta \u00e0s vezes pelo salto epistemol\u00f3gico sem grandes preocupa\u00e7\u00f5es de irrepreens\u00edvel nexo ou insofism\u00e1vel motiva\u00e7\u00e3o na cadeia textual, leva outras vezes a suspeitar, al\u00e9m do rasgo de autopar\u00f3dia, de certa componente l\u00fadica em que a enuncia\u00e7\u00e3o se compraz e que deixa o leitor dividido entre julgar-se privilegiado pela partilha do rito inici\u00e1tico e julgar em risco a sua confiada boa-f\u00e9. Ali\u00e1s, em romances ou ciclos como a trilogia\u00a0O Princ\u00edpio da Incerteza, Agustina insistentemente redimensiona o indefinido alcance do dito, do feito, do acontecido, do desejado ou do anunciado, atrav\u00e9s dessa aura de predestina\u00e7\u00e3o e sortil\u00e9gio com conota\u00e7\u00e3o b\u00edblica ou m\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a componente prof\u00e9tica, sibilina, do discurso de Agustina: de facto, n\u00e3o \u00e9 a tia Quina a verdadeira Sibila, mas sim a escrita agustiniana, configurada como vindo do acesso a (ou conhecimento de) uma verdade superior, que depois lhe cabe cifrar para os leitores \u2013 num jogo de formas e efeitos contrafacetados, com estilemas de autoridade e estilemas de divertimento\u2026 que n\u00e3o afrouxar\u00e3o quando, sinalizando tend\u00eancias p\u00f3s-modernistas, se entregar crescentemente \u00e0 alegorese nas intersemioses art\u00edsticas (em particular as imbrica\u00e7\u00f5es com o cinema e com a pintura) e na refigura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou biogr\u00e1fica (Santo Ant\u00f3nio, 1973 ,\u00a0Cr\u00f3nica do Cruzado Osb., 1977,\u00a0As F\u00farias, 1977,\u00a0Fanny Owen, 1979,\u00a0O Mosteiro, 1980,\u00a0Sebasti\u00e3o Jos\u00e9, 1981,\u00a0Os Meninos de Ouro, 1983,\u00a0Um Bicho da Terra, 1984,\u00a0A Corte do Norte, 1987, etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A suspeita magia t\u00e3o peculiar desta arte liter\u00e1ria contende com a tonalidade duvidosamente s\u00e9ria e duvidosamente jocosa que, como autor textual e narrador, Agustina empresta aos seus pr\u00f3prios coment\u00e1rios; e ligam-se a efeitos de coloquialidade explicativa com os leitores, que ao mesmo tempo os chamam a uma presun\u00e7\u00e3o de familiaridade e tanto os podem deixar \u00e0s m\u00e3os com uma poderosa sugest\u00e3o visualista da\u00a0enargeia\u00a0inerente \u00e0 sua escrita, como perturbados por um alarme de displic\u00eancia. Se a Camila de\u00a0Os Espa\u00e7os em Branco\u00abescrevia a brincar, tamb\u00e9m a s\u00e9rio\u00bb, assim procede e se cumpre Agustina enquanto autor textual, em regime de seriedade brincada, t\u00e3o pr\u00f3pria da escrita sob\u00a0o princ\u00edpio da incerteza. Dela participa a mestria com que se fundem a nota\u00e7\u00e3o da corrente da consci\u00eancia das personagens com a voz da narradora, de molde a gerar-se a ambiguidade da inst\u00e2ncia respons\u00e1vel pelo discurso e a solicitar o leitor \u00e0 d\u00faplice atribui\u00e7\u00e3o de sentido. Com ela se faz cola\u00e7a a\u00a0ga\u00eet\u00e9, alegria traquina ou gra\u00e7a buli\u00e7osa, do discurso romanesco, que implica a suspeita magia na manipula\u00e7\u00e3o dos conceitos abertos (wittgensteinianos, diria o Daniel Roper de\u00a0Joia de Fam\u00edlia\u2026) de realidade e de fic\u00e7\u00e3o, com sua consequente simbiose ou\u00a0hinterland\u00a0da fronteira fluida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00abhumor sempre irrequieto que [pode levar a narrativa] a situa\u00e7\u00f5es perigosas\u00bb (como diz certa personagem, Jos\u00e9 Luciano) \u00e9 uma esp\u00e9cie de gaiatice mozartiana com que Agustina provoca os leitores e que n\u00e3o \u00e9 mais subversiva das conven\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-liter\u00e1rias do que iconoclasta no confronto com as doxas \u00e9tico-sociais (progressistas ou tradicionalistas) e at\u00e9 na rela\u00e7\u00e3o paragram\u00e1tica com intertextos sacros ou can\u00f3nicos. Nesse regime discursivo, preservando a\u00a0ga\u00eet\u00e9, conduz-nos at\u00e9 ao \u00abcora\u00e7\u00e3o das trevas\u00bb, leva-nos fascinados pelos caminhos \u00ednvios do \u00abdesejo do real\u00bb e do \u00absonho\u00bb, do \u00abprinc\u00edpio do prazer\u00bb e da experi\u00eancia do \u00abamor bruto e fero\u00bb, torna-nos imunes ao \u00abfanatismo da verdade\u00bb e ao \u00abdel\u00edrio da felicidade\u00bb, empenha-nos no\u00a0ethos\u00a0da \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb (\u00abN\u00e3o no plano metaf\u00edsico mas no sentido global do comportamento humano.\u00bb) e liberta-nos de todo o pesadume doutrin\u00e1rio ou de toda a degenera\u00e7\u00e3o reflexiva do encanto ficcional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta gaiatice mozartiana, raiada de gaia ci\u00eancia nietzscheana, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o expunge o papel da ironia, antes se entrecruza com os seus efeitos. Ambas configuram a arte de colocar no s\u00edtio e em ordem uma diversidade mais ou menos ca\u00f3tica, mas sem desbotar aquela \u00absageza do singular que \u00e9 uma verdadeira paix\u00e3o da beleza do mundo\u00bb (como sintetizou Eduardo Prado Coelho a prop\u00f3sito de\u00a0Um C\u00e3o que Sonha, exemplo maior de elabora\u00e7\u00e3o da escrita feminina pelos meandros da mem\u00f3ria). Lances fulgurantes, e deslumbrantes ou desconcertantes, de infer\u00eancia sapiencial e gn\u00f3mica alternam ou intercalam-se, numa grada\u00e7\u00e3o de n\u00edveis visados: ora certo tra\u00e7o humano em passo que releva da sabedoria ancestral ou a que julgamos reagir como perante mera corrobora\u00e7\u00e3o de algo j\u00e1 adquirido, ora certo tipo de humanidade (grupo s\u00f3cio-econ\u00f3mico, padr\u00e3o de comportamento, etc.) evidenciado por observa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita e, por vezes, inesperada no curso do passo narrativo que ent\u00e3o lemos, ora uma mais ousada conjetura de \u00e2mbito universal (que, cumprindo o des\u00edgnio confesso da abertura de\u00a0O Princ\u00edpio da Incerteza, 2001, se torna peculiar de Agustina e do seu idioleto).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra de Agustina n\u00e3o pretende insinuar-se como literatura edificante, mas pretende levantar e trazer \u00e0 perce\u00e7\u00e3o est\u00e9tica um mundo que supostamente tem uma for\u00e7a \u00edntima como impulso pregnante e como tecido conjuntivo. Ora, pensando na particular forma (nela subentendidamente liter\u00e1ria) do testemunho que o homem deve deixar na Hist\u00f3ria, cada um iluminando \u00abcom paix\u00e3o uma realidade\u00bb, Agustina estatui que \u00abO escritor, desde os seus come\u00e7os, tem que obedecer a uma ideia, que \u00e9 a mesma pela vida fora.\u00bb, como dizia em 1979; e ela mesma, noutra oportunidade, frisou: \u00ab\u00c9 preciso primeiro escolher uma \u00e9tica. Na \u00e9tica, que n\u00e3o exclui a est\u00e9tica, a nossa personalidade est\u00e1 centralizada.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A coer\u00eancia da obra de Agustina \u00e9 tal que os vetores fundamentais que a distinguem at\u00e9\u00a0A Ronda da Noite\u00a0(2006) podem vislumbrar-se j\u00e1 nas suas prim\u00edcias. No romance s\u00f3 agora editado,\u00a0Deuses de Barro, assim acontece em torno do \u00abmundo fechado\u00bb da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia no mundo rural de Travanca e na Casa do Pa\u00e7o. Em dois textos seminais, at\u00e9 h\u00e1 pouco conservados in\u00e9ditos \u2013 o conto\u00a0Colar de Flores Bravias, de 1947,e a novela\u00a0Cividade, de 1951 \u2013 j\u00e1 germina a conex\u00e3o matricial a uma op\u00e7\u00e3o \u00e9tica que \u00e9 cong\u00e9nita da cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica ou que nem sequer existe fora da configura\u00e7\u00e3o est\u00e9tica; e essa conex\u00e3o toma a forma de tens\u00e3o, se n\u00e3o de antinomia, entre um princ\u00edpio do desejo (de ser) e um princ\u00edpio da conserva\u00e7\u00e3o (da ordem social) e da consequente tens\u00e3o entre a \u00e9tica\/est\u00e9tica da singularidade sibilina e a \u00e9tica social. Enfim, quest\u00e3o de \u00e9tica do desejo est\u00e9tico e quest\u00e3o de est\u00e9tica da \u00e9tica do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 j\u00e1 ali a escritora que em\u00a0Contempla\u00e7\u00e3o carinhosa da ang\u00fastia(2000)Agustina reivindicar\u00e1 ser: \u00abtestemunha sens\u00edvel dos costumes, circunst\u00e2ncias e discursos da minha \u00e9poca\u00bb; e j\u00e1 ali, como depois na obra maior de Agustina, aqueles costumes, circunst\u00e2ncias e discursos epocais raramente s\u00e3o amenos e confrontam incomodamente o leitor condigno com pr\u00e1ticas que, nem porque consuetudin\u00e1rias ou confortadas por estere\u00f3tipos sociais, se tornam menos contest\u00e1veis ou menos inquietantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o advento da fic\u00e7\u00e3o agustiniana, as rela\u00e7\u00f5es humanas dependiam menos da hierarquia econ\u00f3mico-social do que \u00abde pressupostos familiares, sentimentais, etnogr\u00e1ficos, er\u00f3ticos, temporais, e de afinidades ou repuls\u00f5es filhas de uma eletividade nascida em profundezas inconscientes\u00bb \u2013 at\u00e9 porque o que se revelava essencial nessa fic\u00e7\u00e3o agustiniana era a sondagem aberta e a express\u00e3o pl\u00e1stica das possibilidades nos circuitos de analogias cognitivas e c\u00f3smicas. Mas a tudo isso importa acrescentar as consequ\u00eancias do espa\u00e7o, f\u00edsico e humano, percetivo e imagin\u00e1rio, emp\u00edrico e simb\u00f3lico, em que se realizam cada personalidade e suas rela\u00e7\u00f5es interpessoais \u2013 em especial, aquela peculiar correla\u00e7\u00e3o entre tempo ritual e esp\u00edrito do lugar que distinguir\u00e1 a fic\u00e7\u00e3o da autora de\u00a0A Brusca\u00a0e o intersecionismo vision\u00e1rio da sua escrita, tal como a valora\u00e7\u00e3o de \u201cmundo fechado\u201d e a rela\u00e7\u00e3o com um \u201cmundo fechado\u201d (e, conv\u00e9m lembrar, o t\u00edtulo do primeiro livro publicado por Agustina Bessa-Lu\u00eds, novela de 1948, \u00e9 precisamente\u00a0Mundo Fechado\u00a0e o t\u00edtulo do sexto livro publicado por Agustina Bessa-Lu\u00eds, romance de 1957, \u00e9 precisamente\u00a0A Muralha).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas prim\u00edcias narrativas de Agustina Bessa-Lu\u00eds levam-nos ainda a ponderar um dos seus mais fecundos e problem\u00e1ticos rasgos de antropologia liter\u00e1ria: \u00abA linguagem como sentido da proximidade\u00bb. Agustina explora romanescamente que \u00abCada palavra \u00e9 o duplo de uma outra; cada termo atra\u00eddo \u00e0 torrente narrativa est\u00e1 habitado por um outro\u00bb. Todavia, algumas personagens suas \u2013 paradigmaticamente as criadoras ou executantes de artes, versatilmente muitas outras \u2013 tendem a calar-se para romper o c\u00edrculo asfixiante das antinomias. Ora assim acontece incoactivamente com a Dorinha do conto\u00a0Colar de Rosas Bravias\u00a0e assim ocorre declaradamente com a Rita da novela\u00a0Cividade. Vemos aqui abrindo caminho quanto na fic\u00e7\u00e3o da maturidade de Agustina motivar\u00e1 o fulgurante acerto hermen\u00eautico que \u00e9 proverbial em Silvina Rodrigues Lopes: \u00abAquilo que separa a frui\u00e7\u00e3o (arte) do sacrif\u00edcio (\u00e9tica) \u00e9 a capacidade de manter a duplicidade\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo de paralelo \u00e0 ir\u00f3nica duplicidade de primazia atribu\u00edda \u00e0 linguagem como meio supremo de proximidade humana e de primazia da op\u00e7\u00e3o pertinente pelo silenciar da fala, vai surgir na absten\u00e7\u00e3o do agir e do \u201cavan\u00e7ar\u201d (no sentido hoje polarizador da narrativa de Goncalo M. Tavares). Mas mesmo a\u00ed \u00e9 indel\u00e9vel o tom nietzscheano da liberdade na Necessidade e, oriundo do Romantismo origin\u00e1rio, o grande sopro de saga do Esp\u00edrito humano, na peculiar fenomenologia da imagina\u00e7\u00e3o arquet\u00edpica (forma do conte\u00fado) e na forte intromiss\u00e3o da consci\u00eancia narradora e sua voz imperiosa, torrencial, a um tempo \u00e1cida e l\u00edrica, cruel e misericordiosa (forma da express\u00e3o) \u2013 correlatos da tematiza\u00e7\u00e3o axial de \u00abo anterior tempo an\u00f3nimo, o tempo do sangue, dos press\u00e1gios, do ancestral cuidado\u00bb (E. Louren\u00e7o) e da refra\u00e7\u00e3o do inconsciente coletivo (A. Quadros).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Milagre de uma \u00f3tica e de um processo romanescos novos, se n\u00e3o de uma literatura nova em Portugal, realista e fant\u00e1stica ao mesmo tempo,\u00a0A Sibila\u00a0fazia passar a segundo plano todas as produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de arte social ou do neorrealismo. A figura do narrador afastava-se por v\u00e1rios aspetos do perfil habitual, alheando-se com frequ\u00eancia dos narrat\u00e1rios, contando experi\u00eancias em vez de factos, codificando em aforismos um saber pessoal com insolentes ares de absoluto; mas de in\u00edcio essa consci\u00eancia\/voz extradieg\u00e9tica vem juntar-se ao n\u00e3o menos desconcertante conjunto de r\u00e9plicas monol\u00f3gicas entre Germa e seu primo, que (com os alheamentos interiorizantes de Germa a constitu\u00edrem-se em primeiro momento do processo inici\u00e1tico da revela\u00e7\u00e3o) vai desencadear a evoca\u00e7\u00e3o da protagonista Quina.\u00a0Prima facie, fala-se \u2013 com a soberania dos contadores tradicionais de hist\u00f3rias, no devir de uma mem\u00f3ria que se vai atualizando em novos conte\u00fados &#8211; de experi\u00eancias vividas numa comunidade rural, polarizadas por Quina, ao mesmo tempo mulher de comum humanidade e ser extraordin\u00e1rio de dons intuitivos e indutivos. Todavia, al\u00e9m do alcance incerto em termos de antropologia liter\u00e1ria \u2013 o romance afinal envolve a condi\u00e7\u00e3o humana, em especial no que toca \u00e0s paix\u00f5es, sobretudo negativas (crueldade em In\u00e1cio Lucas, agiotagem em Ad\u00e3o, vaidade em Quina, impassibilidade afetiva em Estina, embuste em Domingas e Lib\u00f3ria, o banditismo em Cust\u00f3dio, etc.) -, as experi\u00eancias implicam uma faceta dionis\u00edaca e por vezes demon\u00edaca da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com\u00a0Sibila\u00a0ficava determinado o c\u00edrculo superior da literatura onde imperaria a singularidade de Agustina, desafiando leituras em que, para al\u00e9m dos estudos de ecfr\u00e1stica e de intertextualidade (dando conta da rela\u00e7\u00e3o propiciat\u00f3ria com Camilo e com Pascoaes ou com Kierkgaard e Dostoievski), convergem psicocr\u00edtica e tematologia, fenomenologia bachelardiana do imagin\u00e1rio liter\u00e1rio e mitocr\u00edtica (particularmente solicitadas por\u00a0A Brusca,\u00a0A Sibila,\u00a0O Serm\u00e3o de Fogo,\u00a0Eug\u00e9nia e Silvina,\u00a0Adivinhas de Pedro e In\u00eas): densidade e inven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gicas, confronto entre \u00abo h\u00e1bito\u00bb e \u00abo choque\u00bb, apocalipse da \u00abliga\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel e sagrada\u00bb do casal na \u00abidade met\u00e1lica\u00bb da segunda metade do s\u00e9culo XX (sobretudo no ciclo\u00a0As Rela\u00e7\u00f5es Humanas), o hist\u00f3rico e o \u00abs\u00fabito\u00bb (sobretudo no ciclo\u00a0A B\u00edblia dos Pobres), tempo ritual e esp\u00edrito do lugar (por exemplo, em\u00a0A Brusca), estrat\u00e9gia l\u00fadica e processo de acumula\u00e7\u00e3o, natureza musical do devir imaginante e da constru\u00e7\u00e3o narrativa, fala perent\u00f3ria e paradoxal de narrador e personagens e gosto de \u00abestar na berlinda\u00bb da autora textual; as rela\u00e7\u00f5es entre comunica\u00e7\u00e3o e linguagem e, nelas, a contamina\u00e7\u00e3o do tr\u00e1gico e do humor na garantia feminina do \u00abestremecimento do mundo\u00bb; a preval\u00eancia do complexo vitalismo nietzscheano nas pr\u00f3prias refra\u00e7\u00f5es das transforma\u00e7\u00f5es socioculturais ap\u00f3s o 25 de Abril e o imagin\u00e1rio da ambiguidade na constru\u00e7\u00e3o ir\u00f3nica dos arqu\u00e9tipos pelo g\u00e9nio da probabilidade (como ponderou \u00c1lvaro Manuel Machado); a ironia de sagra\u00e7\u00e3o e enigma que ganham a palavra, a interfer\u00eancia da autora textual e a composi\u00e7\u00e3o narrativa (ou a dram\u00e1tica, em\u00a0O Insepar\u00e1vel ou o Amigo porTestamento, 1958,\u00a0A Bela Portuguesa, 1981,\u00a0Estados Er\u00f3ticos Imediatos de S\u00f6ren Kierkgaard, 1992).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Carlos Seabra Pereira<br \/>\nDiretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura<br \/>\nImagem: D.R.<br \/>\nPublicado em\u00a003.06.2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo e foto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6106,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,10,91,14],"tags":[],"class_list":["post-6103","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-noticias","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6103"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6103\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6108,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6103\/revisions\/6108"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6106"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}