{"id":5855,"date":"2019-05-03T12:05:50","date_gmt":"2019-05-03T11:05:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=5855"},"modified":"2019-05-03T12:05:50","modified_gmt":"2019-05-03T11:05:50","slug":"a-europa-uma-janela-de-cultura-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/a-europa-uma-janela-de-cultura-crista\/","title":{"rendered":"A Europa: Uma janela de cultura crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Artigo recolhido do<a href=\"https:\/\/www.snpcultura.org\/a_europa_uma_janela_de_cultura_crista.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> SNPC<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 a Europa para poder fornecer uma defini\u00e7\u00e3o sobre a cultura que nasceu neste velho continente? N\u00e3o s\u00f3 as cartas geogr\u00e1ficas que desenham os contornos das nossas costas mar\u00edtimas. E n\u00e3o apenas os mapas que assinalam as v\u00e1rias fronteiras dos nossos v\u00e1rios pa\u00edses. Mas tamb\u00e9m os tra\u00e7os da hist\u00f3ria comparticipada que atravessam os s\u00e9culos vividos em comum, oferecidos pelo verdadeiro patrim\u00f3nio cultural de um povo que bebe e vive as ra\u00edzes compartilhadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 isto que, motivados pela declara\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica do ano da cultura na Europa [2018], quisemos tamb\u00e9m debater como comunidade crist\u00e3 deste velho continente. Com efeito, a Comiss\u00e3o de Evangeliza\u00e7\u00e3o e Cultura, precisamente na sua sec\u00e7\u00e3o de Cultura dentro do Conselho das Confer\u00eancias Episcopais da Europa, quis tamb\u00e9m oferecer este espa\u00e7o de encontro para refletir sobre a heran\u00e7a recebida, tendo em considera\u00e7\u00e3o o momento que temos entre m\u00e3os e o horizonte de futuro que se pode entrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizia o Papa Francisco durante a sua interven\u00e7\u00e3o na Sala R\u00e9gia, no Vaticano, quando lhe foi concedido o Pr\u00e9mio Carlos Magno: \u00abNo Parlamento Europeu, tomei a liberdade de falar de Europa av\u00f3. Dizia aos eurodeputados que crescia, de diferentes partes, a impress\u00e3o geral duma Europa cansada e envelhecida, n\u00e3o f\u00e9rtil e sem vitalidade, onde os grandes ideais que a inspiraram parecem ter perdido o seu fasc\u00ednio; uma Europa decadente que parece ter perdido a sua capacidade geradora e criativa; uma Europa tentada mais a querer garantir e dominar espa\u00e7os do que a gerar processos de inclus\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o; uma Europa que se vai \u201centrincheirando\u201d, em vez de privilegiar a\u00e7\u00f5es que promovam novos dinamismos na sociedade; dinamismos capazes de envolver e mobilizar todos os atores sociais (grupos e indiv\u00edduos) na busca de novas solu\u00e7\u00f5es para os problemas atuais, que frutifiquem em acontecimentos hist\u00f3ricos importantes; uma Europa que, longe de proteger espa\u00e7os, se torne m\u00e3e geradora de processos (1). Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, fil\u00f3sofos, artistas, m\u00fasicos, escritores? Que te sucedeu, Europa m\u00e3e de povos e na\u00e7\u00f5es, m\u00e3e de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irm\u00e3os?\u00bb (2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ju\u00edzo grave e provocador tamb\u00e9m investe com for\u00e7a em n\u00f3s quando nos perguntamos sobre a cultura crist\u00e3 que ainda permanece nesta Europa. Mas para poder responder a estas perguntas colocadas pelo Papa Francisco \u00e9 preciso tomar posi\u00e7\u00e3o, como muitos o fizeram perante os desafios que temos diante de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ent\u00e3o cardeal Ratzinger questionava-se precisamente sobre o futuro cultural da Europa crist\u00e3. E citando as teses de Oswald Spengler (\u201cO crep\u00fasculo do Ocidente\u201d), destacava a tese de uma lei natural: h\u00e1 o momento do nascimento, o crescimento gradual, o florescimento de uma cultura, o seu lento declinar, o envelhecimento e a morte. Spengler argumenta a sua tese com grande quantidade de documenta\u00e7\u00e3o extra\u00edda da hist\u00f3ria das culturas, que demonstra a lei do desenvolvimento natural. Esta tese biologista encontrou opositores ferozes no per\u00edodo entre as duas guerras, especialmente em contexto cat\u00f3lico: Arnold Toynbee. Ele reage fortemente, e \u00e0 vis\u00e3o biologista contrap\u00f5e uma vis\u00e3o voluntarista, que aponta para a for\u00e7a das minorias criativas e para as personalidades singulares excecionais (3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sempre interessante ver como as rea\u00e7\u00f5es diante das preocupa\u00e7\u00f5es por uma Europa em crise s\u00e3o reagrup\u00e1veis em torno destas tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es que se confrontam com as atitudes culturais de onde prov\u00eam (4):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O restauramento nost\u00e1lgico: ou seja, a tristeza no andar para tr\u00e1s para conquistar, sem possibilidade, um passado que n\u00e3o voltar\u00e1. Aqui encontramos todas as tenta\u00e7\u00f5es tradicionalistas que tentam imaginar a resposta a cada quest\u00e3o no caminhar para o passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passividade med\u00edocre: trata-se da esterilidade provocada por permanecer na censura a cada possibilidade de uma mudan\u00e7a aut\u00eantica at\u00e9 ao fundo. Seria a express\u00e3o hedon\u00edstica de uma cultura que j\u00e1 n\u00e3o tem mais motivos para uma busca, para uma pergunta, para um qualquer risco, mas tudo \u00e9 medido e controlado em fun\u00e7\u00e3o da comodidade e da seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revolu\u00e7\u00e3o acr\u00edtica: a autodestrui\u00e7\u00e3o que acompanha sempre o cont\u00ednuo avan\u00e7ar sem mem\u00f3ria da tradi\u00e7\u00e3o que nos fundamenta, e improvisando, sem crit\u00e9rios amadurecidos, as solu\u00e7\u00f5es que nunca chegam. Como dizia o historiador William James Durant, \u00abuma grande civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conquistada pelo exterior enquanto n\u00e3o se destr\u00f3i a si mesma a partir do interior\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos perante uma sociedade que deixou de ter os fundamentos que permitem construir um edif\u00edcio capaz de suportar as tempestades culturais, como tantas vezes aconteceu na hist\u00f3ria da Europa. Neste momento temos uma sociedade vulner\u00e1vel e fr\u00e1gil, como foi descrita com algum pessimismo por Zigmund Bauman, com o seu conceito em torno do \u201cl\u00edquido\u201d como forma de explica\u00e7\u00e3o da realidade moral e cultural (5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta realidade n\u00e3o provoca em n\u00f3s um sobressalto de consci\u00eancia tal, que o arrependimento ou uma s\u00e3 nostalgia nos permitam pelo menos perguntarmo-nos que coisas esquecemos, ou at\u00e9 tra\u00edmos, tratando-se antes de uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o nos provoca nem problema nem desagrado. \u00c9 aquilo que Gilles Lipovetsky definia como uma \u00ab\u00e9tica indolor\u00bb (6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena assinalar neste horizonte os tr\u00eas grandes desafios que esperam de n\u00f3s uma posi\u00e7\u00e3o clara, na medida em que representam, de alguma forma, uma amea\u00e7a \u00e0 cultura crist\u00e3 da Europa tal como a conhecemos ao longo dos s\u00e9culos, com todas as suas grada\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ideologia do g\u00e9nero;<br \/>\n&#8211; Nova ordem mundial;<br \/>\n&#8211; O Isl\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 S. Jo\u00e3o Paulo II real\u00e7ava no in\u00edcio deste terceiro mil\u00e9nio crist\u00e3o os tr\u00eas tempos verbais com os quais se pode unicamente descrever uma grande hist\u00f3ria, ou seja, conjugar a idiossincrasia crist\u00e3 de um povo que tem essas ra\u00edzes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, dizia o Papa: \u00ab\u201cDuc in altum\u201d! Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratid\u00e3o o passado, a viver com paix\u00e3o o presente, a abrir-se com confian\u00e7a ao futuro: \u201cJesus Cristo \u00e9 o mesmo, ontem, hoje e sempre\u201d (Heb 13, 8). (\u2026) \u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, lan\u00e7armo-nos para o futuro que nos espera. Nestes meses, olh\u00e1mos frequentemente para o novo mil\u00e9nio que come\u00e7a, vivendo o Jubileu n\u00e3o s\u00f3 como lembran\u00e7a do passado, mas tamb\u00e9m como profecia do futuro. Agora \u00e9 preciso guardar o tesouro da gra\u00e7a recebida, traduzindo-a em ardentes prop\u00f3sitos e diretrizes concretas de a\u00e7\u00e3o. A esta tarefa, desejo convidar todas as Igrejas locais. Em cada uma delas, reunida \u00e0 volta do seu Bispo na escuta da Palavra, na uni\u00e3o fraterna e na \u201cfra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o\u201d (cf. At 2,42), \u201cest\u00e1 e opera a Igreja de Cristo una, santa, cat\u00f3lica e apost\u00f3lica\u201d. \u00c9 principalmente na realidade concreta de cada Igreja que o mist\u00e9rio do \u00fanico povo de Deus assume aquela configura\u00e7\u00e3o particular que o torna aderente aos diversos contextos e culturas. Este enraizamento da Igreja no tempo e no espa\u00e7o reflete, em \u00faltima an\u00e1lise, o movimento mesmo da encarna\u00e7\u00e3o. \u00c9 hora, pois, de cada Igreja refletir sobre o que o Esp\u00edrito disse ao povo de Deus neste especial ano de gra\u00e7a e tamb\u00e9m no arco mais amplo de tempo desde o Conc\u00edlio Vaticano II at\u00e9 ao Grande Jubileu, medindo o seu fervor e ganhando novo impulso para os seus compromissos espirituais e pastorais\u00bb (7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste andar para a frente com a velha barca da Igreja de Jesus, emergem as nossas Igrejas locais com a sua hist\u00f3ria vivida, que geraram tamb\u00e9m preciosos elementos culturais que derivam do acontecimento crist\u00e3o. Efetivamente, as nossas confer\u00eancias episcopais disseminadas ao longo da Europa tamb\u00e9m escreveram bel\u00edssimas p\u00e1ginas culturais quando evangelizaram cada gera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s destes dois mil anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos o impulso mission\u00e1rio que os primeiros disc\u00edpulos receberam como compromisso do envio, na despedida do seu mestre Jesus, na aproxima\u00e7\u00e3o do santo Evangelho aos nossos povos, propusemos a escuta da Palavra que n\u00e3o passa nem nunca engana, cur\u00e1mos \u00e0 maneira do samaritano muitos irm\u00e3os e irm\u00e3s feridas em multiformes caminhos da vida, distribu\u00edmos com as nossas pequenas m\u00e3os a Gra\u00e7a sem medida que Deus dep\u00f4s nelas como alimento sacramental de vida. Eis o rasto crist\u00e3o que atravessa um tempo de dois mil anos num espa\u00e7o que coincide com a nossa Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante saber narrar esta hist\u00f3ria, sobretudo quando com v\u00e1rios interesses e poderosos instrumentos se procura silenci\u00e1-la, censur\u00e1-la, manch\u00e1-la, como se nunca tivesse existido como aconteceu. \u00c9 verdade que na hist\u00f3ria crist\u00e3 da Europa nem tudo foi gra\u00e7a, e tamb\u00e9m surgiram os pecados; nem tudo foi belo, mas tamb\u00e9m a fealdade se deixou ver; e a paz humilde teve de conviver com o poder violento. Mas no meio das ervas daninhas de todo o joio humano, Deus ensinou-nos a ter paci\u00eancia e respeito com a semente que desponta decidida e vitoriosa como termo de toda a hist\u00f3ria. Cada Confer\u00eancia Episcopal poder\u00e1 ter na sua interven\u00e7\u00e3o a ocasi\u00e3o para partilhar com todos n\u00f3s aquilo que \u00e9 mais significativo do ponto de vista cultural como contribui\u00e7\u00e3o eclesial e crist\u00e3 para a Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro da Comiss\u00e3o de Evangeliza\u00e7\u00e3o e Cultura, precisamente na sua sec\u00e7\u00e3o de Cultura no interior do Conselho das Confer\u00eancias Episcopais da Europa, desenh\u00e1mos um projeto de narrativa: seria como um encontro com uma frequ\u00eancia ainda a definir, onde se publicassem os v\u00e1rios cap\u00edtulos (ou seja, um livro) desta contribui\u00e7\u00e3o cultural desenvolvida pela Igreja ao longo de vinte s\u00e9culos na Europa. Pens\u00e1mos numa cole\u00e7\u00e3o na qual se possam oferecer sistematicamente os tra\u00e7os de quanto a comunidade crist\u00e3 p\u00f4de construir do ponto de vista cultural no di\u00e1logo e inser\u00e7\u00e3o com outras culturas anteriores, coet\u00e2neas ou que tenham chegado mais tarde como novidade. Eis o plano deste projeto, que dever\u00e1 ser ainda aprofundado, e procurar, de alguma forma, resolver as quest\u00f5es mais pr\u00e1ticas respeitantes aos autores escolhidos para cada te-ma, os idiomas e as editoras que poder\u00e3o lan\u00e7ar a publica\u00e7\u00e3o, os patrocinadores que possam facilitar o financiamento, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedras vivas da Europa<br \/>\nHist\u00f3ria de uma geografia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Entre a nostalgia e o esquecimento: a mem\u00f3ria viva<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de tudo, \u00e9 preciso justificar esta narrativa, dado que nos interessa fazer uma mem\u00f3ria viva de quanto os crist\u00e3os europeus fizeram culturalmente. Podemos permanecer ref\u00e9ns do passado ou podemos esquec\u00ea-lo completamente. H\u00e1 uma terceira via: fazer uma mem\u00f3ria viva, com gratid\u00e3o serena relativamente a um passado, com esperan\u00e7a que se amplia para o futuro, e com a paix\u00e3o para continuar a escrever no presente uma hist\u00f3ria ainda por concluir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque toda a hist\u00f3ria tem uma geografia, assim como cada tempo tem um espa\u00e7o. A Europa \u00e9 uma encruzilhada onde os caminhos do homem e as culturas se entretecem. Neste primeiro volume pode fazer-se uma apresenta\u00e7\u00e3o da nova cole\u00e7\u00e3o, procurando compreender o que representam os s\u00e9culos da Europa crist\u00e3, com as luzes e as sombras, as gra\u00e7as e os pecados, mas oferecendo uma s\u00edntese bela daquilo que constitui o patrim\u00f3nio cultural pr\u00f3prio do cristianismo. Evitar a nostalgia de quem olha apenas para o passado e o esquecimento de quem n\u00e3o consegue herd\u00e1-lo para poder continuar a escrever uma hist\u00f3ria viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. O encontro com as outras culturas: de Atenas e Roma ao mundo b\u00e1rbaro e o Isl\u00e3o. Da modernidade \u00e0 p\u00f3s-modernidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de ser os \u00fanicos, os s\u00f3s e solit\u00e1rios no palco da hist\u00f3ria deste velho continente. Foi assim que o caminho crist\u00e3o teve de se confrontar com mais realidades que existiam antes, ou que chegaram depois. Com efeito, a chegada do acontecimento crist\u00e3o produz um inevit\u00e1vel encontro entre duas culturas precedentes que representavam o mundo cl\u00e1ssico: Roma e Atenas. A\u00ed se verifica toda a riqueza dos seus valores, mas tamb\u00e9m o rosto das suas decad\u00eancias. Igualmente, chegar\u00e3o mais tarde outras duas culturas que tamb\u00e9m significaram um confronto diferente: o mundo B\u00e1rbaro do norte e a apari\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apari\u00e7\u00e3o da modernidade introduz uma mudan\u00e7a que, progressivamente, se emancipa de tudo aquilo que durante s\u00e9culos foi edificado num continente de claras ra\u00edzes crist\u00e3s. Tudo quanto se desenvolveu durante os tr\u00eas \u00faltimos s\u00e9culos a partir do denominado Iluminismo mudou profundamente a cena cultural na qual o cristianismo tinha vivido at\u00e9 ent\u00e3o. O crep\u00fasculo das ideologias e o nascimento do niilismo p\u00f3s-moderno \u00e9 um novo desafio cultural para os crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. O nascimento de uma cultura pr\u00f3pria: identidade e di\u00e1logo na filosofia e antropologia crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Jesus, com o envio mission\u00e1rio que Ele dirigiu aos primeiros disc\u00edpulos ap\u00f3stolos, nasce de modo inevit\u00e1vel o confronto com outras culturas. N\u00e3o se deveria desconhecer os desafios que provocavam as culturas precedentes ou contempor\u00e2neas, nem acabar na confus\u00e3o de uma s\u00edntese imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada momento dos seus vinte s\u00e9culos, com mudan\u00e7as hist\u00f3ricas, o cristianismo conseguiu, aos poucos, delinear uma cultura pr\u00f3pria enquanto verdadeira \u201cweltanschauung\u201d, uma cosmovis\u00e3o que compreendia a rela\u00e7\u00e3o com o Mist\u00e9rio revelado em Cristo, uma maneira nova de olhar o ser humano, e tamb\u00e9m uma maneira diferente, mas reconhec\u00edvel, de escrever a hist\u00f3ria. \u00c9 importante sublinhar os pontos firmes teol\u00f3gicos e filos\u00f3ficos que definem a cultura crist\u00e3 como um facto novo que se introduz na hist\u00f3ria, a fim de que se possa oferecer a partir da sua identidade espec\u00edfica um di\u00e1logo com todos. Aqui encontramos uma linha condutora pr\u00f3pria de pensamento, quando a partir da perspetiva crist\u00e3 emergem em categorias filos\u00f3ficas as grandes perguntas que se colocavam os cl\u00e1ssicos greco-romanos em torno \u00e0 beleza, \u00e0 bondade, \u00e0 dor, \u00e0 morte, \u00e0 eternidade. Daqui nasce de modo original uma antropologia diferente que alimenta a cultura espec\u00edfica crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Os mestres da certeza: Bento, Francisco e In\u00e1cio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m no cristianismo h\u00e1 nomes que representam as v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es nas quais a novidade crist\u00e3 \u00e9 sempre atual. \u00c9 a eterna mensagem do Evangelho narrada de maneira nova e contempor\u00e2nea ao mesmo tempo. Uma verdade que nunca muda, numa express\u00e3o capaz de a poder narrar criativamente com uma fidelidade que n\u00e3o trai nem engana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paul Ricoeur falou dos \u00abmestres da suspeita\u00bb (Marx, Freud e Nietzsche), que determinaram a filosofia e o pensamento destes \u00faltimos s\u00e9culos. Perante estes autores e os seus pressupostos, a hist\u00f3ria crist\u00e3 afirmou sempre os tr\u00eas referentes em torno dos quais construiu culturalmente uma hist\u00f3ria diferente. Assim, podemos falar tamb\u00e9m dos \u201cmestres da certeza\u201d. Trata-se de Deus como absoluto que S. Bento e os seus monges assinalaram e celebraram. Tamb\u00e9m o ser humano como irm\u00e3o, que S. Francisco, juntamente com os seus frades intu\u00edram e viveram. E, por fim, o mundo como uma hist\u00f3ria inacabada em dire\u00e7\u00e3o da qual se deve avan\u00e7ar em din\u00e2mica mission\u00e1ria, como descobriram Santo In\u00e1cio e os seus companheiros. H\u00e1 aqui uma alternativa cultural que n\u00e3o suspeita nem refuta, mas \u00e9 certa e complementar: o amor a Deus, com o irm\u00e3o que Ele colocou junto a mim, pela miss\u00e3o \u00e0 qual somos enviados. Daqui nasce um modo diferente de olhar para a Europa e de a construir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. A express\u00e3o art\u00edstica: arquitetura, pintura e escultura<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o somos cegos incapazes de ver. Levando por diante a concre\u00e7\u00e3o de quanto o cristianismo contribuiu para a cultura europeia com as ra\u00edzes pr\u00f3prias, emerge tamb\u00e9m a dimens\u00e3o art\u00edstica nas suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es: a arquitetura que concebe e constr\u00f3i as cidades de modo pluriforme, a pintura que expressa plasticamente o gosto pelas formas, e a escultura como vis\u00e3o ic\u00f3nica quer de Deus quer do ser humano. A hist\u00f3ria da arte na Europa seria incompreens\u00edvel sem o cristianismo, e manifesta como com a express\u00e3o da beleza se pode narrar tudo aquilo que significa a cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. A literatura nas suas diversas narrativas, a m\u00fasica com as suas chaves<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na arte da literatura h\u00e1 tamb\u00e9m um contributo precioso que recria uma vis\u00e3o do mundo, do ser humano, e tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o com o Mist\u00e9rio de Deus. Os grandes temas antropol\u00f3gicos, como a vida, a morte, a dor, o \u00f3dio, a liberdade, a esperan\u00e7a, a f\u00e9, etc., s\u00e3o o argumento que, progressivamente, une o discurso que da poesia, da prosa, da narra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou da narrativa ficcionada emergem nos diversos temas liter\u00e1rios atrav\u00e9s dos quais se oferece uma importante e interessante contribui\u00e7\u00e3o cultural crist\u00e3. Paul Claudel falava dos \u00abcomplices de Dieu\u00bb, os c\u00famplices de Deus, a prop\u00f3sito da noite. A m\u00fasica tamb\u00e9m representa esta cumplicidade cultural, porque ela tem um registo capaz de exprimir no pentagrama, e na execu\u00e7\u00e3o orquestral e coral, uma sinfonia de cores e sentimentos com os quais o artista compositor e os artistas executantes manifestam aquilo que pulsa dentro do homem, traduzindo em m\u00fasica as exig\u00eancias irrenunci\u00e1veis do cora\u00e7\u00e3o humano. A Europa oferece, atrav\u00e9s dos diversos compositores, este contributo cultural: do canto gregoriano at\u00e9 \u00e0 m\u00fasica barroca, de uma can\u00e7\u00e3o ou \u201clied\u201d amoroso at\u00e9 a um canto de protesto e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7. A ci\u00eancia ao servi\u00e7o do desenvolvimento aut\u00eantico do ser humano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de busca em todos os campos. Seja quando se observa o universo atrav\u00e9s das estrelas e o mundo sideral, seja quando se procura descobrir as leis que regem as altera\u00e7\u00f5es das esta\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, seja quando se quer curar um corpo no seu mist\u00e9rio que recorda a fragilidade humana, desde sempre o ser humano foi \u201ccurioso\u201d do ignoto e mendicante das suas provocadoras interroga\u00e7\u00f5es. O desenvolvimento das ci\u00eancias atrav\u00e9s dos s\u00e9culos que abarcam o tempo do cristianismo tem tamb\u00e9m protagonismo no campo da medicina, astronomia, f\u00edsica, natureza, incluindo todos os recursos e meios com os quais esta evolu\u00e7\u00e3o foi consolidada. H\u00e1, portanto, uma cultura da ci\u00eancia que se coloca ao servi\u00e7o do desenvolvimento e do progresso aut\u00eantico da humanidade, como uma humilde colabora\u00e7\u00e3o com o Criador, que nos chamou a aperfei\u00e7oar a cria\u00e7\u00e3o que deixava nas nossas m\u00e3os. \u00c9 interessante particularizar como os crist\u00e3os estiveram na linha da frente nestes campos da ci\u00eancia, contribuindo para a cultura com um modo distinto de trabalho e de investiga\u00e7\u00e3o que brota da paix\u00e3o pelo ser humano e pelo seu progresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8. A economia que nasce da comunh\u00e3o \u201cpol\u00edtica\u201d (n\u00e3o partidarista)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia parecer uma quest\u00e3o completamente estranha ao acontecimento crist\u00e3o e a quanto o cristianismo procurou propor do ponto de vista cultural, mas a economia \u00e9 um modo de construir a cidade na justa correspond\u00eancia entre propriedade e solidariedade, igualdade e diversidade, autonomia e comunidade. Quando a economia \u00e9 um jogo de interesses, torna-se ego\u00edsmo n\u00e3o solid\u00e1rio que favorece o poder dos poderosos, reduzindo os direitos e a possibilidade dos pobres em todos os sentidos. A redu\u00e7\u00e3o da economia \u00e0s estrat\u00e9gias dos partidos impede uma aut\u00eantica e pac\u00edfica conviv\u00eancia entre os povos, fonte de muitas guerras e conflitos desumanos. O Papa Francisco recordava-o no \u201cmotu pr\u00f3prio\u201d respeitante ao novo Dicast\u00e9rio: \u00abEm todo o seu ser e agir, a Igreja \u00e9 chamada a promover o desenvolvimento integral do homem \u00e0 luz do Evangelho\u00bb. \u00c9 aqui que a hist\u00f3ria crist\u00e3 tem escrito p\u00e1ginas important\u00edssimas para acompanhar uma cultura que chega a um modo original de construir a cidade, n\u00e3o de um ponto de vista pol\u00edtico partidarista, mas a partir da \u201ccomunh\u00e3o pol\u00edtica\u201d que exprime uma economia solid\u00e1ria e de comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9. Um direito ao servi\u00e7o da harmonia e da justi\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m do direito emanaram muitas vias jur\u00eddicas atrav\u00e9s das quais a dignidade e a liberdade do ser humano foram protegidas e garantidas num ordenamento que tutela a justi\u00e7a nas diversas rela\u00e7\u00f5es e correspond\u00eancias entre os seres humanos e a sociedade. Quando surge uma d\u00favida, ou quando capta uma transgress\u00e3o, permanece sempre uma refer\u00eancia \u00faltima na norma positiva com a qual as pessoas podem conciliar os v\u00e1rios direitos e deveres, para chegar a uma conviv\u00eancia adulta e equitativa. A cultura crist\u00e3 souber gerar tamb\u00e9m princ\u00edpios de jurisprud\u00eancia com os quais o direito jur\u00eddico desempenhou um servi\u00e7o precioso em benef\u00edcio da harmonia e da justi\u00e7a entre os seres humanos e os povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10. O rosto da miseric\u00f3rdia: quando o outro se torna irm\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma das pedras angulares da novidade crist\u00e3, como consequ\u00eancia da Incarna\u00e7\u00e3o de Deus. Jesus fez-se homem sem perder a sua condi\u00e7\u00e3o divina, a fim de que os homens possam relacionar-se e tratar-se como o pr\u00f3prio Deus nos acolhe. A tenta\u00e7\u00e3o de Caim reproduz de m\u00faltiplas maneiras o olhar do outro como um olhar fragment\u00e1rio, hostil, indiferente, advers\u00e1rio. Mas o facto crist\u00e3o introduz na hist\u00f3ria um fator novo, vendo no outro um pr\u00f3ximo que \u00e9 irm\u00e3o, complementar da diversidade original de cada um. A hist\u00f3ria bimilenar do cristianismo descreveu com beleza e paix\u00e3o como se manifestou misericordiosamente uma verdadeira fraternidade, atrav\u00e9s dos gestos e das obras que abriram uma original educa\u00e7\u00e3o e serviram como uma reden\u00e7\u00e3o fraterna em muitas rela\u00e7\u00f5es destru\u00eddas e vidas fraturadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11. O caminho da educa\u00e7\u00e3o dos valores crist\u00e3os<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da Europa \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria repleta de contrapontos e contradi\u00e7\u00f5es, em que muitas vezes, talvez excessivas vezes, quis ser protagonista a luta pelo poder, a guerra como instrumento, a viol\u00eancia em todas as suas formas. Apesar disso, o cristianismo nunca deixou de anunciar a paz e denunciar a viol\u00eancia, ainda que se trate de um pirr\u00f3nico triunfo demasiado pobre e muito breve. Por\u00e9m, a \u201cbatalha pela paz\u201d faz tamb\u00e9m parte de um dos objetivos mais acarinhados por parte do povo crist\u00e3o. Para esta aspira\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o foi sempre determinante: uma educa\u00e7\u00e3o integral que abra\u00e7a todos os fatores da pessoa, acompanhando os diversos aspetos que comp\u00f5em toda a personalidade: a liberdade, o afeto, a consci\u00eancia, a intelig\u00eancia, a transcend\u00eancia, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">12. Peregrinos do Absoluto: lugares e rostos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johannes Wolfgang von Goethe dizia que a Europa emerge ao peregrinar para Santiago de Compostela. Juntamente com a peregrina\u00e7\u00e3o a Roma, sup\u00f5e uma esp\u00e9cie de par\u00e1bola do significado de um povo sempre a caminho. Todavia, n\u00e3o se faz uma peregrina\u00e7\u00e3o sem meta, mas os passos encaminham-se para um lugar determinado que \u00e9 significativo para a hist\u00f3ria que lhe deu realidade, e esse acontecimento \u00e9 salvaguardado. O mesmo se diz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que tamb\u00e9m tiveram uma grande relev\u00e2ncia por aquilo que representaram as suas vidas como testemunho de um Evangelho vivido. S\u00e3o lugares e s\u00e3o rostos, verdadeira meta dos p\u00e9s peregrinos dos crist\u00e3os, que assim fazendo criaram cultura na Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(1) FRANCISCO, Evangelii gaudium, 223.<br \/>\n(2) FRANCISCO, Discurso na Sala R\u00e9gia, Vaticano, Entrega do Pr\u00e9mio Carlos Magno, 6.5.2016.<br \/>\n(3) Cf. M. PERA \u2013 J. RATZINGER, Senza radici. Europa, relativismo, Cristianesimo, Islam (Mondadori. Milano 2004) 60-61.<br \/>\n(4) Cf. J. SANZ MONTES, La fidelidad creativa (BAC. Madrid 2017).<br \/>\n(5) Z. BAUMAN, Vida l\u00edquida (Austral Paid\u00f3s. Madrid 2016).<br \/>\n(6) G. LIPOVETSKY, El crep\u00fasculo del deber: la \u00e9tica indolora de los nuevos tiempos democr\u00e1ticos (Austral Paid\u00f3s. Madrid 2016).<br \/>\n(7) S. JO\u00c3O PAULO II, Novo millennio ineunte, 1-3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fr. Jes\u00fas Sanz Montes, ofm<br \/>\nArcebispo de Oviedo (Espanha), diretor da Sec\u00e7\u00e3o de Cultura da Comiss\u00e3o de Evangeliza\u00e7\u00e3o e Cultura do Conselho das Confer\u00eancias Episcopais da Europa (CCEE)<br \/>\nEstrasburgo, Fran\u00e7a, 28.11.2018<br \/>\nTrad.: Rui Jorge Martins<br \/>\nImagem: Igreja da Cedofeita, Porto | P. Joaquim F\u00e9lix<br \/>\nIn Observat\u00f3rio da cultura, n. 24 (abril 2019)<br \/>\nPublicado em 02.05.2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recolhido do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5858,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[91,14],"tags":[],"class_list":["post-5855","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5855"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5855\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5859,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5855\/revisions\/5859"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5858"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}