{"id":5405,"date":"2019-02-21T10:20:21","date_gmt":"2019-02-21T10:20:21","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=5405"},"modified":"2019-02-21T10:22:41","modified_gmt":"2019-02-21T10:22:41","slug":"amai-os-vossos-inimigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/amai-os-vossos-inimigos\/","title":{"rendered":"Amai os vossos inimigos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Pe. Georgino Rocha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus quer que os disc\u00edpulos entendam o alcance das bem-aventuran\u00e7as apresentadas na plan\u00edcie, ap\u00f3s a descida da montanha. Por isso, continua o discurso, dando exemplos acess\u00edveis da vida quotidiana e recorrendo a contraste. Por isso, usa uma linguagem simples e acess\u00edvel, interpelante e radical. Linguagem em que sobressai, por um lado, o realismo das rela\u00e7\u00f5es humanas, sobretudo nos seus dramas de viol\u00eancia e \u00f3dio, e por outro, o proceder misericordioso de Deus, generoso e pronto para o perd\u00e3o. E Jesus adianta uma senten\u00e7a com sabor a promessa a quem seguir o caminho das bem-aventuran\u00e7as: \u201cSer\u00e1 grande a vossa recompensa e sereis filhos do Alt\u00edssimo\u201c. Os disc\u00edpulos acolhem a novidade proclamada, exultam pelo futuro anunciado e sentem, com certeza, a exig\u00eancia humana do que lhes \u00e9 encomendado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas, no relato que faz, junta uma s\u00e9rie de senten\u00e7as de grande alcance libertador. (Lc 6, 27-38). Manicardi, no seu coment\u00e1rio, p 106, afirma que \u201cno nosso quotidiano, o inimigo pode ser o nosso grande mestre, porque pode tornarmos conscientes dos sentimentos tenebrosos que habitam o nosso cora\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o viriam ao de cima se tiv\u00e9ssemos sempre rela\u00e7\u00f5es boas e serenas com todos. O inimigo revela a qualidade do nosso cora\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0\u00a0De facto, h\u00e1 ainda zonas da nossa mente imersas no inconsciente desconhecido, na escurid\u00e3o, sujeitas a reac\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e descontroladas, dotadas de enorme potencial destrutivo. Com energias prontas a \u201cdisparar\u201d sempre que s\u00e3o provocadas. E o disc\u00edpulo est\u00e1 chamado a amar com todo o cora\u00e7\u00e3o, com toda a alma, com todas as for\u00e7as, e com toda a mente (cf Lc 10, 27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus fala do que vive e constitui a for\u00e7a din\u00e2mica da sua miss\u00e3o. Vive a rela\u00e7\u00e3o filial com Deus, Pai de miseric\u00f3rdia, que ama os humanos sem descrimina\u00e7\u00e3o, mesmo sendo pecadores. Vive e admira a dignidade da voca\u00e7\u00e3o a que estamos chamados e da miss\u00e3o que nos \u00e9 confiada. Vive e enobrece os gemidos das criaturas que tamb\u00e9m quer ver integrados na harmonia do universo. Vive e prolonga a sua ac\u00e7\u00e3o salvadora no agir da Igreja chamada cada vez mais a ser fiel \u00e0 mensagem evang\u00e9lica e amiga da humanidade. Por esta sintonia com o projecto de Deus Pai, adopta um estilo de vida peculiar, toma atitudes singulares, proclama a novidade do Reino, constitui os disc\u00edpulos suas testemunhas, faz-se amor de doa\u00e7\u00e3o total. \u00c9, pode dizer-se, a partir deste quadro de refer\u00eancias que faz a leitura das situa\u00e7\u00f5es humanas e exorta os disc\u00edpulos a assumirem a atitude correspondente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As senten\u00e7as de Lucas \u201ccaem\u201d que nem bombas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a aos ouvintes. Nem a sabedoria dos povos, nem as escolas dos mestres, designadamente b\u00edblicos, tinham alcan\u00e7ado tal sabedoria, embora muito tivessem avan\u00e7ado. (E \u00e9 bom que continuem os seus esfor\u00e7os para que a justi\u00e7a seja o que deve ser em todas as \u00e1reas da vida humana). Constituem passos hist\u00f3ricos \u201ca lei de tali\u00e3o\u201d: olho por olho e dente por dente; e a \u201cregra de ouro\u201d: fazei aos outros o que quereis que eles vos fa\u00e7am. A medida da reac\u00e7\u00e3o estava nas m\u00e3os do ser humano, O resto era fora de lei. E assim a viol\u00eancia continuava a minar as rela\u00e7\u00f5es familiares e sociais. E com a viol\u00eancia est\u00e1 o cortejo dos seus rebentos, como em \u00e1rvore de primavera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus quer cortar o mal pela raiz. Ainda que pare\u00e7a \u201cing\u00e9nuo\u201d e supra-humano. Ele assim faz no seu agir normal. E no Calv\u00e1rio, deixa-nos o exemplo sublime, reconduzindo \u201c\u00e0 unidade os filhos de Deus que estavam dispersos\u201d (Jo 11, 52). Lucas usa uma s\u00e9rie de senten\u00e7as para indicar a novidade da atitude dos disc\u00edpulos: Amai os inimigos, fazei o bem sem nada esperar em troca, bendizei os que vos amaldi\u00e7oam, rezai por quem vos injuria, perdoai. Assim procedeu Jesus que fez brilhar o jeito de ser Deus, Pai de miseric\u00f3rdia. Assim agiu David perseguido por Sa\u00fal, como nos lembra a primeira leitura. Assim agiram disc\u00edpulos de todas as condi\u00e7\u00f5es sociais ao longo da hist\u00f3ria. Com alguma frequ\u00eancia, podemos ver crist\u00e3os a ser martirizados, hoje, por \u00f3dio \u00e0 f\u00e9 em Jesus Cristo e aos seus s\u00edmbolos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amar o inimigo, n\u00e3o \u00e9 antes de mais uma disposi\u00e7\u00e3o afectiva, mas gestos e actos de amor que respondam a gestos de \u00f3dio, persegui\u00e7\u00f5es, cal\u00fania, pretens\u00f5es. \u201cIsto exige uma disciplina do cora\u00e7\u00e3o, uma ascese da vontade\u201d. E Manicardi destaca a ora\u00e7\u00e3o que nos faz ver o inimigo com os olhos de Deus, na sua dignidade original, apesar do mal cometido; e refor\u00e7a tamb\u00e9m a necessidade do trabalho interior e de f\u00e9 que aviva em n\u00f3s o amor com que somos amados e \u00e9 superior \u00e0 nossa maldade, ao nosso \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Paulo II protagonizou um acontecimento not\u00e1vel, ap\u00f3s a lenta recupera\u00e7\u00e3o do atentado levado a cabo por Ali Agca, a 13 de Maio de 1981, em que ia sendo v\u00edtima na Pra\u00e7a de Roma, Quatro dias ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o, afirma: \u201cRezo pelo irm\u00e3o que fez o disparo e a quem sinceramente j\u00e1 perdoei\u201d. E no primeiro discurso p\u00fablico relembra o perd\u00e3o concedido. Em Maio de 1982, vem a F\u00e1tima agradecer a protec\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora e oferecer-lhe a bala que ia sendo de morte e fica incrustada na coroa da Imagem Peregrina. Em Dezembro de 1983, vai \u00e0 pris\u00e3o Rebibbia, abra\u00e7a-o, conversa com ele e d\u00e1-lhe o perd\u00e3o anunciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO Evangelho revoluciona o campo das rela\u00e7\u00f5es humanas, mostrando que, numa sociedade justa e fraterna, as rela\u00e7\u00f5es devem ser gratuitas, \u00e0 semelhan\u00e7a do amor misericordioso do Pai\u201d, conclui o coment\u00e1rio da B\u00edblia Pastoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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