{"id":5377,"date":"2019-02-14T10:43:43","date_gmt":"2019-02-14T10:43:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=5377"},"modified":"2019-02-14T10:43:43","modified_gmt":"2019-02-14T10:43:43","slug":"alegrai-vos-e-exultai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/alegrai-vos-e-exultai\/","title":{"rendered":"Alegrai-vos e exultai"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\" align=\"right\">Pe. Georgino Rocha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus est\u00e1 num lugar plano. Havia descido da montanha, onde passara a noite em ora\u00e7\u00e3o. Aqui, segundo a vers\u00e3o de Lucas, \u201cao amanhecer, chamou os Seus disc\u00edpulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu o nome de Ap\u00f3stolos\u201d. Espera-o muita gente do povo, vinda de v\u00e1rias partes, pois queria ouvir a sua palavra e ser curado das doen\u00e7as que a atormentava. Espera-o numerosa multid\u00e3o de disc\u00edpulos que o vinha a seguir e a testemunhar a sua rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e compassiva com as pessoas, o seu amor \u00e0 verdade, a sua paix\u00e3o pela liberta\u00e7\u00e3o de todas as escravid\u00f5es. Espera-o a hora hist\u00f3rica de fazer a proclama\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo de felicidade do Reino que reflecte o projecto de Deus e come\u00e7a a ser vivido j\u00e1, de forma germinal, por aqueles que o aceitam sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas apresenta este c\u00f3digo contrapondo os que acolhem e praticam as suas senten\u00e7as e os que as menosprezam e rejeitam no modo de viver, em atitudes e gestos do dia-a-dia. (Lc 6, 17- 26). Apresenta-o, sem complementos explicativos, como faz Mateus. Deixa a verdade nua a falar por si. Deixa o leitor sofrer o impacto da sua novidade. Deixa que a Igreja possa rever-se numa das mais belas mensagens do discurso da plan\u00edcie, isto \u00e9, do quotidiano impregnado desta energia divina. Deixa em aberto os canais da seiva nova que pretendem humanizar a fam\u00edlia, a sociedade e suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO povo vem de todas as partes ao encontro de Jesus, afirma a B\u00edblia Pastoral, porque a sua ac\u00e7\u00e3o faz nascer a esperan\u00e7a de uma sociedade nova, libertada da aliena\u00e7\u00e3o e dos males que afligem os homens. Os vv. 20-26 proclamam o cerne de toda a actividade de Jesus: produzir uma sociedade justa e fraterna\u201d. E o coment\u00e1rio acrescenta: \u201cPara isso \u00e9 preciso libertar os pobres e famintos, os aflitos e os que s\u00e3o perseguidos por causa da justi\u00e7a. Isso, por\u00e9m, s\u00f3 se alcan\u00e7a denunciando aqueles que geram a pobreza e a opress\u00e3o e depondo-os dos seus privil\u00e9gios\u201d. Como canta Maria no seu Magn\u00edficat. E o texto conclui garantindo: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aben\u00e7oar o pobre sem o libertar da pobreza. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel libertar o pobre da pobreza sem denunciar o rico para o libertar da riqueza\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus fala para todos, mas dirige-se a alguns, especialmente. Com o olhar e com a palavra. Em linguagem directa, personalizada. \u201cErguendo os olhos para os disc\u00edpulos\u201d, refere o evangelista narrador. Que mundo relacional os envolveria! A verdade anunciada \u00e9 estranha e provocante, embora a promessa seja aliciante. E o apelo final tem garantias de realiza\u00e7\u00e3o plena: \u201cAlegrai-vos e exultai\u201d por Minha causa, afian\u00e7a Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mensagem era de felicidade, j\u00e1 e agora. No futuro definitivo, ser\u00e1 a consuma\u00e7\u00e3o. O olhar v\u00ea mais facilmente o cora\u00e7\u00e3o e pode sintonizar com o ritmo das suas pulsa\u00e7\u00f5es. A palavra \u201cd\u00e1 nome\u201d ao que precisa de o ter e gera as situa\u00e7\u00f5es de alegria ou de amargura, de dita ou desdita, de ventura feliz ou infeliz. E Lucas come\u00e7a a sua breve lista. Vamos deter-nos em alguns pontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os interlocutores primeiros s\u00e3o os disc\u00edpulos que Jesus chama felizes porque s\u00e3o pobres, porque passam fome, porque choram, s\u00e3o odiados, desprezados e insultados, exclu\u00eddos e proscritos. Chama felizes n\u00e3o porque est\u00e3o esquecidos nem abandonados, mas vivem situa\u00e7\u00f5es de abertura ao Reino de Deus. Chama felizes n\u00e3o por estarem fechados em si mesmos, acomodados, e na sua auto-sufici\u00eancia, mas por experimentar o peso da rotina e do cansa\u00e7o, a estreiteza do casulo, de que pode brotar o desejo da abertura a outras realidades. Chama felizes porque \u201creproduzem\u201d o seu modo de agir no desempenho da miss\u00e3o que lhes vai ser confiada. Lucas, ao escrever o seu Evangelho e os Actos dos Ap\u00f3stolos, sublinha a vida feliz de tantos disc\u00edpulos, no meio das maiores prova\u00e7\u00f5es. Basta lembrar o testemunho de Pedro e Jo\u00e3o, aquando do epis\u00f3dio do Templo e do interrogat\u00f3rio pela autoridade que os manda a\u00e7oitar (Act 5, 41). E a hist\u00f3ria da Igreja regista o nome de muitos outros, a fazer lembrar tantos outros s\u00f3 inscritos nos livros de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ensinamento de Jesus atinge o cora\u00e7\u00e3o do homem, quer dot\u00e1-lo de novas energias, e configurar o seu estilo de vida. Em todos os tempos. Indica a chave da felicidade que sabe aceitar os limites e tirar o melhor partido das oportunidades; que vive o presente como um desafio recheado de sementes germinais prontas a desabrochar; que mant\u00e9m o horizonte da esperan\u00e7a, apesar da dureza da caminhada; que v\u00ea florir a P\u00e1scoa da ressurrei\u00e7\u00e3o em cada chaga da crucifix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem rico do Evangelho foi convidado a seguir Jesus e recusou. Tinha o cora\u00e7\u00e3o amarado, apesar do seu desejo ser maior. Escolheu o bem mais imediato, mas fechado em si mesmo; o futuro mais pr\u00f3ximo, mas sem projec\u00e7\u00e3o na vida eterna, que ele tanto queria alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe temos tudo, se nunca nos falta nada\u2026 dificilmente estamos com disposi\u00e7\u00e3o de acolher o Reino. Mas, se temos desejos insatisfeitos, se choramos ou nos desprezam, estamos predispostos a receber com gozo os bens que o Reino nos traz, porque os pobres s\u00e3o os preferidos de Deus\u201d. (Homil\u00e9tica, 2019\/1, p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco, na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica \u201cAlegrai-vos e Exultai\u201d apresenta um excelente guia para os crist\u00e3os impregnarem o seu dia-a-dia com a seiva das bem-aventuran\u00e7as. Em estilo claro, simples e atraente, faz-nos ver a beleza da vida quotidiana impulsionada pelo seu esp\u00edrito, a maravilha de ser santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja manifesta uma especial necessidade da sabedoria das bem-aventuran\u00e7as. Os tempos s\u00e3o conturbados. O processo de purifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso e, nestes dias, pode dar novos passos. O Papa pede insistentemente que nos associemos \u00e0s suas inten\u00e7\u00f5es. O processo de desconstru\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o institucional vai avan\u00e7ando e tenta desacreditar a mensagem crist\u00e3 em si mesma e n\u00e3o apenas na sua formula\u00e7\u00e3o tradicional, bem como na vida de alguns dos seus agentes pastorais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atitude evang\u00e9lica coincide com o discurso da plan\u00edcie de que fala S\u00e3o Lucas. Tamb\u00e9m das adversidades, o esp\u00edrito crist\u00e3o sabe tirar partido. E o sangue dos m\u00e1rtires pode tornar-se semente de crist\u00e3os, e testemunhar que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel e, por isso, necess\u00e1rio. A semente germina no sil\u00eancio da terra adubada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tudo isto, a renova\u00e7\u00e3o eclesial precisa de um novo impulso. As vozes dos tempos, quais ecos dos apelos do Esp\u00edrito, fazem-se ouvir e reclamam-no. A Igreja das bem-aventuran\u00e7as, que \u00e9 a nossa, est\u00e1 chamada ao hero\u00edsmo. Alegremo-nos e exultemos por causa de Jesus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Georgino Rocha<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5378,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,91,50,14],"tags":[],"class_list":["post-5377","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-olhares-ii","category-pe-georgino-rocha","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5377"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5379,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5377\/revisions\/5379"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}