{"id":5253,"date":"2019-01-05T15:59:47","date_gmt":"2019-01-05T15:59:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=5253"},"modified":"2019-01-05T15:59:47","modified_gmt":"2019-01-05T15:59:47","slug":"8-1-2-rubrica-de-cinema-grofaz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/8-1-2-rubrica-de-cinema-grofaz\/","title":{"rendered":"&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0| Grofaz"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Grofaz<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Seria injusto cair em generaliza\u00e7\u00f5es infelizes quando se fala de cinema americano: dos (cl\u00e1ssicos como Ford ou Houston), \u00e0 idade de ouro, aos revolucion\u00e1rios (sim Scorsese e Coppola), ao renascimento do <em>gangster movie<\/em> (Tarantino e os seus imitadores), at\u00e9 se chegar \u00e0 falta de imagina\u00e7\u00e3o a que se assiste hoje, h\u00e1 muito valor a descobrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entre o bom est\u00e1 David Mamet, o escritor de teatro e ensa\u00edsta que tamb\u00e9m adapta, escreve e realiza. Quando come\u00e7ou no teatro, as suas pe\u00e7as faziam franzir o sobrolho: abuso de linguagem escatol\u00f3gica (n\u00e3o no sentido teol\u00f3gico) e uma aparente aus\u00eancia de trama eram marcas de estranheza. De in\u00edcio, nem o p\u00fablico aderiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas ele era prol\u00edfico e foi ganhando notoriedade, sobretudo com a reescrita do argumento para \u201cO carteiro toca sempre duas vezes\u201d, com Jack Nicholson. Em 1983, a pe\u00e7a \u201cGlengarry Glen Ross\u201d granjeou-lhe o Pulitzer e a consagra\u00e7\u00e3o junto das audi\u00eancias nos 2 lados do Atl\u00e2ntico. Em 1987 realizou o seu primeiro filme, \u201cHouse of Games\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa primeira obra tem j\u00e1 um dos seus atores de elei\u00e7\u00e3o: o subvalorizado Joe Mantegna. Outras grandes marcas est\u00e3o l\u00e1 tamb\u00e9m: muitos di\u00e1logos que nos d\u00e3o a conhecer as personagens, c\u00e2mara com papel eficaz mas discreto, a capacidade de abordar qualquer tema com originalidade. E sobretudo a primazia de pessoas que nos surpreendem. Talvez por isso lhe agrade tanto a trai\u00e7\u00e3o e as suas figuras se encontrem tantas vezes em grandes encruzilhadas morais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma surpresa do seu cinema \u00e9 a de conservar uma certa teatralidade: nunca t\u00e3o \u00f3bvio como neste filme, em que uns personagens falam em segredo mas sem terem medo de serem ouvidos. O efeito conseguido \u00e9 o privilegiar da rela\u00e7\u00e3o direta com o espetador, um recurso n\u00e3o negligenci\u00e1vel. E que recorda que a arte n\u00e3o \u00e9 simples <em>mimesis<\/em> da realidade mas comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entre os seus melhores filmes est\u00e3o \u201cBrigada de Homic\u00eddios\u201d de 1991 e \u201cO Caso Winslow\u201d de 1999. O primeiro p\u00f5e Joe Mantegna na pele de um pol\u00edcia que tenta resolver um caso importante quando, de improviso, lhe cai no colo um outro a que ele resiste de in\u00edcio. O resultado \u00e9 menos um jogo de constru\u00e7\u00e3o de uma trama sinuosa e mais o retrato de um processo de redescoberta de si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mamet demonstra ser um original contempor\u00e2neo que mant\u00e9m um p\u00e9 no cl\u00e1ssico: trama de resolu\u00e7\u00e3o ou de revela\u00e7\u00e3o? Para qu\u00ea escolher, quando o segredo est\u00e1 em unir as duas, como dizia um velho companheiro destas andan\u00e7as, de seu nome Arist\u00f3teles? Da\u00ed que as origens judaicas sejam exploradas com sensibilidade, al\u00e9m dos lugares comuns que se veem em tantas obras bem-intencionadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aprendemos ent\u00e3o que existia o grupo nazista Grofaz, decidido a eliminar os judeus e a evitar qualquer sua mistura com os brancos. Porqu\u00ea Grofaz? Porque era uma sigla pela qual o pr\u00f3prio F\u00fchrer foi conhecido (\u201co maior estratega de todos os tempos\u201d). Baste dizer-se que a solu\u00e7\u00e3o para o primeiro caso se dever\u00e1 a uma trai\u00e7\u00e3o e que, numa ironia amarga, o mesmo se aplica ao pr\u00f3prio protagonista na solu\u00e7\u00e3o do segundo. Sublime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 aqui algo do cinema artesanal de Herzog, embora menos po\u00e9tico no que \u00e0s imagens diz respeito. \u00c9 dado aos personagens tempo de respirar at\u00e9 que ao v\u00ea-los vejamos a condi\u00e7\u00e3o humana. A ambiguidade moral habita-os e \u00e9 apresentada sem timidez mas tamb\u00e9m sem excesso, porque a subtileza importa. O processo \u00e9 lento e desprovido porque quem v\u00ea deve fazer o seu pr\u00f3prio trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E com isto chegamos a \u201cO Caso Winslow\u201d, um bem conseguido retrato de \u00e9poca da Inglaterra \u00e0 beira da Primeira Guerra Mundial. Um honrado chefe de fam\u00edlia leva a tribunal o col\u00e9gio que expulsou o filho por um suposto furto. Por detr\u00e1s deste <em>leitmotiv<\/em> esconde-se no entanto uma an\u00e1lise profunda aos temas da honradez, o orgulho, a teimosia, o bem familiar e social, as motiva\u00e7\u00f5es inconscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os tiques burgueses s\u00e3o apenas uma das atra\u00e7\u00f5es do filme: ser\u00e3o passados em revista os estere\u00f3tipos masculinos, a pol\u00edtica e a ordem social e praticamente todas as dimens\u00f5es que uma fam\u00edlia comporte. Trata-se de uma obra-prima da observa\u00e7\u00e3o, um filme definido pela fineza do seu humor e pela habilidade de entrecruzar v\u00e1rias linhas narrativas. Al\u00e9m do mais, a cena da apresenta\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a final (fora do tribunal) \u00e9 do melhor que o cinema tem para oferecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 este o filme a apresentar quando se pergunta sobre o que \u00e9 \u201cbrincar com as conven\u00e7\u00f5es do g\u00e9nero\u201d. O sucesso \u00e9 aqui total: um drama de tribunal que omite quase totalmente o mesmo e insinua sempre mais do que afirma. Cada cena \u00e9 um desenvolvimento em aberto: n\u00e3o se sente nunca o cumprir do calend\u00e1rio de turno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As reconstitui\u00e7\u00f5es anacr\u00f3nicas desiludem sempre mas aqui n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para isso: n\u00e3o estamos perante pessoas contempor\u00e2neas vestidas com roupas antigas mas mantendo as atitudes e palavras de origem. A este efeito n\u00e3o ser\u00e1 alheio o facto de muitos dos atores serem brit\u00e2nicos, certamente, mas esse \u00e9 apenas um dos elementos da equa\u00e7\u00e3o. Porque h\u00e1 aqui muito bom gosto e nem a criada, por exemplo, tem apenas o papel de figurante (longe disso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 importante que nos eduquemos de forma adulta naquilo que consumimos: o que comemos, as not\u00edcias que lemos, o cinema que vemos. Renegar esse cuidado de sele\u00e7\u00e3o \u00e9 comprometermos a qualidade do que entra em n\u00f3s e, por consequ\u00eancia, daquilo que somos para n\u00f3s e para os outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5256,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-5253","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5253"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5253\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5807,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5253\/revisions\/5807"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5256"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}