{"id":4938,"date":"2018-11-30T15:42:55","date_gmt":"2018-11-30T15:42:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=4938"},"modified":"2018-11-30T15:45:35","modified_gmt":"2018-11-30T15:45:35","slug":"muitos-prodigios-ha-nenhum-maior-que-o-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/muitos-prodigios-ha-nenhum-maior-que-o-homem\/","title":{"rendered":"Muitos prod\u00edgios h\u00e1, nenhum maior que o homem"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">Muitos prod\u00edgios h\u00e1, nenhum maior que o homem<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Belmiro Fernandes Pereira*<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Artigo publicado no <a href=\"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Correio do Vouga<\/a><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cresci no campo, entre c\u00e3es e gatos, grilos, sapos, ralos e vacas-louras. Empurrei bois, touros, vacas e vitelas. Guardei ovelhas e cabras desalmadas. Brinquei com anhos e cabritos; corri atr\u00e1s de galos, patos, garniz\u00e9s e cap\u00f5es. Ajudei a apanhar galinhas, a esfolar coelhos, a matar o porco. Estacava diante das bravatas dos perus e das amea\u00e7as dos pav\u00f5es. Acompanhei o voo do milhafre, segui revoadas de pombos. Ficava encantado a ver nuvens de estorninhos ou a chegada dos tordos e andorinhas. Persegui rolas, pegas e poupas, fui aos ninhos, de melros, carri\u00e7as e gaios. Nunca gostei da ca\u00e7a: os c\u00e3es l\u00e1 de casa ca\u00e7avam sozinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me venham com a &#8216;dignidade&#8217;, com os &#8216;direitos&#8217; dos animais. Direitos temos n\u00f3s, os humanos. E deveres; por exemplo, o dever de cuidar bem dos animais. Essa \u00e9 a grande conquista civilizacional que todos os povos e culturas devem ao mundo greco-romano e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lemos na B\u00edblia, logo no relato da cria\u00e7\u00e3o, <em>Et ait Deus: \u201cFaciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram; et praesint piscibus maris et volatilibus caeli et bestiis universaeque terrae omnique reptili, quod movetur in terra\u201d <\/em>(E disse Deus: \u00abFa\u00e7amos o ser humano \u00e0 nossa imagem e semelhan\u00e7a. Que tenha a primazia sobre os peixes do mar, sobre as aves do c\u00e9u, sobre os animais dom\u00e9sticos, sobre os animais selvagens e sobre todos os r\u00e9pteis que rastejam pela terra\u00bb, Gn 1, 26). O verbo <em>praesint<\/em> da vers\u00e3o latina, de longe a mais divulgada ao longo dos s\u00e9culos &#8211; por isso se chama Vulgata, \u00e9 geralmente traduzido por &#8216;dominar&#8217;, &#8216;para que domine sobre&#8217;, mas o verbo <em>praesum <\/em>significa etimologicamente &#8216;estar \u00e0 frente&#8217;, ou seja, &#8216;presidir, comandar&#8217; e, em contexto po\u00e9tico, at\u00e9 pode usar-se na acep\u00e7\u00e3o de &#8216;proteger&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os gregos, o povo antropopl\u00e1stico por excel\u00eancia, na sua incessante busca da <em>natureza <\/em>humana, da forma humana na arte, na filosofia, na literatura, na pol\u00edtica, os gregos, dizia, estabeleceram como valor fundamental o &#8216;humanismo&#8217;, o <em>homo mensura, <\/em>o homem medida de todas as coisas. A formula\u00e7\u00e3o mais bela deste princ\u00edpio encontra-se numa trag\u00e9dia de S\u00f3focles (s\u00e9c. V a.C.). Na <em>Ant\u00edgona<\/em>, vv. 332-333, o coro, na ode ao homem, celebra as conquistas do ser humano: \u03a0\u03bf\u03bb\u03bb\u1f70 \u03c4\u1f70 \u03b4\u03b5\u03b9\u03bd\u1f70 \u03ba\u03bf\u1f50\u03b4\u1f72\u03bd \u1f00\u03bd\u03b8\u03c1\u1f7d\u03c0\u03bf\u03c5 \u03b4\u03b5\u03b9\u03bd\u1f79\u03c4\u03b5\u03c1\u03bf\u03bd \u03c0\u1f73\u03bb\u03b5\u03b9\u0387, \u00abMuitos prod\u00edgios h\u00e1, por\u00e9m nenhum maior do que o homem\u00bb. O adjectivo <em>dein\u00f3s<\/em> significa &#8216;maravilhoso, prodigioso&#8217;, mas tamb\u00e9m pode ganhar a acep\u00e7\u00e3o de &#8216;terr\u00edvel&#8217;. Tendo no\u00e7\u00e3o desta ambival\u00eancia, uma coisa \u00e9 certa, por defini\u00e7\u00e3o o humanismo \u00e9 antropoc\u00eantrico; j\u00e1 o animalismo, n\u00e3o h\u00e1 como neg\u00e1-lo, \u00e9 reaccion\u00e1rio, muito reaccion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram claros estes valores ainda h\u00e1 pouco. Nas escolas, por exemplo, aprend\u00edamos a dizer de cor as <em>Vozes dos animais<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Palram pega e papagaio,<br \/>\nE cacareja a galinha;<br \/>\nOs ternos pombos arrulham,<br \/>\nGeme a rola inocentinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Muge a vaca, berra o touro,<br \/>\nGrasna a r\u00e3, ruge o le\u00e3o<br \/>\nO gato mia, uiva o lobo,<br \/>\nTamb\u00e9m uiva e ladra o c\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Relincha o nobre cavalo,<br \/>\nOs elefantes d\u00e3o urros,<br \/>\nA t\u00edmida ovelha bala,<br \/>\nZurrar \u00e9 pr\u00f3prio dos burros.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Regouga a sagaz raposa<br \/>\nBrutinho muito matreiro;<br \/>\nNos ramos cantam as aves,<br \/>\nMas pia o mocho agoureiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sabem as aves ligeiras<br \/>\nO canto seu variar;<br \/>\nFazem gorjeios \u00e0s vezes,<br \/>\n\u00c0s vezes p\u00f5em-se a chilrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O pardal, daninho aos campos,<br \/>\nN\u00e3o aprendeu a cantar:<br \/>\nComo os ratos e as doninhas<br \/>\nApenas sabe chiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">O negro corvo crocita,<br \/>\nZune o mosquito enfadonho;<br \/>\nA serpente no deserto<br \/>\nSolta assobio medonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Chia a lebre, grasna o pato,<br \/>\nOuvem-se os porcos grunhir;<br \/>\nLibando o suco das flores,<br \/>\nCostuma a abelha zumbir.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Bramem os tigres, as on\u00e7as,<br \/>\nPia, pia, o pintainho;<br \/>\nCucurita e canta o galo,<br \/>\nLate e gane o cachorrinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A vitelinha d\u00e1 berros;<br \/>\nO cordeirinho, balidos;<br \/>\nO macaquinho d\u00e1 guinchos,<br \/>\nA criancinha vagidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A fala foi dada ao homem,<br \/>\nRei dos outros animais:<br \/>\nNos versos lidos acima<br \/>\nSe encontram, em pobre rima,<br \/>\nAs vozes dos principais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(in Antero de Quental, <em>Tesouro Po\u00e9tico da Inf\u00e2ncia<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">*Professor. Membro da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos prod\u00edgios h\u00e1,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4939,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,108,91,14],"tags":[],"class_list":["post-4938","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-belmiro-fernandes-pereira","category-olhares-ii","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4938"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4941,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4938\/revisions\/4941"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4939"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}