{"id":4255,"date":"2018-07-03T00:52:09","date_gmt":"2018-07-02T23:52:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=4255"},"modified":"2018-07-03T00:52:09","modified_gmt":"2018-07-02T23:52:09","slug":"estranha-reaccao-ao-chegar-a-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/estranha-reaccao-ao-chegar-a-casa\/","title":{"rendered":"Estranha reac\u00e7\u00e3o ao chegar a casa"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><b>ESTRANHA REAC\u00c7\u00c3O AO CHEGAR A CASA\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"right\"><b>Pe. Georgino Rocha<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, ap\u00f3s a primeira experi\u00eancia da miss\u00e3o p\u00fablica regressa a casa, \u00e0 terra natal, a Nazar\u00e9, aldeia onde se havia criado. Vem acompanhado pelos disc\u00edpulos e, o evangelista Marcos ( 6, 1-6) deixa em aberto o leque de hip\u00f3teses para este regresso. Saudades da M\u00e3e? Dar uma justifica\u00e7\u00e3o a Jos\u00e9, seu pai segundo a lei? Rever amigos? Apresentar a sua nova fam\u00edlia, a dos disc\u00edpulos? Reganhar for\u00e7as porque sentia j\u00e1 alguma rejei\u00e7\u00e3o da parte dos ouvintes? Ou ainda outra que provavelmente ser\u00e1 a mais verdadeira e ponderada como a de anunciar o reino de Deus aos seus conterr\u00e2neos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que indica\u00e7\u00e3o preciosa nos d\u00e1 esta atitude de Jesus. De vez em quando precisamos de regressar a casa, de mergulhar na mem\u00f3ria, de procurar o calor dos vizinhos e amigos, de rever com novo olhar rostos familiares e o espa\u00e7o onde nos cri\u00e1mos, de libertar sonhos que, ent\u00e3o, acalent\u00e1mos e est\u00e3o em realiza\u00e7\u00e3o. Que humanidade nos deixa e que desafio nos faz! Que forma admir\u00e1vel de viver o tempo de modo saud\u00e1vel! Regressar \u201cao ber\u00e7o\u201d faz-nos encontrar a identidade e realimentar a esperan\u00e7a, faz-nos realinhar a imagina\u00e7\u00e3o e empreender novas ousadias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato de Marcos refere apenas a visita de Jesus \u00e0 sinagoga onde encontra muita gente. E sem mais ritual, mostra o que acontece. Jesus toma a palavra e faz a sua comunica\u00e7\u00e3o. Como e sobre qu\u00ea? N\u00e3o \u00e9 referido. S\u00f3 se faz o registo da rea\u00e7\u00e3o dos ouvintes, reac\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o, de perplexidade, de d\u00favida, de desprezo; reac\u00e7\u00e3o que leva Jesus a um coment\u00e1rio inspirado nas senten\u00e7as de Jeremias: \u201cUm profeta s\u00f3 \u00e9 desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato n\u00e3o menciona ningu\u00e9m da casa de Jesus, embora diga que \u00e9 o carpinteiro, filho de Maria; j\u00e1 os parentes homens t\u00eam nome: Tiago, Jos\u00e9, Judas e Sim\u00e3o, que o texto refere como irm\u00e3os. As mulheres ficam englobadas na designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de irm\u00e3s; e os da terra, estavam representados na atitude dos restantes presentes na sinagoga. O desprezo, agora denunciado, vai acompanhar a miss\u00e3o p\u00fablica e mostra-se, sem pena nem agravo, no processo de julgamento e de morte no Calv\u00e1rio. Ent\u00e3o \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narra\u00e7\u00e3o de Marcos faz-nos ver dois olhares diferentes: O dos nazarenos e o de Jesus. Os nazarenos retinham o estilo de Jesus, vizinho e trabalhador, inserido na fam\u00edlia de sangue, frequentador da sinagoga, ordeiro e praticante fiel das antigas tradi\u00e7\u00f5es. E por isso estranham a sabedoria das suas palavras e o alcance dos seus gestos prodigiosos. Jesus d\u00e1 uma nova dimens\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia adquirida na fam\u00edlia, na terra natal, na sinagoga. E abre-a ao an\u00fancio do reino de Deus, \u00e0 realidade de uma situa\u00e7\u00e3o germinal que est\u00e1 em curso. E certamente desta novidade lhes ter\u00e1 falado e deixado o apelo a que a descortinem com as raz\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o e o afecto da intelig\u00eancia. S\u00f3 ao n\u00edvel da f\u00e9 se entra em sintonia com Ele e os olhos humanos encontram a verdade do que est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A surpresa dos nazarenos \u00e9 natural. Jesus tem um comportamento fora do comum: n\u00e3o fala nem pensa nem vive como era de esperar de um filho daquela fam\u00edlia, de um natural daquela terra. \u201cO facto, afirma J. M. Castillo, (La Religi\u00f3n de Jes\u00fas, ciclo b, p. 254), \u00e9 que a conduta de Jesus foi vista como \u00abdesviada\u00bb, merecedora s\u00f3 de desprezo. E ningu\u00e9m, nem na fam\u00edlia mais \u00edntima, confiou nele. Isto \u00e9 muito duro na vida de uma pessoa. \u00c9 o pre\u00e7o da liberdade. Sobretudo, a liberdade perante pessoas \u00e0s que nos sentimos mais ligadas. A dolorosa estranheza de Jesus estava justificada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus queixa-se do desprezo a que \u00e9 votado pelos conterr\u00e2neos. A novidade de que \u00e9 portador n\u00e3o lhes interessa. A sabedoria que revela s\u00f3 desperta admira\u00e7\u00e3o e n\u00e3o induz \u00e0 imita\u00e7\u00e3o. Os prod\u00edgios que realiza ficam fechados no \u00e2mbito dos benefici\u00e1rios e n\u00e3o provocam a abertura a perguntas de sentido, a Deus que Jesus mostra j\u00e1 presente e quer anunciar. Por isso, vai pregar a outras terras. Diz o texto: \u201cEstava admirado com a falta de f\u00e9 daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando\u201d. Que turbilh\u00e3o de sentimentos ter\u00e1 aflu\u00eddo ao seu esp\u00edrito e como os ter\u00e1 digerido! Ele ser desprezado como profeta, desconhecido como s\u00e1bio e incapaz como m\u00e9dico! E dizerem-lho \u201cna cara\u201d, ap\u00f3s o terem reconhecido como insinuam as perguntas\/exclama\u00e7\u00f5es que fazem na sinagoga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTal como Jesus foi reduzido \u00e0 impot\u00eancia por aqueles que afirmavam conhec\u00ea-lo melhor, adianta Manicardi, Coment\u00e1rio, p. 116, assim a f\u00e9 pode hoje ser tornada insignificante por aqueles mesmos que pretendem fazer-se seus paladinos e defensores, mas na realidade a reduzem \u00e0s suas pr\u00f3prias vis\u00f5es do mundo e n\u00e3o aceitam deixar-se p\u00f4r em causa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 faz-nos conhecer Jesus e acolher a sua novidade que nos abre os olhos \u00e0 verdade da realidade, nos leva a descobrir a presen\u00e7a oculta de Deus nos sofrimentos e fracassos da vida, como afirma S\u00e3o Paulo; que nos mostra portas abertas e caminhos longos onde se fecham as portas da sinagoga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto cuidado, adverte o comentarista da liturgia dominical, em Homil\u00e9tica, 20\\8\/4, p. 431, pois \u201cquando conhecemos algu\u00e9m muito de perto (no tempo, no espa\u00e7o\u2026) mas sem haver entrado com verdade na sua realidade mais verdadeira, ficamos fora, n\u00e3o entramos, e chegamos a desprezar o valioso que h\u00e1 nessa pessoa, sem querer reconhec\u00ea-lo. A vida traz muitas surpresas e h\u00e1 que aprender a valorar os demais. Toda a pessoa tem uma mensagem para ti\u201d. \u00c9 muito assertivo o convite de regressar a casa e purificar o olhar. Experimenta!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESTRANHA REAC\u00c7\u00c3O AO<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4256,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,91,50,14],"tags":[],"class_list":["post-4255","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-olhares-ii","category-pe-georgino-rocha","category-temas-para-debate"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4255"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4255\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4257,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4255\/revisions\/4257"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4256"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}