{"id":4146,"date":"2018-06-17T20:28:08","date_gmt":"2018-06-17T19:28:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=4146"},"modified":"2018-06-17T20:28:08","modified_gmt":"2018-06-17T19:28:08","slug":"a-conquista-de-vespasiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/a-conquista-de-vespasiano\/","title":{"rendered":"A conquista de Vespasiano"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h3 style=\"text-align: center;\">A conquista de Vespasiano<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Asghar Farhadi \u00e9 o nome e o seu posto \u00e9 o de Imperador absoluto (algo que n\u00e3o existe, claro). Farhadi merece mais aten\u00e7\u00e3o sobretudo dos distra\u00eddos destas coisas. Afinal trata-se de algu\u00e9m de origem aparentemente desprez\u00e1vel (Ir\u00e3o) mas que soube sempre o queria (e o que queria era bom). O seu \u00faltimo filme, \u201cTodos lo saben\u201d, conta com atores tornados internacionais, tais como Javier Bardem, Pen\u00e9lope Cruz e Ricardo Dar\u00edn.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O enredo \u00e9 simples: uma adolescente \u00e9 raptada durante um casamento em Espanha e \u00e9 pedido um resgate; todos se sobressaltam na fam\u00edlia e, perante a amea\u00e7a de morte em caso de envolvimento das autoridades, pedem conselho a um pol\u00edcia reformado. Este, um personagem menor que funciona como uma esp\u00e9cie de narrador secund\u00e1rio, esclarece cedo que dever\u00e1 ser obra de algu\u00e9m de dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A desconfian\u00e7a instala-se; as suspeitas caem sobre quem n\u00e3o est\u00e1 presente para se defender; as apar\u00eancias d\u00e3o lugar \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o dos descontentamentos reprimidos durante d\u00e9cadas; sujeitos pacatos transformam-se em lobos implac\u00e1veis e at\u00e9 um av\u00f4 decr\u00e9pito e quase paral\u00edtico afronta quem possa estar entre ele e o dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Fam\u00edlia tamb\u00e9m \u00e9 isto: a calma antes da tormenta, o rio insuspeito mas infestado de crocodilos; a mem\u00f3ria de dias cuja melhor condi\u00e7\u00e3o \u00e9 o esquecimento ou a omiss\u00e3o comprometida. Essa m\u00e1goa que n\u00e3o existe at\u00e9 que algu\u00e9m remexa no passado, a m\u00e1goa que \u00e9 o exclusivo plano de evacua\u00e7\u00e3o invis\u00edvel em caso de crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Soa o alarme, cada um assume o seu posto: as verdades amorda\u00e7adas, as frases a que se fugiu, as frases que sempre se pensou que n\u00e3o poderiam ser ditas. -\u201cObrigaste-a a vender-te as terras!\u201d; -\u201cpelo pre\u00e7o que deste, foram quase dadas!\u201d; -\u201ccala-te, por favor!\u201d; -\u201cn\u00e3o\u2026 porque me hei-de calar? O que eu digo \u00e9 a verdade!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pena se vier a acontecer a este filme o que aconteceu ao \u201cSal e fogo\u201d de Werner Herzog e por causa da propens\u00e3o do realizador para infringir regras, sobretudo as mais elementares. Herzog construiu um falso thriller para contar uma hist\u00f3ria invulgarmente \u00edntima e at\u00e9 comovente: o trailer jogava com este disfarce, esta metamorfose humor\u00edstica e graciosa, dando a ver homens encapu\u00e7ados e um rapto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O resultado desta opera\u00e7\u00e3o? Sobre \u201cSal e fogo\u201d basta dizer que quem quiser pasmar s\u00f3 tem de dar um salto ao <em>Imdb<\/em> e ler o que escreveram tantos espetadores. Desiludidos, consideram que \u00e9 o pior filme alguma vez feito, equiparando o realizador com o mesmo qualificativo dessa meiguice. Tudo porque n\u00e3o corresponde \u00e0s (suas) expectativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Da mesma forma, o filme de Farhadi poder\u00e1 destruir os sonhos a muito trinca pipocas: um rapto sem investiga\u00e7\u00e3o, sem pol\u00edcias dur\u00f5es? Uma solu\u00e7\u00e3o revelada sem um complicado racioc\u00ednio e sem cadeia para ningu\u00e9m; para qu\u00ea fazer um filme assim? Para qu\u00ea um raio X ao homem interior quando o pedido era para comprimido de dormir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Farhadi n\u00e3o quis fazer um thriller, como prova o facto de n\u00e3o ter nele colocado uma cena terr\u00edvel que acaba com um personagem a acordar na sua cama, s\u00e3o e salvo do pesadelo que nos foi dado a ver. A essa evid\u00eancia de car\u00e1ter cient\u00edfico junta-se o percurso pessoal do realizador, exclusivamente dedicado a dramas que se movem no sentido acontecimento-introspe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O seu segredo \u00e9 a habilidade com que despe as pessoas; esse trazer \u00e0 luz do mais rec\u00f4ndito arremedo de uma atitude, um gesto temeroso, uma fuga cobarde, uma omiss\u00e3o culposa ou um esgar que aponta para um sofrimento secreto e inconfess\u00e1vel. Mais do que isso, o fazer-nos descobrir que n\u00e3o somos em nada melhores do que aqueles personagens bons (denunciados como cr\u00e1pulas ou, mais simplesmente, humanos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Talvez n\u00e3o seja bom sinal ir para Espanha ca\u00e7ar celebridades; poder-se-\u00e1 considerar que a f\u00f3rmula do realizador est\u00e1 vista, o drama demasiado contido (poucas l\u00e1grimas); o fim ser\u00e1 previs\u00edvel; isto n\u00e3o parece trazer nada de novo\u2026 e come\u00e7a devagar, parecendo perdido em primeiros planos m\u00e9dios (estaremos perante uma telenovela?). Qual a raz\u00e3o de um in\u00edcio t\u00e3o colorido, t\u00e3o decorativo, se a seguir a alma vai \u00e0 faca? N\u00e3o interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Subtrair atores espanh\u00f3is ao seu ingl\u00eas carregado? \u00c9 uma caridade. Reproduzir os novelos de verdade de \u201cO passado\u201d? Um gesto de filantropia. Apostar na representa\u00e7\u00e3o enxuta? N\u00e3o ter surpresas e viravoltas for\u00e7adas? N\u00e3o ser uniforme no ritmo? S\u00f3 abona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vespasiano saiu da Judeia antes da conquista de Jerusal\u00e9m do ano 70. Regressou a Roma por um caminho mais longo, assegurando o controlo do fornecimento de cereais \u00e0 sede do imp\u00e9rio. Quando chegou \u00e0 cidade eterna, esse facto e a boa nova de que o filho Tito subjugara a revolta judaica (imediatamente precedente \u00e0 sua chegada) significaram a sua entroniza\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sr. Farhadi, por aqui\u2026 tome o seu lugar\u2026 ali: no trono por favor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4147,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-4146","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4146"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4146\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4449,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4146\/revisions\/4449"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4147"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}