{"id":3967,"date":"2018-05-11T19:11:24","date_gmt":"2018-05-11T18:11:24","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=3967"},"modified":"2018-05-31T22:21:13","modified_gmt":"2018-05-31T21:21:13","slug":"nota-pastoral-quem-mais-precisa-mais-atencao-merece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/nota-pastoral-quem-mais-precisa-mais-atencao-merece\/","title":{"rendered":"Nota Pastoral: Quem mais precisa mais aten\u00e7\u00e3o merece"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Quem mais precisa mais aten\u00e7\u00e3o merece<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Nota Pastoral \u2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Legalizar a eutan\u00e1sia \u00e9 um retrocesso civilizacional<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>O Parlamento prop\u00f5e-se discutir e legalizar a eutan\u00e1sia, em Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que deveria estar a discutir-se seriam os modos de atuar para minorar o sofrimento e a dor de quem est\u00e1 perante o limite e a fragilidade. A eutan\u00e1sia, enquanto antecipa\u00e7\u00e3o da morte, n\u00e3o poder\u00e1, de modo algum, considerar-se uma resposta humanamente adequada. Ela significa abandono, desist\u00eancia e incapacidade de responder com o cuidado humanizado em favor de quem se encontra em situa\u00e7\u00e3o de debilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia dos pa\u00edses que legalizaram a eutan\u00e1sia e onde o efeito de rampa deslizante \u00e9 vis\u00edvel, seja nos n\u00fameros, seja nos motivos invocados para a sua pr\u00e1tica, demonstra o erro de colocar ao abrigo da lei uma pr\u00e1tica que n\u00e3o acrescenta humanidade aos servi\u00e7os de sa\u00fade, mas que os marca, de forma indel\u00e9vel, com a morte e a desist\u00eancia perante o sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00famero de mortes associadas \u00e0 eutan\u00e1sia e ao suic\u00eddio assistido aumentou nos pa\u00edses em que tais pr\u00e1ticas foram legalizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia afigura-se como um sinal contradit\u00f3rio e um retrocesso da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es antigas, como na Gr\u00e9cia e em Roma, a eutan\u00e1sia era praticada e s\u00f3 com o novo humanismo nascido com o cristianismo a valoriza\u00e7\u00e3o e a defesa da vida humana se foi afirmando nas sociedades desenvolvidas. Todo este patrim\u00f3nio corre o risco de se perder nos tempos atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vida humana \u00e9 inviol\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artigo 24 da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa \u00e9, nesta mat\u00e9ria, de uma clareza que n\u00e3o deixa ambiguidades: \u00aba vida humana \u00e9 inviol\u00e1vel\u00bb. Muitos s\u00e3o os que recordam que os constituintes de 1976 tiveram o cuidado de evitar formula\u00e7\u00f5es amb\u00edguas que, por exemplo, preconizassem que \u00abo cidad\u00e3o tem direito \u00e0 vida\u00bb. A formula\u00e7\u00e3o encontrada \u00aba vida humana \u00e9 inviol\u00e1vel\u00bb vinca que, antes de qualquer condi\u00e7\u00e3o de cidadania, est\u00e1 a vida humana a qual, em virtude da sua dignidade, \u00e9 inviol\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de legalizada, a eutan\u00e1sia torna-se um horizonte que atinge todos aqueles que, um dia, venham a necessitar dos cuidados de sa\u00fade. N\u00e3o apenas como uma possibilidade, mas como uma tenta\u00e7\u00e3o: a de eliminar quem passasse a sentir-se como um peso para si pr\u00f3prio e para os demais. O Estado de direito \u00e9 e deve continuar a ser o garante de que n\u00e3o deixaremos de cuidar uns dos outros, mesmo quando desistir do outro ou de si pudesse parecer a solu\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil, mas, neste caso, a mais desumana. Diminuir a sua dor, com os m\u00e9todos eficazes hoje sobejamente testados e reconhecidos, assegurar cuidados paliativos, melhorar os servi\u00e7os de cuidados continuados, promover pol\u00edticas que favore\u00e7am a cria\u00e7\u00e3o do estatuto do cuidador, etc., s\u00e3o as vias ainda t\u00e3o escassamente percorridas, mas a discutir com urg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vida como dom e doa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A discuss\u00e3o sobre a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria de natureza religiosa ou sequer de matriz partid\u00e1ria. \u00c9 mat\u00e9ria de humanidade. \u00c9 mat\u00e9ria que diz respeito ao nosso modo de nos entendermos como seres sociais, interdependentes, solid\u00e1rios ou, simplesmente, como meros indiv\u00edduos, indiferentes aos demais. A eutan\u00e1sia \u00e9 a escolha de uma ideia de sociedade em que cada um n\u00e3o se pensa como algu\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o com os demais, mas fechado sobre si mesmo. A cultura do cuidado n\u00e3o pode desistir, perante tal vis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os crist\u00e3os, para quem a vida \u00e9 dom, perante o sofrimento s\u00f3 faz sentido a doa\u00e7\u00e3o. Desistir, dando a morte, \u00e9 a recusa de que dos outros poderemos esperar o amor. Uma sociedade que deixe de amar n\u00e3o pode continuar a crescer em humanidade e aten\u00e7\u00e3o aos outros, sobretudo aos que mais sofrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na semana de 13 a 20 de maio celebramos a semana da vida. Pe\u00e7o que durante este tempo se difunda por toda a Diocese, par\u00f3quias e outras institui\u00e7\u00f5es o folheto publicado recentemente com as perguntas e as respostas sobre a eutan\u00e1sia. Queremos apenas esclarecer quest\u00f5es que se prendem com a vida e o seu final, formar a nossa consci\u00eancia e assumir os nossos compromissos sociais e pol\u00edticos de forma respons\u00e1vel e livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A todos aqueles que t\u00eam o Evangelho como fonte de inspira\u00e7\u00e3o para o seu agir em sociedade, incluindo os nossos deputados e os que se preocupam com a causa p\u00fablica, n\u00e3o se esque\u00e7am de colocar a vida como a fonte primeira do bem comum. O Papa Francisco afirma na sua enc\u00edclica\u00a0<em>Louvado sejas<\/em>: \u00abTendo em conta que o ser humano tamb\u00e9m \u00e9 uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz e, al\u00e9m disso, possui uma dignidade especial, n\u00e3o podemos deixar de considerar os efeitos da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas\u00bb (n. 43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma sociedade ser\u00e1 tanto mais moderna e avan\u00e7ada quanto melhor cuidar dos seus elementos mais vulner\u00e1veis, criando leis e normas que impe\u00e7am o mais forte de exercer o seu poder sobre o mais fraco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aveiro, 11 de maio de 2018<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f3nio Manuel Moiteiro Ramos, bispo de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem mais precisa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3968,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,47,12],"tags":[],"class_list":["post-3967","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-d-antonio-manuel-moiteiro-ramos","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3967"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3967\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3974,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3967\/revisions\/3974"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3968"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}