{"id":3896,"date":"2018-04-29T18:33:00","date_gmt":"2018-04-29T17:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=3896"},"modified":"2018-04-29T18:33:00","modified_gmt":"2018-04-29T17:33:00","slug":"o-defice-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/o-defice-portugues\/","title":{"rendered":"O D\u00e9fice Portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h3 style=\"text-align: center;\">O D\u00e9fice Portugu\u00eas<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo n\u00e3o remete para dados estat\u00edsticos p\u00fablicos ou ideologia econ\u00f3mica: o d\u00e9fice nacional referido \u00e9 o de um fil\u00e3o portugu\u00eas de cinema com ideias, original, estimulante e determinado, limpo de tiques e das estrelas do regime. E popular.<br \/>\nO par\u00e1grafo anterior n\u00e3o acusa o fil\u00e3o de n\u00e3o existir, antes considera que lhe falta ser popular. N\u00e3o \u00e9 sequer necess\u00e1rio atracar em Manoel de Oliveira; este artigo \u00e9 exatamente sobre quem constitui essa corrente e est\u00e1 no ativo (ironicamente recebendo tamb\u00e9m os seus pr\u00e9mios al\u00e9m portas).<br \/>\nDe Teresa Villaverde j\u00e1 todos ouviram falar: cinema n\u00e3o comercial, cheio de cenas fortes e que se coloca perante a tradi\u00e7\u00e3o como o tigre diante da carne crua. \u00c9 uma cineasta que parece gostar de filmar gente nova e a forma natural que t\u00eam de se meter em sarilhos. Como \u00e9 \u00f3bvio, os valores de produ\u00e7\u00e3o t\u00eam a virtude de parecerem quase inexistentes.<br \/>\nO que nos traz a \u201cColo\u201d, o filme premiado em Berlim e que est\u00e1 em exibi\u00e7\u00e3o nas salas portuguesas neste momento. \u00c9 uma experi\u00eancia de despojamento f\u00edlmico, quase de pobreza; e uma aproxima\u00e7\u00e3o minimalista ao trabalho dos atores (naturalista?), num filme que a realizadora tamb\u00e9m escreveu.<br \/>\nPara os impacientes, o ritmo ser\u00e1 demasiado lento e n\u00e3o recompensar\u00e1 o tempo investido. Mas \u00e9 pena, j\u00e1 que se acertam as agulhas cedo e se rejeitam os lugares comuns (quando foi a \u00faltima vez que vimos um filme come\u00e7ar com uma separa\u00e7\u00e3o?); \u00e9 precisamente o romper com esquemas de pacotilha o que lhe d\u00e1 f\u00f4lego.<br \/>\n\u201cColo\u201d consegue criar um ambiente de fantasia da forma mais natural poss\u00edvel: a fuga de casa, o divagar das duas adolescentes pela Lisboa noturna do arrabalde; a sequ\u00eancia v\u00ea-se como o mapeamento do ADN do que \u00e9 ser adolescente (a capacidade de divagar sem rumo). Os di\u00e1logos desconcertam: -\u201cN\u00e3o sei nada disso: se calhar devias falar com outra pessoa\u2026\u201d<br \/>\nO ambiente \u00e9 o da crise portuguesa, nos seus anos mais pesados: o marido-pai arrasta-se pela casa e pela exist\u00eancia como um pr\u00e9-morto; a esposa-m\u00e3e resiste como motor suporte da conjuntura at\u00e9 estalar e desistir; a filha oscila entre ondas de choque, hor\u00e1rios de escola e o dist\u00farbio que tamb\u00e9m a habita.<br \/>\nUma palavra para a protagonista, (representada pela jovem atriz micaelense Alice Borges Albergaria): a singularidade do seu rosto e da sua indument\u00e1ria complementam bem a opress\u00e3o em que se tornou a nossa sociedade. S\u00e3o pessoas reclusas que olham para p\u00e1ssaros engaiolados e se queixam que a vida \u00e9 s\u00f3 trabalho (escola) e comer.<br \/>\nUma curiosidade: numa cena dentro de um bar com m\u00fasica ao vivo, \u00e9 nos dado o privil\u00e9gio de ouvir bem os personagens, uma vez que a m\u00fasica \u00e9 mantida em sil\u00eancio. Quantas vezes n\u00e3o sofremos com o ru\u00eddo das cenas desse g\u00e9nero? A solu\u00e7\u00e3o era bem simples, afinal.<br \/>\nO cinema tem a virtude de que pode dar a ver o que n\u00e3o estamos dispostos a lembrar; o facto de que muitos lutam sem sucesso, conhecem metamorfoses kafkianas e acabam mal ou perto disso. Esta dimens\u00e3o comunal, quase social (no sentido de efeito positivo de regenera\u00e7\u00e3o) \u00e9 tantas vezes esquecida em nome do entretenimento.<br \/>\nTal como Miguel Gomes no seu \u201cAs Mil e Uma Noites\u201d, Villaverde retrata os recentes anos maus do nosso pa\u00eds. Mas onde aquele usava a s\u00e1tira e a caricatura (especialmente no primeiro volume), a realizadora prefere criar um drama familiar intenso filmado com a leveza de quem sabe o que \u00e9 que o cinema pode fazer.<br \/>\nO p\u00fablico prefere as xaropadas rom\u00e2nticas ou as imita\u00e7\u00f5es dos gangsters americanos, tantas vezes carregados de vocabul\u00e1rio hardcore e isentos do m\u00ednimo tra\u00e7o de algo a que se possa chamar de marca autoral. \u00c9 pena porque, querendo-se, h\u00e1 mais mundo do que isso.<br \/>\nOs desastres s\u00e3o boa inspira\u00e7\u00e3o para os grandes cineastas: o movimento neo-realista italiano do p\u00f3s guerra \u00e9 justamente reconhecido como um per\u00edodo \u00edmpar na hist\u00f3ria do cinema.<br \/>\nEntretanto, imposs\u00edvel \u00e9 assistir aos filmes de Gomes e de Villaverde e n\u00e3o se tornar mineiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: Teresa Villaverde<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Teresa_Villaverde.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Teresa_Villaverde.jpg<\/a>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3897,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-3896","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3896","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3896"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3896\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3899,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3896\/revisions\/3899"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3896"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3896"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3896"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}