{"id":3590,"date":"2018-03-11T17:18:04","date_gmt":"2018-03-11T17:18:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=3590"},"modified":"2018-03-11T17:18:04","modified_gmt":"2018-03-11T17:18:04","slug":"o-calendario-e-as-festas-moveis-i-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/o-calendario-e-as-festas-moveis-i-ii\/","title":{"rendered":"O calend\u00e1rio e as festas m\u00f3veis I\/II"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"post-title entry-title\" style=\"text-align: center;\">O calend\u00e1rio e as festas m\u00f3veis I\/II<\/h2>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Pe. Crist\u00f3v\u00e3o Cunha<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este artigo \u00e9 uma pequena frac\u00e7\u00e3o de um trabalho muito maior, relativo ao Observat\u00f3rio Astron\u00f3mico do Vaticano, que teve na sua origem, a preocupa\u00e7\u00e3o que visava a reforma do calend\u00e1rio Juliano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. O calend\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o concreta que fez com que no passado se estudasse as estrelas e planetas, refere-se \u00e0 necessidade de criar um calend\u00e1rio que fosse o mais preciso poss\u00edvel, para que as pessoas se pudessem orientar no que diz respeito \u00e0s esta\u00e7\u00f5es do ano, \u00e9poca das sementeiras, das colheitas, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um calend\u00e1rio, de uma maneira geral podemos dizer que consiste em um conjunto de unidades de tempo \u2013 dias, semanas, meses, anos \u2013 organizadas com o prop\u00f3sito de medir e registar eventos ao longo de grandes per\u00edodos.<br \/>\nUm calend\u00e1rio conta os dias em unidades de semanas, meses e anos. O desafio de fazer um calend\u00e1rio, nasce do facto de que o m\u00eas lunar n\u00e3o tem um n\u00famero exacto de dias. Do mesmo modo, o ano (civil) como o conhecemos n\u00e3o tem um exacto n\u00famero de dias nem de meses (lunares). As diferen\u00e7as, as frac\u00e7\u00f5es de dias e as frac\u00e7\u00f5es de meses, v\u00e3o-se acumulando ao longo do ano e no fim \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar ou subtrair dias de modo a que o calend\u00e1rio esteja em harmonia com a sequ\u00eancia anual das esta\u00e7\u00f5es .<br \/>\nA semana, constitu\u00edda por sete dias, que provavelmente teve origem na Babil\u00f3nia, e que foi precedente \u00e0 hist\u00f3ria escrita, segundo uma das teorias que estuda o calend\u00e1rio, era um modo concreto para contar os dias que separavam os dias de feira. O m\u00eas era originariamente baseado nas fases da lua. Conhecer o per\u00edodo em que a lua estava cheia (e portanto iluminava o c\u00e9u de noite), era particularmente importante para ca\u00e7adores e feirantes. Por sua vez, o ano era um per\u00edodo muito importante para as sociedades agr\u00edcolas, pela import\u00e2ncia que tinha conhecer os per\u00edodos da sementeira e da colheita .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. O Calend\u00e1rio hebraico<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os hebreus, o calend\u00e1rio n\u00e3o era simplesmente um conjunto de n\u00fameros que os homens tinham estabelecido, mas era baseado sobre determinados fen\u00f3menos celestes que estes atribu\u00edam a Deus. E vemo-lo no modo como a B\u00edblia descreve a tarefa \u00faltima do criador na cria\u00e7\u00e3o dos corpos celestes. No livro do G\u00e9nesis (1, 14-18) \u00e9 dito que Deus disse: \u00abHaja luzeiros no firmamento dos c\u00e9us, para separar o dia da noite e servirem de sinais, determinando as esta\u00e7\u00f5es, os dias e os anos; servir\u00e3o tamb\u00e9m de luzeiros no firmamento dos c\u00e9us, para iluminarem a Terra.\u00bb E assim aconteceu. Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir \u00e0 noite; fez tamb\u00e9m as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos c\u00e9us para iluminarem a Terra, para presidirem ao dia e \u00e0 noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom\u00bb . Tamb\u00e9m no salmo 104, vers\u00edculo 19 \u201cA lua cumpre as v\u00e1rias esta\u00e7\u00f5es\u201d . Isso indica-nos que o calend\u00e1rio judaico era portanto de base lunar, atendendo ao facto de se tratar de um fen\u00f3meno celeste facilmente vis\u00edvel.<br \/>\nO tamanho real de um m\u00eas lunar, o tempo durante o qual a lua atravessa todas as suas fases (lua nova, primeira falcada, primeiro quarto ou quarto crescente, primeira giba, lua cheia, segunda giba, segundo quarto ou quarto minguante e segunda falcada ) \u00e9 de vinte e nove dias e meio (29.53085). Segundo os hebreus, o ano consistia em doze meses que se alternavam com o tamanho de 29 e 30 dias. O problema \u00e9 que este \u201cano lunar\u201d tem apenas 354 dias e, por isso \u00e9 11 dias mais curto que o ano solar que segue as esta\u00e7\u00f5es. Os agricultores por\u00e9m precisavam de ter em mente as esta\u00e7\u00f5es para regular as actividades que levavam a cabo, nomeadamente as sementeiras e as colheitas. Assim, em cada calend\u00e1rio destinado a seguir a lua e o sol (calend\u00e1rio lunissolar), \u00e9 necess\u00e1rio introduzir um m\u00eas extra, intercalado a cada dois ou tr\u00eas anos .<br \/>\nNo ano 432 a. C. o matem\u00e1tico grego Met\u00e3o (Meton of Athens), observou que 19 anos solares correspondiam a 235 luna\u00e7\u00f5es. Tratava-se de uma diferen\u00e7a de um par de horas, que equivaliam a cerca de um dia no arco de 300 anos. \u00c9 poss\u00edvel portanto coordenar os calend\u00e1rios lunares e solares inserindo sete meses intercalares neste per\u00edodo de 19 anos. Este calend\u00e1rio era bastante acess\u00edvel, mas os hebreus n\u00e3o o conheciam, e \u00e0 falta de uma regra precisa, era bastante complicado inserir um m\u00eas extra intercalado. Com um simples gn\u00f3mon, qualquer astr\u00f3nomo poderia facilmente estabelecer a posi\u00e7\u00e3o do sol, observando a mudan\u00e7a do cumprimento da sombra do sol, projectada por um pau colocado na vertical ou por um obelisco. No entanto o Sin\u00e9drio, a assembleia dos anci\u00e3os que regulava a vida dos hebreus, n\u00e3o era particularmente sistem\u00e1tico no c\u00e1lculo do progresso das esta\u00e7\u00f5es. Era portanto dif\u00edcil estabelecer com certeza a primeira lua (ou m\u00eas) do ano e os meses intercalados eram inseridos todas as vezes que se retinha necess\u00e1rio. Preferiam assim assumir acontecimentos importantes que decorriam ao longo do ano, ao inv\u00e9s de come\u00e7ar a contar desde o in\u00edcio do ano.<br \/>\nO ano come\u00e7ava sempre com o primeiro dia do m\u00eas lunar. Normalmente, o primeiro m\u00eas do ano coincidia com o in\u00edcio da primavera. O m\u00eas lunar come\u00e7ava sempre com a lua nova. O dia da lua nova era uma festa que contemplava o rito de alguns sacrif\u00edcios junto do templo (Nm 28, 11.15: \u00abNo primeiro dia dos meses, oferecereis um holocausto em honra do Senhor [\u2026] Este ser\u00e1 o holocausto do come\u00e7o do m\u00eas para cada m\u00eas do ano\u00bb).<br \/>\nN\u00e3o foi sempre f\u00e1cil fixar o in\u00edcio do m\u00eas. A juntar-se ao mau tempo, quando come\u00e7a o m\u00eas lunar, na lua nova, o sol encontra-se em conjun\u00e7\u00e3o com a lua, o que impossibilita a vis\u00e3o da mesma, e s\u00f3 se sabe que foi lua nova, no dia seguinte, ao ver a lua em quarto crescente, baixa no horizonte. Os pr\u00f3prios mu\u00e7ulmanos, ainda hoje, devem esperar a primeira lua crescente da lua nova para regular o calend\u00e1rio religioso e assim usam a observa\u00e7\u00e3o directa para estabelecer os in\u00edcios do m\u00eas e do ano.<br \/>\nPara determinar a data da P\u00e1scoa, os hebreus seguiam a lei mosaica (de Mois\u00e9s) estabelecida no \u00caxodo (12, 1-8), N\u00fameros (28, 16) e Lev\u00edtico (23, 5): \u00abNo d\u00e9cimo quarto dia do primeiro m\u00eas, ao crep\u00fasculo, \u00e9 a P\u00e1scoa do Senhor \u00bb. Assim, a d\u00e9cima quarta noite do primeiro m\u00eas equivale \u00e0 primeira lua cheia do ano, porque a lua cheia acontece sempre catorze dias depois da lua nova. Note-se que com esta defini\u00e7\u00e3o a festa da P\u00e1scoa n\u00e3o era para eles m\u00f3vel, mas sempre fixa no mesmo dia, do mesmo m\u00eas de cada ano. A escolha de qual m\u00eas fosse o primeiro do ano dizia respeito ao Sin\u00e9drio. Era ele a decidir da utilidade ou n\u00e3o de acrescentar um m\u00eas num dado ano.<br \/>\nDepois da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m no ano 70 d. C. e a consequente di\u00e1spora do povo hebraico, deixou de ser poss\u00edvel manter este sistema. Deixara de existir a autoridade de um templo que anunciasse o in\u00edcio dos meses e dos anos. Assim come\u00e7ou a usar-se o ciclo de Met\u00e3o de 19 anos, que j\u00e1 n\u00e3o era baseado na observa\u00e7\u00e3o directa da lua. Assim, toda a comunidade hebraica na di\u00e1spora poderia celebrar a P\u00e1scoa no mesmo dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Conte\u00fado do pr\u00f3ximo artigo: <em>O calend\u00e1rio crist\u00e3o<\/em> e <em>O calend\u00e1rio gregoriano<\/em>)<\/p>\n<p>Para saber mais:<br \/>\nConsolmagno, Guy (2009), \u201cL\u2019Infinitamente Grande, L\u2019Astronomia e il Vaticano\u201d, Citt\u00e0 del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.<br \/>\nM\u00e1ximo Ferreira e Guilherme de Almeida, (2004), \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Astronomia e \u00e0s observa\u00e7\u00f5es astron\u00f3micas\u201d, Lisboa: Pl\u00e1tano Editora.<br \/>\nMaffeo, Sabino (2001), \u201cLa Specola Vaticana \u2013 Nove Papi Una Missione\u201d, Citt\u00e0 del Vaticano: Pubblicazioni Della Specola Vaticana.<br \/>\nCarta de motu pr\u00f3prio Ut Mysticam a prop\u00f3sito da refunda\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do observat\u00f3rio do Vaticano de Le\u00e3o XIII de 14 de Mar\u00e7o de 1891, XIV do pontificado.<br \/>\nCasanovas, Juan S.J., \u201cDeterminaci\u00f3n de la Pascua\u201d, Rivista Liturgica, 2001.<br \/>\nConstitui\u00e7\u00e3o conciliar Sacrossanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia, (1963).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O calend\u00e1rio e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3591,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,93,13,94],"tags":[],"class_list":["post-3590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-de-olhos-no-ceu","category-olhares","category-pe-cristovao-cunha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3590"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3590\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3592,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3590\/revisions\/3592"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3591"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}