{"id":3561,"date":"2018-03-07T18:20:49","date_gmt":"2018-03-07T18:20:49","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=3561"},"modified":"2018-03-08T11:06:15","modified_gmt":"2018-03-08T11:06:15","slug":"phantom-thread-uma-linha-que-nao-se-conhece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/phantom-thread-uma-linha-que-nao-se-conhece\/","title":{"rendered":"Phantom Thread: uma linha que n\u00e3o se conhece"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h4>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Phantom Thread: uma linha que n\u00e3o se conhece<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Sete \u00e9 o n\u00famero da plenitude ou perfei\u00e7\u00e3o no mundo b\u00edblico, mas \u00e9 tamb\u00e9m o n\u00famero que calhou \u00e0 arte do cinema. Se fugirmos da poesia, ent\u00e3o a literatura \u00e9 muitas vezes menos \u201ccomposta\u201d, no sentido de menos amb\u00edgua e indefinida do que a arte cinematogr\u00e1fica. O final em aberto \u00e9 s\u00f3 uma das possibilidades\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se lermos Ant\u00f3nio Lobo Antunes, isso ser\u00e1 mentira; se virmos este \u201cLinha Fantasma\u201d, pode bem ser verdade. Quis a sorte benfazeja que o autor destas linhas revisse o \u201cPersona\u201d do sueco Ingmar Bergman a pouco mais de 24 horas deste (de Paul Thomas Anderson). S\u00e3o filmes marcantes os dois mas entende-se que Bergman leva a melhor (a composi\u00e7\u00e3o das imagens; a aud\u00e1cia da hist\u00f3ria!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O t\u00e3o apreciado ator Daniel Day Lewis encarna um j\u00e1 maduro criador de vestidos na Inglaterra dos anos 1950; chama-se Woodcock, \u00e9 g\u00e9nio meticuloso, alfaiate ex\u00edmio, artista de olho cl\u00ednico mas apaixonado, figura vulner\u00e1vel e neur\u00f3tica que existe em doses iguais de depend\u00eancia afetiva, ritualismo obsessivo, timidez irasc\u00edvel e exig\u00eancia desumana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas o arraial da sua personalidade \u00e9 discorrido de forma mais subtil que o par\u00e1grafo anterior: a sua depend\u00eancia emocional \u00e9 manifesta desde cedo mas o que predomina \u00e9 um certo charme e eleg\u00e2ncia. A compostura do ator \u00e9 perfeita e constante e serve o prop\u00f3sito de cada momento: \u00e9 tudo muito contido, como se espera de um brit\u00e2nico (o personagem, n\u00e3o o ator).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em concreto, trabalhando \u00e0 mesa do pequeno-almo\u00e7o, aborrece-se com a comida e exprime-o verbalmente. Ao ser acolhido de forma n\u00e3o servil na sua queixa, faz pouco mais do que dizer que n\u00e3o pode dispor da energia necess\u00e1ria para um confronto (\u201cn\u00e3o tenho, simplesmente, tempo para confrontos agora\u201d). As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o geridas com pulso de ferro portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ela chama-se simplesmente Alma, numa simbologia que \u00e9 menos imediata para os angl\u00f3fonos do que para n\u00f3s. \u00c9 descoberta quando serve \u00e0 mesa, de forma algo desajeitada. O retomar do tema do irresist\u00edvel e inexplic\u00e1vel fasc\u00ednio que o tosco e a desordem exercem sobre o seu oposto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A protagonista feminina funciona por contraste: apresenta-se com a espontaneidade, a falta de jeito dos jovens; n\u00e3o recebeu educa\u00e7\u00e3o digna desse nome mas n\u00e3o se penitencia por isso; n\u00e3o exprime as suas emo\u00e7\u00f5es em frases labir\u00ednticas; n\u00e3o abdica da dentada na torrada e n\u00e3o concebe um mundo sem dan\u00e7a e alegria. Ela n\u00e3o \u00e9 sofisticada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A oper\u00e1ria cara bonita ser\u00e1 a nova musa, a mais recente bela a ser promovida \u00e0 vida na mans\u00e3o no topo da colina: ser\u00e1 a sua hist\u00f3ria semelhante \u00e0 das anteriores? Brilhar\u00e1 incandescente durante um certo tempo para desaparecer a seguir, sem gl\u00f3ria e sem heran\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A grande mudan\u00e7a que com que nos vai presentear \u00e9 a de que sabe que quem deve mudar n\u00e3o \u00e9 ela. Porque Alma \u00e9 resistente e vai lutar para realizar esse ponto nevr\u00e1lgico mas t\u00e3o esquecido do eterno feminino: a mulher gere o marido (a esposa \u00e9 a segunda m\u00e3e: \u00e9 incontorn\u00e1vel!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o: o que restar\u00e1 da colis\u00e3o de duas entidades de natureza t\u00e3o diferente? Poder\u00e3o retomar o rumo em vista ao seu termo ou desintegrar-se-\u00e3o com tal impacto? Em caso de sobreviv\u00eancia, o que ficar\u00e1 comprometido doravante? O milagre \u00e9 serem-nos dadas a ver todas as possibilidades: estes opostos sondar-se-\u00e3o como dois pistoleiros na hora do duelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diz-se que P.T.A. (Paul Thomas Anderson) n\u00e3o segue as conven\u00e7\u00f5es do cinema e prefere seguir o seu percurso pessoal. Vendo este \u201cA Linha Fantasma\u201d percebe-se que a frase tem de ser lida com cuidado: a caracteriza\u00e7\u00e3o dos personagens e a sua subsequente desconstru\u00e7\u00e3o denunciam um esp\u00edrito que (se tornou) reverente da tradi\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is com tra\u00e7os imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O equil\u00edbrio entre a est\u00e9tica visiva e o <em>glamour<\/em> de um lado e a viol\u00eancia que lampeja aqui e ali no incontido dos protagonistas de outro n\u00e3o deixa margem para d\u00favidas: \u00e9 necess\u00e1rio olhar para al\u00e9m da apar\u00eancia. Esse olhar \u00e9 \u00f3bvio na sequ\u00eancia deliciosa em que uma aristocrata madura bombardeia Reynolds com a pr\u00f3pria inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa senhora carrega todos com o fardo da sua vaidade (muito) injustificada: ter\u00e1 um vestido Woodcock para o matrim\u00f3nio com a sua mais recente paix\u00e3o mas arruinar\u00e1 a sua festa. As qualidades de Alma v\u00e3o valer-lhe muitos pontos mas o que interessa \u00e9 que se denunciou a podrid\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Recheado destas subtilezas, o filme prop\u00f5e o jogo do predador e da presa: algu\u00e9m circunda, algu\u00e9m amea\u00e7a, mas quem \u00e9 quem? Tal como em \u201cPersona\u201d, redefine-se o que \u00e9 o querer bem e o que \u00e9 submiss\u00e3o desumana; a partir de que momento se deve falar de escravatura? O que \u00e9 permitido nesse c\u00f3digo ainda n\u00e3o decifrado a que chamamos amor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De referir que tamb\u00e9m no outro tratado sobre estas coisas (<em>Persona<\/em>), o personagem mais puro do duelo chama-se Alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3575,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-3561","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3561","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3561"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3561\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3565,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3561\/revisions\/3565"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3575"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3561"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3561"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3561"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}