{"id":3246,"date":"2018-01-21T17:14:35","date_gmt":"2018-01-21T17:14:35","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=3246"},"modified":"2018-01-21T17:14:35","modified_gmt":"2018-01-21T17:14:35","slug":"filme-a-mae-de-aronofsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/filme-a-mae-de-aronofsky\/","title":{"rendered":"Filme &#8216;A M\u00e3e!&#8217;, de Aronofsky"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h6>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><em>A M\u00e3e!<\/em> de Aronofsky<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O cinema de autor segue as suas pr\u00f3prias regras; s\u00e3o realizadores que n\u00e3o se dobram \u00e0 vontade de ningu\u00e9m e seguem as suas pr\u00f3prias intui\u00e7\u00f5es. Como seria de esperar, os filmes que da\u00ed resultam n\u00e3o costumam agradar a todos os gostos e as reac\u00e7\u00f5es s\u00e3o imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Darren Aronofsky nunca hesitou; as \u00e1reas mais rec\u00f4nditas e tenebrosas da alma humana precisam de ser arrastadas para a pra\u00e7a p\u00fablica. Foi assim em \u201cA vida n\u00e3o \u00e9 um sonho\u201d, \u201cO Wrestler\u201d, \u201co Cisne Negro\u201d e at\u00e9, v\u00e1 l\u00e1, o estranho \u00e9pico b\u00edblico \u201cNo\u00e9\u201d. Ou seja, passa-se sempre algo de estranho com as pessoas.<\/p>\n<p>O seu \u201cM\u00e3e!\u201d, datado de 2017, confirma parte destas observa\u00e7\u00f5es: \u00e9 um filme que choca os desavisados, n\u00e3o segue padr\u00f5es definidos (\u00e9 um drama? \u00c9 um thriller? \u00c9 um filme de terror? \u00c9 uma obra conceptual?) e discorre em tantas abstra\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m o pode ler \u00e0 letra.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 simples: um casal vive numa casa rec\u00f4ndita; ele \u00e9 escritor, ela recuperou a casa de um grande inc\u00eandio e ama o seu marido; ele atravessa uma fase de pouca inspira\u00e7\u00e3o; come\u00e7a a convidar estranhos para a casa sem ter em conta a sensibilidade da esposa.<\/p>\n<p>Come\u00e7am a\u00ed os problemas: a casa tem mist\u00e9rios sobrenaturais, os convidados perturbam a paz dom\u00e9stica e de que maneira, o marido parece outro e, quando o desejado beb\u00e9 nasce, por pouco n\u00e3o acaba o mundo. Disto consiste esta reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria da humanidade\u2026 seguindo n\u00e3o menos que a B\u00edblia.<\/p>\n<p>As conclus\u00f5es teol\u00f3gicas de Arronofsky n\u00e3o s\u00e3o simples passerelle de argumentos em favor do Ate\u00edsmo: s\u00e3o uma dramatiza\u00e7\u00e3o caricatural da hist\u00f3ria de Deus com os homens. Se as retic\u00eancias sobre o divino j\u00e1 se viam em \u201cNo\u00e9\u201d, aqui passam a manifesto; n\u00e3o fica pedra sobre pedra.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para se dar o filme por perdido: afinal, a liberdade de express\u00e3o \u00e9 um valor cada vez mais necess\u00e1rio. E n\u00e3o \u00e9 o cinema a f\u00e1brica de sonhos? Se algu\u00e9m quiser sonhar um mundo sem Deus, porque raz\u00e3o h\u00e1-de coibir-se de o fazer? Para agradar assim a um grupo a que n\u00e3o pertence?<\/p>\n<p>Parece, ali\u00e1s, mais correto que os crentes aceitem que existem outras opini\u00f5es e deixem seguir o barco. Para os efeitos da presente cr\u00f3nica, a necessidade \u00e9 outra de resto: aferir da qualidade da obra em quest\u00e3o, definir crit\u00e9rios objetivos que ajudem os leitores a fazer uma escolha est\u00e9tica (vale ou n\u00e3o apena ver?).<\/p>\n<p>\u201cM\u00e3e!\u201d dirige-se \u00e0 faixa et\u00e1ria pr\u00e9-maturidade; o uso dos truques sonoros para assustar os distra\u00eddos e os adormecidos n\u00e3o deixa d\u00favidas (a no\u00e7\u00e3o de que filmar algu\u00e9m pelas costas produz medo n\u00e3o \u00e9 falsa mas conv\u00e9m n\u00e3o abusar). O filme n\u00e3o \u00e9 filos\u00f3fico; n\u00e3o tem um sistema de ideias organizadas a propor\u2026 mas esse defeito s\u00f3 o torna mais acess\u00edvel para as massas.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema que o filme cria a si pr\u00f3prio \u00e9 outro: embrenha-se tanto no querer falar num segundo plano que tudo se torna rid\u00edculo no primeiro plano. \u00c9 uma hist\u00f3ria sem sentido e\u2026 n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel. \u00c9 como ver um toiro na pra\u00e7a que destr\u00f3i tudo o que lhe p\u00f5em diante mas n\u00e3o faz nada que fique no olho.<\/p>\n<p>Que o diga a atriz Jennifer Lawrence: um filme inteiro em que simula sem cessar suspiros pesados, surpresas desagrad\u00e1veis, horror e asco, pasmo e solid\u00e3o existencial, incompreens\u00e3o e ang\u00fastia aos n\u00edveis de uma tortura, uma catadupa de campos de batalha, entre proj\u00e9teis e soldados, fugas que se revelam trai\u00e7oeiras\u2026 e um relativo canibalismo, se assim se pode dizer.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme autot\u00e9lico: tem-se a si mesmo como o grande fim a atingir e sacrifica tudo e todos, como um estudante que cabula mas denuncia os outros. Poderia ter feito sensa\u00e7\u00e3o entre a massa estudantil mais cr\u00edtica\u2026 poderia ter sido tema de conversa dos que gostam de questionar ideias estabelecidas.<\/p>\n<p>Preferiu deixar-se consumir pelo fogo que devia ser o seu fulgor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3249,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,90,13,86],"tags":[],"class_list":["post-3246","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores-ii","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3246"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3246\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3247,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3246\/revisions\/3247"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3249"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}