{"id":307,"date":"2017-03-25T15:26:50","date_gmt":"2017-03-25T15:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=307"},"modified":"2017-08-01T16:48:40","modified_gmt":"2017-08-01T15:48:40","slug":"o-plano-inclinado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/o-plano-inclinado\/","title":{"rendered":"O plano inclinado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>\nWalter Osswald (Texto)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nio Bracons (Foto)<em> fasciniodafotografia.wordpress.com \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>As recorda\u00e7\u00f5es que<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-205 alignleft\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Prof-Walter-Osswald_CROP-1024x754.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"172\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Prof-Walter-Osswald_CROP-1024x754.jpg 1024w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Prof-Walter-Osswald_CROP-300x221.jpg 300w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Prof-Walter-Osswald_CROP-768x565.jpg 768w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Foto-Prof-Walter-Osswald_CROP-407x300.jpg 407w\" sizes=\"auto, (max-width: 234px) 100vw, 234px\" \/> do estudo secund\u00e1rio me deixou o plano inclinado n\u00e3o s\u00e3o agrad\u00e1veis; nas aulas de F\u00edsica servia para elabora\u00e7\u00e3o de problemas que me deixavam sempre perturbado: com um \u00e2ngulo de X graus, um plano \u00e9 percorrido por uma esfera em y minutos, e agora trata-se de calcular isto ou aquilo, etc.<\/p>\n<p>Ora, o plano inclinado surge-nos, agora de forma metaf\u00f3rica, quando reflectimos sobre quest\u00f5es \u00e9ticas relacionadas com a vida. O que nos dizem os proponentes desta imagem \u00e9 que tudo \u00e9 proposto como excepcional, restrito, rodeado de cautelas e regras, para depois se irem diluindo as restri\u00e7\u00f5es, desaparecendo os obst\u00e1culos e alargando-se o \u00e2mbito da medida, de modo por acabar por se tornar largamente autorizada e praticada.<\/p>\n<p>O exemplo cl\u00e1ssico desta rampa escorregadia ou plano inclinado \u00e9 oferecido pela eutan\u00e1sia praticada na Alemanha nazi entre 1938 e 1942, como ac\u00e7\u00e3o precursora do holocausto da popula\u00e7\u00e3o europeia judaica. De facto, inicialmente \u201cs\u00f3\u201d eram sujeitas a eutan\u00e1sia as crian\u00e7as gravemente deficientes, incur\u00e1veis, portadoras de doen\u00e7a gen\u00e9tica n\u00e3o trat\u00e1vel; em breve o mortic\u00ednio estendeu-se aos adultos em circunst\u00e2ncias an\u00e1logas, que \u201cviviam uma vida indigna de ser vivida\u201d. Note-se que este conceito fora criado pelos famosos professores universit\u00e1rios Binding e Hoche, autores de um livro cujo t\u00edtulo expressamente o refere, livro esse que teve enorme popularidade e \u00e9 certamente uma das obras maiores de suporte da eutan\u00e1sia. Ou seja, come\u00e7a-se com a morte provocada a alguns milhares de deficientes para se desembocar no exterm\u00ednio de milh\u00f5es, cuja patologia \u00fanica era a de pertencerem a uma ra\u00e7a condenada.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m entre n\u00f3s se assistiu a uma flagrante situa\u00e7\u00e3o de plano inclinado ou rampa escorregadia, na quest\u00e3o do abortamento. Recordamo-nos todos de que foi apresentado como meio de combater o aborto clandestino, uma chaga social e um problema de sa\u00fade p\u00fablica. Por isso, s\u00f3 seriam descriminalizadas circunst\u00e2ncias excepcionais (presen\u00e7a de doen\u00e7a grave e incur\u00e1vel do feto, gravidez resultante de viola\u00e7\u00e3o, doen\u00e7a grave da m\u00e3e provocada pela gesta\u00e7\u00e3o). Lembram-se? Agora, como sabemos, a sobrevida do feto depende da vontade da mulher, os prazos dilu\u00edram-se e, desde a disponibiliza\u00e7\u00e3o do abortamento qu\u00edmico, as pr\u00f3prias estat\u00edsticas oficiais deixaram de ser minimamente fi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 eutan\u00e1sia. O que os seus proponentes mansamente anunciam \u00e9 a sua descriminiliza\u00e7\u00e3o em circunst\u00e2ncias (mais uma vez) excepcionais: em situa\u00e7\u00f5es terminais, de insuport\u00e1vel sofrimento, ap\u00f3s insistente pedido formulado pelo pr\u00f3prio, avaliado pelo menos por dois m\u00e9dicos, com exclus\u00e3o de doen\u00e7a ps\u00edquica do requerente. Ora bem, foi assim na Holanda, na B\u00e9lgica e no Luxemburgo, os tr\u00eas \u00fanicos pa\u00edses do mundo em que a eutan\u00e1sia se encontra legalizada. Foi assim, h\u00e1 uma d\u00fazia de anos \u2013 mas agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim, por terem sido introduzidas altera\u00e7\u00f5es sucessivas, no sentido de remover restri\u00e7\u00f5es, de simplificar o processo, de suprimir penaliza\u00e7\u00f5es por incumprimento. Desta forma, j\u00e1 temos eutan\u00e1sia de crian\u00e7as e dementes, n\u00fameros que escapam \u00e0 estat\u00edsticas oficiais (5 a 10% de todas as mortes?) e uma muito consider\u00e1vel franja de eutan\u00e1sias involunt\u00e1rias, isto \u00e9, que n\u00e3o foram solicitadas pelo doente e que se calcula possam constituir um quinto de todas as mortes por eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p>Perante isto, como argumentar que o plano inclinado ou a rampa escorregadia s\u00e3o falsos argumentos, inventados para assustar a opini\u00e3o p\u00fablica e difamar os proponentes da eutan\u00e1sia? Infelizmente, trata-se de realidades incontest\u00e1veis e o \u00fanico modo de as evitar \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o total e coerente a toda e qualquer tentativa de descriminaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walter Osswald (Texto)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":308,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,72,13,14,58],"tags":[],"class_list":["post-307","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-bioetica-e-sociedade","category-olhares","category-temas-para-debate","category-walter-osswald"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=307"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":358,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307\/revisions\/358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}