{"id":2860,"date":"2017-12-16T14:54:20","date_gmt":"2017-12-16T14:54:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=2860"},"modified":"2017-12-28T18:56:48","modified_gmt":"2017-12-28T18:56:48","slug":"filme-se-deus-quiser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/filme-se-deus-quiser\/","title":{"rendered":"Filme &#8220;Se Deus quiser&#8221;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211; Rubrica de Cinema\u00a0<\/em><\/h6>\n<h3 style=\"text-align: center;\">\u201cSe Deus quiser\u201d<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\">Pe. Teodoro Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes acontece? Lemos uma recens\u00e3o a um filme, \u00e0 espera de perceber que tipo de filme \u00e9, e ficamos na mesma ou pior. O articulista discorre sobre isto e sobre aquilo, sobre este ou aquele realizador, tece considera\u00e7\u00f5es doutas que pecam porque fora de contexto mas parecem assegurar-nos de que ele sabe tudo sobre cinema (pena que n\u00e3o nos indiquem que viu o filme em quest\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lembra o velho ad\u00e1gio: \u201co senhor padre fala muito bem\u2026 tem palavras t\u00e3o caras que n\u00e3o percebi nada do que ele disse!\u201d Afinal cinema e religi\u00e3o s\u00e3o fen\u00f3menos sociologicamente semelhantes, at\u00e9 nas pol\u00e9micas com que nos presenteiam. Basta pensar na separa\u00e7\u00e3o entre cinema especializado e cinema popular: n\u00e3o ser\u00e1 essa a grande quest\u00e3o religiosa deste pontificado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A s\u00e9tima arte conhece um aut\u00eantico cisma, quase doloroso, entre a arte pela arte e a que o p\u00fablico em geral consome e defende. De um lado est\u00e3o os cr\u00edticos de carreira, apostados na descoberta do \u00faltimo g\u00e9nio, do \u00faltimo grito da moda ou contra-moda; do outro est\u00e3o os adolescentes de todas as idades, \u00e0 espera dos \u00faltimos efeitos especiais feitos ao computador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estas reflex\u00f5es s\u00e3o prementes ao comentar o filme italiano \u201cSe Deus quiser\u201d, exibido em Portugal neste ano de 2017. Trata-se da primeira realiza\u00e7\u00e3o do romano Edoardo Maria Falcone, mais habituado a escrever est\u00f3rias do que a film\u00e1-las. A cr\u00edtica portuguesa institucional recebeu-o com um encolher de ombros e o esgar de desprezo com que se recebe um primo que fugiu de casa aos 14 anos para se dedicar \u00e0 coca\u00edna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mal impressionado, o abaixo-assinado farejou uma banhada monumental e recolheu ao seu abrigo. At\u00e9 que foi aconselhado a v\u00ea-lo e o fez. A premissa \u00e9 simples: pai ateu entra em crise quando o seu \u00fanico filho rapaz decide tornar-se padre. Sendo uma com\u00e9dia, os riscos s\u00e3o maiores: piadas imediatas sem gosto e um final feliz que estivesse para o previs\u00edvel como o martelo pneum\u00e1tico est\u00e1 para o bet\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A surpresa \u00e9 que a com\u00e9dia o \u00e9 sem nos puxar as orelhas a cada minuto: o humor \u00e9 muitas vezes mordaz e inesperado; os personagens t\u00eam os p\u00e9s no ch\u00e3o e nunca se transformam em caricaturas, na sua maioria; o arco narrativo d\u00e1 espa\u00e7o a emo\u00e7\u00e3o e a ironias de situa\u00e7\u00e3o subtis, incluindo o desfecho. E sente-se uma leveza, uma dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao tema que afirma o olhar assumido como valioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c0 boa maneira das antigas com\u00e9dias, h\u00e1 pequenas li\u00e7\u00f5es morais aqui e ali; um pequeno problema serve para apontar a outros mais graves que o protagonista n\u00e3o v\u00ea sequer; as pistas de investiga\u00e7\u00e3o que alimentavam a d\u00favida t\u00eam uma explica\u00e7\u00e3o mais simples; existe o amor familiar e o seu poder para transformar as pessoas, sobretudo a partir das suas quedas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o se trata de uma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica; n\u00e3o estamos perante uma reviravolta na forma de fazer cinema; a realiza\u00e7\u00e3o padece mesmo de um certo esquematismo, de um certo \u201cfazer bem feitinho\u201d \u00e0 americana. Mas n\u00e3o o faz sem dar espa\u00e7o a uma certa eleg\u00e2ncia; abre o tapete \u00e0quela sabedoria dos antigos, ao primado do conte\u00fado sobre o meio e \u00e0quela viv\u00eancia (t\u00e3o de cinema!) da emo\u00e7\u00e3o que inebria o arrazoar (e o torna mais humano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Marco Giallini \u00e9 o ator que corporiza o m\u00e9dico-cirurgi\u00e3o ateu: tratando-se de um ator muito conhecido em It\u00e1lia, a escolha seria sempre acertada, do ponto de vista do <em>marketing.<\/em> A sua capacidade de fazer o mais dif\u00edcil (faz-se de nervoso sem se enervar) \u00e9 talvez o seu maior valor. O padre, por sua vez (Alessandro Gassman), \u00e9 pouco veros\u00edmil ao in\u00edcio mas a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo essa. De resto, o ator n\u00e3o tem culpa de que a edi\u00e7\u00e3o das imagens (de forma culp\u00e1vel) n\u00e3o o privilegie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Alguns dos personagens secund\u00e1rios brilham, como a esposa de Tommaso ou mesmo o seu genro idiota. \u00c9 justo reconhecer que figurantes como a empregada dom\u00e9stica e a do hospital aproveitam muito bem o pouco tempo que lhes \u00e9 dado. A elas pertencem alguns dos momentos mais engra\u00e7ados do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em resumo: n\u00e3o vai destronar \u201cCitizen Kane\u201d do seu pedestal cr\u00edtico mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um filme filos\u00f3fico, daqueles que acenam a nomes de gente importante e depois n\u00e3o fazem nada com eles. Sim, pode-se dizer \u201cj\u00e1 vimos isto antes mas mais bem feito\u201d, como garantem certas vozes especializadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cSe Deus quiser\u201d parece prometer pouco e cumprir ainda menos, enquanto obra-prima de vanguarda (e porque h\u00e1-de ser esse o \u00fanico crit\u00e9rio, algu\u00e9m nos explica?). O certo \u00e9 que evita os lugares comuns estafados e \u00e9 melhor do que muita coisa que andamos a ver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;8 1\/2&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2933,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[87,46,13,86],"tags":[],"class_list":["post-2860","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8-1-2-rubrica-de-cinema","category-autores","category-olhares","category-pe-teodoro-medeiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2860"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2891,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2860\/revisions\/2891"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2933"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}