{"id":247,"date":"2017-03-07T10:25:17","date_gmt":"2017-03-07T10:25:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=247"},"modified":"2017-05-19T14:05:02","modified_gmt":"2017-05-19T14:05:02","slug":"como-pensar-deus-trinitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/como-pensar-deus-trinitario\/","title":{"rendered":"Como pensar Deus trinit\u00e1rio?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Podia Deus n\u00e3o ser uma comunidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Alexandre-Palma.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"524\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Alexandre-Palma.jpg 350w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Alexandre-Palma-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A Trindade \u00e9 um mist\u00e9rio: mas podemos falar disso<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Alexandre Palma<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Editora Paulinas | 2014 | 206 p\u00e1ginas<\/p>\n<p>Este \u00e9 um livro corajoso. Os tempos n\u00e3o est\u00e3o f\u00e1ceis para quem se aventura na discuss\u00e3o sobre a natureza de Deus, em tempos que parecem j\u00e1 nem sequer questionar a possibilidade de Deus existir. Mas o curioso deste livro \u00e9 que a f\u00e9 em Deus Trindade n\u00e3o \u00e9 aqui apenas mat\u00e9ria de uma discuss\u00e3o sobre a natureza de Deus, mas sobre a pr\u00f3pria natureza da Natureza. O autor prop\u00f5e-se seguir um processo que chegue ao mist\u00e9rio da Trindade constatando que a natureza \u00e9 toda ela dial\u00f3gica, intercomunicacional, sendo que, se de nada nada vem, ent\u00e3o esta condi\u00e7\u00e3o comunicacional das criaturas ter\u00e1 de denunciar a sua proveni\u00eancia. O esfor\u00e7o que o autor se prop\u00f5e fazer visa encontrar uma plataforma que torne entend\u00edvel pelos que n\u00e3o sejam crentes a coer\u00eancia do discurso crist\u00e3o. \u00abO exerc\u00edcio \u00e9 este: ousar pensar como se a Trindade existisse (etsi Trinitas daretur). Talvez assim se (re)descubra o que \u00e9 isso de Deus ser uno e trino, mas como uma relevante chave de leitura do que somos n\u00f3s e do que \u00e9 o mundo\u00bb. E essa chave de leitura \u00e9 feita partindo da experi\u00eancia que todos fazemos de que estamos em liga\u00e7\u00e3o uns com os outros. Tudo interage, tudo se relaciona, tudo existe em virtude dos outros. Em Deus, essa intera\u00e7\u00e3o que se faz enquanto encontro de identidades que s\u00f3 s\u00e3o na medida em que se unem \u00e9 infinita. E \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o em que uno e m\u00faltiplo coexistem. Como na natureza, em que tal \u00e9 sucessivo, por motivo da finitude da cria\u00e7\u00e3o, mas que em Deus \u00e9 simult\u00e2neo. Somos, na medida em que somos com os outros. Deus \u00e9 a origem dessa condi\u00e7\u00e3o que a nossa experi\u00eancia nos mostra ser a nossa condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de existirmos. S\u00f3 existimos em virtude dos outros. Sem eles, era impens\u00e1vel a nossa exist\u00eancia. Esta experi\u00eancia que todos fazemos da necessidade do outro, da alteridade como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de emerg\u00eancia da identidade cria-nos o terreno f\u00e9rtil para o reconhecimento da legitimidade da f\u00e9 num Deus Uno-Trino. Fazemos, assim, um percurso ascendente, a que se sucede, no pensamento de Alexandre Palma, um segundo percurso, de sentido inverso.<\/p>\n<p>Para compreender esse segundo percurso, \u00e9 necess\u00e1rio pressupor a ideia, sustentada por Romano Guardini, de que \u00abquem sabe de Deus conhece o homem\u00bb. Descobrir a natureza trinit\u00e1ria de Deus significa, ent\u00e3o, num segundo momento, entender que o limite, aquilo a que a linguagem religiosa chama \u00abpecado\u00bb, \u00e9 o fechamento da cria\u00e7\u00e3o em si mesma, a anula\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o da alteridade.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil compreender, \u00e0 luz desta s\u00edntese, que a coragem que assistiu \u00e0 cria\u00e7\u00e3o desta obra saiu compensada. N\u00e3o ser\u00e1 excessivo concluir que urge reconquistar a consci\u00eancia da natureza trinit\u00e1ria de Deus como condi\u00e7\u00e3o para a salvaguardar da diversidade, da alteridade, da humanidade, na sua condi\u00e7\u00e3o de ser-com-os-outros, de cujo dinamismo participa toda a cria\u00e7\u00e3o. Uma tal descoberta ter\u00e1, necessariamente, de inaugurar uma outra leitura ecol\u00f3gica e antropol\u00f3gica, na senda, ali\u00e1s, do que sempre procuraram salvaguardar os dogmas crist\u00e3os: que a condi\u00e7\u00e3o humana se faz na tens\u00e3o entre o agora e o ainda n\u00e3o, entre o ser e o ainda n\u00e3o ser, entre o eu e o tu, sendo que, quando se perdeu esta tens\u00e3o, por sobreposi\u00e7\u00e3o de alguma das dimens\u00f5es, ent\u00e3o, o pr\u00f3prio humano esteve em risco. O dogma crist\u00e3o sempre se situou neste dif\u00edcil equil\u00edbrio. O que o torna t\u00e3o exigente, mas tamb\u00e9m t\u00e3o desafiante.<\/p>\n<p>Um livro para ler e reler\u2026 Pois podemos falar do que se considerava um enigma e, afinal, \u00e9 mist\u00e9rio. Porque mist\u00e9rio \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de uma realidade t\u00e3o rica que podemos abord\u00e1-la sabendo que sempre algo nos transcende e, por isso, interpela a continuar a procurar.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio crist\u00e3o n\u00e3o pode aquietar, antes inquietar. Podemos falar disso e n\u00e3o estamos impedidos, contra todos os que teimam em fazer do dogma crist\u00e3o um discurso fechado ou retido na bruma do tempo. Do dogma ter\u00e1 de resultar vida, sob pena de ser letra que, por ser sem significado para o homem que a l\u00ea, tornar\u00e1 a f\u00e9 insignificante. E essa \u00e9 a genialidade desse livro: renovar a vida que o dogma protege. De tal modo assim \u00e9 que o t\u00edtulo do livro poderia ser, na contracapa, ap\u00f3s toda a leitura feita, \u00abA Trindade \u00e9 um mist\u00e9rio, raz\u00e3o pela qual podemos falar disso\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Podia Deus n\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":430,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,46,9,55],"tags":[],"class_list":["post-247","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-autores","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":429,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247\/revisions\/429"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/430"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}