{"id":2301,"date":"2017-10-13T19:07:59","date_gmt":"2017-10-13T18:07:59","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=2301"},"modified":"2017-10-13T19:07:59","modified_gmt":"2017-10-13T18:07:59","slug":"rosto-de-misericordia-armanda-couto-nogueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/rosto-de-misericordia-armanda-couto-nogueira\/","title":{"rendered":"Rosto de miseric\u00f3rdia: Armanda Couto Nogueira"},"content":{"rendered":"<p><em>ROSTO DE MISERIC\u00d3RDIA<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>ARMANDA COUTO NOGUEIRA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Pe. Georgino Rocha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Armanda Couto Nogueira (no texto designada por Armanda) nasce em Veiros, Estarreja,\u00a0a 2 de Mar\u00e7o de 1929, no seio de uma fam\u00edlia arreigadamente crist\u00e3. O pai \u00e9 moliceiro de profiss\u00e3o e a m\u00e3e dom\u00e9stica, e marcam profundamente a forma\u00e7\u00e3o da sua filha. O ambiente da ria e as lides do campo, as ora\u00e7\u00f5es do lar e as devo\u00e7\u00f5es populares, as pr\u00e1ticas religiosas e as festas da par\u00f3quia, penetram e habitam no seu cora\u00e7\u00e3o, como seiva revigorante e fonte de irradia\u00e7\u00e3o, moldam o seu jeito de estar na vida e de reagir ao que vai sucedendo. A evolu\u00e7\u00e3o social traz-lhe elementos novos que s\u00e3o desafios a acolher e oportunidades a aproveitar. Vem a falecer, ap\u00f3s doen\u00e7a prolongada, no dia 20 de Setembro de 2017. Tem uma vida longa que a faz ser testemunha e, por vezes, protagonista de factos relevantes, de enorme alcance hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diocese de Aveiro vem a ser restaurada, em 1938, e integra a par\u00f3quia de S\u00e3o Bartolomeu de Veiros, at\u00e9 a\u00ed pertencente \u00e0 diocese do Porto. O arcebispo Lima Vidal introduz progressivamente normas disciplinares adequadas \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o e geradoras da unidade, pois havia par\u00f3quias procedentes do Porto, de Viseu e de Coimbra. Promove iniciativas de vulto como o S\u00ednodo diocesano, os Congressos Arciprestais Eucar\u00edsticos (tamb\u00e9m em Estarreja), a visita da Imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima. A sociedade civil vive uma fase de progressiva normaliza\u00e7\u00e3o, iniciada com a revolu\u00e7\u00e3o de 1926 e consolidada pela implanta\u00e7\u00e3o do Estado Novo, onde impera a figura de Oliveira Salazar. Outros factos acontecem e repercutem-se por todo o pa\u00eds, proporcionando um clima social prop\u00edcio ao desenvolvimento na regi\u00e3o de Estarreja. A n\u00edvel da educa\u00e7\u00e3o\/escola, da ind\u00fastria, da agricultura e de trabalhos na ria, do apostolado paroquial e da forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Armanda vai escrevendo as p\u00e1ginas do livro da sua vida ao ritmo do tempo onde, de forma surpreendente, surgem por vezes factos marcantes que indicam rumos novos e abrem horizontes de esperan\u00e7a. Vamos registar alguns, integrando nesta mem\u00f3ria dados preciosos que Victor Bandeira me proporcionou e outras fontes a que tive f\u00e1cil acesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Habitat natural<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veiros situa-se numa zona rural e ribeirinha. Ao longo dos s\u00e9culos e conhecida, sobretudo, pelas suas esteiras de bunho, pelo seu linho, pelas suas festas e romarias, pela apanha do moli\u00e7o, pelo mercado de v\u00e1rios g\u00e9neros (que se realizava em frente \u00e0 Igreja Matriz), mas principalmente pela sua cebola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo e a ria abra\u00e7am-se no cora\u00e7\u00e3o dos seus habitantes. A sua beleza natural aliada \u00e0 bondade da popula\u00e7\u00e3o desperta a aten\u00e7\u00e3o de pessoas que demandam paisagens novas, ex\u00f3ticas, cheias de luz e cor, de sol e maresia, de encanto e poesia, da suavidade do clima e da atrac\u00e7\u00e3o da ria na leveza da sua ondula\u00e7\u00e3o e na exuber\u00e2ncia do seu habitat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u201cbot\u00e3o de mostra\u201d, valha a apresenta\u00e7\u00e3o \u00abPercurso\u00a0das Ribeiras de Veiros\u00bb tirada do portal da Bioria:Com o in\u00edcio na Ribeira Nova, este percurso passa pelas v\u00e1rias Ribeiras de Veiros (Nova, Veiros, Moitela, Tralhinha e Moita), terminando no hist\u00f3rico Esteiro de Estarreja que foi no s\u00e9culo passado o segundo maior porto de Sal da Ria de Aveiro. Ao longo dos cerca de 7 km atravessa canais, valas e esteiros, sapais, juncais e cani\u00e7ais, campos agr\u00edcolas, \u00e1reas com pequenos bosques que brotam na proximidade das marinhas, pertencentes a um ecossistema que alberga esp\u00e9cies \u00fanicas de fauna e flora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dar-lhe um tom humano de nova dimens\u00e3o, est\u00e1 a religiosidade profunda da popula\u00e7\u00e3o vivida no santu\u00e1rio dos lares, festejada nas capelas sob a invoca\u00e7\u00e3o dos Santos protectores e celebrada na igreja paroquial de S\u00e3o Bartolomeu. Religiosidade que tem os seus avan\u00e7os e recuos, mas sempre com fortes ra\u00edzes na piedade popular, realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista \u00e9 o Esp\u00edrito Santo (Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, n\u00ba 122).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vida ao servi\u00e7o do pr\u00f3ximo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Solteira por op\u00e7\u00e3o, torna-se fecunda no servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo, na doa\u00e7\u00e3o generosa e ajuda constante \u00e0s pessoas necessitadas, sobretudo a crian\u00e7as e jovens. Esta rela\u00e7\u00e3o de ajuda n\u00e3o \u00e9 de substitui\u00e7\u00e3o, mas de educa\u00e7\u00e3o de atitudes e promo\u00e7\u00e3o de capacidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a a trabalhar na Escola das Cabe\u00e7as por volta de 1965 e reforma-se quando atinge o limite de idade em 1999, aos 70 anos. Sempre como cont\u00ednua que cuida do servi\u00e7o auxiliar, mas sobretudo das crian\u00e7as que trata como aut\u00eantica m\u00e3e e aos pais que lhe demandam alguma informa\u00e7\u00e3o. Quantas gera\u00e7\u00f5es lhe \u201cpassaram\u201d pelas m\u00e3os, aqui e na catequese paroquial ou familiar, pois muitas vezes prolongava em sua casa a rela\u00e7\u00e3o educativa com elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era realmente uma &#8220;mestra&#8221;, afirma Victor Bandeira. \u201cMuitas coisas novas que vinham para Veiros, era ela que as trazia por conhecer tanta gente em tantos lugares da diocese, promovendo cursos de puericultura para as jovens de Veiros, cursos de culin\u00e1ria, costura, etc. Promovia a forma\u00e7\u00e3o humana a muitos n\u00edveis\u201d. E evangelizava a f\u00e9 dos \u201csimples\u201d (D. Ant\u00f3nio Marto, bispo de Leiria-F\u00e1tima).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entrega por inteiro \u00e0 Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na par\u00f3quia e na Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica ou em outros movimentos de apostolado, na Igreja diocesana e nas grandes iniciativas pastorais, a Armanda marca presen\u00e7a qualificada e d\u00e1 o seu valioso contributo. \u201cTrabalhou de perto junto dos v\u00e1rios bispos, e eles tratavam-na pelo nome, eles conheciam-na bem, e atribu\u00edram-lhe grandes servi\u00e7os na Igreja Diocesana\u201d, refere o testemunho de Victor Bandeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos servi\u00e7os \u00e9 de animadora dos grupos sinodais na par\u00f3quia. De facto, por convoca\u00e7\u00e3o de D. Ant\u00f3nio Marcelino, realiza-se em toda a diocese o S\u00ednodo da Renova\u00e7\u00e3o, nos anos de 1990-1995 e, no quinqu\u00e9nio seguinte, promove-se a implementa\u00e7\u00e3o das Decis\u00f5es tomadas a fim de serem vida nas comunidades eclesiais. A organiza\u00e7\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o alicer\u00e7ava-se em grupos (com milhares de elementos, um pouco por todas as par\u00f3quias e movimentos) e, depois, em assembleias onde participavam centenas que debatem os assuntos previamente indicados. Aqui est\u00e1 a Armanda no seu servi\u00e7o discreto, mas eficaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Doada \u00e0 vida da par\u00f3quia como motor de igni\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A par\u00f3quia \u00e9 o espa\u00e7o eclesial mais pr\u00f3ximo \u00e0s pessoas. Os sinos da sua igreja marcam o ritmo do tempo, fazendo ecoar o hor\u00e1rio ao longo do dia e espalhar a not\u00edcia do que vai acontecendo: de alegria e festa, de tristeza e luto, de trag\u00e9dias e calamidades. Possuem um secreto encanto que ressoa no cora\u00e7\u00e3o de cada habitante e constitui um bom auxiliar da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Armanda \u00e9, no seu tempo, a chave de igni\u00e7\u00e3o do motor que coloca a par\u00f3quia a funcionar, diz o Victor em tom comovido na celebra\u00e7\u00e3o do funeral. E continua afirmando: Dirigiu a catequese ao longo de d\u00e9cadas, foi catequista de av\u00f3s, pais, filhos e netos; por ela passaram v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es e todos a recordam! (\u2026) . Ensinou atrav\u00e9s do seu exemplo, do seu testemunho de vida! Tudo dava, sem receber nada em troca! (\u2026) Constru\u00eda o pres\u00e9pio da igreja com primor, inovando sempre a cada ano que passava. (\u2026) Foi Ministra Extraordin\u00e1ria da Comunh\u00e3o, visitadora de doentes; e o bra\u00e7o direito do Padre \u201cN\u00e9dio\u201d (assim era chamado o P. Ant\u00f3nio Afonso e Cunha), p\u00e1roco de Veiros ao longo de v\u00e1rios anos, de quem tinha toda a confian\u00e7a para poder servir os irm\u00e3os na F\u00e9, na Esperan\u00e7a e na Caridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua ac\u00e7\u00e3o mais eficaz era, sem d\u00favida, o testemunho de humanidade, a for\u00e7a das convic\u00e7\u00f5es, a arte de ensinar a fazer, a paci\u00eancia para acompanhar quem vai crescendo na escola da vida. O bispo de Aveiro, D. Ant\u00f3nio Moiteiro, afirma na carta pastoral \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer (Mc 6, 37)\u00bb: \u201cA esperan\u00e7a manifesta-se praticamente nas virtudes da paci\u00eancia, que n\u00e3o esmorece no bem nem sequer diante de um aparente insucesso, e da humildade, que aceita o mist\u00e9rio de Deus e confia n\u2019Ele mesmo no meio da escurid\u00e3o\u201d. \u00c9 a carta orientadora do ano apost\u00f3lico 2017\/2018. Feliz coincid\u00eancia e belo resumo, pode dizer-se, da vida e ac\u00e7\u00e3o de Armanda Nogueira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Personalidade firme, esclarecida e consciente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perfil de Armanda comporta tra\u00e7os que o P. Tom\u00e1s Afonso, actual p\u00e1roco, apresenta em afirma\u00e7\u00f5es precisas. Transcrevo as mais relevantes. Toda a sua exist\u00eancia foi viver para os outros, n\u00e3o distinguindo idades, nem cores, nem idiomas, pois todos eram seres humanos revestidos de respeito e dignidade; as virtudes bem not\u00f3rias nela eram a humildade, uma f\u00e9 firme, um grande amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, uma verdadeira serva sempre dispon\u00edvel e pronta para servir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dava do seu pouco p\u00e3o aos famintos, em especial \u00e0s crian\u00e7as e aos que lhe batiam \u00e0 porta\u2026 Era uma alma abnegada, seguindo o exemplo de S. Geraldo, patrono do seu lugar, sendo respons\u00e1vel pelo abrir e fechar portas da sua capela, pelo asseio da mesma e da igreja paroquial, como cuidar das vestes lit\u00fargicas e da prepara\u00e7\u00e3o das festas; procurou viver as bem-aventuran\u00e7as e praticar as obras de miseric\u00f3rdia. Fez sua a certeza profunda de S. Paulo: \u201cNenhum de n\u00f3s vive para si mesmo\u2026 Quer vivamos ou morramos, pertencemos ao Senhor\u201d (Rom 14, 7-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a miseric\u00f3rdia de Deus brilha radiante em rostos humanos no quotidiano da vida iluminada pela f\u00e9 pascal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSTO DE MISERIC\u00d3RDIA<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2302,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46,13,50,15],"tags":[],"class_list":["post-2301","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autores","category-olhares","category-pe-georgino-rocha","category-rostos-de-misericorida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2301"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2304,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301\/revisions\/2304"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2302"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2301"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2301"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2301"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}