{"id":21564,"date":"2026-10-23T06:00:47","date_gmt":"2026-10-23T05:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=21564"},"modified":"2026-10-19T09:29:07","modified_gmt":"2026-10-19T08:29:07","slug":"27-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-misterio-na-casa-da-rocha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/27-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-misterio-na-casa-da-rocha\/","title":{"rendered":"27 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto] | Mist\u00e9rio na casa da rocha"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-se da Ti\u2019Helena que casou mas nunca se deixou casar. Vivera triste, enquanto morara, sob o mesmo teto, com Am\u00e9rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levara-o uma noite de apanha da lampreia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos tempos das cheias, os pretendidos cicl\u00f3stomos subiam o rio para desovar. Era um robusto manancial de riqueza. Na tristeza da noite, multiplicavam-se as bateiras que, rio acima, acompanhavam o ondular das caudas da lampreias presas \u00e0 pedra. O rio tinha, por\u00e9m, as suas varia\u00e7\u00f5es de humor. Numa das suas oscila\u00e7\u00f5es, levara-lhe o homem. Nunca o encontraram. S\u00f3 \u00e0 bateira, presa a uns galhos da margem, de proa partida e de casco para o ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ti\u2019Helena \u2013 nascida \u2018Maria\u2019, mas que \u00e0 sua beleza devia o nome, evocando a de Tr\u00f3ia \u2013 p\u00f4s longo luto. N\u00e3o que lhe nascesse da alma, mas porque lho pediam as vozes do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O peso do negro tomou-lhe o esp\u00edrito e o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curvou-se at\u00e9 n\u00e3o se lhe ver o rosto. Um belo rosto!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma dor de coluna, cada vez mais lancinante e permanente, inclinara-lhe o olhar para o ch\u00e3o, levando-lhe todo o corpo. Passara a ver apenas os p\u00e9s, lentos e demorados. Fazia-se o mundo, agora, na sua mente, do que ouvia. Ouvia, apenas. Descobria o que acontecia em seu redor, ouvindo. Ouvindo, somente. Como que dispensando o olhar, de cuja beleza e equil\u00edbrio das formas do rosto s\u00f3 podia testemunhar, j\u00e1, o ch\u00e3o que percorria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ol\u00e1, Ti\u2019Helena! \u2013 Diziam-lhe, sem parar para a verem, os mi\u00fados da escola, empurrando o arco que lhes corria, adiante, sem parar. Nem davam conta da sua beleza. Era, para eles, a triste Ti\u2019Helena, uma vi\u00fava sem rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As l\u00e1grimas corriam-lhe em sulcos, pelas rugas feitas de tempo, enquanto sumia um solu\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivia na casa da rocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Casa e pedra pareciam ter nascido g\u00e9meas das m\u00e3os do Criador, sem fissura e de um s\u00f3 gesto. Uma casa simples, de um branco esmaecido, pousada sobre a rocha coberta de l\u00edquenes e musgos. A casa parecia comprimir a rocha, causando-lhe uma ligeira barriga, desca\u00edda sobre a estrada. Coisas de rela\u00e7\u00f5es antigas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado da estrada, tinham vivido, em tempos, os Pereiras. Outrora, uma casa farta, cheia da vida que lhe trazem as crian\u00e7as. Hoje, cobrem-lhe os jardins heras e silvas. Um entristecer-se toma conta de quem olha, com o ver de outros tempos, para aquele lugar, um demolido o\u00e1sis encravado entre estradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ti\u2019Helena sobe, demoradamente, pelo caminho que a levar\u00e1 a casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouve, ao longe, junto ao largo da pequena loja da aldeia, um ligeiro alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouve\u2026 Escuta\u2026 Reconhece vozes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre elas, a de um homem robusto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ch\u00e3o olha-a, admirado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 de rosto branco, sem sangue. L\u00edvida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem sabe de quem \u00e9 aquela voz arrastada, gutural, sedutora. Voz de um homem de encantos. A voz que a prendeu, antes de a desiludir. A voz que a fez cativa sem a cativar. A voz que a prendeu, tomando-lhe a liberdade sob a promessa de a tornar absoluta. Mas esse dia jamais viria. S\u00f3 quando as \u00e1guas lhe levaram a voz de uma sereia var\u00e3o se desfez a pris\u00e3o que lhe tolhera as asas e a impedira de voar, anos a fio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 com o luto regressou ao voo que desejara, mas o corpo j\u00e1 n\u00e3o quisera corresponder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes do enlace, quisera parar, desviar a sua hist\u00f3ria da de Am\u00e9rico. Junto ao t\u00famulo do seu pai, Am\u00e9rico pedira-lhe, por\u00e9m, que n\u00e3o desistisse de si e ousasse com ele lan\u00e7ar-se \u00e0 aventura de um casamento que haveria de ser duradouro e feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena compadeceu-se. Deixou-se casar, tomada pela compaix\u00e3o de o ver triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desilus\u00e3o haveria de vir, em breve e longamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena permanecera fiel, at\u00e9 aos \u00faltimos solu\u00e7os das \u00e1guas que o haveriam de levar. \u2018Para sempre\u2019, pensara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouvia-o, agora, regressado e procurando-a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Porque partira e se fizera ausente, se tanto dizia am\u00e1-la?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena afastou-se das vozes. Entrou em casa e trocou o negro pelo branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o mais se ouviu falar daquele homem de voz gutural que s\u00f3 Helena reconhecera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo diz, agora, que n\u00e3o foi Helena que n\u00e3o se deixou casar; Am\u00e9rico, sim, casou sem se deixar casar. Casara-se consigo mesmo e isso anula todo o consentimento perante homens e Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Helena e Am\u00e9rico perde-se na mem\u00f3ria dos tempos. N\u00e3o sabe o povo se viveram ou se habitam como imagina\u00e7\u00e3o pura perdida no tempo. Mas, em cada manh\u00e3, um v\u00e9u de neblina, como de noiva casta, se ergue sobre a casa da rocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem que nela mora a mem\u00f3ria da esposa que se deixou casar com o marido que, casando-se, nunca se deixou casar.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230; (Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. 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