{"id":21504,"date":"2026-10-05T17:15:35","date_gmt":"2026-10-05T16:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=21504"},"modified":"2026-10-05T17:15:35","modified_gmt":"2026-10-05T16:15:35","slug":"os-sete-dias-da-criacao-12-luis-m-p-silva-12-o-terceiro-dia-separar-e-autonomizar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-12-luis-m-p-silva-12-o-terceiro-dia-separar-e-autonomizar\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |12| Lu\u00eds M. P. Silva -12 \u2013 O terceiro dia: separar e autonomizar"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro dia, seguindo a tradu\u00e7\u00e3o de https:\/\/www.paroquias.org\/biblia\/?c=Gn+1, permite-nos recolher dois dados particularmente relevantes para a nossa j\u00e1 longa reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e religi\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Reparemos no texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><sup>9<\/sup><strong><sup>*<\/sup><\/strong>Deus disse: \u00abRe\u00fanam-se as \u00e1guas que est\u00e3o debaixo dos c\u00e9us, num \u00fanico lugar, a fim de aparecer a terra seca.\u00bb E assim aconteceu.\u00a0<sup>10<\/sup>Deus chamou terra \u00e0 parte s\u00f3lida, e mar, ao conjunto das \u00e1guas. E Deus viu que isto era bom.<br \/>\n<sup>11<\/sup><strong><sup>*<\/sup><\/strong>Deus disse: \u00abQue a terra produza verdura, erva com semente, \u00e1rvores frut\u00edferas que d\u00eaem fruto sobre a terra, segundo as suas esp\u00e9cies, e contendo semente.\u00bb E assim aconteceu.\u00a0<sup>12<\/sup>A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua esp\u00e9cie, e \u00e1rvores de fruto, segundo as suas esp\u00e9cies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom.\u00a0<sup>13<\/sup>Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manh\u00e3: foi o terceiro dia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como v\u00edamos, em momento anterior da nossa abordagem, o segundo dia est\u00e1 em clara tens\u00e3o para o terceiro. Ali\u00e1s, \u00e9 sinal disso o facto de n\u00e3o se referir, ap\u00f3s esse segundo dia, que \u2018Deus viu que era bom\u2019. S\u00f3 o faz j\u00e1 no contexto do terceiro dia em que, curiosamente, a express\u00e3o ser\u00e1 repetida (em v.9 e v.12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste terceiro dia, h\u00e1, como acima antecip\u00e1vamos, dois elementos de particular significado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, e tendo em conta que, no contexto b\u00edblico, as \u00e1guas s\u00e3o, m\u00faltiplas vezes, associadas ao \u2018ca\u00f3tico\u2019, este terceiro dia vinca a import\u00e2ncia da separa\u00e7\u00e3o entre o ca\u00f3tico e o c\u00f3smico (etimologicamente falando: a ordem, a organiza\u00e7\u00e3o, simbolizada na \u2018terra\u2019). Ao longo das narrativas b\u00edblicas, o poder de Deus \u00e9 evidenciando, repetidas vezes, como o poder sobre o ca\u00f3tico, expresso, inclusive, nos atos de \u2018amansar as \u00e1guas\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta separa\u00e7\u00e3o \u00e9, num contexto de di\u00e1logo entre ci\u00eancia e f\u00e9, particularmente significativa. S\u00f3 a f\u00e9, com a sua abertura de transcend\u00eancia ao que est\u00e1 para al\u00e9m do f\u00edsico, poder\u00e1 assegurar motivos para a esperan\u00e7a, perante a inevitabilidade do fim do universo e de toda a realidade f\u00edsica (o que a ci\u00eancia parece dar como certo, atendendo ao car\u00e1ter incontorn\u00e1vel da segunda lei da termodin\u00e2mica<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>). O caos poder\u00e1 parecer vir a vencer, mas a Deus caber\u00e1 (disso est\u00e1 convicto o autor de G\u00e9nesis) a \u00faltima e definitiva Palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 que ter em conta, por\u00e9m, o segundo elemento que este terceiro dia nos permite observar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus realiza a segunda parte dos atos de cria\u00e7\u00e3o deste terceiro dia (a primeira parte est\u00e1 descrita nos vv. 9 e 10) dando \u2018ordens\u2019 \u00e0 terra. \u00c9 a terra que concretiza (\u2018Deus disse: que a terra produza\u2026)\u2019 a produ\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies vegetais. E isto \u00e9 particularmente interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, certamente, discuss\u00e3o sobre se esta refer\u00eancia \u00e0 \u2018terra\u2019 seria alus\u00e3o \u00e0 \u2018m\u00e3e-terra\u2019, mas os exegetas parecem coincidir<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> na relativiza\u00e7\u00e3o desse aspeto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de afirmar a \u2018autonomia\u2019 da terra, ainda que reconhecendo que a vida que a terra produz (s\u00f3 Deus \u2018cria\u2019) \u00e9 dom recebido, mas autonomamente produzido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez, recuperamos, assim, o reconhecimento de que a no\u00e7\u00e3o de \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 a que predisp\u00f5e (ao assegurar a autonomia do \u2018criado\u2019 em rela\u00e7\u00e3o ao seu Criador) para o surgimento da ci\u00eancia. Sem a autonomia das realidades terrestes, toda a ci\u00eancia seria \u2018teologia\u2019. Ora, a ci\u00eancia incide sobre a realidade observ\u00e1vel e interpreta-a, percebendo os seus nexos e estruturando, a partir da\u00ed, leis que lhe confiram condi\u00e7\u00f5es de compreensibilidade. Foi esta a grande descoberta que fez, ali\u00e1s, Antony Flew, um ateu epistemol\u00f3gico (isto \u00e9, que o fora por motivo de \u2018f\u00e9 na ci\u00eancia\u2019, julgando, durante cerca de 50 anos, que s\u00f3 o saber cient\u00edfico era v\u00e1lido, verdadeiro e cred\u00edvel), que reconheceu, a partir de 2004, que, sem a possibilidade de Deus existir, n\u00e3o era poss\u00edvel sequer fazer-se ci\u00eancia. Pois a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para se fazer ci\u00eancia \u00e9 acreditar que o mundo n\u00e3o \u00e9 ca\u00f3tico, mas \u2018c\u00f3smico\u2019 (organizado, ordenado) e, por isso, suscet\u00edvel de ser \u2018lido\u2019, interpretado e \u2018teoriz\u00e1vel\u2019 em \u2018teorias\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma convic\u00e7\u00e3o assegurada no terceiro dia da Cria\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2013\">\n<li>Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, Le\u00e7a da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Gerhard von Rad, <em>El libro del G\u00e9nesis<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 1988<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Alberto de Mingo Kaminouchi, A B\u00edblia do princ\u00edpio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus Editora, 2021.<\/p>\n<p>Santo Agostinho, <em>Da interpreta\u00e7\u00e3o do G\u00e9nesis: dois livros contra os maniqueus<\/em>, Prior Velho, Paulinas, 2021.<\/p>\n<p>Xavier L\u00e9on-Dufour, <em>Vocabul\u00e1rio de Teologia B\u00edblica<\/em>, Petr\u00f3polis, Vozes, 2002<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Michel.Yves Bollor\u00e9 e Olovier Bonnasies, <em>Deus, a ci\u00eancia , as provas: a alvorada de uma revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, Alfragide, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2024<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Antony Flew, <em>Deus <span style=\"text-decoration: line-through;\">n\u00e3o<\/span> existe<\/em>: <em>como o mais c\u00e9lebre fil\u00f3sofo ateu mudou de convic\u00e7\u00e3o<\/em>, Lisboa, Al\u00eatheia Editores, 2010.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. Jos\u00e9 Carlos Gonz\u00e1lez-Hurtado, <em>Novas evid\u00eancias cient\u00edficas da exist\u00eancia de Deus<\/em>, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus, 2026, pp.43s. e Michel.Yves Bollor\u00e9 e Olovier Bonnasies, <em>Deus, a ci\u00eancia , as provas: a alvorada de uma revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, Alfragide, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2024<sup>2<\/sup>, pp. 73s.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cfr. D. Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, Le\u00e7a da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p.33, Gerhard von Rad, <em>El libro del G\u00e9nesis<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 1988<sup>7<\/sup>, p. 65.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cfr. Antony Flew, <em>Deus <span style=\"text-decoration: line-through;\">n\u00e3o<\/span> existe<\/em>: <em>como o mais c\u00e9lebre fil\u00f3sofo ateu mudou de convic\u00e7\u00e3o<\/em>, Lisboa, Al\u00eatheia Editores, 2010.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/lenzatic-15400574\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=7054907\">Roberto Lee Cortes<\/a> por <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=7054907\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21505,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-21504","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21504","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21504"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21504\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21506,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21504\/revisions\/21506"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21505"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}