{"id":21277,"date":"2026-07-20T17:26:23","date_gmt":"2026-07-20T16:26:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=21277"},"modified":"2026-07-20T17:28:40","modified_gmt":"2026-07-20T16:28:40","slug":"luis-manuel-p-silva-aborto-e-outras-violencias-o-futuro-e-dos-sonhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-aborto-e-outras-violencias-o-futuro-e-dos-sonhadores\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva | Aborto e outras viol\u00eancias: O futuro \u00e9 dos sonhadores!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem que sou um sonhador. Que esperar um mundo em que todos os filhos de humanos (mulheres ou homens, pessoas com defici\u00eancia ou sem que a tenham expl\u00edcita, pobres ou ricos\u2026) possam nascer \u00e9 um sonho paradis\u00edaco pouco irreal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posso s\u00ea-lo. Mas o que seria o futuro sem os sonhadores?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinzento n\u00e3o \u00e9 alternativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouso fazer um pedido a cada um dos leitores deste texto: que me leia sem preconceitos; que me leia como quem est\u00e1 dispon\u00edvel para, verdadeiramente, ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia-me, bom leitor, como a crian\u00e7a a quem falam do que, realmente, est\u00e1 em causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trago, a esse prop\u00f3sito, uma p\u00e1gina de um di\u00e1rio de uma mulher que aceitou ser \u2018barriga de aluguer\u2019 de uma cunhada. Diz ela, na semana 15: \u2018Contei aos meus filhos o que se est\u00e1 a passar. A minha filha perguntou: \u00abN\u00e3o me vais dar a outra pessoa, pois n\u00e3o?\u00bb<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma s\u00f3 pergunta e desaba toda a seguran\u00e7a sobre a bondade das \u2018barrigas de aluguer\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma s\u00f3 pergunta \u2013 \u2018onde est\u00e1 o meu irm\u00e3o que eu esperava?\u2019 \u2013 e desaba toda a convic\u00e7\u00e3o de que o aborto seja um in\u00f3cuo ato solit\u00e1rio que s\u00f3 a cada um diz respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredite, caro leitor, que quem se op\u00f5e \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o o defende porque queira ver punidas todas as pessoas que o praticam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tremendo equ\u00edvoco esse que pressup\u00f5e racioc\u00ednio t\u00e3o curto e t\u00e3o estreito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As leis n\u00e3o foram feitas para que se possa punir quem as infringe. Foram, antes, feitas para proteger bens que merecem cuidado e defesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dir-me-\u00e1 o leitor, muito atento: \u2018esqueces-te de que as leis que despenalizaram o aborto protegem um valor igualmente importante: o de nos determinarmos.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu compreendo o valor que se visa proteger, mas ouso pedir um novo olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bem de que se prescinde \u2013 o da vida de um (ou v\u00e1rios, se forem g\u00e9meos) filho \u2013 \u00e9 um valor de que n\u00e3o se pode prescindir de parte e permanecer com outra; ou se tem, em absoluto, ou n\u00e3o se tem. A vida n\u00e3o se possui em progressividade; ou est\u00e1 ou n\u00e3o est\u00e1. H\u00e1, talvez, em muitos, o equ\u00edvoco com a qualidade de vida que, essa sim, \u00e9 revers\u00edvel e futur\u00edvel. Como a liberdade, ali\u00e1s\u2026 A liberdade pode possuir-se em progressividade; ter-se em parte e ir-se desenvolvendo como, ali\u00e1s, acontece com a crian\u00e7a que se desenvolve ou, mesmo, com algu\u00e9m que depende dos outros enquanto n\u00e3o domina uma mat\u00e9ria, um assunto. Em todas estas situa\u00e7\u00f5es, a liberdade est\u00e1 presente, mas nunca de forma absoluta nem totalmente ausente. Porque, por defini\u00e7\u00e3o, ser livre \u00e9 \u2018ir-se libertando\u2019. Com a vida, que integra o que poder\u00e1 definir-se como valores irrevers\u00edveis (ou se possuem ou n\u00e3o se possuem), n\u00e3o \u00e9 assim. A partir do momento em que se deixa de possuir, n\u00e3o se recupera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, \u00e9 desequilibrado que se prescinda de um valor \u2018irrevers\u00edvel\u2019 por um outro que \u00e9 sempre revers\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, poder\u00e1 dizer-me, mais uma vez, o leitor, muito atento: \u2018mas isso \u00e9 uma decis\u00e3o exclusiva da mulher que est\u00e1 gr\u00e1vida\u2026\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia \u00e9 sedutora, mas, mais uma vez, nasce de um equ\u00edvoco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um filho n\u00e3o \u00e9 gerado por um s\u00f3, pela m\u00e3e (muito menos, s\u00f3 pelo pai, claro!). O filho \u00e9, por natureza, um ente que une duas hist\u00f3rias. O homem e a mulher de quem prov\u00eam os g\u00e2metas (que triste \u00e9 que a tecnologia nos tenha obrigado a esta leitura fria e laboratorial \u2013 o frio das pipetas e das seringas\u2026 &#8211; que dissociou a gera\u00e7\u00e3o de um ato de amor, mas \u00e9 assim!\u2026) eram dois seres sem ponto de converg\u00eancia at\u00e9 que um filho os une, para sempre. Sublinho \u2018para sempre\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que o queiram apagar, aquele ente une-os. Geneticamente, h\u00e1 algo do pai e h\u00e1 algo da m\u00e3e. Saibam-no ou n\u00e3o. Queiram ou n\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que fazer com o filho que \u2018fala\u2019 dos dois \u00e9, neste momento, a quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentimo-nos autorizados a decidir sobre a sua vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou reconhecemo-lo como anterior ao que nos \u00e9 leg\u00edtimo decidir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 aqui que os dois caminhos se separam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o ponto ap\u00f3s as portagens de uma autoestrada em que, para um lado, se vira para norte e, para o outro, se vira para sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admitir a legitimidade do aborto \u00e9 aqui que se determina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, a partir daqui, \u00e9 importante que se perceba o que se est\u00e1 a determinar: se a vida do outro est\u00e1 ao nosso dispor, ao dispor da nossa autodetermina\u00e7\u00e3o, ou se n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se sim, ent\u00e3o, honestamente, dever\u00edamos ir at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se algu\u00e9m pode determinar se a vida do outro merece ou n\u00e3o merece continuar, \u00e9 puramente arbitr\u00e1rio que o seja \u00e0s dez, \u00e0s doze, \u00e0s vinte e quatro semanas ou at\u00e9 ao final da gravidez\u2026 E, no limite, at\u00e9 que tenha capacidade de decidir por si (como permite, neste momento, a B\u00e9lgica que autoriza a eutan\u00e1sia de menores, a pedido dos seus pais). Vejamos que, em termos l\u00f3gicos, a B\u00e9lgica est\u00e1 a levar at\u00e9 ao limite o racioc\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 por isso que devemos questionar o racioc\u00ednio. Para que n\u00e3o seja demasiado tarde\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regresso ao lugar ap\u00f3s as portagens\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim \u00e9 claro que a vida se imp\u00f5e \u00e0 liberdade de cada um (e, car\u00edssimo leitor, se acha que sou eu o primeiro a reconhec\u00ea-lo, sugiro a leitura muito atenta do pre\u00e2mbulo da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos que afirma, claramente, que \u00e9 o reconhecimento da dignidade humana o pressuposto da liberdade e n\u00e3o o contr\u00e1rio), por muito que me apete\u00e7a extingui-la, por muito que esteja perturbado pela not\u00edcia e pelo medo (talvez at\u00e9 terror) do futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que deveria, neste momento, fazer a sociedade, era dizer a cada casal, a cada mulher que se reconhece m\u00e3e: \u2018estamos aqui, contigo, e temos, para ti, estes apoios e estas ajudas. N\u00e3o est\u00e1s s\u00f3.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo-lhe, car\u00edssimo leitor, car\u00edssima leitora, que a sociedade se tem organizado para tal, pois muitas institui\u00e7\u00f5es surgiram, nos \u00faltimos trinta anos, a apoiar as gr\u00e1vidas que se encontram sem apoio. Mas o \u2018zeitgeist\u2019, o esp\u00edrito deste tempo, n\u00e3o tem estado atento e quase as silencia. Mas alguns milhares de crian\u00e7as j\u00e1 nasceram, desde que o referendo ao aborto legitimou a sua pr\u00e1tica, por ajuda destas organiza\u00e7\u00f5es. Aut\u00eanticas sobreviventes da lei do aborto. Sim, meu bom leitor, todos os que nasceram depois de 2007, s\u00e3o, em Portugal, sobreviventes da lei do aborto. Pois a pergunta que pode sempre fazer-se \u00e9: \u2018porque tive eu direito a nascer e n\u00e3o os mais de 300 mil entretanto abortados?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confesso-lhe, car\u00edssimo leitor, que muito me custa esta arbitrariedade em que deixaram enredar-se os \u2018Estados de Direito\u2019 ocidentais que permitiram que algo t\u00e3o determinante (como a vida de algu\u00e9m) dependesse da decis\u00e3o de um s\u00f3. Com as abrangentes implica\u00e7\u00f5es que tal comporta: onde ficou o pai, nesta decis\u00e3o? Onde ficou o filho? Onde ficou a pr\u00f3pria m\u00e3e que, tantas vezes, pressionada pela sociedade envolvente, \u00e9 empurrada para o aborto porque a lei j\u00e1 n\u00e3o protege a sua decis\u00e3o de n\u00e3o abortar? Onde ficou, afinal, a mensagem de que n\u00e3o devemos ser violentos uns com os outros?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, porque se uma sociedade admite a viol\u00eancia da m\u00e3e sobre o seu filho, quando este mais depende dela, ent\u00e3o, toda a viol\u00eancia pode ser tolerada\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e que \u00e9 o primeiro ber\u00e7o do seu filho tem de merecer toda a ajuda da sociedade, porque ela \u00e9 o futuro que j\u00e1 mora no presente. E se queremos futuro, n\u00e3o o podemos esperar amanh\u00e3. \u00c9 que o primeiro futuro, o futuro do passado, \u00e9 o hoje. E s\u00f3 haver\u00e1 futuro do presente se, no presente, n\u00e3o se extinguir a vida, n\u00e3o se extinguir quem existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sei que sou um sonhador\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que ser\u00e1 o futuro sem sonhos? Pois se n\u00e3o h\u00e1 futuro sem vida, dado que o tempo \u00e9 vida que se desenrola como novelo. Mas, sem ela, \u00e9 poeira ao vento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sonho\u2026 Sonho com uma sociedade sem viol\u00eancias. E sem a maior dessas viol\u00eancias: a dos bra\u00e7os que deveriam acolher a vida quando esta mais precisa do seu conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sonho\u2026 Bem sei que sonho. Mas outros sonham, j\u00e1 hoje, comigo e, um dia, o sonho ser\u00e1 real. E enquanto houver sonhadores, a vida continuar\u00e1 a garantir amanh\u00e3s. Pois \u00e9 no hoje de cada vida que germina o devir.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> In Gabriele Kuby, A<em>\u00a0gera\u00e7\u00e3o abandonada<\/em>, Cascais, Princ\u00edpia, 2021, p. 92.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/commanderclive-1461986\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=971982\">Clive Einstein<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=971982\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21278,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165,55],"tags":[],"class_list":["post-21277","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-devida","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21277","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21277"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21277\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21280,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21277\/revisions\/21280"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}