{"id":21270,"date":"2026-07-23T07:00:26","date_gmt":"2026-07-23T06:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=21270"},"modified":"2026-07-20T15:55:59","modified_gmt":"2026-07-20T14:55:59","slug":"26-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-rua-do-casal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/26-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-rua-do-casal\/","title":{"rendered":"26 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na rua do casal"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"26   Mist\u00e9rio na rua do casal\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/t0nMp6-MLZE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na rua do casal, chegados ao chafariz, pode subir-se ou descer. J. tomou o rumo da rua do bacelo. M. decidiu sentar-se e descansar. Haveriam de descer os dois, mas o momento pedia brando deleite.<br \/>\nDo que fora, outrora, abundante bica resta, hoje, apenas, um lugar seco. Com a forma de uma ogiva e base quim\u00e9rica \u2013 as quimeras da geometria que unem quadrados e hex\u00e1gonos numa mistura originalmente inomin\u00e1vel -, o chafariz de pedra guarda as mem\u00f3rias da fam\u00edlia de que herdou o nome.<br \/>\nM. sentou-se, meditativa, n\u00e3o se apercebendo de que J. se afastara.<br \/>\nUm vento ligeiro desceu, macio, pelas pedras da rua. Enrolou-se em M. e levou-lhe a mem\u00f3ria ao interior da morada do casal.<br \/>\nO vento movia-se, brandamente.<br \/>\nO tempo esperava.<br \/>\nM. deixou-se tomar nos bra\u00e7os da brisa.<br \/>\nEntrou, qual mem\u00f3ria sem corpo, no interior da habita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO ch\u00e3o, de soalho, rangia, como que percorrido por passos pesados. Atormentados, mas raros.<br \/>\nSobre um aparador, barrocamente rendilhado, repousavam fotos e livros. Amontoados como quem deixa a fermentar at\u00e9 vir a sorver, com deleite. Percebia-se ser gente letrada; n\u00e3o estavam abandonados, antes, delidos do uso.<br \/>\nA mem\u00f3ria de M. percorreu-os, longamente. Viu-lhes os t\u00edtulos e os autores. Guardou recorda\u00e7\u00e3o de um \u2018Wilde\u2019.<br \/>\nAo seu lado, entre as fotos, erguiam-se, em pose fresca, dois noivos.<br \/>\nO olhar de M. regressou ali. Parecera-lhe perceber uma originalidade.<br \/>\nA noiva permanecia igual ao que fora na primeira hora. A s\u00e9pia, jovem, com o branco do tempo de outrora. O noivo estava rodeado de um cinzento novo e fresco \u2013 mas cinzento, sem cor &#8211; , ainda que de rosto j\u00e1 envelhecido.<br \/>\nO tempo passara por ele.<br \/>\nGuardara, para si, por\u00e9m, a noiva. Jovem, como no primeiro dia.<br \/>\nPor momentos, o vento devolveu M. \u00e0 pedra do chafariz.<br \/>\nMas M. resistiu. Queria continuar a revisitar aquela mem\u00f3ria.<br \/>\nA um canto da sala, chorava-se.<br \/>\nPareciam as sombras de um vel\u00f3rio.<br \/>\nUma voz, sem rosto, titubeava:<br \/>\n\u2018Ao menos, n\u00e3o morreu\u2026\u2019<br \/>\n\u2018\u2026 no inverno em que viveu!\u2019<br \/>\n\u2026<br \/>\nUm longo sil\u00eancio envolveu aquelas curtas palavras.<br \/>\nPara se lhe seguirem outras e outras:<br \/>\n\u2018Trouxe-lhe a primavera aquela confiss\u00e3o da vida\u2019.<br \/>\nM. esperou. Haveria de compreender o significado do que ouvia.<br \/>\n\u2018Enquanto foi o \u2018Ter\u00e7a-feira\u2019, o seu viver foi um inverno. O da sua doce mulher, um inferno.\u2019<br \/>\nDe um outro lado da sala, que M. n\u00e3o conseguia ver, uma outra voz, tamb\u00e9m feminina, dizia, com firmeza:<br \/>\n\u2018Todos lhe chamavam o \u2018Ter\u00e7a-feira\u2019&#8230; Como n\u00e3o? Se s\u00f3 \u00e0 ter\u00e7a-feira o via a pobre mulher, perdido andava ele pelas margens do existir nos outros dias do seu viver\u2026\u2019<br \/>\nE prosseguiu:<br \/>\n\u2018Viveu perdido, errante dos seus erros, sem olhar a bela mulher que decidira infernizar.\u2019<br \/>\n\u2018Dizem que vendera a alma ao diabo.\u2019 \u2013 Acrescentou, cavernosa, a voz de um homem de que s\u00f3 se via, por detr\u00e1s de uma ondulante cortina, a silhueta alta e hirta, como voz final ao desvairado Dom Juan\u2026<br \/>\n\u2018Mas, nos derradeiros dias do seu existir, pediu-lhe a mulher que se tornasse \u2018Todos os dias\u2019. Aceitou confessar-se. Fazer a confiss\u00e3o de vida e reconhecer que os erros n\u00e3o tinham de o tornar um errante.\u2019<br \/>\n\u2018Viram-no entrar na igreja, de botas arrastadas, sulcando o ch\u00e3o. Voltaram a v\u00ea-lo, de olhar erguido, sair, horas mais tarde.\u2019<br \/>\n\u2018Podemos chor\u00e1-lo. Chorar todos os dias em que foi \u2018Ter\u00e7a-feira\u2019 e, para a mulher, \u2018Dia nenhum\u2019.<br \/>\n\u2018Mas esperar que se tenha tornado Ant\u00edtono, e que o diabo lhe tenha devolvido a alma, restituindo-lhe a eternidade, com uma aut\u00eantica eterna juventude.\u2019 \u2013 Rematou a primeira voz, regressando ao choro.<br \/>\nComo que num teatro rematado, os cantos da sala escureceram.<br \/>\nM. recentrou o seu olhar no aparador.<br \/>\nReviu os livros. Revisitou a foto. Tudo era, agora, aut\u00eantico.<br \/>\nEntre os livros, uma m\u00e3o delicada destacou um t\u00edtulo: \u2018 o gigante ego\u00edsta\u2019.<br \/>\nM. pareceu despertar. J. sacudia-a, levemente, esperando faz\u00ea-la regressar.<br \/>\nJ. nada lhe perguntou.<br \/>\nDesceram, juntos, o que restava da rua do casal.<br \/>\nDe uma janela entreaberta, M. viu, sobre um amontoado de livros, uma foto a s\u00e9pia.<br \/>\nNela, havia dois noivos. Ambos envelhecidos pelo tempo.<br \/>\nM. olhou para J. Ia distra\u00eddo nos seus pensamentos.<br \/>\nN\u00e3o o quis acordar da sua sonol\u00eancia.<br \/>\nOu seria ela que permanecia indolente?<br \/>\nUma cortina agitava-se com o vento. Sobre o aparador sobre que repousava a foto, desprendia-se, de um calend\u00e1rio com destaques, uma folha sem indica\u00e7\u00e3o de m\u00eas. Um colorido e fosforescente destaque rodeava cada dia da semana; todos os dias!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-21270","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21270","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21270"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21270\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21276,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21270\/revisions\/21276"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21270"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}