{"id":21147,"date":"2026-07-07T07:07:45","date_gmt":"2026-07-07T06:07:45","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=21147"},"modified":"2026-06-30T11:51:16","modified_gmt":"2026-06-30T10:51:16","slug":"sabes-leitor-31-ultimo-marca-de-agua-do-documento-da-comissao-teologica-internacional-quo-vadis-humanitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-31-ultimo-marca-de-agua-do-documento-da-comissao-teologica-internacional-quo-vadis-humanitas\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 31 [\u00faltimo] | Marca de \u00e1gua do documento da Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, &#8216;Quo vadis, humanitas?&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O(s) autor(es) e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional,<em> Quo vadis humanitas?: reflex\u00e3o sobre a antropologia crist\u00e3 perante alguns cen\u00e1rios sobre o futuro do ser humano<\/em>, 9 de fevereiro de 2026, https:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/cti_documents\/rc_cti_doc_20260304_quo-vadis-humanits_po.html.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerro, com a an\u00e1lise de \u2018Quo vadis, humanitas?\u2019, um primeiro ciclo de trinta e uma entradas da rubrica \u2018sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019. Farei suceder, a este primeiro ciclo, um novo modelo de rubrica de an\u00e1lise de livros, mais simples e mais incisiva. Os tempos p\u00f3s-modernos e o mundo digital pedem conten\u00e7\u00e3o nas palavras\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira entrada da rubrica foi em 7 de janeiro de 2024. Fecha-se este primeiro ciclo em 7 julho de 2026.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolhi o 7, porque 7 \u00e9 um n\u00famero de plenitude e 7 \u00e9 o dia em que todos, na fam\u00edlia que estou, cada dia, a construir, celebram nascimento (S\u00f3 eu divirjo: nasci a 23 de junho). O leitor n\u00e3o se ter\u00e1 dado conta, mas cada entrada acontecia no dia 7 de cada m\u00eas, \u00e0s 7 horas e 7 minutos\u2026 N\u00e3o por magia, mas por simbolismo. N\u00e3o h\u00e1, aqui, magias, porque os livros falam de decis\u00f5es e liberdades que se responsabilizam. N\u00e3o de magias que substituem o papel das liberdades, divina e humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recolhi o t\u00edtulo (melhor seria dizer \u2018recebi\u2019 ou \u2018foi-me confiado\u2019\u2026) de um verso do poeta e te\u00f3logo Daniel Faria, que a casualidade hist\u00f3rica n\u00e3o permitiu que conviv\u00eassemos, na mesma faculdade de Teologia, no Porto. Ele saiu; eu cheguei. Mas a sua \u2018presen\u00e7a ausente\u2019 era omnipresente. Pela palavra de um amigo comum, tamb\u00e9m ele poeta, Jos\u00e9 Rui Ribeiro de Almeida Teixeira, passei a conviver com os seus versos e a deixar-me habitar pelo seu modo de ver em verso, (a polissemia de \u2018verso\u2019 torna-o simb\u00f3lica met\u00e1fora de quem olha o outro lado \u2013 o \u2018verso\u2019 \u2013 da vida, aquilo que nenhum outro viu, alguma vez\u2026) com um olhar iluminado pela f\u00e9, a vida, nos seus aparentes lugares-comuns que s\u00e3o incomuns habitares do eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seduz, na poesia de Daniel Faria, a capacidade de dizer o muito em t\u00e3o pouco, de concentrar, na densidade da palavra, que \u00e9 s\u00edmbolo, o indiz\u00edvel atrav\u00e9s do que se diz. E, sendo raramente explicitamente crist\u00e3o, \u00e9-o permanentemente impl\u00edcito, porque descortinando o sentido onde os escombros fumegam. Veja-se quanto se diz em \u2018sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019! Quem dera conta de que, ao ler, voltamos a habitar o mundo de quem escreveu as linhas que lemos? Os tempos convergem, no momento da leitura. Um sentido \u00e0 espera de ser revelado se desvela nos versos de Daniel Faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi, ali\u00e1s, esta a matriz que segui, na escolha dos livros e no modo de os ler. N\u00e3o pretendi fechar o circuito e falar para um p\u00fablico crist\u00e3o. Pretendi, antes, que as leituras (que provieram de diversos quadrantes), convergissem no respeito pela pessoa humana e pela sua dignidade\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termino, por isso, com uma obra que serve de c\u00faspide deste edif\u00edcio que se eleva. Comecei com \u2018a cultura do \u00e9den\u2019 e termino com reflex\u00e3o sobre a humanidade e os seus grandes desafios. Um arco perfeito\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Incidamos, ent\u00e3o, a nossa aten\u00e7\u00e3o, na obra que, agora, nos faz estar na mesma p\u00e1gina que os seus autores: \u2018Quo vadis, humanitas\u2019, da autoria da Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um mais detido conhecimento da natureza e miss\u00e3o da Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, sugiro ao leitor a consulta do respetivo site\u00a0 [https:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/cti_index_po.htm], onde poder\u00e1 apurar-se que se trata de um organismo institu\u00eddo junto \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 (Hoje, Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9), sendo que \u00e9 presidida, por iner\u00eancia, pelo Cardeal-Presidente que \u00e9 o Prefeito da referida Congrega\u00e7\u00e3o (agora, dicast\u00e9rio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi institu\u00edda (com estatuto \u2018ad experimentum\u2019), pelo Papa S. Paulo VI, em 11 de abril de 1969, tendo sido publicados os seus estatutos definitivos, pelo Papa S. Jo\u00e3o Paulo II, em 6 de agosto de 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seus membros, em n\u00famero n\u00e3o superior a 30, s\u00e3o te\u00f3logos reconhecidos, provenientes de \u2018diversas \u2018 escolas e na\u00e7\u00f5es\u2019, por um quinqu\u00e9nio (estamos a encerrar o d\u00e9cimo desses quinqu\u00e9nios), pelo Papa, sob proposta do Cardeal-Presidente, ouvidas as Confer\u00eancias Episcopais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma an\u00e1lise da lista dos seus membros, ao longo destes cinquenta e sete anos, permite constatar que apenas um portugu\u00eas integrou esta Comiss\u00e3o, o eminente professor Henrique de Noronha Galv\u00e3o, somando-se a nomes como Hans Urs Von Balthasar, Jean-Marie Tillard, Bernard Sesbo\u00fc\u00e9, Rudolf Schnakenburg, Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI), Karl Rahner, Luis Ladaria, Walter Kasper, Olegario Cardedal, Joachim Gnilka. Adolphe Gesch\u00e9, Bruno Forte, Henri de Lubac, Yves Congar, Raniero Cantalamessa, Juan Alfaro, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, Portugal teve, apenas, um membro, enquanto Espanha contribuiu com dez membros (inclusive na condi\u00e7\u00e3o de presidente), ao longo da hist\u00f3ria desta Comiss\u00e3o. Destaco como sinal a interpretar, no que concerne ao espa\u00e7o concedido \u00e0 discuss\u00e3o teol\u00f3gica (e consequente repercuss\u00e3o na publica\u00e7\u00e3o livreira) nos dois lados da fronteira. Basta observar a autonomia (e disputa) das diversas faculdades e escolas de Teologia, existente no contexto espanhol, assim como a numerosa quantidade de obras teol\u00f3gicas publicadas, anualmente, comparando com o contexto lusitano, para percebermos a dist\u00e2ncia entre estes dois mundos. Eu, um leitor compulsivo, socorro-me, frequentemente, das editoras espanholas para chegar aos grandes te\u00f3logos e acompanhar o \u2018estado da arte\u2019. Dificilmente os encontro, entre as editoras nacionais. Mas percebo\u2026 N\u00e3o h\u00e1 p\u00fablico! (Ainda que estejamos perante uma \u2018pescadinha de rabo na boca\u2019: sem livros, n\u00e3o h\u00e1 p\u00fablico; sem p\u00fablico, n\u00e3o h\u00e1 livros\u2026 Quem ousar\u00e1 devolver a forma n\u00e3o circular \u00e0 pescada?)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 relevante, para a compreens\u00e3o da obra agora em an\u00e1lise, atender ao facto de esta Comiss\u00e3o se constituir como um meio de \u2018ajudar a Santa S\u00e9 e, em particular, a Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da f\u00e9, \u2018no exame de quest\u00f5es doutrinais de maior import\u00e2ncia\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Quo vadis, humanitas\u2019 \u00e9 o trig\u00e9simo segundo documento publicado por esta Comiss\u00e3o, sendo verific\u00e1vel que o trabalho preparat\u00f3rio (iniciado em discuss\u00f5es ocorridas nas sess\u00f5es plen\u00e1rias nos anos 2022-2025) foi concomitante ao da publica\u00e7\u00e3o da declara\u00e7\u00e3o \u2018Dignitas Infinita\u2019 (publicada, pelo Dicast\u00e9rio para a Doutrina da f\u00e9, em 2 de abril de 2024), da nota \u2018Antiqua et Nova\u2019 sobre a Intelig\u00eancia artificial (publicada, em 28 de janeiro de 2025, pelo Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 e Dicast\u00e9rio para a Cultura e Educa\u00e7\u00e3o) e antecipando a publica\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica \u2018Magnifica Humanitas\u2019 (Publicada pelo Papa Le\u00e3o XIV, em 15 de maio de 2026). Percebe-se, inclusive, pela exist\u00eancia de express\u00f5es comuns (os termos \u2018infinita\u2019, \u2018magn\u00edfica\u2019, e uma linguagem mais narrativa e de menor pendor ontologicista), a enorme coer\u00eancia e converg\u00eancia entre estes quatro documentos, cuja leitura articulada recomendo, vivamente.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Quo vadis, humanitas?\u2019 \u00e9 um documento de leitura altamente recomend\u00e1vel. Na pergunta que lhe serve de t\u00edtulo esconde-se, como boneca russa, a riqueza do pr\u00f3prio documento. Esta parece ser a pergunta de algu\u00e9m que meneia a cabe\u00e7a perante a trag\u00e9dia iminente e a baixa, de seguida, com des\u00e2nimo. Mas, neste documento, essa n\u00e3o \u00e9 a atitude. Esta \u00e9 a interroga\u00e7\u00e3o aut\u00eantica de quem sabe que a humanidade tem um horizonte, contrasta esse horizonte com o rumo em curso e chama, do lado da estrada que leva \u00e0 meta, a fim de restituir o caminho adequado. N\u00e3o \u00e9, por isso, uma pergunta de desespero: \u00e9 o chamamento da esperan\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma breve introdu\u00e7\u00e3o, em que se cruzam a enuncia\u00e7\u00e3o das etapas da constru\u00e7\u00e3o deste documento e a descri\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria da metodologia, enunciam-se as categorias que estruturar\u00e3o todo o documento, como que numa espiral. No seu v\u00e9rtice inicial, est\u00e3o as categorias de \u2018desenvolvimento\u2019, \u2018voca\u00e7\u00e3o\u2019, \u2018identidade humana\u2019 e \u2018condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica\u2019 que o documento desenvolver\u00e1, tendo por foco os desafios que, na atualidade, colocam o transumanismo e o p\u00f3s-humanismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Face \u00e0s pungentes inquieta\u00e7\u00f5es que estes dois caminhos (transumanismo e p\u00f3s-humanismo) colocam, a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional (doravante, CTI) decide enfrent\u00e1-las, num equil\u00edbrio que encontraremos, tamb\u00e9m, nos documentos que formam a tetralogia que j\u00e1 enunciei, acima. A CTI n\u00e3o se coloca em nenhum dos seguintes registos: nem numa atitude de \u2018idolatria\u2019 do progresso (pois \u2019todo o desenvolvimento implica uma compreens\u00e3o axiol\u00f3gica e antropol\u00f3gica\u2019 (22)), nem numa atitude de recusa de princ\u00edpio que v\u00ea em todo o progresso motivos de desconfian\u00e7a. A atitude deve ser, antes, e \u00e9 a escolhida pela CTI, a de discernir os \u2018sinais dos tempos\u2019 que emergem nos rumos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 perante tal horizonte que s\u00e3o estruturantes as categorias acima descritas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouso concentrar a aten\u00e7\u00e3o do leitor no conte\u00fado que melhor ilumina, na minha perspetiva (toda a an\u00e1lise de um livro \u00e9 uma tomada de decis\u00e3o sobre o eixo com que queremos l\u00ea-lo\u2026) a valia dessas categorias. Na verdade, no n\u00famero 133, afirma-se que \u2018esta capacidade de integra\u00e7\u00e3o unitiva, que respeita o real na sua concretude e, portanto, nas suas oposi\u00e7\u00f5es polares, \u00e9 caracter\u00edstica do esfor\u00e7o de pensamento do \u201cet\/et\u201d t\u00edpico da <em>forma mentis <\/em>cat\u00f3lica.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os desafios atuais tendem a levar-nos a assumir posi\u00e7\u00f5es de \u2018ou\u2026 ou\u2026\u2019 (em latim, \u2018aut\u2026 aut\u2026\u2019), criando l\u00f3gicas dualistas (somos somas de subst\u00e2ncias, mas n\u00e3o uma aut\u00eantica unidade) ou monistas (n\u00e3o somos mais do que\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica em que assenta todo este documento \u00e9 particularmente inteligente e \u00e9, como o mesmo diz, autenticamente \u2018cat\u00f3lica\u2019. Toma em m\u00e3os a dualidade, mas sem que esse tomar em m\u00e3os da dualidade redunde ou numa fus\u00e3o ou num dualismo. Conserva a tens\u00e3o porque \u00e9 essa tens\u00e3o que nos define como humanos. Somos infinito no finito, sem que o finito absorva o infinito ou o infinito anule o finito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque a pergunta que todo o documento faz, perante as potencialidades do desenvolvimento, \u00e9 a acertada: que homem emerge do caminho que estamos a fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou caminhamos para um Homem n\u00e3o \u2018humanizado\u2019 (n\u00e3o finito, transumanizado) ou, mesmo, para o fim do Homem (p\u00f3s-humanismo)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evitar esse fim s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel se se assegurar (te\u00f3rica e praticamente) a condi\u00e7\u00e3o finita da humanidade, feita da tens\u00e3o entre \u2018ser e ainda n\u00e3o ser\u2019, entre o \u2018j\u00e1\u2019 (ser) e o \u2018ainda n\u00e3o\u2019 (ser), que s\u00f3 uma l\u00f3gica de voca\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia (n\u00e3o sou o criador da minha vida, mas o seu administrador, porque a recebo e corresponde ao que sou chamado a ser). Daqui resulta que o reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica da humanidade n\u00e3o deve servir para uma \u2018autossatisfa\u00e7\u00e3o\u2019 com essa condi\u00e7\u00e3o, ficando-se na tragicidade que se saboreia e que legitima toda a posse da vida, mas antes, reconhecendo essa tragicidade deve emergir a procura do sentido \u00faltimo que o cristianismo, na experi\u00eancia do Ressuscitado, ilumina, de modo \u00fanico: toda a dualidade humana adquire significado e n\u00e3o \u00e9 anulada, antes assumida (Jesus Cristo n\u00e3o anula a divindade por ser Homem; n\u00e3o anula a humanidade por ser Deus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9, de facto, um documento que vai ao \u00e2mago: ao \u00e2mago da condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna, contempor\u00e2nea, ao enunciar os grandes dramas atuais; mas tamb\u00e9m ao \u00e2mago do cristianismo, ao evidenciar a atualidade da resposta crist\u00e3 perante os tremendos desafios contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O horizonte n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se fechou como, subitamente, se escancarou, gr\u00e1vido de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta continua, por\u00e9m, a ecoar, enquanto a decis\u00e3o passar por anular (escolhendo os monismos ou dualismos) a tens\u00e3o que define a humanidade (entre finito e infinito; entre eu e tu; entre eu e mundo; entre eu e Deus): \u2018para onde vais, tu, humanidade?\u2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Ser uma pessoa humana, com uma dignidade infinita, n\u00e3o \u00e9 algo que constru\u00edmos ou adquirimos, mas \u00e9 fruto de um dom gratuito que nos precede.\u2019 (n.\u00ba 2)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para desempenhar adequadamente o compromisso do discernimento cr\u00edtico diante de alguns dos cen\u00e1rios mais relevantes para o futuro do ser humano, o documento prop\u00f5e quatro categorias fundamentais, em cada um dos cap\u00edtulos que o comp\u00f5em. Come\u00e7a-se pela considera\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento, que est\u00e1 na base de muitas das novidades tecnol\u00f3gicas e sociais em curso. A necessidade de garantir um desenvolvimento humano integral leva ent\u00e3o a refletir sobre a categoria de voca\u00e7\u00e3o, como chave de compreens\u00e3o antropol\u00f3gica que, por sua vez, remete \u00e0 quest\u00e3o da identidade humana, tanto a n\u00edvel pessoal como social. Por fim, aprofunda-se a condi\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, ou seja, hist\u00f3rica e livre, que caracteriza a identidade humana, entendida como voca\u00e7\u00e3o, e o seu di\u00e1logo com os novos desafios tecnocient\u00edficos.\u2019 (n.\u00ba 8)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A condi\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do processo hist\u00f3rico de humaniza\u00e7\u00e3o, redimido e levado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o gratuita em Cristo \u2013 se desdobra na consci\u00eancia que cada ser humano tem da sua finitude no encontro inevit\u00e1vel com o infinito. Os seres humanos s\u00e3o as \u00fanicas criaturas que sabem que s\u00e3o finitas e, portanto, devem enfrentar esse fato. \u00c9 poss\u00edvel considerar diferentes op\u00e7\u00f5es que se abrem diante de cada ser humano: pode-se tentar absolutizar a finitude; pode-se tentar escapar da finitude num infinito fict\u00edcio; pode-se tentar chegar a um acordo com a finitude; pode-se habitar a tens\u00e3o entre finitude e infinito, na esperan\u00e7a de uma realiza\u00e7\u00e3o recebida como dom.\u2019 (n.\u00ba 13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O transumanismo e o p\u00f3s-humanismo, embora relacionados e por vezes considerados id\u00eanticos (devido \u00e0s suas respetivas defini\u00e7\u00f5es ainda bastante fluidas), representam perspectivas diferentes na compreens\u00e3o da natureza humana e do futuro da humanidade.<br \/>\nO transumanismo \u00e9 um movimento filos\u00f3fico que opera com a convic\u00e7\u00e3o de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ci\u00eancia e da tecnologia para superar os limites f\u00edsicos e biol\u00f3gicos da condi\u00e7\u00e3o humana, em particular o envelhecimento e at\u00e9 mesmo a morte, moldando assim a sua pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o e maximizando o seu potencial, at\u00e9 redesenhar o ser humano para torn\u00e1-lo apto a ir al\u00e9m. Com a sua \u00eanfase program\u00e1tica no aumento das capacidades humanas individuais, desenvolve uma perspectiva claramente antropoc\u00eantrica, subscrevendo uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica e ingenuamente acr\u00edtica do progresso cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico.<br \/>\nO transumanismo imagina um futuro em que os seres humanos aperfei\u00e7oar\u00e3o a forma biol\u00f3gica atual que caracteriza a natureza humana, para alcan\u00e7ar o objetivo da imortalidade individual apoiada pela tecnologia. No \u00e2mbito ut\u00f3pico da sua busca pela imortalidade imanente, o transumanismo pode ser interpretado como a express\u00e3o existencial de uma presun\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo ing\u00e9nua e arrogante.\u2019 (n.\u00ba14)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O p\u00f3s-humanismo, em sentido estrito, critica o humanismo tradicional, questionando a especificidade dos seres humanos e a exist\u00eancia de uma \u201cforma humana\u201d que, como tal, merece ser preservada por ser portadora de um significado universalmente v\u00e1lido. Por isso, enfatiza o \u201ch\u00edbrido\u201d (cyborg), a ponto de desconstruir o sujeito humano, tornando totalmente fluida a fronteira entre o humano e a m\u00e1quina, e rejeitando o antropocentrismo que continua a ser caracter\u00edstico do transumanismo. Em \u00faltima an\u00e1lise, o p\u00f3s-humanismo em sentido estrito pode ser entendido como uma express\u00e3o existencial de fuga da realidade, que parte de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o radical do humano.\u2019 (n.\u00ba 15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Resta perguntar-se se este sonho de uma passagem para uma fase p\u00f3s-humana n\u00e3o levar\u00e1, antes, a uma condi\u00e7\u00e3o \u201cdesumana\u201d. Embora seja preciso reconhecer que esse desejo de \u201cir al\u00e9m\u201d, de superar a si mesmo e a condi\u00e7\u00e3o atual para ser plenamente humano, representa uma tens\u00e3o constitutiva da natureza humana. Podemos, portanto, distinguir entre um significado positivo de \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d, no qual se reconhece a abertura para al\u00e9m da natureza humana, e um significado negativo, quando a ideia de supera\u00e7\u00e3o implica a substitui\u00e7\u00e3o ou supress\u00e3o do humano.\u2019 (n.\u00ba 23)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018 [\u2026] essa preocupa\u00e7\u00e3o surge um crit\u00e9rio fundamental: se a tecnologia faz parte da atividade caracter\u00edstica do ser humano em realiza\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, \u00e9 preciso estar atento para garantir um \u201cdesenvolvimento integral e solid\u00e1rio\u201d, ou seja, o desenvolvimento \u201cde cada homem e de todo o homem\u201d, que evite uma exalta\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica como forma dominante de vida, como modo absorvente de existir, sem que a quest\u00e3o do seu significado seja realmente colocada.\u2019 (n.\u00ba26)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A rela\u00e7\u00e3o com os instrumentos tecnol\u00f3gicos \u00e9 complexa, pois a rela\u00e7\u00e3o entre o instrumento tecnol\u00f3gico e o sujeito que o utiliza apresenta uma circularidade que implica um condicionamento rec\u00edproco. Quem utiliza o instrumento tecnol\u00f3gico \u00e9, em certa medida, condicionado pelas possibilidades que o instrumento oferece e pode imaginar de forma diferente a organiza\u00e7\u00e3o da sua vida. Por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o de autoestradas e vias de alta velocidade favorece uma distribui\u00e7\u00e3o do trabalho que se estende por espa\u00e7os mais vastos e permite desloca\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas que favorecem interc\u00e2mbios, contatos e atividades a dist\u00e2ncias antes impens\u00e1veis. Isto implica uma maior mobilidade e uma organiza\u00e7\u00e3o diferente da vida profissional e familiar. Este dinamismo torna-se mais impactante para o indiv\u00edduo quando se passa dos instrumentos tecnol\u00f3gicos, que aumentam a velocidade de deslocamento (carro, trem, avi\u00e3o), para as \u201ctecnologias intelectuais\u201d, que visam potenciar o conhecimento, ou seja, o que e como pensamos (tecnologia digital, redes sociais, intelig\u00eancia artificial).\u2019 (n.\u00ba32)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] \u00e9 neste tipo de conhecimento sem corpo, sem limites, sem la\u00e7os e sem sentido moral que se baseiam os sonhos do transumanismo, que chega tamb\u00e9m, no p\u00f3s-humanismo, a imaginar um salto evolutivo. Essa imagina\u00e7\u00e3o rep\u00f5e com for\u00e7a a quest\u00e3o sobre o fim \u00faltimo do progresso tecnol\u00f3gico.\u2019 (n.\u00ba41)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018 [\u2026] Uma vez modificado, muitas vezes com uma frenesia incessante, o corpo torna-se um corpo-objeto no qual a pessoa-sujeito se espelha, criando uma rela\u00e7\u00e3o em que a pessoa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o seu corpo, mas \u201cpossui\u201d um corpo, a partir do qual procura encontrar uma identidade \u201cemprestada\u201d. Nesta din\u00e2mica, n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio aceitar o pr\u00f3prio corpo para realizar a pr\u00f3pria identidade. Ele pode ser transformado de acordo com os gostos do momento. Cria-se uma situa\u00e7\u00e3o curiosa: o corpo ideal \u00e9 exaltado, procurado e cultivado, enquanto o corpo real n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente amado, sendo fonte de limites, esfor\u00e7os, envelhecimento. Deseja-se um corpo perfeito, enquanto se sonha em fugir do pr\u00f3prio corpo concreto e dos seus limites.\u2019 (n.\u00ba47)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em resumo, estas transforma\u00e7\u00f5es influenciam a rela\u00e7\u00e3o com o Mist\u00e9rio da origem e do fim \u00faltimo da vida humana. Quando o ser humano reduz a natureza criada (pessoa, cosmos) a mat\u00e9ria a ser transformada, ele n\u00e3o manifesta mais a gl\u00f3ria do Criador, mas substitui-Se a Ele. O mesmo acontece quando a tarefa de dar sentido \u00e0 exist\u00eancia e indicar o fim \u00faltimo se identifica com a implementa\u00e7\u00e3o das potencialidades tecnol\u00f3gicas. Neste contexto, as tradi\u00e7\u00f5es religiosas e espirituais ainda t\u00eam algo de essencial e indispens\u00e1vel a oferecer no que diz respeito \u00e0 sabedoria de viver em rela\u00e7\u00e3o a Deus.\u2019 (n.\u00ba50)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A partir das reflex\u00f5es anteriores, percebe-se a import\u00e2ncia de colocar no centro a quest\u00e3o antropol\u00f3gica, perguntando-se n\u00e3o tanto como ir \u201cal\u00e9m dos limites do humano\u201d, mas sim o que torna a nossa exist\u00eancia \u201cautenticamente humana\u201d. \u00c0 luz desta quest\u00e3o antropol\u00f3gica fundamental, \u00e9 poss\u00edvel elaborar alguns crit\u00e9rios para um discernimento cr\u00edtico da antropologia subjacente a estes movimentos filos\u00f3ficos e culturais.<br \/>\n[\u2026] Um primeiro elemento que se revela problem\u00e1tico \u00e9 o julgamento negativo sobre a condi\u00e7\u00e3o humana tal como ela \u00e9 e, em \u00faltima an\u00e1lise, sobre a sua identidade. Da\u00ed deriva o sonho de reinvent\u00e1-la, um sonho motivado pela insatisfa\u00e7\u00e3o com o que ela \u00e9, com os seus limites e defeitos. (57)<br \/>\n[\u2026] O segundo aspeto, relacionado com o primeiro, \u00e9 o sonho de um perfeccionismo individualista e elitista. Parece que cada ser humano concreto s\u00f3 pode existir ou ser aceite na condi\u00e7\u00e3o de \u201cse tornar mais perfeito\u201d. Tanto que nos devemos perguntar se a condi\u00e7\u00e3o humana atual ainda tem direito a existir ou se os seres humanos particulares se tornaram \u201csup\u00e9rfluos\u201d.\u2019 (58)<br \/>\n[\u2026] Um terceiro fator \u00e9 o impacto social dessa vis\u00e3o do ser humano. Na verdade, ela pode chegar a afirmar a separa\u00e7\u00e3o entre uma forma de humanidade superior, dotada de instrumentos que a potenciam at\u00e9 a imortalidade, e uma humanidade primitiva, pr\u00e9-tecnol\u00f3gica e destinada, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.\u2019 (59)<br \/>\n[\u2026] Por fim, n\u00e3o se deve esquecer o olhar geralmente negativo sobre a experi\u00eancia religiosa. Ela \u00e9 frequentemente apresentada como uma posi\u00e7\u00e3o resignada e fatalista, que sacraliza a condi\u00e7\u00e3o humana atual com dogmas e preceitos que inibem a pesquisa e o progresso. As \u201cvis\u00f5es sacralizantes\u201d que enfatizam o valor do corpo ou da natureza como express\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o de Deus impediriam a livre pesquisa. A ideia de que a vida biol\u00f3gica \u00e9 um dom, a ser tratado com cuidado, implicaria a proibi\u00e7\u00e3o de algumas experi\u00eancias e muta\u00e7\u00f5es melhorativas, bloqueando o progresso.\u2019 (60)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A antropologia crist\u00e3 pode identificar nessas tend\u00eancias filos\u00f3ficas e culturais atuais muitos tra\u00e7os daquela mentalidade que Francisco descreveu como uma forma de \u201cneo-gnosticismo\u201d. Trata-se de modos de pensar e atitudes que devem ser entendidos num sentido an\u00e1logo \u00e0s formas antigas de gnosticismo. Tal abordagem, ao considerar o humano e a sua salva\u00e7\u00e3o, procura libert\u00e1-lo de toda a depend\u00eancia e limite, separando-o do corpo, do cosmos, da comunidade e da hist\u00f3ria. Apresenta \u201cuma salva\u00e7\u00e3o meramente interior, encerrada no subjetivismo. [&#8230;] Pretende-se assim libertar a pessoa do corpo e do cosmos material, nos quais j\u00e1 n\u00e3o se descobrem os tra\u00e7os da m\u00e3o providencial do Criador, mas se v\u00ea apenas uma realidade sem sentido, alheia \u00e0 identidade \u00faltima da pessoa e manipul\u00e1vel segundo os interesses do homem\u201d.\u2019 (n.\u00ba61)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A mentalidade que se pode reconhecer nos movimentos transumanista e p\u00f3s-humanista perde, de fato, a integralidade do ser humano e, em particular, a sua identidade e voca\u00e7\u00e3o segundo o des\u00edgnio de Deus, exaltando algumas dimens\u00f5es em detrimento de outras. \u00c9 clara a quest\u00e3o antropol\u00f3gica fundamental que se coloca: trata-se de uma proposta que transforma ou deforma o humano, no que diz respeito \u00e0 sua ess\u00eancia? Chegar\u00e1 a haver um humano excepcional ou formas de exce\u00e7\u00e3o ao humano aut\u00eantico? De acordo com a vis\u00e3o crist\u00e3, o ser humano \u00e9 definido por uma forma espec\u00edfica que garante a sua unidade e integridade, tanto no que se refere \u00e0 sua identidade, como \u00e0 a\u00e7\u00e3o em que se torna ele mesmo, como ao fim \u00faltimo em que encontra a sua realiza\u00e7\u00e3o. Ao n\u00edvel do indiv\u00edduo, \u00e9 a alma imortal que d\u00e1 forma, ou seja, que unifica e organiza a mat\u00e9ria num corpo vivo, conferindo ao ser humano uma transcend\u00eancia que o p\u00f3s-humanismo e o transumanismo n\u00e3o podem alcan\u00e7ar nem superar. O que unifica e orienta o desenvolvimento pessoal n\u00e3o emerge apenas da natureza e do cosmos, mas tamb\u00e9m se realiza a partir das rela\u00e7\u00f5es, nas quais a identidade pessoal \u00e9 antecipada pelas expectativas dos outros e, de forma original e fundamental, pelo di\u00e1logo livre com Deus.[\u2026]\u2019 (n.\u00ba62)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] A cultura dominante hoje n\u00e3o est\u00e1 suficientemente atenta ao fato de que \u201cse nasce\u201d, e o transumanismo, e ainda mais o p\u00f3s-humanismo, esquecem que o ser humano \u00e9 antes de tudo filho e, portanto, crian\u00e7a, que se descobre gerado e doado a si mesmo na maravilhosa aventura de ser e crescer.\u2019 (n.\u00ba86)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em contraposi\u00e7\u00e3o a todo o triunfalismo transumanista ou ao pessimismo radical do p\u00f3s-humanismo, a refer\u00eancia ao mist\u00e9rio da Cruz chama a nossa aten\u00e7\u00e3o para a hist\u00f3ria do ponto de vista das v\u00edtimas. O verdadeiro pathos da hist\u00f3ria n\u00e3o consiste apenas nas grandes conquistas da humanidade, mas tamb\u00e9m nos sofrimentos silenciosos de tantas pessoas ao longo das gera\u00e7\u00f5es e em todo o mundo.[\u2026]\u2019 (n.\u00ba97)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A exist\u00eancia pessoal est\u00e1 inserida numa hist\u00f3ria, num tempo e num espa\u00e7o precisos, e desperta para a consci\u00eancia de si mesma no interior de rela\u00e7\u00f5es que expressam uma perten\u00e7a que a precede e a fundamenta. Desta forma, reencontra o seu significado original como chamada \u00e0 vida [\u2026].\u2019 (n.\u00ba99)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Hoje, especialmente no Ocidente, \u00e9 frequentemente favorecida uma \u201ccultura da n\u00e3o voca\u00e7\u00e3o\u201d, que de fato tamb\u00e9m est\u00e1 subjacente aos desafios antropol\u00f3gicos contempor\u00e2neos. Em particular, no que diz respeito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos jovens, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar como muitas vezes a compreens\u00e3o da sua vida carece de abertura a um sentido \u00faltimo, tanto em termos de orienta\u00e7\u00e3o como de rela\u00e7\u00f5es constitutivas. N\u00e3o se sabe e n\u00e3o se reconhece que se \u00e9 chamado. O planeamento do futuro limita-se a uma l\u00f3gica que reduz o futuro, na melhor das hip\u00f3teses, \u00e0 escolha de uma profiss\u00e3o, \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica ou \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de algumas necessidades: \u201cS\u00e3o escolhas sem qualquer abertura ao mist\u00e9rio e ao transcendente, e talvez at\u00e9 com pouca responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, pr\u00f3pria e alheia, \u00e0 vida recebida como dom e a ser gerada nos outros\u201d. O modelo antropol\u00f3gico predominante parece ser o da \u201cpessoa sem voca\u00e7\u00e3o\u201d, cujo impacto na percep\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 o de se sentir perdida no drama de uma exist\u00eancia que n\u00e3o encontra sentido e que n\u00e3o tem esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. \u00c9 o convite a uma \u201cvida como voca\u00e7\u00e3o\u201d que pode abrir um horizonte que ultrapassa a pretens\u00e3o de encontrar um \u201cprojeto de vida\u201d ef\u00e9mero, absolutamente autofundado e programado pelo indiv\u00edduo, que paradoxalmente reflete a homologa\u00e7\u00e3o com a mentalidade dominante.\u2019 (n.\u00ba103)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Redescobrir a vida como voca\u00e7\u00e3o significa corresponder a um dom que chama a moldar a pr\u00f3pria identidade, assumindo a tarefa de se tornar a si mesmo e de transformar a sociedade e o mundo segundo o des\u00edgnio de Deus. N\u00e3o se trata simplesmente de fazer projetos, de programar o futuro, de encontrar um trabalho para ganhar a vida e melhorar o mundo. A quest\u00e3o s\u00e9ria na vida, entendida como voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 realizar a pr\u00f3pria identidade pessoal como dom para os outros.\u2019 (n.\u00ba106)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O ambiente mais adequado para amadurecer a pr\u00f3pria identidade \u00e9 o do amor, a come\u00e7ar pela fam\u00edlia, que est\u00e1 na origem da nossa exist\u00eancia. De fato, muitas pobrezas, mesmo materiais, nascem na raiz do \u201cisolamento, do n\u00e3o ser amado ou da dificuldade de amar\u201d. De acordo com o dinamismo da reciprocidade assim\u00e9trica entre o dom e a resposta que moldam a nossa identidade, assumir a pr\u00f3pria vida significa reconhecer que somos confiados a n\u00f3s mesmos (autopossess\u00e3o) por um dom n\u00e3o pedido e que deve ser reconhecido, aceite e desejado como um bem para si mesmo (assentimento). Esse reconhecimento do dom que precede n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de pura raz\u00e3o. Implica uma din\u00e2mica afetiva: amamo-nos porque somos amados e sentimo-nos amados.[\u2026]\u2019 (n.\u00ba110)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] A identidade \u00e9 complexa, sendo constitu\u00edda por v\u00e1rias dimens\u00f5es. Os seres humanos est\u00e3o conscientes de que as suas identidades, se por um lado s\u00e3o individuais e intransfer\u00edveis, por outro s\u00e3o relacionais, moldadas pelas comunidades a que pertencem e pelas circunst\u00e2ncias da vida. Por isso,a identidade \u00e9 sempre algo recebido e, ao mesmo tempo, algo atualizado e desenvolvido por cada um. Nenhum ser humano entra na exist\u00eancia j\u00e1 definido e perfeito: temos de aprender quem e o que somos, tanto na inf\u00e2ncia como na idade adulta. Aprendemos a aceitar o dom de n\u00f3s mesmos, assumindo sobretudo a tarefa de formar a nossa identidade, impl\u00edcita neste dom, e de a redescobrir em cada nova etapa da vida.\u2019 (n.\u00ba112)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Neste contexto, tamb\u00e9m a reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre a defici\u00eancia pode assumir um valor relevante na defesa da dignidade infinita de cada pessoa, abra\u00e7ando a sua condi\u00e7\u00e3o particular. A voz das pessoas com defici\u00eancia \u00e9 uma contesta\u00e7\u00e3o radical \u00e0 \u201ccultura do descarte\u201d que ressoa em certos racioc\u00ednios transumanistas ou p\u00f3s-humanistas. Estamos num terreno muito delicado, mas significativo para a quest\u00e3o da identidade biol\u00f3gica-natural, que mereceria uma considera\u00e7\u00e3o muito mais aprofundada. Em linha geral, \u00e9 necess\u00e1rio recordar o significado decisivo da depend\u00eancia e da vulnerabilidade como elementos integrantes de toda a experi\u00eancia humana. Sem preju\u00edzo de que as defici\u00eancias cong\u00e9nitas n\u00e3o s\u00e3o diretamente desejadas por Deus, a defici\u00eancia deve ser explorada, com todas as suas especificidades, como uma manifesta\u00e7\u00e3o daquelas dimens\u00f5es de finitude e conting\u00eancia, que devem ser vistas e vividas n\u00e3o apenas como negativas para a forma\u00e7\u00e3o da identidade. De fato, a condi\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia mant\u00e9m a identidade pessoal bem ancorada \u00e0 realidade corporal-espiritual dada, a ponto de aparecer como um elemento inelut\u00e1vel da identidade da pessoa com defici\u00eancia. No contexto do conjunto da pessoa e da sua hist\u00f3ria, tamb\u00e9m a defici\u00eancia pode ser uma ocasi\u00e3o de bem, de sabedoria e de beleza. Estamos longe dos sonhos do transumanismo e do p\u00f3s-humanismo de fugir da base natural da exist\u00eancia, e especialmente dos limites do pr\u00f3prio corpo, para alcan\u00e7ar a pr\u00f3pria identidade.\u2019 (n.\u00ba118)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Isso n\u00e3o implica que os outros seres vivos devam ser considerados meros objetos de dom\u00ednio ou explora\u00e7\u00e3o, pois isso teria consequ\u00eancias graves para a sociedade: refor\u00e7aria a idolatria dos mais fortes e produziria desigualdades, injusti\u00e7as e viol\u00eancia para toda a humanidade e para o planeta. Segundo a Sagrada Escritura, as outras criaturas merecem um olhar positivo, digno de prote\u00e7\u00e3o e respeito, em particular os animais, enquanto seres vivos e sencientes. O ser humano, embora se encontre no centro da cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode compreender-se a si mesmo se n\u00e3o se descobrir situado no contexto das outras criaturas e unido a elas. \u00c9 preciso, por\u00e9m, evitar os excessos de certas sociedades avan\u00e7adas, sobretudo no Ocidente, que tendem a considerar alguns animais, especialmente os dom\u00e9sticos, quase como pessoas. \u00c9 preciso evitar as tenta\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas de \u201chumanizar os animais\u201d e de \u201creduzir os seres humanos a animais\u201d.\u2019 (n.\u00ba126)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A condi\u00e7\u00e3o humana parece marcada por tens\u00f5es ou polaridades irredut\u00edveis, cujo significado cada pessoa e toda a humanidade s\u00e3o chamadas a descobrir, para comp\u00f4-las numa harmonia que fa\u00e7a crescer a vida em todo o seu potencial. As \u201ctens\u00f5es polares\u201d s\u00e3o constitutivas da experi\u00eancia humana comum, e nelas a pessoa descobre o seu ser mist\u00e9rio aberto ao Mist\u00e9rio de Deus. Se quisermos compreender os recursos e as dificuldades do caminho para nos tornarmos n\u00f3s mesmos, \u00e9 preciso tomar consci\u00eancia dessas polaridades caracter\u00edsticas da condi\u00e7\u00e3o criatural.\u2019 (n.\u00ba130)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Essas polaridades n\u00e3o devem ser interpretadas numa l\u00f3gica dualista, mas como \u201cunidade dos dois\u201d, nem podem ser simplificadas atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o de um termo, numa l\u00f3gica monista da identidade ou numa l\u00f3gica dual da dial\u00e9tica dos opostos. As polaridades superam, portanto, dualismos e monismos, que pretendem capturar o mist\u00e9rio do ser humano, e mostram o valor justo e inalien\u00e1vel da diferen\u00e7a. Os polos opostos n\u00e3o se anulam, n\u00e3o acontece que um polo destrua o outro. Nem a contradi\u00e7\u00e3o nem a identidade absoluta dominam. Para viv\u00ea-las bem, \u00e9 necess\u00e1ria outra l\u00f3gica, que permita captar o ritmo interior da realidade de uma forma mais aderente aos dados e mais harmoniosa. Somos remetidos, em \u00faltima an\u00e1lise, ao pr\u00f3prio ritmo da vida trinit\u00e1ria, que se reflete na cria\u00e7\u00e3o, em virtude do qual a rela\u00e7\u00e3o entre dois n\u00e3o se fecha sobre si mesma, nem reabsorve a alteridade no um, mas se abre \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o no terceiro, sempre excedente e inesgot\u00e1vel.\u2019 (n.\u00ba132)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Atrav\u00e9s das oposi\u00e7\u00f5es polares, permanece intato o dom original que precede e funda. Devem, portanto, ser assumidas \u00e0 luz do car\u00e1ter promissor que brota do pr\u00f3prio dom. Mais do que como \u201cdados\u201d, as polaridades devem ser interpretadas como \u201cdons\u201d. \u00c9 precisamente em Cristo que se realiza a assun\u00e7\u00e3o completa das polaridades numa unidade que mant\u00e9m as diferen\u00e7as e as harmoniza numa s\u00edntese superior. Esta capacidade de integra\u00e7\u00e3o unitiva, que respeita o real na sua concretude e, portanto, nas suas oposi\u00e7\u00f5es polares, \u00e9 caracter\u00edstica do esfor\u00e7o de pensamento do \u201cet\/et\u201d t\u00edpico da forma mentis cat\u00f3lica. E \u00e9 isso que acontece na Igreja: em que o ser humano adquire, pela gra\u00e7a, o sentido da realidade total, pois nela se amplia o horizonte da experi\u00eancia da pessoa e do seu mist\u00e9rio. Examinemos, ent\u00e3o, em r\u00e1pida s\u00edntese, estas polaridades criaturais, segundo uma ordem que parte da experi\u00eancia humana mais imediata at\u00e9 \u00e0 raiz mais profunda, precisando que existe entre elas uma \u201cprogress\u00e3o circular\u201d, mais do que uma simples sucess\u00e3o.\u2019 (n.\u00ba133)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] diante das v\u00e1rias redu\u00e7\u00f5es que descrevemos, onde certos aspetos do humano eram mortificados, a forma mentis cat\u00f3lica pretende buscar uma s\u00edntese din\u00e2mica, na qual nenhuma dimens\u00e3o da experi\u00eancia comum se perca, respeitando as tens\u00f5es constitutivas.\u2019 (n.\u00ba161)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O desenvolvimento tecnol\u00f3gico impar\u00e1vel que consideramos neste texto e que favorece sobretudo aqueles que j\u00e1 t\u00eam muito poder, desafia-nos a voltar o nosso olhar para os mais pobres. Se este desenvolvimento, como vimos, juntamente com as ideologias que o acompanham, implica s\u00e9rios riscos, estes ser\u00e3o ainda maiores para os mais fracos e indefesos, ou seja, para aqueles que n\u00e3o contam nada por que n\u00e3o servem aos interesses dos mais poderosos. Eles correm o risco de se tornarem mat\u00e9ria descart\u00e1vel, \u201cdanos colaterais\u201d, varridos sem piedade. Como crist\u00e3os, por\u00e9m, somos chamados a olhar para eles com os olhos de Cristo, que diz a cada um deles: \u201cEu te amei\u201d (Ap 3,9). Como explica o Papa Le\u00e3o XIV, Cristo \u201ccom o seu amor doado at\u00e9 ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano\u201d. E isso nos estimula a \u201cperceber a forte liga\u00e7\u00e3o que existe entre o amor de Cristo e o seu apelo a aproximarmo-nos dos pobres\u201d.<br \/>\nDa\u00ed decorre o dever de estar particularmente atentos, como humildes sentinelas, \u00e0s consequ\u00eancias que os novos desenvolvimentos da sociedade podem ter para a vida dos \u00faltimos. N\u00e3o obstante, reagir com uma palavra prof\u00e9tica e um envolvimento generoso. \u00c9 assim que se joga a autenticidade da nossa f\u00e9 e o valor humano da nossa vida.\u2019 (n.\u00ba164)<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem recolhida do site da<a href=\"https:\/\/www.martinsfontespaulista.com.br\/quo-vadis--humanitas----reflexao-sobre-a-antropologia-crista-perante-alguns-cenarios-sobre-o-futuro--1202685\/p?srsltid=AfmBOop8nKP676W2i3ljZTMVHXenWunygrQtZ-EGixsNvMAggsultmJH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> livraria Martins Fontes<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21148,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-21147","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21147"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21150,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21147\/revisions\/21150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}