{"id":21018,"date":"2026-06-02T17:08:10","date_gmt":"2026-06-02T16:08:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=21018"},"modified":"2026-06-02T17:10:48","modified_gmt":"2026-06-02T16:10:48","slug":"luis-manuel-p-silva-magnifica-humanitas-ode-ao-perfume-da-finitude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-magnifica-humanitas-ode-ao-perfume-da-finitude\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva | &#8216;Magnifica Humanitas&#8217; \u2013 ode ao perfume da finitude"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo publicado em parceria com o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/correiodovouga\/?locale=pt_PT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Correio do Vouga<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Li (melhor, \u2018sorvi, demoradamente\u2019\u2026) a primeira enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV. Esperava-a, pois fazia parte da promessa anunciada pelo Papa, no dia da sua elei\u00e7\u00e3o. Ao explicar a escolha do nome \u2013 \u2018Le\u00e3o\u2019, que o situava na senda do longo e atento pontificado de Le\u00e3o XIII \u2013, logo prometera que os desafios destes tempos \u2013 e, entre eles, os que nos coloca a \u2018Intelig\u00eancia\u2019 Artificial \u2013 fariam parte da sua detida reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura demorada deste documento confirma que valeu a pena esperar. Li-o entre os dias 27 e 31 de maio. Propositadamente, n\u00e3o me socorri da IA para obter s\u00ednteses ou esquemas. Escrevo, de dentro para fora, depois de, ao ler, ter aceitado fazer o movimento contr\u00e1rio: recebi, como sujeito leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espero que estas minhas palavras n\u00e3o fa\u00e7am o que vem operando a IA: que n\u00e3o dispense os leitores de se abeirarem do texto integral, mas, pelo contr\u00e1rio, contribua para que maior seja o n\u00famero dos leitores desta bela carta enc\u00edclica. Nenhum resumo colhe, integralmente, a riqueza deste documento que, sendo uma carta, n\u00e3o dever\u00e1 ficar \u2018na caixa do correio\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para esta breve an\u00e1lise, socorro-me de um instrumento que escapa, completamente, \u00e0 IA: o perfume, o odor. A IA consegue, algoritmicamente, fazer r\u00e1pidas s\u00ednteses de ideias. Mas n\u00e3o vive uma experi\u00eancia e n\u00e3o suscita viv\u00eancias. E n\u00e3o sabe a que cheiram as coisas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela via do odor, proporei sete pontos (viv\u00eancias) que esta enc\u00edclica proporciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de nos embrenharmos nos odores que permanecem, deixo duas sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o olfativas. Impress\u00f5es t\u00e1teis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa \u00e9 da ordem de Santo Agostinho. \u00c9 interessante que tenha dado \u00e0 sua primeira enc\u00edclica o t\u00edtulo de \u2018Magnifica Humanitas\u2019. Na verdade, uma injusta rece\u00e7\u00e3o do pensamento de Santo Agostinho atribui-lhe um pessimismo antropol\u00f3gica que bebera, por exemplo, Lutero (ele tamb\u00e9m padre agostinho). \u2018Magnifica Humanitas\u2019 como que \u2018redime\u2019 Santo Agostinho\u2019 perante o olhar do mundo. Mas n\u00e3o \u00e9 ele, afinal, o te\u00f3logo do cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma segunda nota que se nos imprime no tato como impress\u00e3o digital \u00e9 que Le\u00e3o XIV sabe encontrar um seguro equil\u00edbrio entre a evoca\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios (que clareza!) e a sua aplica\u00e7\u00e3o precisa e acutilante, com uma linguagem que n\u00e3o deixa, tamb\u00e9m, de ser muito pl\u00e1stica, na boa tradi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 cultivara o Papa Francisco. E com uma humildade (define-se como \u2018fiel entre fi\u00e9is\u2019) que o leva a reconhecer que a Igreja nem sempre, ao longo da hist\u00f3ria, foi consequente com o tesouro que lhe est\u00e1 confiado (vejam-se os n\u00fameros 86, 138, 175-177).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescento mais uma observa\u00e7\u00e3o, antes de abrirmos o frasco de perfume: antes deste documento que reflete sobre a IA, j\u00e1 os dicast\u00e9rios para a Cultura e Evangeliza\u00e7\u00e3o e da Doutrina da F\u00e9 tinham feito sair, em mar\u00e7o de 2025, a nota \u2018Antiqua et Nova\u2019, profusamente citada nesta enc\u00edclica, documento onde se clarifica o que \u00e9 aqui evocado: que, com propriedade, n\u00e3o deveria designar-se a \u2018IA\u2019 como \u2018intelig\u00eancia\u2019, que dever\u00e1 considerar-se pr\u00f3pria do humano. Sendo que a esta observa\u00e7\u00e3o dever\u00e1 acrescentar-se que o humano \u00e9 muito mais do que intelig\u00eancia, como claramente evidencia Le\u00e3o XIV, nesta \u2018Magnifica Humanitas\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partamos, ent\u00e3o, o frasco de perfume\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mirra (finitude)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O odor da mirra, uma resina utilizada no embalsamamento de cad\u00e1veres, evoca a omnipresente \u2018finitude\u2019. N\u00e3o me parece abusivo considerar que esta enc\u00edclica \u00e9 como que uma \u2018ode ao perfume da finitude humana\u2019, uma recorda\u00e7\u00e3o permanente de que, face \u00e0 IA, que se afigura como imune ao erro, \u00e9 preciso voltar a recordar a condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil da humanidade, condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o dispens\u00e1vel, como se pud\u00e9ssemos pensar-nos ou viver \u2018apesar\u2019 da finitude, mas antes como a condi\u00e7\u00e3o que nos define. E, por isso, merecem particular cr\u00edtica os transumanismos e p\u00f3s-humanismos que se prop\u00f5em esquecer o humano e a sua fragilidade, ao ponto de se proporem, mesmo, super\u00e1-lo. Na senda da vis\u00e3o preconizada neste enc\u00edclica, urge reconhecermo-nos como seres \u2018efinitos\u2019, que vivem na e da finitude a partir da qual podem pensar-se como projetados para o infinito, que n\u00e3o ser\u00e1 a sua anula\u00e7\u00e3o, mas a sua total assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alecrim (mem\u00f3ria)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Le\u00e3o XIV apresenta, entre os n\u00fameros 17 e 45, uma brilhante s\u00edntese do que foram estes anos de Doutrina Social da Igreja, inaugurada, como pensamento organizado e sistematizado, com Le\u00e3o XIII, em 1891. Esta sec\u00e7\u00e3o \u00e9 lugar a regressar, vezes sem conta. Lugar de uma mem\u00f3ria que se atualiza no pensamento e agir da Igreja de todos os lugares e tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alfazema (Paz)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 particularmente interessante o desafio que Le\u00e3o XIV faz a que se problematize o conceito de \u2018guerra justa\u2019, em cujo contexto desafia a que se tome consci\u00eancia de que \u2018o recurso \u00e0 for\u00e7a, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0s armas testemunha uma pobreza relacional que tem sempre consequ\u00eancias desastrosas para as popula\u00e7\u00f5es civis.\u2019 (n.192)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o particularmente densas afirma\u00e7\u00f5es que utiliza como as de \u2018gram\u00e1tica dos conflitos\u2019, \u2018na\u00e7\u00e3o armada\u2019, recordando que se assiste a uma mudan\u00e7a de paradigmas, em mat\u00e9ria b\u00e9lica, em que a guerra deixou de ser a \u2018extrema ratio\u2019 para se passar a legitimar, como uma esp\u00e9cie de cultura explicitada nas polariza\u00e7\u00f5es e l\u00f3gicas de \u2018amigo-inimigo\u2019, \u2018n\u00f3s-eles\u2019, suportada por interesses econ\u00f3micos que se alimentam da normaliza\u00e7\u00e3o do conflito e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Camomila (cura e cuidado)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as in\u00fameras e fecundas s\u00ednteses que este documento vai disponibilizando, numa pedagogia que far\u00e1 deste um modelo a seguir (s\u00e3o v\u00e1rias as partes da enc\u00edclica em que, ap\u00f3s enunciar ideias fundamentais, elas se v\u00e3o desdobrando como um leque, dobra ap\u00f3s dobra), Le\u00e3o XIV prop\u00f5e cinco \u2018pistas de responsabilidades quotidianas e p\u00fablicas: desarmar as palavras, construir a paz na justi\u00e7a, assumir o olhar das v\u00edtimas, cultivar um saud\u00e1vel realismo, revitalizar o di\u00e1logo e o multilateralismo\u2019 (n.213) E acrescenta, recuperando palavras do seu antecessor, que \u2018devemos tocar a carne de quem sofre: olhar para os rostos, escutar as hist\u00f3rias, reconhecer as feridas.\u2019 (n.216)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dama da noite (como jasmim) \u2013 floresce de noite &#8211; mist\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O documento abre com a refer\u00eancia a duas hist\u00f3rias b\u00edblicas que, como numa espiral, se ir\u00e3o desenrolando, progressivamente. A hist\u00f3ria de Babel e a da reconstru\u00e7\u00e3o das muralhas de Jerusal\u00e9m, ap\u00f3s o ex\u00edlio da Babil\u00f3nia, sob a condu\u00e7\u00e3o de Neemias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com estas duas met\u00e1foras, o Papa recordar\u00e1 que a humanidade est\u00e1 diante de um desafio: o de utilizar as potencialidades que as tecnologias lhe disponibilizam, ou para se edificar numa l\u00f3gica que nos voltar\u00e1 uns contra outros, ao considerar-nos autossuficientes, ou numa l\u00f3gica em que, reconhecendo-nos nascidos de Deus e irm\u00e3os, crescemos, conjuntamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laranjeira (equil\u00edbrio)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O odor da flor da laranjeira inebria. Mas bem sabemos como, da laranja doce se pode, facilmente, deslizar para a acidez do lim\u00e3o. O equil\u00edbrio \u00e9 uma das notas marcantes desta enc\u00edclica: nem idolatra a tecnologia, nem a demoniza. Mas j\u00e1 n\u00e3o se basta em afirmar a sua neutralidade enquanto instrumento. Reconhece que, dada a sua potencialidade, \u2018n\u00e3o podemos considerar a IA moralmente neutra [pois] todo o artefacto t\u00e9cnico traz consigo escolhas e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situa\u00e7\u00f5es.\u2019 (n.\u00ba104)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Am\u00eandoa (esperan\u00e7a)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modelo a que deveremos regressar \u00e9 Jesus Cristo. Ele n\u00e3o \u00e9 Deus apesar da humanidade: antes, assume a nossa humanidade. Assume-a e eleva-a, consigo. Essa dever\u00e1 ser a matriz, de modo a garantir que \u2018permitir o crescimento da t\u00e9cnica [se opere] sem deixar regredir o cora\u00e7\u00e3o\u2019 (n.126) Daqui resulta que \u2018o humanismo crist\u00e3o n\u00e3o rejeita a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica: acolhe-as com gratid\u00e3o e realismo, inserindo-as, \u201ccom os p\u00e9s bem assentes na terra\u201d, numa voca\u00e7\u00e3o mais elevada. [] a verdadeira alternativa n\u00e3o \u00e9 entre o entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de constru\u00e7\u00e3o: um progresso que serve \u00e0 pessoa e aos povos, ou um progresso que os submete \u00e0s l\u00f3gicas de poder.\u2019 (n.129)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta enc\u00edclica deixa, por tudo isto e por quanto escapa a este insuficiente \u2018frasco de perfume\u2019, uma pungente pergunta: quanta humanidade h\u00e1 nas nossas decis\u00f5es sobre o que fazer e o que fazemos com as tecnologias ao nosso dispor?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem recolhida de <a href=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/vaticano\/news\/2026-06\/18-carta-enciclica-magnifica-humanitas-padre-gerson-schmidt.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/vaticano\/news\/2026-06\/18-carta-enciclica-magnifica-humanitas-padre-gerson-schmidt.html<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado em<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21020,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[238,55],"tags":[],"class_list":["post-21018","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-magnifica-humanitas","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21018"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21018\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21023,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21018\/revisions\/21023"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}