{"id":20934,"date":"2026-05-23T07:07:08","date_gmt":"2026-05-23T06:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20934"},"modified":"2026-05-18T20:41:13","modified_gmt":"2026-05-18T19:41:13","slug":"24-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-casa-da-encosta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/24-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-casa-da-encosta\/","title":{"rendered":"24 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na casa da encosta"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"24 Mist\u00e9rio na casa da encosta\" width=\"640\" height='480' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IZn6RPCrcQ4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 noite.<br \/>\nUm suave luar \u2013daqueles de que se fazem todos os fantasmas! \u2013 enche de sombras as largas paredes da casa da encosta. Tr\u00eas grandes janelas rasgam a fachada. Uma s\u00f3 varanda estende-se, por toda a frontaria, de uma ponta \u00e0 outra. Pode entrar-se por um dos lados e sair pelo oposto. Naquela casa, tudo \u00e9 vastid\u00e3o. Tudo \u00e9 feito com espa\u00e7o e imensid\u00e3o. Foi j\u00e1, outrora, casa de crian\u00e7as e muitas correrias. Era a casa dos sonhos de toda a conversa de mi\u00fados. A casa de todos os av\u00f3s do mundo.<br \/>\nSobranceira \u00e0 encosta, dava para um florido jardim. Tudo \u00e9 beleza, cor, frescura.<br \/>\nM. olha, \u00e0 dist\u00e2ncia, sentada, junto ao irm\u00e3o, J., os rebuli\u00e7os de outrora. N\u00e3o s\u00e3o mais do que sombras do que foram.<br \/>\nSombras. S\u00e3o, agora, s\u00f3 sombras.<br \/>\nParece ouvir-se, ao longe, num longe j\u00e1 s\u00f3 feito mem\u00f3ria, os gritos felizes dos filhos e netos daquela av\u00f3 Raquel. H\u00e1 um permanente subir e descer de passos, entre movimentos de adultos que preparam demorados manjares.<br \/>\nMuitos \u00e0 mesa, mas ainda mais pelos degraus e longos corredores da mans\u00e3o.<br \/>\nTudo \u00e9 movimento. Tudo \u00e9 alegria.<br \/>\nRecheiam as paredes robustos trof\u00e9us de ca\u00e7a e luzidias armas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M. repousa, com do\u00e7ura, a cabe\u00e7a sobre o ombro do irm\u00e3o. Fecha, demoradamente, os olhos e parece encher de alma o vivido.<br \/>\nJ. pressente onde andam as mem\u00f3rias da irm\u00e3. Viveram, com um qu\u00ea de inveja, as in\u00fameras vidas daquela casa vizinha.<br \/>\nObservam, agora, o que resta de uma casa farta. Pendurados nos pregos onde repousavam, outrora, trof\u00e9us de ca\u00e7a, restam, agora, o p\u00f3 do tempo e o contraste das cores, na tinta das paredes, com a silhueta das armas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na encosta, resiste, apenas, uma \u00e1rvore, uma oliveira, retorcida pelo vento.<br \/>\nE Raquel, solit\u00e1ria.<br \/>\nSente-se um sumido gemer, colado \u00e0s paredes daquela l\u00fagubre morada.<br \/>\nRaquel sai, direita \u00e0 \u00e1rvore.<br \/>\nEncosta-se a ela, abra\u00e7a-a e regressa ao interior.<br \/>\nApenas uma \u00e1rvore, aquela oliveira, e a terra, sem ervas. Em noites de luar assim, aquela \u00e1rvore sulca, no ch\u00e3o, uma sombra sem fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 o que lhe resta! \u2013 Sussurra M. A solid\u00e3o \u00e9, agora, a sua companhia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solid\u00e3o que se seguiu a um dos numerosos jantares v\u00edvidos e suculentos.<br \/>\nEntre o contar dos dias e das suas surpresas, ouve-se o toque da campainha.<br \/>\nEra frequente. Um ou outro vizinho que vinha pedir fruta ou legumes da extensa quinta para que davam as traseiras da casa.<br \/>\nMas, naquele dia, ningu\u00e9m esperara para ser atendido. Deixara, apenas, um cesto e, nele, uma enigm\u00e1tica mensagem: \u2018nada do que \u00e9 vosso vos pertence\u2019.<br \/>\nUm s\u00fabito sil\u00eancio invadiu aquela casa. Um antigo pomo de disc\u00f3rdia viera sob a forma de um cesto.<br \/>\nAo sil\u00eancio, sucedeu o exaltar das vozes. Tiros. V\u00e1rios!<br \/>\nE, por fim, um choro. Um demorado choro.<br \/>\nAs suspeitas m\u00fatuas avolumaram o terror e cegaram os olhares.<br \/>\nEstavam na \u2018fase de partilhas\u2019, como se dizia entre o povo. E como \u00e9 terr\u00edvel esse tempo!<br \/>\nAquele em que as alegrias de outrora parecem nada contar; tudo parece sumir-se no temor da perda do mais pequeno recanto justamente reivindicado.<br \/>\nA casa da encosta, vivaz e generosa, dava lugar ao abismo e amn\u00e9sico mundo de Hades.<br \/>\nUma m\u00e3o seca, mirrada, arrastava para si toda a vida, em melodiosa sedu\u00e7\u00e3o sem resist\u00eancia.<br \/>\nO mais simples sobreiro, a mais estreita faixa de terra, a mais deca\u00edda parede de casa servira de pretexto para a disputa. Os olhos cegaram-se como se tivesse sido noite toda a sua vida.<br \/>\nNo meio da contenda, restou, por fim, Raquel que chora os seus filhos e netos.<br \/>\nE a aridez da terra que, silenciada a \u00faltima arma, tomou conta do jardim da encosta. Tudo \u00e9 secura e flores tombadas. No ch\u00e3o, folhas secas e a escurid\u00e3o da terra. Uma brisa levanta, da terra, um p\u00f3 j\u00e1 seco.<br \/>\nDe entre os dedos do filho, deitado sobre o ch\u00e3o, Raquel recolhe o papel que trouxera a fat\u00eddica mensagem. Enrolado entre as suas letras, um caro\u00e7o de azeitona\u2026<br \/>\nA noite, gr\u00e1vida do dia, d\u00e1 lugar \u00e0 aurora\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-20934","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20934","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20934"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20934\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20936,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20934\/revisions\/20936"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20934"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20934"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20934"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}