{"id":20736,"date":"2026-05-07T07:07:47","date_gmt":"2026-05-07T06:07:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20736"},"modified":"2026-04-08T20:28:31","modified_gmt":"2026-04-08T19:28:31","slug":"sabes-leitor-29-marca-de-agua-do-livro-de-frei-fernando-ventura-e-joaquim-franco-todos-nos-somos-sendo-o-primado-da-liberdade-e-a-cautela-da-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-29-marca-de-agua-do-livro-de-frei-fernando-ventura-e-joaquim-franco-todos-nos-somos-sendo-o-primado-da-liberdade-e-a-cautela-da-consciencia\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 29 | Marca de \u00e1gua do livro de Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, &#8216;Todos n\u00f3s somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consci\u00eancia&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O(s) autor(es) e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, <em>Todos n\u00f3s somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consci\u00eancia<\/em>, Lisboa, Contraponto, 2022.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">As conversas de Frei Fernando Ventura com o jornalista Joaquim Franco deram bons livros. Excelentes livros, ali\u00e1s! O esperado, afinal, quando se juntam, \u00e0 mesma mesa, um not\u00e1vel biblista em cuja vida se juntam muitas vidas e um fino jornalista.<br \/>\nDe \u2018Do eu solit\u00e1rio ao n\u00f3s solid\u00e1rio\u2019, em 2011, a \u2018Somos pobres mas somos muitos\u2019, em 2013, ambos editados pela Verso de Kapa, at\u00e9, por \u00faltimo, este \u2018Todos n\u00f3s somos sendo\u2019, publicado em 2022, pela Contraponto, Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco passam, a pente fino, toda a estrutura capilar a sociedade\u2026 Sem deixar escapar qualquer \u2018piolho\u2019, para explorar a met\u00e1fora impl\u00edcita na express\u00e3o a que deitei m\u00e3o: \u2018passar a pente fino\u2019. Assim \u00e9 a escrita e a coloquialidade de Frei Fernando Ventura, na qual se percebe, a cada passo, a linguagem de um biblista de reconhecida autoridade e que repercute, no seu dizer, o modo pr\u00f3prio de Deus se dizer na B\u00edblia: narrando, contando hist\u00f3rias, dizendo o mundo atrav\u00e9s de imagens que s\u00e3o palavra a acontecer.<br \/>\nNa vida de Frei Fernando Ventura, h\u00e1 muitas vidas. Seja porque a sua \u00e9 uma vida dedicada a outros (e o que se \u00e9 nasce do ser-se com os outros\u2026), seja porque a sua tem sido uma vida de muitos \u2018viveres\u2019 transformadores: desde a profundidade do homem que reflete e escreve, com uma facilidade singular (\u00e9, tamb\u00e9m, o diretor da revista mensal \u2018B\u00edblica\u2019), que ensina (foi docente do ISCRA, em Aveiro, onde nos conhecemos), mas tamb\u00e9m que arrega\u00e7a mangas e se envolve na transforma\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica do mundo.<br \/>\nE de Joaquim Franco pode esperar-se a pertin\u00eancia das interroga\u00e7\u00f5es e a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s entrelinhas a que vai buscar novas sendas pelas quais se envereda a conversa, atenta \u00e0 realidade, mas tamb\u00e9m \u00e0 diversidade sem\u00e2ntica das alus\u00f5es. Pois que Frei Fernando Ventura enriquece os di\u00e1logos de conte\u00fados que, pela sua densidade, permitem olhares penetrantes sobre o real, tantas vezes opaco ou dilu\u00eddo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo de \u2018Todos n\u00f3s somos sendo\u2019 anuncia ao que se vai. Cada um dos t\u00edtulos \u00e9, ali\u00e1s, um programa. E, neste, na densidade teol\u00f3gica impl\u00edcita (o t\u00edtulo repercute a tradu\u00e7\u00e3o que prop\u00f5e Frei Fernando Ventura para o mais c\u00e9lebre tetragrama de sempre \u2013 YHWH: \u2018Eu Sou Aquele que \u00c9, sendo!), como que dizendo, implicitamente, que, do que de Deus se pode dizer ter\u00e1 de se pensar da humanidade como aquela que \u00e9 criada \u00e0 Sua imagem e semelhan\u00e7a. E se de Deus o que se sabe (porque no-lo revelou) \u00e9 que \u00e9 um Deus-Rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poder\u00e1 pensar-se diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade.<br \/>\nA este subentendido b\u00edblico-teol\u00f3gico, o t\u00edtulo tamb\u00e9m soma a surpresa do primeiro confronto com o desconcerto da formula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos pensamos, espontaneamente, como aqueles que s\u00e3o, sendo. Pensamo-nos como aqueles que s\u00e3o porque s\u00e3o, indiv\u00edduos isolados e autossuficientes. Esperar-se-ia um \u2018todos n\u00f3s somos o que somos\u2019, repercutindo a fatalista compreens\u00e3o que sup\u00f5e o concomitante encolher de ombros de quem se rende \u00e0 condi\u00e7\u00e3o recebida e acabada.<br \/>\nMas essa n\u00e3o \u00e9 a linha de Frei Fernando Ventura.<br \/>\n\u2018Somos, sendo\u2019 implica a conting\u00eancia, a indig\u00eancia de se saber inacabado e dependente, porque essa \u00e9, afinal, a nossa genu\u00edna condi\u00e7\u00e3o. Dela fala, praticamente do primeiro ao \u00faltimo di\u00e1logo, este livro. Vis\u00e3o que contraria as leituras \u2018de para\u00edso perdido\u2019 que nos convencem da n\u00e3o necessidade de ningu\u00e9m nem Ningu\u00e9m\u2026<br \/>\n\u00c9 um livro feito de uma plasticidade de imagens que, para quem j\u00e1 ouviu Frei Fernando Ventura em interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, confere uma naturalidade a cada p\u00e1gina que quase nos permite reinvocar cada palavra ouvida ao vivo.<br \/>\nO dizer aqui escrito fala do dizer dito e do \u2018dizer vivido\u2019 de frei Fernando Ventura que joga com a surpresa e com a polissemia dos termos e das met\u00e1foras. A que soma um conhecimento detalhado das l\u00ednguas b\u00edblicas (do hebraico ao grego e, mesmo, ao aramaico), que permite levar o leitor a realizar descobertas b\u00edblicas, no meio das problematiza\u00e7\u00f5es sobre o viver atual.<br \/>\n\u00c9, ainda, um livro de coragem e liberdade, subentendidas no subt\u00edtulo \u2013 \u2018o primado da liberdade e a cautela da consci\u00eancia\u2019. Com a dist\u00e2ncia pr\u00f3pria dos profetas, os que falam a partir da experi\u00eancia de Deus, que os faz ler em profundidade a realidade (do passado ao futuro, sem, por\u00e9m, o ser com a atitude do adivinho, mas do homem de p\u00e9s no ch\u00e3o e olhar no horizonte maior), Frei Fernando analisa, criticamente, as op\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, das econ\u00f3micas que \u2018matam\u2019 (repercutindo o pensamento de Francisco e de S. Francisco \u2013 n\u00e3o fosse Frei Fernando ele pr\u00f3prio um franciscano!) \u00e0s que se prop\u00f5em, em tempos de morte pand\u00e9mica, legalizar a morte suavemente designada como \u2018eutan\u00e1sia\u2019 (boa morte!).<br \/>\nA este prop\u00f3sito, merecem destaque as suas palavras:<br \/>\n\u2018[\u2026] aqueles que passaram, como eu, pela experi\u00eancia de perder algu\u00e9m pr\u00f3ximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa institui\u00e7\u00e3o de acolhimento, sabem que nada disto \u00e9 normal e nada disto pode ser normaliz\u00e1vel.<br \/>\nTamb\u00e9m neste contexto se pode medir o grau de incompreens\u00edvel derrapagem no \u00abgesto\u00bb do parlamento do nosso pa\u00eds, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutan\u00e1sia (boa morte), que discute condi\u00e7\u00f5es de morte, precisamente num tempo em que saltava \u00e0 evid\u00eancia de todos que o que n\u00e3o temos s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de vida. Ver os \u00absenhores\u00bb deputados em p\u00e9 a aprovar legisla\u00e7\u00e3o de morte, quando tantos estavam deitados em ambul\u00e2ncias \u00e0 porta dos hospitais \u00e0 espera da sua vez de (n\u00e3o) morrer, sinceramente\u2026 senti nojo!<br \/>\nSenti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que n\u00e3o foram e continuam a n\u00e3o ser objeto de estudo num\u00e9rico, mas que engrossar\u00e3o os n\u00fameros dos \u00abadiados\u00bb que morrer\u00e3o mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condi\u00e7\u00f5es de vida.\u2019 (pp. 32-33)<br \/>\nEm toda a realidade incide, acutilantemente, o olhar de Frei Fernando para nela descortinar os sinais de autocentramento e abandono dos que \u2018nada-tendo\u2019 s\u00e3o transformados em \u2018nada-sendo\u2019.<br \/>\nN\u00e3o o faz para que a den\u00fancia seja o fim do discurso, mas, antes, o in\u00edcio do percurso de transforma\u00e7\u00e3o, pois, como diz Lu\u00eds Os\u00f3rio, no pref\u00e1cio, este \u00e9 um livro \u2018carregado de esperan\u00e7a\u2019. N\u00e3o a que nasce de um vago e alienado desejo de que seja diferente (que rapidamente poderia redundar, por ser ilus\u00e3o, na maior das desilus\u00f5es), mas que tem origem na consci\u00eancia de que, na raiz da mais genu\u00edna esperan\u00e7a, est\u00e1 uma Alian\u00e7a, que nos diz provirmos de um Deus que n\u00e3o \u00e9 \u2018sido\u2019, mas \u2018sendo\u2019. Um tal entendimento contraria os pressupostos individualistas que fecham na convic\u00e7\u00e3o de se bastar a si mesmo, como se, as nossas liberdades se estorvassem umas \u00e0s outras. N\u00e3o!<br \/>\nFrei Fernando recorda uma ideia que tamb\u00e9m n\u00f3s temos sublinhado, repetidamente: as nossas liberdades n\u00e3o se limitam umas \u00e0s outras. Antes, potenciam-se umas \u00e0s outras e s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o de possibilidade umas das outras. Sem os outros, poder\u00edamos dizer, nada somos. Somos, sendo com os outros.<br \/>\n\u00c9 por isso que podemos, tamb\u00e9m, concluir com Frei Fernando Ventura que \u2018a defesa dos mais fr\u00e1geis \u00e9 a fasquia definidora do humanismo, \u00e9 a bitola por excel\u00eancia capaz de revelar a medida exata do processo de humaniza\u00e7\u00e3o e de hominiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade e de um tempo.\u2019 (p. 93)<br \/>\nNuma sociedade humanizada, verdadeiramente humanista, n\u00e3o uma sociedade (mundo) [\u2026] \u00absolteira de afetos, vi\u00fava de emo\u00e7\u00f5es e divorciada de compromissos\u00bb, mas feita de e para as pessoas, \u2018s\u00f3 temos o direito de olhar algu\u00e9m e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.\u2019 (p. 144), ideia que o Papa Francisco veio a repetir, no ano seguinte ao da publica\u00e7\u00e3o deste livro, na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.<br \/>\n\u00c9 desse sonho de olhos abertos que fala este livro. O sonho de que \u2018o pal\u00e1cio n\u00e3o viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.\u2019 (p. 173)<br \/>\nUm sonho acordado e de acordados que se reconhecem como irm\u00e3os: \u2018Essa utopia resume-se a tr\u00eas princ\u00edpios \u00e0 espera desse espa\u00e7o: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflex\u00e3o \u00e9tica se pode resumir \u00e0 gest\u00e3o, em cada segundo da exist\u00eancia, a tr\u00eas palavras: quero, posso, devo. \u00c9 da resposta a cada uma destas tr\u00eas palavras em cada segundo de existir que existo ou n\u00e3o existo como pessoa, como ser de rela\u00e7\u00e3o, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.\u2019 (p. 38)<br \/>\n\u00c0 maneira franciscana (do Francisco de h\u00e1 oitocentos anos\u2026), falamos de um sonho em que tudo e todos s\u00e3o irm\u00e3os: do mundo aos Mundos. Para que, no imundo mundo se realize uma aut\u00eantica fraternidade. Pois que outra coisa \u00e9 sen\u00e3o o reconhecimento de todos sermos irm\u00e3os?! Reconhecidos como provindo d\u2019Aquele que nos possibilita sermo-lo. Irm\u00e3os porque provindos do Mesmo Pai, Deus-connosco, Aquele que, \u2018Sendo-Connosco\u2019, nos faz \u2018Sendo-Com-Todos\u2019.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] como frei Fernando nos diz \u2013 e o papa Francisco por outras palavras \u2013 a nossa sociedade (mundo) \u00e9 \u00absolteira de afetos, vi\u00fava de emo\u00e7\u00f5es e divorciada de compromissos\u00bb. Do pref\u00e1cio, p. 11<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c9 [\u2026] um livro carregado de esperan\u00e7a. Apesar de todos os apesares Todos N\u00f3s Somos Sendo convoca-nos para n\u00e3o faltarmos ao jogo decisivo de que somos todos protagonistas. Um bilhete para que possamos est\u00e1 \u00e0 hora certa na esta\u00e7\u00e3o onde um dia teremos a oportunidade de nos revelar por dentro. Nesse momento decisivo, a superf\u00edcie n\u00e3o nos valer\u00e1 de nada.\u2019 Do pref\u00e1cio, p. 12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] cada ponto de chegada \u00e9, ao mesmo tempo, tem de ser, um ponto de partida. E este que vivemos \u00e9 o tempo por excel\u00eancia da metanoia, de ir para al\u00e9m de n\u00f3s, para al\u00e9m da ponta do nosso nariz existencial, em dire\u00e7\u00e3o ao desconfinado mundo das ideias e das rela\u00e7\u00f5es, para encontrar sempre novas fronteiras, sempre novas metas de compreens\u00e3o que h\u00e1 que entender e ultrapassar para ser poss\u00edvel, vencer o medo e os medos, o medo e os medos que matam, o medo e os medos com que nos querem \u00abmatar\u00bb, porque a forma mais eficaz para controlar algu\u00e9m \u00e9 controlar-lhe os medos. Controlar qualquer sociedade \u00e9 ter o poder de controlar e gerir os medos que tolhem e que nos fazem saltar para o primeiro colo que se apresente a oferecer acolhimento capaz de \u00abtirar o medo\u00bb. Foi sempre assim que nasceram os ditadores, foi sempre assim que se instalaram as ditaduras\u2026 este \u00e9 um dos meus medos\u2026 n\u00e3o confio em nenhum colo dos que est\u00e3o dispon\u00edveis por a\u00ed\u2026\u2019 (p. 28)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] aqueles que passaram, como eu, pela experi\u00eancia de perder algu\u00e9m pr\u00f3ximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa institui\u00e7\u00e3o de acolhimento, sabem que nada disto \u00e9 normal e nada disto pode ser normaliz\u00e1vel.<br \/>\nTamb\u00e9m neste contexto se pode medir o grau de incompreens\u00edvel derrapagem no \u00abgesto\u00bb do parlamento do nosso pa\u00eds, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutan\u00e1sia (boa morte), que discute condi\u00e7\u00f5es de morte, precisamente num tempo em que saltava \u00e0 evid\u00eancia de todos que o que n\u00e3o temos s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de vida. Ver os \u00absenhores\u00bb deputados em p\u00e9 a aprovar legisla\u00e7\u00e3o de morte, quando tantos estavam deitados em ambul\u00e2ncias \u00e0 porta dos hospitais \u00e0 espera da sua vez de (n\u00e3o) morrer, sinceramente\u2026 senti nojo!<br \/>\nSenti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que n\u00e3o foram e continuam a n\u00e3o ser objeto de estudo num\u00e9rico, mas que engrossar\u00e3o os n\u00fameros dos \u00abadiados\u00bb que morrer\u00e3o mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condi\u00e7\u00f5es de vida.\u2019 (pp. 32-33)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018JF: [as] palavras de Francisco abrem-nos \u00e0 utopia. Falta ver a humanidade abra\u00e7ar todas as contrariedades e dar espa\u00e7o \u00e0 criatividade?<br \/>\nFV: Essa utopia resume-se a tr\u00eas princ\u00edpios \u00e0 espera desse espa\u00e7o: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflex\u00e3o \u00e9tica se pode resumir \u00e0 gest\u00e3o, em cada segundo da exist\u00eancia, a tr\u00eas palavras: quero, posso, devo. \u00c9 da resposta a cada uma destas tr\u00eas palavras em cada segundo de existir que existo ou n\u00e3o existo como pessoa, como ser de rela\u00e7\u00e3o, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.\u2019 (p. 38)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018JF: Deus\u2026 casado?!<br \/>\nFV: Claro que sim! \u00c9 a Alian\u00e7a que d\u00e1 sentido a tudo. Repara num detalhe aparentemente banal. Logo no in\u00edcio da B\u00edblia, no primeiro cap\u00edtulo do Livro do G\u00e9nesis, quando se fala da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 luz dos crit\u00e9rios e conhecimentos do tempo \u2013 o autor ou autores do G\u00e9nesis n\u00e3o querem explicar como \u00e9 que o mundo foi criado, mas sim quem criou o mundo -, o texto diz que \u2018o Esp\u00edrito pairava sobre a superf\u00edcie das \u00e1guas\u00bb; logo, sozinho, \u00absolteiro\u00bb\u2026<br \/>\nVamos agora praticamente \u00e0 \u00faltima frase da B\u00edblia, Apocalipse 22,17, v\u00eas o que l\u00e1 est\u00e1? \u00abO Esp\u00edrito e a esposa dizem Vem!\u00bb<br \/>\n\u00c9 fant\u00e1stico! Deus \u00abcome\u00e7a\u00bb solteiro em G\u00e9nesis e termina casado em Apocalipse. [\u2026]\u2019 (p. 43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Na continuidade do projeto criacional, n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 s\u00f3 a Ruah (o esp\u00edrito, o sopro criador) de Deus que paira sozinho, solit\u00e1rio sobre as \u00e1guas. Ao criar Adam, Deus reinventa-se num \u00abn\u00f3s\u00bb relacional. \u00c9 um Deus ao contr\u00e1rio dos deuses\u2026\u2019 (p. 51)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Na Hungria, em setembro de 2021, o papa defendeu que o grande confronto n\u00e3o \u00e9 entre religiosos e n\u00e3o religiosos, mas \u00abentre o Deus verdadeiro e o deus que \u00e9 o pr\u00f3prio eu\u00bb. Francisco disse que \u00aba l\u00f3gica de Deus\u00bb \u00e9 a do \u00abamor humilde\u00bb, que \u00abo caminho de Deus evita qualquer imposi\u00e7\u00e3o, ostenta\u00e7\u00e3o e triunfalismo, visa sempre o bem dos outros, indo at\u00e9 ao sacrif\u00edcio de si mesmo\u00bb, enquanto, do outro lado, \u00abtemos o pensar segundo os homens\u00bb, isto \u00e9, \u00aba l\u00f3gica do mundo, presa \u00e0s honras e privil\u00e9gios, tendente ao prest\u00edgio e ao sucesso\u00bb.\u2019 (p. 57)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Perdoa-me repetir sempre este estribilho, mas estou profundamente convencido quer da sua verdade, quer da sua urg\u00eancia. Independentemente das variadas op\u00e7\u00f5es de vida que nos podem n\u00e3o separar, mas diferenciar, o sentido \u00faltimo do \u00abser em rela\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ningu\u00e9m deixe de ser pessoa.\u2019 (p. 67)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018JF: O Apocalipse \u00e9 um livro dif\u00edcil, do qual se fazem muitas e habilidosas hermen\u00eauticas\u2026<br \/>\nFV: Porque \u00e9 lido como sendo o livro das \u00abdesgra\u00e7as finais\u00bb, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 o livro da nova cria\u00e7\u00e3o, da nova Jerusal\u00e9m, do cumprimento definitivo da esperan\u00e7a. Apocalipse significa \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb.\u2019 (p. 70)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] hoje, mais do que nunca, s\u00e3o necess\u00e1rios profetas. \u00c9 preciso continuar na mesma linha de reflex\u00e3o. O profeta de ontem e de hoje n\u00e3o \u00e9 um adivinho, muito menos um agoureiro anunciador de desgra\u00e7as. O profeta n\u00e3o vive no passado nem no futuro. O profeta vive no hoje e em cada hoje faz mem\u00f3ria do ontem, para descobrir e anunciar o sentido do amanh\u00e3.\u2019 (p. 73)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] O problema \u00e9 que quando o cinzento \u00e9 a cor da moda, o arco-\u00edris \u00e9 visto como um insulto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JF: Ou uma sedutora dan\u00e7a da cobra\u2026<br \/>\nFV: Ah, pois! Esse \u00e9 outro drama. A marcha dos dias n\u00e3o permite distinguir o arco-\u00edris que contribui para contrariar o cinzento, de um arco de motiva\u00e7\u00f5es obscuras, protagonizadas por lobos de falas atrevidas, disfar\u00e7ados de cordeiros.\u2019 (p. 79)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como j\u00e1 disseste, a defesa dos mais fr\u00e1geis \u00e9 a fasquia definidora do humanismo, \u00e9 a bitola por excel\u00eancia capaz de revelar a medida exata do processo de humaniza\u00e7\u00e3o e de hominiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade e de um tempo. S\u00f3 que o mito da eterna juventude e do sucesso alicer\u00e7ado no ter \u2013 que \u00e9 exatamente o que \u00e9 vendido pela(s) publicidade(s) com que somos continuamente matraqueados \u2013 impede justamente que aqueles que a maioria considera como \u00abn\u00e3o sendo\u00bb ou \u00abn\u00e3o tendo\u00bb, sejam tratados precisamente como \u00abn\u00e3o-seres\u00bb, colocados na varanda da vida pela \u00abborracheira\u00bb dos poderosos e n\u00e3o v\u00e3o da escada para n\u00e3o estorvarem a passagem dos \u00abbem-sucedidos\u00bb que n\u00e3o podem ser impedidos de subir os degraus do sucesso\u2026\u2019 (p. 93)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Estamos ainda convencidos de que justi\u00e7a \u00e9 tratar todos por igual\u2026 Que pobreza de racioc\u00ednio! Tratar todos por igual pode ser e \u00e9 sempre uma forma suprema de injusti\u00e7a disfar\u00e7ada de bem.<br \/>\nJusti\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nem pode ser dar exatamente a mesma coisa para todos. Isso ser\u00e1 quando muito um igualitarismo bacoco, t\u00e3o do agrado de certos ambientes pseudopol\u00edticos. A palavra-chave ter\u00e1 de ser \u00absubsidiariedade\u00bb, quer dizer, em primeiro lugar respeito de mim por mim pr\u00f3prio e pelos outros, porque este tipo de organiza\u00e7\u00e3o social precisa de gente que tenha consci\u00eancia de si, das suas necessidades, mas tamb\u00e9m das suas capacidades de contributo para o bem comum.<br \/>\nEu sou respons\u00e1vel por mim e pelo meu irm\u00e3o, seja ele quem for. Se um dia se chegasse a uma generaliza\u00e7\u00e3o de uma mentalidade deste calibre, n\u00e3o haveria mais ningu\u00e9m a \u00abviver \u00e0 conta do or\u00e7amento\u00bb. E n\u00e3o, n\u00e3o estou a falar do RSI! [\u2026] Lutar contra a injusti\u00e7a e contra a exclus\u00e3o \u00e9 dar a cada um tudo o que precisa, mas s\u00f3 o que precisa, e exigir que, da sua parte, d\u00ea tamb\u00e9m o seu contributo. A sociedade deve dar tudo a quem, sem sombra de d\u00favida, n\u00e3o pode conseguir para si mesmo seja o que for, deve dar o que fizer falta a quem manifestamente se esfor\u00e7a por conseguir atingir os seus objetivos e n\u00e3o deve dar nada quer aos pregui\u00e7osos quer aos pulhas da roubalheira.\u2019 (p. 105)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018S\u00f3 temos o direito de olhar algu\u00e9m e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.\u2019 (p. 144)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00e3o, a nossa liberdade n\u00e3o termina quando come\u00e7a a liberdade do outro. Se cada um dos dois tiver a coragem de ir ao encontro de si pr\u00f3prio e para al\u00e9m de si pr\u00f3prio, dar-se-\u00e1 conta disto mesmo.<br \/>\nSou mais livre quanto mais somar a minha liberdade livre a outras liberdades livres para podermos fazer caminho em comum.\u2019 (p. 152)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Depois de se ter j\u00e1 identificado como o \u00abDeus dos teus pais\u00bb, da tua fam\u00edlia, da tua hist\u00f3ria, da tua identidade, Deus vai mais longe e toda a heresia: \u00abEu sou aquele que \u00e9 sendo\u00bb.<br \/>\nJF: Voltamos ao ger\u00fandio?!<br \/>\nFV: Sim! A heresia est\u00e1 precisamente neste ger\u00fandio\u2026 \u00absendo\u00bb. Esta forma constru\u00edda do verbo ser n\u00e3o se resume simplesmente a uma afirma\u00e7\u00e3o de Deus enquanto \u00abexistente\u00bb. A tradu\u00e7\u00e3o tem de ir mais longe, para al\u00e9m do simples \u00abEu sou aquele que sou\u00bb, ao encontro da profundidade da mensagem. Eu sou Aquele que \u00e9\u2026 sendo contigo.\u2019 (p. 158)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a essencialidade essencial que nos define e determina como pessoas &#8211; \u00abo ser de rela\u00e7\u00e3o\u00bb -, persona do latim per sonum o \u00absoar atrav\u00e9s de\u00bb, a comunica\u00e7\u00e3o no seu sentido pleno e abrangente de constru\u00e7\u00e3o do \u00abpr\u00f3prio eu\u00bb diante de si pr\u00f3prio e dos outros, no seu \u00abser com\u00bb, no seu comunicar, na sua sinodalidade relacional.\u2019 (p. 168)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[O que falta \u00e9] ir \u00e0 ess\u00eancia para sermos capazes de unir o pal\u00e1cio e a barraca, n\u00e3o por um abismo intranspon\u00edvel, mas pela descoberta e cria\u00e7\u00e3o de formas novas, para que o pal\u00e1cio n\u00e3o viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.<br \/>\nSe do p\u00f3s-s\u00ednodo sairmos mais capazes de construir a consci\u00eancia universal no sentido Teilhardiano do processo de hominiza\u00e7\u00e3o como espiral ascensional de complexidade de consci\u00eancia, ter\u00e1 valido a pena o esfor\u00e7o e as penas porque pass\u00e1mos; veremos florescer o novum como continuidade e evolu\u00e7\u00e3o, como mem\u00f3ria que se faz hist\u00f3ria, como hist\u00f3ria que se faz vida, vida em abund\u00e2ncia, para todos, sem exclu\u00eddos, a n\u00e3o ser os filhos da autoexclus\u00e3o.<br \/>\nEsta \u00e9 a miss\u00e3o do agora, a ser proclamada e vivida na nova \u00c1gora do tempo novo, que \u00e9 o mundo todo e todo o mundo, solidamente ancorado no presente, fazendo mem\u00f3ria do ontem, para que o amanh\u00e3 possa ter sentido para todos os que se atrevem e t\u00eam a coragem de ser, sendo\u2026\u2019 (p. 173)<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem recolhida da <a href=\"https:\/\/bibliografia.bnportugal.gov.pt\/bnp\/bnp.exe\/registo?2106098\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">BNP<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20737,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-20736","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20736"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20736\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20738,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20736\/revisions\/20738"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}