{"id":20701,"date":"2026-06-07T07:07:35","date_gmt":"2026-06-07T06:07:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20701"},"modified":"2026-04-07T21:15:50","modified_gmt":"2026-04-07T20:15:50","slug":"os-sete-dias-da-criacao-10-luis-m-p-silva-o-primeiro-dia-feito-de-uma-tarde-e-uma-manha-e-foi-tarde-e-foi-manha-dia-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-10-luis-m-p-silva-o-primeiro-dia-feito-de-uma-tarde-e-uma-manha-e-foi-tarde-e-foi-manha-dia-um\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |10| Lu\u00eds M. P. Silva &#8211; O primeiro dia feito de uma tarde e uma manh\u00e3: \u2018E foi tarde e foi manh\u00e3: dia um\u2019"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prossigamos com a nossa reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, seguindo os \u2018sete dias da cria\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a e densidade que o dia primeiro nos reserva fazem-nos nele permanecer mais um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradu\u00e7\u00e3o da difusora b\u00edblica (de acordo com a publica\u00e7\u00e3o disponibilizada em <a href=\"https:\/\/www.paroquias.org\/biblia\/\">https:\/\/www.paroquias.org\/biblia\/<\/a>), diz-nos, ainda, sobre este dia, que \u2018Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manh\u00e3: foi o primeiro dia.\u2019 Nesta op\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o, o dia aparece referido de modo ordinal: o primeiro. Uma leitura mais fina permite-nos, por\u00e9m, constatar que o autor b\u00edblico se refere, antes, a esta sequ\u00eancia com uma men\u00e7\u00e3o cardinal: \u2018dia um\u2019 ou \u2018um dia\u2019<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> , como quem est\u00e1 a contar ao ritmo da pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o e n\u00e3o como quem j\u00e1 sabe que h\u00e1 um seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa \u00e9, efetivamente, de Deus e n\u00e3o do autor que escreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reparemos, ainda, que a ordem \u2013 tantas vezes distraidamente desatendida \u2013 \u00e9 a de que, primeiro, vem a tarde, e s\u00f3 depois, a manh\u00e3. \u2018E foi tarde e foi manh\u00e3: dia Um\u2019, traduz D. Ant\u00f3nio Couto, que acrescenta, em rodap\u00e9, que \u2018esta maneira de descrever o dia, do p\u00f4r-do-sol ao p\u00f4r-do-sol, est\u00e1 sob a influ\u00eancia do calend\u00e1rio lunar, em que o dia come\u00e7a e acaba com o p\u00f4r-do-sol\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mantemos reminisc\u00eancia desta organiza\u00e7\u00e3o do tempo na nossa liturgia que celebra, ap\u00f3s o p\u00f4r-do-sol de s\u00e1bado, a eucaristia dominical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Servem-nos estas notas para constatar que a novidade b\u00edblica est\u00e1 presente, para al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o (ausente das cosmogonias circundantes), na pr\u00f3pria conce\u00e7\u00e3o de tempo. Certamente, sofrendo influ\u00eancias dos povos envolventes (no pr\u00f3prio ano lunar que o cristianismo veio a substituir pelo solar, por influ\u00eancia romana e por a\u00e7\u00e3o cientificamente fundamentada de sucessivos Papas, entre os quais deveremos destacar Jo\u00e3o III (s\u00e9culo VI) e Greg\u00f3rio XIII (s\u00e9culo XVI)), o texto b\u00edblico preconiza uma revolu\u00e7\u00e3o na conce\u00e7\u00e3o de tempo, seja porque o situa (como j\u00e1 anteriormente sublinh\u00e1mos) na ordem da cria\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o como existindo antes do in\u00edcio da cria\u00e7\u00e3o, como sustentavam as conce\u00e7\u00f5es circundantes, que atribu\u00edam um \u2018tempo dos deuses\u2019), seja porque supera a leitura circular do tempo, para criar a ideia da sequencialidade e progressividade, no\u00e7\u00e3o que criou a \u2018forma mentis\u2019 ocidental. Bem certo que a sedu\u00e7\u00e3o da circularidade temporal vai reemergindo (F. Nietzsche defendeu-a, no final do s\u00e9culo XIX, na sua cr\u00edtica feroz ao judeo-cristianismo), mas a compreens\u00e3o b\u00edblica fez \u2018cultura\u2019 e fecunda o <em>modus cogitandi<\/em> que molda as nossas sociedades. Estes dois \u2018lados\u2019 da conce\u00e7\u00e3o temporal b\u00edblica andam de m\u00e3os dados: a condi\u00e7\u00e3o criatural e a sua \u2018tens\u00e3o\u2019 para <em>o plus<\/em> que \u00e9 Deus. Dizem-no, de modo claro, os autores do Vocabul\u00e1rio de Teologia B\u00edblica: \u2018o ato criador marca o come\u00e7o absoluto do tempo que \u00e9 o nosso, bem como todo o resto da cria\u00e7\u00e3o; mas Deus preexistia a esse tempo. Aquilo que se desenvolver\u00e1 no tempo \u00e9 plano dEle, ordenando, primeiramente, toda a cria\u00e7\u00e3o com vistas ao homem, e depois dirigindo o fim do homem com vistas a um fim misterioso.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como sabemos qu\u00e3o importante \u00e9 o tempo que n\u00e3o regressa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como recorda Colin Stuart, no seu muito curioso livro \u2018Tempo: 10 coisas que deve saber\u2019, \u00e9 desta no\u00e7\u00e3o do tempo que flui para diante e n\u00e3o regressa que resulta valorizarmos cada parte do tempo de que dispomos. \u2018A mais \u00ednfima fra\u00e7\u00e3o de segundo poder\u00e1 ser a diferen\u00e7a entre o ouro e a prata. Essa fra\u00e7\u00e3o pode, tamb\u00e9m, valer-lhes uma fortuna. Em 2009, trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil instalaram um cabo subterr\u00e2neo de 1300 quil\u00f3metros, entre as bolsas de valores em Chicago e Nova Iorque, com o custo de 180 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Tudo para reduzir 0,000004 segundos ao tempo que demora a enviar informa\u00e7\u00e3o comercial entre os dois polos. At\u00e9 mesmo essa pequena diferen\u00e7a aumentou os lucros em 12 mil milh\u00f5es de libras por ano, numa ind\u00fastria em que o tempo \u00e9, literalmente, dinheiro.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os que pretendem recolher do texto b\u00edblico uma qualquer conclus\u00e3o de que este se oponha ao progresso e ao desenvolvimento n\u00e3o poder\u00e1, sen\u00e3o, questionar-se sobre se tomaram o texto no seu todo ou se s\u00f3 o tomaram na literalidade de um fragmento. Mas importa, bem certo, perguntar para que destino se encaminha esse progresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa, sim, \u00e9 quest\u00e3o a que \u00e9 fundamental responder regressando ao texto b\u00edblico. \u00c9 que cada uma das oito obras da cria\u00e7\u00e3o ocorridas nos seis dias da cria\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorre porque, segundo o autor b\u00edblico, \u2018E disse Deus\u2019. Para existir, a cria\u00e7\u00e3o depende de Deus. E se n\u2019Ele n\u00e3o permanecer, perece\u2026 \u00c9 nada! N\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para onde progride o tempo que flui?\u2019 \u2013 Parece ser a pergunta impl\u00edcita deixada pelo autor b\u00edblico, ao recordar-nos que \u2018E chamou Deus \u00e0 luz dia e \u00e0s trevas chamou noite. E foi tarde e foi manh\u00e3: dia UM<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u2019.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, Le\u00e7a da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.<\/p>\n<p>Gerhard von Rad, <em>El libro del G\u00e9nesis<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 1988<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Colin Stuart, <em>Tempo: 10 coisas que deve saber<\/em>, Lisboa, Vogais, 2024.<\/p>\n<p>Xavier L\u00e9on-Dufour, <em>Vocabul\u00e1rio de Teologia B\u00edblica<\/em>, Petr\u00f3polis, Vozes, 2002<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. D. Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, p. 30.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Ibidem,<\/em> nota 73, p. 30.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Xavier L\u00e9on-Dufour, <em>Vocabul\u00e1rio de Teologia B\u00edblica<\/em>, col. 1008.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Colin Stuart, <em>Tempo: 10 coisas que deve saber, <\/em>pp. 17-18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> D. Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, p. 30.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3222267\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3222267\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20703,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-20701","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20701"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20705,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20701\/revisions\/20705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}