{"id":20690,"date":"2026-04-07T07:07:45","date_gmt":"2026-04-07T06:07:45","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20690"},"modified":"2026-04-04T18:47:28","modified_gmt":"2026-04-04T17:47:28","slug":"sabes-leitor-28-marca-de-agua-do-livro-de-bernard-michal-os-julgamentos-de-nuremberga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-28-marca-de-agua-do-livro-de-bernard-michal-os-julgamentos-de-nuremberga\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 28 | Marca de \u00e1gua do livro de Bernard Michal, &#8216;Os julgamentos de Nuremberga&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O(s) autor(es) e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">Bernard Michal, <em>Os julgamentos de Nuremberga<\/em>, Porto Salvo, Edi\u00e7\u00f5es Desassossego, 2019.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernard Michal, o autor de \u2018Os julgamentos de Nuremberga\u2019, \u00e9 um jornalista e historiador, nascido em 1932, em Fran\u00e7a, quando as nuvens da Guerra j\u00e1 se erguiam no horizonte, como bem se percebe, pela leitura desta obra. Tem dedicado a sua vida \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o sobre guerras e, em particular, a Segunda Guerra Mundial. Contam-se, entre os seus mais destacados t\u00edtulos, \u2018A Guerra Civil Espanhola\u2019, \u2018Os grande enigmas da Segunda Guerra Mundial\u2019, mas tamb\u00e9m \u2018Hist\u00f3ria das seitas e das sociedades secretas\u2019 (em coautoria com Jean Renald), \u2018Os grandes enigmas da Resist\u00eancia\u2019, \u2018Os grandes enigmas da Liberta\u00e7\u00e3o\u2019, revelando-se um profundo conhecedor da hist\u00f3ria da conflitualidade humana. Merece refer\u00eancia, a confirmar esta constata\u00e7\u00e3o, o seu \u2018As personagens malditas da hist\u00f3ria\u2019, ainda n\u00e3o editado em Portugal.<br \/>\nEm \u2018Os julgamentos de Nuremberga\u2019, Michal mostra-se um investigador muito minucioso e um escritor extremamente atento \u00e0s expectativas do leitor.<br \/>\nContextualiza, explica, detalha, permitindo que n\u00e3o fique incompreendidas as diversas afirma\u00e7\u00f5es formuladas, as refer\u00eancias hist\u00f3ricas mencionadas e as situa\u00e7\u00f5es enunciadas. A leitura da obra de Bernard Michal, em geral, e desta, em particular, homenageia as v\u00edtimas silenciadas pelo estertor das armas dos fortes, assegurando a justi\u00e7a poss\u00edvel que se pode fazer por levantar do p\u00f3 do silenciamento os nomes dos inocentes ca\u00eddos \u00e0s balas dos cru\u00e9is.<br \/>\n\u00c9 a experi\u00eancia que se faz ao preparar os nossos passos para entrar em Auschwitz. Lia esta obra quando ali fui, entre 12 e 15 de mar\u00e7o de 2026. Antes de atravessarmos o port\u00e3o onde a ironia cruel nazi nos assegura que \u2018o trabalho cria liberdade\u2019 (traduzo, livremente, \u2018arbeit macht frei\u2019, que encima o port\u00e3o principal do campo de concentra\u00e7\u00e3o), somos conduzidos por um longu\u00edssimo corredor de bet\u00e3o onde o sil\u00eancio que toma conta de n\u00f3s \u00e9 apenas interrompido por uma voz cadenciada que diz nomes. Os nomes das v\u00edtimas do terror que ali se levou ao z\u00e9nite.<br \/>\nNomes\u2026 Nomes\u2026 Apenas nomes. Porque cada nome \u00e9 um mundo, uma pessoa, uma v\u00edtima. S\u00f3 os delas nos \u00e9 devido repetir. Os dos seus \u2018carrascos\u2019 s\u00f3 lembraremos para n\u00e3o mais esquecermos o mal que fizeram. Os das suas v\u00edtimas, porque a justi\u00e7a no-lo exige.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Li este livro entre 12 de mar\u00e7o e 1 de abril de 2026. Obriguei-me a l\u00ea-lo no tempo em que, em visita de estudo, percorri os lugares de que nele se fala. Os lugares que se tornaram \u2018n\u00e3o-lugares\u2019 (para referir uma categoria evocada por Marc Aug\u00e9).<br \/>\nSempre me inquietou e perturbou a potencial resposta para a pergunta \u2018como foi poss\u00edvel?\u2019. A pergunta ganha densidade se pensarmos que a crueldade atingida em Auschwitz-Birkenau (Auschwitz foi prolongado para Birkenau por necessidade de aumentar os \u2018n\u00e3o-lugares\u2019 e prolongar a maldade at\u00e9 aos limites do poss\u00edvel) foi protagonizada por l\u00edderes pol\u00edticos de um dos pa\u00edses onde se ergueram os maiores de entre os humanos: Bach, Beethoven, Kant, Leibniz, Haendel, Goethe, etc. foram alguns dos mais destacados de sempre entre os humanos. A Alemanha \u00e9 associ\u00e1vel ao que de maior e melhor se fez. Muita da nossa tecnologia quotidiana tem origem alem\u00e3, muito do nosso saber, muitos dos nossos conceitos, muitas das nossas \u2018luzes\u2019 s\u00e3o de \u2018gen\u00e9tica\u2019 alem\u00e3. E, por\u00e9m, a eleva\u00e7\u00e3o da cultura n\u00e3o impediu o emergir de um regime assente na crueldade e na inumanidade e desumanidade.<br \/>\nComo foi poss\u00edvel?<br \/>\nE, mais densamente excruciante, \u2018poder\u00e1, um dia repetir-se?\u2019<br \/>\nAo ler-se Michal, fica uma certeza: o caldo que permitiu isto \u00e9 f\u00f3rmula repet\u00edvel, por ser f\u00f3rmula dispon\u00edvel. O regime n\u00e3o nasceu em 1 de setembro de 1939. H\u00e1 uma longa hist\u00f3ria que come\u00e7a com a cria\u00e7\u00e3o do partido, em 1920, onde se anuncia que h\u00e1 um inimigo comum e onde se define a estrat\u00e9gia: a viol\u00eancia far\u00e1 parte da gen\u00e9tica deste \u2018movimento\u2019.<br \/>\nTudo sob a apar\u00eancia de algo leg\u00edtimo, pois evocava-se a injusti\u00e7a dos tratados com que se \u2018fechara\u2019 a primeira Guerra Mundial.<br \/>\nCom a leitura desta obra de Michal, ficaremos na posse de muito mais do que as muit\u00edssimas informa\u00e7\u00f5es que ela nos faculta. Saberemos, certamente, como se organizou o partido nazi, desde as embrion\u00e1rias ideias de um \u2018ferreiro\u2019 de nome Anton Drexler, em 1920, a que se associa Adolf Hitler, com a sua perturbadora personalidade, entre o fascinante e o arrasador: onde Hitler est\u00e1, tudo fica terraplanado; como a cumplicidade da rep\u00fablica de Weimar foi criando as condi\u00e7\u00f5es para que as narrativas hitlerianas fossem germinando; saberemos o contributo, para esse germinar, do inc\u00eandio do Reichstag (1933), da \u2018noite das facas longas\u2019 (1934) e da morte de Roehm, l\u00edder das SA, ou, ainda, da \u2018noite de cristal\u2019 (1938); o que significa falar dos prisioneiros \u2018noite e nevoeiro\u2019, ou o que foi o massacre de Oradour (em 1944); compreenderemos os planos \u2018branco\u2019 (invas\u00e3o da Pol\u00f3nia), \u2018amarelo\u2019 (invas\u00e3o da B\u00e9lgica), \u2018barbarossa\u2019 (invas\u00e3o da R\u00fassia) ou a opera\u00e7\u00e3o \u2018Marita\u2019 (da invas\u00e3o da Gr\u00e9cia) e \u2018Le\u00e3o Marinho\u2019 (da invas\u00e3o de Inglaterra); surpreender-nos-emos com os n\u00fameros avassaladores dos mortos em campos de concentra\u00e7\u00e3o (26 milh\u00f5es), dos quais 6 milh\u00f5es s\u00e3o s\u00f3 de Judeus; saberemos, ainda, os mist\u00e9rios associados \u00e0 deten\u00e7\u00e3o (tantas vezes em circunst\u00e2ncias inesperadas como a de Julius Streicher, disfar\u00e7ado de \u2018pastor\u2019) dos maiores criminosos nazis; o fim de Goebbels, ou Goering, ou Bormann, ou Hans Frank (o governador da Pol\u00f3nia sob o jugo nazi), ou Himmler ou Krupp ou Ribbentrop, etc. Saberemos tudo isso e tanto mais que Bernard Michal nos faculta, com detalhes. Mas, principalmente, deparar-nos-emos com uma constata\u00e7\u00e3o que podemos cunhar como Joachim Fest registou: tudo isto foi feito sob a capa de um \u2018amoralismo tecnocr\u00e1tico\u2019. O amoralismo foi o caldo mais profundo do nazismo.<br \/>\nCom esse caldo, \u00e0 medida que o tempo passa, Hitler cria um polvo que atinge as mais \u00ednfimas estruturas da sociedade, sempre sob o espectro do medo e da imprevisibilidade. Mas com a aura da legitimidade.<br \/>\nOs relatos minuciosamente descritos por Michal mostram-nos que Hitler \u00e9 portador de uma personalidade simultaneamente sedutora e irasc\u00edvel. Com recurso ao isolamento dos que se lhe op\u00f5em, as suas ferozes conversas deixam at\u00f3nitos os mais seguros de entre os l\u00edderes. \u00c9 assim que \u2018encurrala\u2019 os presidentes ou chefes dos Estados que prev\u00ea invadir (secretamente), mas cujo respeito pelos limites fronteiri\u00e7os alardeia aos quatro ventos, criando uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de paz e seguran\u00e7a, enquanto, nos bastidores, organiza a posse sempre falsamente justificada.<br \/>\nAmoralismo, divis\u00e3o, medo, distra\u00e7\u00e3o e a surpresa do inesperado. O caldo para que se espalhe um regime cruel.<br \/>\nE, claro, o sil\u00eancio e cumplicidade dos que n\u00e3o querem saber ou at\u00e9 justificam a viol\u00eancia.<br \/>\nAtordoa constatar, ainda, que, com raras exce\u00e7\u00f5es, os julgados (e condenados) de Nuremberga justificam as suas a\u00e7\u00f5es com o dever de obedi\u00eancia. Mas, como bem recorda Michal, \u2018[mesmo] em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justi\u00e7a e s\u00e3o pass\u00edveis de san\u00e7\u00f5es exemplares.\u2019 (p. 14)<br \/>\nRegressar a Nuremberga \u00e9 corresponder ao dever de lembrar para que n\u00e3o se repita, mas, tamb\u00e9m, ao dever de exumar do p\u00f3 da hist\u00f3ria as v\u00edtimas inocentes. Para que elas ven\u00e7am e nunca os injustos e cru\u00e9is poderosos.<br \/>\nPara que, enfim, continue com resposta negativa a pergunta: \u2018poderia, um dia, repetir-se o que os nazis fizeram?\u2019<br \/>\nN\u00e3o se pense que s\u00f3 os outros s\u00e3o capazes do pior. Aqueles homens eram iguais a todos os demais. Mas deixaram justificar o mal que realizaram com elevadas justifica\u00e7\u00f5es e pretextos. \u00c9 a isso que temos de permanecer atentos. H\u00e1 linhas vermelhas que jamais nos admitiremos transpor. A dignidade de todo e cada ser humano e a sua inviolabilidade devem constituir-se como fronteira cuja transposi\u00e7\u00e3o jamais nos deveremos admitir realizar. Mas h\u00e1 nuvens sombrias nos c\u00e9us. Regressemos a Nuremberga e interroguemo-nos. Deixemos a pergunta habitar-nos at\u00e9 \u00e0s f\u00edmbrias da alma. O grito dos inocentes pede a aut\u00eantica justi\u00e7a de n\u00e3o se repetir a crueldade\u2026<br \/>\nNuremberga continua a ecoar como ju\u00edzo na Hist\u00f3ria. N\u00e3o o ju\u00edzo dos vencedores, mas o ju\u00edzo da consci\u00eancia atenta ao rosto (essa categoria \u00e9tica cunhada por um judeu tamb\u00e9m perseguido pelos nazis, Emmanuel L\u00e9vinas) do outro em quem se reconhece um tu, um irm\u00e3o. Um rosto, um nome humanizam. T\u00e3o bem o sabiam os nazis que todos reduziam, quando chegados aos campos, a meros n\u00fameros tatuados com brasa na pele.<br \/>\nNuremberga \u00e9 o lugar dos nomes, dos rostos\u2026 D\u00eamos um nome; reconhe\u00e7amos cada rosto. E Auschwitz n\u00e3o se repetir\u00e1\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nuremberga, novembro de 1945, primeiro outono de paz. Tr\u00eas quartas partes da cidade est\u00e3o destru\u00eddas. Do seu esplendor restam algumas ru\u00ednas no bairro medieval. As igrejas de S. Louren\u00e7o, de Nossa Senhora, de S. Sebaldo, o castelo imperial do s\u00e9culo XII e a casa onde viveu D\u00fcrer foram gravemente atingidos. [\u2026] \u00c9 nesta cidade que os criminosos de guerra nazis v\u00e3o ser julgados. Para os quatrocentos jornalistas vindos de todos os pontos da terra, Nuremberga \u00e9, antes de tudo, a imagem da Alemanha vencida.\u2019 (p. 13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A cria\u00e7\u00e3o do Tribunal Militar Internacional suscitou uma s\u00e9rie de dificuldades de ordem moral e jur\u00eddica, material e diplom\u00e1tica. Basta que se leia o jornal Le Monde de 18 de novembro de 1945 para se tomar consci\u00eancia do problema moral levantado pela institui\u00e7\u00e3o de um tribunal militar internacional. No seu notici\u00e1rio estrangeiro, o jornal franc\u00eas anota:<br \/>\n\u00abSempre houve crimes de guerra que em geral apenas foram punidos com repres\u00e1lias. Os processos atuais inspiram-se, portanto, num princ\u00edpio novo. A saber: que em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justi\u00e7a e s\u00e3o pass\u00edveis de san\u00e7\u00f5es exemplares. N\u00e3o se pode deixar de aderir a este princ\u00edpio, que marca um progresso da consci\u00eancia universal, e cuja aplica\u00e7\u00e3o poder\u00e1, at\u00e9 certo ponto, intimidar os criminosos do futuro. H\u00e1 que reconhecer, no entanto, que esta suscita numerosas dificuldades.<br \/>\n\u00abA primeira consiste na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do crime de guerra. Seria relativamente f\u00e1cil se se entendesse que crimes de guerra s\u00e3o apenas atos contr\u00e1rios \u00e0 humanidade e que as necessidades da luta n\u00e3o justificassem. Incluem-se nesta categoria as torturas e os homic\u00eddios nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, as execu\u00e7\u00f5es maci\u00e7as de certos grupos da popula\u00e7\u00e3o, tais como os judeus, os polacos, os ucranianos, ou os atos ferozes de certos chefes militares, como o da destrui\u00e7\u00e3o de Oradour.<br \/>\n\u00abMas o processo de Nuremberga vai incluir casos de outra natureza. Sabe-se que se destina \u00e0s mais altas personagens do Terceiro Reich, civis e militares.<br \/>\n\u00abEstes ser\u00e3o por vezes incriminados por crueldades injustific\u00e1veis, como os carrascos vulgares de Dachau e de algures, mas ser-lhes-\u00e3o tamb\u00e9m imputados outros crimes. Foi decidido considerar assim a responsabilidade da guerra e inculpar a esse t\u00edtulo aqueles que podem ser considerados seus autores ou que, pelos seus conselhos e a sua influ\u00eancia, tenham contribu\u00eddo para a fazer deflagrar.<br \/>\n\u00abN\u00e3o restam d\u00favidas de que os ju\u00edzes chamados a Nuremberga, escolhidos entre a \u00e9lite da magistratura dos pa\u00edses aliados, v\u00e3o cumprir a sua tarefa com imparcialidade e compet\u00eancia. \u00c9 uma grande experi\u00eancia a que vai ser tentada. E seria deplor\u00e1vel se o seu \u00eaxito n\u00e3o fosse completo.\u00bb\u2019<br \/>\n(Pp. 14-15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A 8 de agosto de 1945, o Estatuto do Tribunal Militar Internacional \u00e9 estabelecido por acordo assinado entre os Aliados.<br \/>\nDezoito na\u00e7\u00f5es aderem a esse acordo e aprovam esse estatuto.<br \/>\nO Tribunal Militar Internacional ter\u00e1, em princ\u00edpio, a sua sede em Berlim. Poder\u00e1 escolher o local das suas audi\u00eancias para cada processo. A Gr\u00e3-Bretanha, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a Fran\u00e7a e os Estados Unidos escolher\u00e3o um juiz cada um, mas esses ju\u00edzes ser\u00e3o \u00abdesnacionalizados\u00bb.<br \/>\nEm contrapartida, os minist\u00e9rios p\u00fablicos ser\u00e3o nacionais e representar\u00e3o os interesses dos Estados a quem pertencem.<br \/>\nAntes de se iniciar o processo ser\u00e1 constitu\u00edda uma comiss\u00e3o de \u00abinstru\u00e7\u00e3o e busca dos grandes criminosos de guerra\u00bb.<br \/>\nOs incriminados poder\u00e3o escolher os seus advogados.\u2019<br \/>\n(pp. 19-20)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em princ\u00edpios de 1920, Hitler decide organizar um com\u00edcio.<br \/>\nEscolhe a data de 24 de fevereiro e uma sala capaz de abrigar duas mil pessoas: o sal\u00e3o de festas da Hofbrauhaus. Os seus companheiros n\u00e3o acreditam no \u00eaxito do empreendimento. Hitler ocupa-se pessoalmente dos preparativos e da propaganda.<br \/>\nNessa altura, a Alemanha procura ainda um equil\u00edbrio. Os partidos s\u00e3o numerosos. Todos eles suscitam, pelo menos curiosidade. Um novo partido em Munique n\u00e3o pode deixar as pessoas indiferentes: a sala est\u00e1 cheia. \u00c9 o primeiro triunfo de Hitler \u2013 que n\u00e3o deixa de recordar em Mein Kampf:<br \/>\n\u00abH\u00e1 um tumulto de gritos e de violentas alterca\u00e7\u00f5es na sala. Um grupo dos veteranos mais fi\u00e9is bate-se contra os perturbadores\u2026 comunistas e socialistas\u2026 e s\u00f3 pouco a pouco se consegue restabelecer a ordem. Consegui ent\u00e3o continuar a falar. Ao fim de meia hora, os aplausos come\u00e7aram a cobrir os assobios. Quando, quase quatro horas mais tarde, a sala se esvaziou, eu sabia que a partir daquele momento os princ\u00edpios do nosso movimento n\u00e3o podiam mais ser esquecidos e que haviam de se disseminar entre o povo alem\u00e3o\u00bb.<br \/>\nHitler acabava, com efeito, de lan\u00e7ar os vinte e cinco pontos do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alem\u00e3es, que iriam constituir a b\u00edblia dos nazis at\u00e9 \u00e0 subida ao poder, em 1933.<br \/>\nEsse programa referia-se a aspetos pol\u00edticos por vezes muito diferentes uns dos outros, alguns dos quais de uma rara aud\u00e1cia para a \u00e9poca, dando-lhes um matizado muito diferente das cores dos outros partidos. Hitler insistira muito especialmente sobre a uni\u00e3o de todos os Alem\u00e3es numa \u00abGrande Alemanha\u00bb. \u00c9 o pren\u00fancio, com muitos anos de anteced\u00eancia, da Anschluss (Anexa\u00e7\u00e3o) e da conquista dos pa\u00edses sudetas na Checoslov\u00e1quia. \u00c9 tamb\u00e9m o an\u00fancio, a quase vinte anos de dist\u00e2ncia, de Danzigue e do drama da agress\u00e3o \u00e0 Pol\u00f3nia. Hitler afirma desde j\u00e1, nessa noite de 24 de fevereiro de 1920, que os judeus da Alemanha seriam exclu\u00eddos do Ex\u00e9rcito, da Administra\u00e7\u00e3o, da imprensa. Preconiza a aboli\u00e7\u00e3o dos rendimentos que n\u00e3o fossem fruto do trabalho, a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is, o interesse do Estado nos lucros das grandes empresas, a aboli\u00e7\u00e3o das especula\u00e7\u00f5es sobre terrenos. Pede a pena de morte para os traidores, os usur\u00e1rios e os especuladores, a expropria\u00e7\u00e3o dos grandes estabelecimentos. Exige a anula\u00e7\u00e3o dos tratados de Versalhes e de Saint-Germain e a cria\u00e7\u00e3o de um poder central forte.<br \/>\nDois meses mais tarde, Rudolf Hess, um antigo oficial aviador que se tornara chefe dos servi\u00e7os da ordem do partido, trata Hitler por \u00abF\u00fcrher\u00bb. \u00c9 assim que da\u00ed em diante os membros do partido, enquanto o n\u00e3o faz a Alemanha em peso, passar a tratar o chefe do NSDAP.<br \/>\nOito meses depois, durante o vers\u00e3o de 1920, aparece em Munique, durante um com\u00edcio, a Svastika\u2026 a cruz gamada. A paz n\u00e3o tem ainda dois anos.<br \/>\nAbril de 1921. Hitler criar as Ordnungstruppen. Esses grupos paradesportivos usam camisas castanhas e tomam a forma de brigadas; alargam-se\u2026 A partir de outubro de 1921, passam a ser as Srturmabteilungen, as SA. Juntamente com Goering, Hitler desenha-lhes o uniforme. [\u2026] N\u00e3o tardar\u00e1 que semeiem o terror nas reuni\u00f5es p\u00fablicas das outras forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. [\u2026] O NSDAP est\u00e1 agora armado para a conquista do poder: tem um chefe, o F\u00fcrher, um emblema, a cruz gamada, os seus terroristas, as SA\u2026 Falta-lhes apenas uma palavra de ordem \u2013 que Hitler veio a lan\u00e7ar em 27 de janeiro de 1927, no decurso do segundo congresso do partido: \u00abDeutschland erwache\u00bb (Alemanha, acorda).\u2019 (Pp.43-45)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O libelo acusat\u00f3rio [apresentado pelo procurador-adjunto dos Estados Unidos] revela [\u2026] de que forma foram realizados os objetivos e os des\u00edgnios dos conspiradores [nazis]: introdu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no jogo pol\u00edtico, depois penetra\u00e7\u00e3o nas estruturas existentes com vista a chegar ao poder sob forma \u00ablegal\u00bb.<br \/>\nUma vez no poder, depois da ascens\u00e3o de Hitler \u00e0 Chancelaria, em 30 de janeiro de 1933: interdi\u00e7\u00e3o de todos os partidos pol\u00edticos e tomada da posse total de todos os sistemas de funcionamento do Estado alem\u00e3o, atentado \u00e0 liberdade das elei\u00e7\u00f5es, depura\u00e7\u00e3o na Administra\u00e7\u00e3o, tutela de todos os organismos do Estado pelo partido, organiza\u00e7\u00e3o do terror civil, cria\u00e7\u00e3o de campos de concentra\u00e7\u00e3o, persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e religiosas e mais particularmente dos alem\u00e3es de confiss\u00e3o judaica. Em breve, esta destrui\u00e7\u00e3o transformar-se-\u00e1 em pol\u00edtica oficial do Estado, fazendo mesmo apelo \u00e0 viol\u00eancia individual.\u2019 (p. 46)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Sempre dentro do primeiro ato de acusa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o analisada as diferentes medidas que, progressivamente, conduziram \u00e0 guerra mundial:<br \/>\n&#8211; Rearmamento secreto de 1933 a 1935, em conjunto com a retirada alem\u00e3 da Confer\u00eancia do Desarmamento e da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es em 1933.<br \/>\n&#8211; Cria\u00e7\u00e3o em 1935 de for\u00e7a armada a\u00e9rea e institui\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio.<br \/>\n&#8211; Reocupa\u00e7\u00e3o em 1936 da Ren\u00e2nia, em viola\u00e7\u00e3o do Tratado de Versalhes, e depois de declara\u00e7\u00f5es tranquilizadoras sobre a vontade alem\u00e3 de n\u00e3o apresentar reivindica\u00e7\u00f5es territoriais na Europa.<br \/>\n&#8211; Invas\u00e3o da \u00c1ustria em 1938, e depois invas\u00e3o da Checoslov\u00e1quia. No dia 1 de maio de 1936, Hitler n\u00e3o hesitara, no entanto, em proclamar: \u00abTorna a propagar-se a mentira de que a Alemanha, amanh\u00e3 ou depois, cair\u00e1 sobre a \u00c1ustria ou a Checoslov\u00e1quia.\u00bb<br \/>\n&#8211; Enfim, de 1938 a setembro de 1939, prepara\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o do ataque contra a Pol\u00f3nia.\u2019<br \/>\n(p. 48)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[O] segundo ato de acusa\u00e7\u00e3o [trata] dos crimes contra a paz.<br \/>\nDepressa s\u00e3o passados em revista esses crimes: basta ao procurador brit\u00e2nico [Maxwell Fyfe] enunciar seis datas que constituem as etapas da agress\u00e3o alem\u00e3:<br \/>\n&#8211; 1 de setembro de 1939, ataque \u00e0 Pol\u00f3nia;<br \/>\n&#8211; 3 de setembro de 1939, hostilidades com a Gr\u00e3-Bretanha e a Fran\u00e7a;<br \/>\n&#8211; 10 de maio de 1940, invas\u00e3o da B\u00e9lgica, dos Pa\u00edses Baixos e do Luxemburgo;<br \/>\n&#8211; 6 de abril de 1941, assalto contra a Jugosl\u00e1via e a Gr\u00e9cia;<br \/>\n&#8211; 22 de junho de 1941, ofensiva contra a R\u00fassia;<br \/>\n&#8211; 11 de dezembro de 1941, guerra contra os Estados Unidos.\u2019<br \/>\n(Pp. 48-49)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a leitura do terceiro libelo, pelo advogado franc\u00eas Pierre Mournier, [\u00e9] sobre crimes de guerra.\u2019 [\u2026]<br \/>\nA acusa\u00e7\u00e3o toma a palavra:<br \/>\n\u00abDesde o dia 1 de setembro de 1939 at\u00e9 8 de maio de 1945, os acusados violaram as conven\u00e7\u00f5es internacionais e os princ\u00edpios gerais de direito penal tal como derivam do direito penal de todas as na\u00e7\u00f5es civilizadas\u2026<br \/>\nCensura-se especialmente aos acusados que tenham praticado a \u201cguerra total\u201d. Que tenham, com um objetivo de terror, maltratado, detido sem processo legal, torturado e assassinado elementos civis.<br \/>\nOs homic\u00eddios e maus-tratos eram levados a efeito por meios variados, tais como fuzilamentos em massa, enforcamentos, c\u00e2maras de g\u00e1s, morte por inani\u00e7\u00e3o, acampamentos povoados em excesso subalimenta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, etc.\u00bb.\u2019 (p. 49)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O partido n\u00e3o fora organizado para tomar o poder no Estado alem\u00e3o com a assist\u00eancia vitoriosa da maioria do povo alem\u00e3o; fora organizado para arrebatar o poder apesar da vontade do povo.<br \/>\nParalelamente, a falsifica\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es \u00e9 erigida em sistema.\u2019 (p. 73)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A tomada do poder por meios legais, quer dizer sem o recurso \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, constitui o objetivo declarado de Hitler desde o dia seguinte ao putsch falhado de Munique [um golpe de estado falhado protagonizado pelo partido nazi, em 8\/9 de novembro de 1923]. Contudo, a coberto dor espeito pela legalidade, ordena, com paci\u00eancia e muita efic\u00e1cia, o combate contra o regime de Weimar. A viol\u00eancia torna-se um sistema pol\u00edtico controlado, uma s\u00e1bia dosagem de terror, de crimes, de chantagem, misturado com propaganda e manifesta\u00e7\u00f5es em massa.\u2019 (p. 74)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A aparente fraqueza do Partido Nazi depois do putsch vai finalmente servi-lo. As autoridades b\u00e1varas est\u00e3o convencidas de que ele j\u00e1 n\u00e3o representa um perigo real, e fecham os olhos \u00e0s suas atividades. A 26 de fevereiro de 1925, Hitler escreve no jornal do seu partido, o Volkischer Beobachter, um editorial intitulado \u00abRessurrei\u00e7\u00e3o\u00bb. Anuncia uma reuni\u00e3o p\u00fablica para o dia seguinte, 27 de fevereiro.<br \/>\nQuatro mil fi\u00e9is assistem ao com\u00edcio. A B\u00fcrgerbr\u00e4ukeller, a cervejaria do putsch, \u00e9 o lugar escolhido para a reuni\u00e3o.<br \/>\nAo deixar a pris\u00e3o, Hitler prometera respeitar a Constitui\u00e7\u00e3o, mas logo nesta primeira reuni\u00e3o n\u00e3o esconde a inten\u00e7\u00e3o de derrubar a Rep\u00fablica. O Governo b\u00e1varo pro\u00edbe-o de usar da palavra em p\u00fablico. A medida \u00e9 rapidamente estendida a toda a Alemanha. Demasiado tarde. O Partido Nazi passa, em quatro anos, de vinte e sete mil membros para cento e setenta e oito mil. Ao mesmo tempo, Hitler organiza a administra\u00e7\u00e3o do partido. Adapta-lhe as estruturas \u00e0s do pa\u00eds: divide o territ\u00f3rio em regi\u00f5es, ou Gau, dirigidas por Gauleiter. Engloba nesta organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas a Alemanha, mas a \u00c1ustria e Danzigue. Cada Gau \u00e9 dividido em Kreise (c\u00edrculos) dirigidos por Kreisleiter. Esses Kreise s\u00e3o, por seu turno, divididos em Ortsgruppe (sec\u00e7\u00f5es locais). As sec\u00e7\u00f5es urbanas s\u00e3o ainda subdivididas em c\u00e9lulas e em blocos; e, finalmente, em cada edif\u00edcio h\u00e1 um respons\u00e1vel.<br \/>\nEstabelece assim uma administra\u00e7\u00e3o paralela, pronta a substituir a administra\u00e7\u00e3o existente. \u00c0 testa do partido, organiza um aut\u00eantico Governo de substitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSempre que disso tenha a possibilidade, colocar\u00e1 em fun\u00e7\u00f5es oficiais aquele que as assumiu j\u00e1, oficiosamente, dentro da organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nConstitui ainda organiza\u00e7\u00f5es de mulheres e de jovens. Ter\u00e3o as suas escolas, os seus jornais, os seus c\u00edrculos culturais, as suas instala\u00e7\u00f5es desportivas e tur\u00edsticas.<br \/>\nArranja tamb\u00e9m a sua pol\u00edcia. Foi nessa altura [\u2026] que, paralelamente \u00e0s SA, cria tamb\u00e9m as SS.\u2019 (p. 75)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[Por decreto de 14 de julho de 1933], Hitler conseguira que Hindenburg assinasse um decreto criando na Alemanha o regime do partido \u00fanico: \u00abO Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alem\u00e3es constitui o \u00fanico partido da Alemanha. Seja quem for que tente manter a estrutura de um outo partido pol\u00edtico ou formar um outro partido pol\u00edtico, ser\u00e1 punido com uma pena que poder\u00e1 ir de tr\u00eas anos de trabalhos for\u00e7ados ou de seis meses a tr\u00eas anos de pris\u00e3o, se o crime n\u00e3o for pass\u00edvel de um castigo mais grave nos termos de outros regulamentos.\u00bb\u2019 (p. 83)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018No plano interno, os outros objetivos nazis s\u00e3o definidos, em 11 de dezembro de 1938, pelo general Von Fritsch. Nesse dia escreve \u00abque tr\u00eas batalhas foram necess\u00e1rias para restabelecer o poderio da Alemanha: a batalha contra as classes trabalhadoras, a batalha contra Igreja Cat\u00f3lica, a batalha contra os judeus.\u2019 (p. 84)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Uma lei secreta, com a assinatura de Martin Bormann, \u00e9 suficiente para definir o ponto de vista nazi na sua luta contra a Igreja: \u00abTodas as influ\u00eancias que possam conter a influ\u00eancia exercida sobre o povo pelo F\u00fcrher devem ser eliminadas. Cada vez mais, o povo deve ser afastado das igrejas e dos seus representantes e pastores. Nunca mais se dever\u00e1 consentir \u00e0s igrejas que assumam qualquer influ\u00eancia sobre a dire\u00e7\u00e3o do povo.\u00bb\u2019 (p. 85)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em Mein Kampf, Hitler critica os pol\u00edticos cat\u00f3licos, mas tem necessidade dos seus eleitores. Agrada-lhes e faz da promessa de uma Concordata um argumento eleitoral. Efetivamente, a 20 de julho de 1933, a Igreja v\u00ea que lhe \u00e9 concedido \u00abo direito de regularizar os seus pr\u00f3prios assuntos\u00bb. \u00c9 o futuro Pio XII, Pacelli, secret\u00e1rio de Estado pontif\u00edcio, e Von Papen que assinam a Concordata.<br \/>\nCinco dias mais tarde, Hitler promulga uma lei sobre a esteriliza\u00e7\u00e3o. Dez dias mais tarde, a Liga das Juventudes Cat\u00f3licas \u00e9 dissolvida. A seguir, o chefe da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, Erich Klausener, \u00e9 assassinado.<br \/>\nEm 1937, Pio XI publica a enc\u00edclica Com uma dor enorme\u2026 Nessa enc\u00edclica, acusa o Governo alem\u00e3o de semear \u00aba embriaguez da suspei\u00e7\u00e3o, da disc\u00f3rdia, do \u00f3dio, da cal\u00fania, da hostilidade fundamental secreta e aberta ao Cristo e \u00e0 sua Igreja\u2026\u00bb. E Pio XI acrescenta: \u00abVeem-se despontar no horizonte da Alemanha nuvens amea\u00e7adoras de guerras religiosas destruidoras que n\u00e3o t\u00eam outro objetivo sen\u00e3o o exterm\u00ednio.\u00bb<br \/>\nEm mar\u00e7o de 1937, quando Pio XI promulga a enc\u00edclica, os judeus j\u00e1 h\u00e1 muito tempo que s\u00e3o proscritos, perseguidos, presos. \u00c9 verdade que, neste caso, n\u00e3o se trata de uma guerra religiosa, mas da realidade de um exterm\u00ednio racial.\u2019 (pp. 86-87)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em 26 de agosto de 1939, enquanto se prepara par atacar a Pol\u00f3nia, [Hitler] manda enviar ao Rei dos Belgas, \u00e0 Rainha da Holanda e ao Governo do gr\u00e3o-ducado do Luxemburgo uma nota na qual afirma solenemente a sua inten\u00e7\u00e3o de respeitar aquelas neutralidades. Nova garantia a 6 de outubro. Por\u00e9m, tr\u00eas dias mais tarde, dita a sua diretiva para a condu\u00e7\u00e3o da guerra e, especialmente, para a invas\u00e3o daqueles tr\u00eas pa\u00edses. Esta opera\u00e7\u00e3o recebe o nome de \u00abPlano Amarelo\u00bb.\u2019 (pp. 180-181)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Desde que realizara a Anschluss, Hitler, fiel aos seus h\u00e1bitos, empenhou-se em dar garantias aos pa\u00edses vizinhos: \u00abInformei a Jugosl\u00e1via de que, de futuro, a nossa fronteira com esse pa\u00eds permaneceria inalter\u00e1vel e que n\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos viver sen\u00e3o em paz e em boa amizade.\u00bb<br \/>\nMas havia j\u00e1 algum tempo que tinham ficado prontos os planos da agress\u00e3o \u00e0 Jugosl\u00e1via. Ao dar os \u00faltimos retoques no Plano Barbarossa \u2013 invas\u00e3o da URSS \u2013 Hitler ordenara aos generais que previssem a seguran\u00e7a do flanco sul dos seus ex\u00e9rcitos e a prote\u00e7\u00e3o das linhas de comunica\u00e7\u00e3o para a Ucr\u00e2nia.\u2019 (pp. 182-183)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Nuremberga j\u00e1 vai longe, mas a evoca\u00e7\u00e3o dos crimes que exigiram Nuremberga permanece, bem n\u00edtida. Uma lista intermin\u00e1vel, horr\u00edvel. Uma lista que explica muitos \u00f3dios e expia\u00e7\u00f5es implac\u00e1veis. Crimes que, para honra dos homens, se deseja que nunca mais se repitam.\u2019 (p. 389)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Foto recolhida da <a href=\"https:\/\/bibliografia.bnportugal.gov.pt\/bnp\/bnp.exe\/registo?2015275\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Biblioteca Nacional Portuguesa\u00a0<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20691,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-20690","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20690"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20690\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20693,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20690\/revisions\/20693"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}