{"id":20606,"date":"2026-03-25T12:24:28","date_gmt":"2026-03-25T12:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20606"},"modified":"2026-03-25T12:24:28","modified_gmt":"2026-03-25T12:24:28","slug":"entrevista-jorge-leandro-rosa-a-justica-climatica-deve-traduzir-se-numa-reavaliacao-constante-da-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/entrevista-jorge-leandro-rosa-a-justica-climatica-deve-traduzir-se-numa-reavaliacao-constante-da-economia\/","title":{"rendered":"Entrevista | Jorge Leandro Rosa: \u201cA justi\u00e7a clim\u00e1tica deve traduzir-se numa reavalia\u00e7\u00e3o constante da economia\u201d"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"font-weight: 400; text-align: right;\">Entrevista | Rubrica promovida em parceria com o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/correiodovouga\/?locale=pt_PT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Correio do Vouga<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>\u00c9 \u201cimperativo equilibrar a a\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos humanos\u201d com o sentido da sabedoria \u2013 afirma o convidado da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura para a tert\u00falia do dia 26 de mar\u00e7o (no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, \u00e0s 21h30), em resposta a tr\u00eas quest\u00f5es colocadas pelo Correio do Vouga, por e-mail.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Professor, tradutor e investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, Jorge Leandro Rosa defende uma \u201cjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d que passa pelo decrescimento econ\u00f3mico nos pa\u00edses mais desenvolvidos. \u201cSe \u00e9 ineg\u00e1vel que o crescimento \u00e9 um benef\u00edcio para aqueles povos que vivem abaixo de um certo limiar de pobreza, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente que ele continue a favorecer aqueles que, beneficiando j\u00e1 de uma vida material digna, v\u00e3o acabar por sofrer direta e indiretamente os efeitos da disrup\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico planet\u00e1rio, com todas as suas consequ\u00eancias ambientais, sociais e econ\u00f3micas\u201d. Em foco, na tert\u00falia da pr\u00f3xima quinta-feira, estar\u00e1 o tema \u201ccristianismo e desafio ecol\u00f3gico\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>CORREIO DO VOUGA &#8211; Temos realmente consci\u00eancia do \u201cdesafio ecol\u00f3gico\u201d, enquanto comunidade, ou \u00e9 uma quest\u00e3o que passa ao lado, at\u00e9 \u201cbatermos com a cabe\u00e7a na parede\u201d? O que \u00e9 preciso para despertarmos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>JORGE LEANDRO ROSA<\/strong>\u00a0&#8211; O \u201cdesafio ecol\u00f3gico\u201d foi, ao longo de muitos mil\u00e9nios, o desafio que a natureza p\u00f4s ao ser humano: o desafio dos recursos incertos, das doen\u00e7as, das feras, da seca e das tempestades. Muitas culturas aprenderam a viver com esses constrangimentos e constru\u00edram as suas espiritualidades em torno desses perigos. Digamos, para empregar uma linguagem moderna, que essas culturas, suportando embora fragilidades impressionantes, se adaptavam e encontravam satisfa\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o de viver nos ecossistemas de que estavam dependentes. O mito do Bom Selvagem teve vida longa no Ocidente: supunha-se que estes povos n\u00e3o s\u00f3 desconheciam a agricultura como em nada influ\u00edam no seu meio ambiente. Sabemos hoje que tal n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade: mesmo as tribos da Amaz\u00f3nia tiveram impacte no seu meio f\u00edsico, bot\u00e2nico e zool\u00f3gico. Simplesmente, esses seres humanos viviam socialmente numa escala temporal muito diferente da nossa, que conduz agora uma espantosa acelera\u00e7\u00e3o de tudo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Quer isso dizer que o \u201cdesafio ecol\u00f3gico\u201d se inverteu: somos n\u00f3s que n\u00e3o s\u00f3 dominamos as outras formas de vida, mas tamb\u00e9m as pomos em perigo. Mesmo que n\u00e3o polu\u00edssemos de modo not\u00f3rio os solos e os cursos fluviais, a acelera\u00e7\u00e3o dos nossos modos de vida seria j\u00e1 a causa de um div\u00f3rcio grav\u00edssimo entre a humanidade e a natureza. Com efeito, os usos que damos ao espa\u00e7o e ao tempo t\u00eam efeitos mais danosos do que as simples emiss\u00f5es e ind\u00fastrias poluentes. Torna-se, pois, imperativo equilibrar a a\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos humanos pela aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 sabedoria. Embora se diga que a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica tudo podem remediar, fen\u00f3menos como a extin\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de esp\u00e9cies e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que n\u00e3o passe pela restri\u00e7\u00e3o das causas dessas tend\u00eancias. A quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no fim da vida no planeta, mas antes no desaparecimento dos recursos ambientais para um tipo de vida como o nosso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Como v\u00ea o papel da religi\u00e3o, nomeadamente o cristianismo nesta quest\u00e3o? Ajuda a despertar ou a adormecer?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Os te\u00f3logos e os exegetas t\u00eam vindo a discutir as representa\u00e7\u00f5es da natureza na B\u00edblia. Mas em \u00e9pocas em que a natureza \u00e9 pujante, n\u00e3o surpreende que as representa\u00e7\u00f5es fossem maioritariamente aquelas do seu poder como instrumento de Deus. No s\u00e9c. XX, diante dos estragos provocados pela sociedade industrial, come\u00e7\u00e1mos a ter a perce\u00e7\u00e3o de uma natureza fr\u00e1gil e injusti\u00e7ada, o que permitiu que reencontr\u00e1ssemos inspira\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica em S. Mateus e noutras passagens dos Evangelhos. Nos anos 1930 e 40, afirma-se a obra ainda hoje surpreendente de um jesu\u00edta e paleont\u00f3logo, o Padre Teilhard de Chardin, com a sua vis\u00e3o de uma converg\u00eancia entre a ascens\u00e3o do Esp\u00edrito e o tempo org\u00e2nico. Para Teilhard, o progresso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aquele que arranca o homem \u00e0 natureza, mas, ao inv\u00e9s, aquele que o leva a reintegrar-se na natureza no que esta tem de mais profundo e gen\u00e9sico. Reconciliados com a atividade incessante da natureza, os seres humanos podem, ent\u00e3o, retomar o fio condutor das suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, a rela\u00e7\u00e3o entre perspetiva crist\u00e3 e perspetiva ecol\u00f3gica foi oscilante e muitas vezes politizada e incompreendida. Ainda assim, essas e outras sementes \u201cecol\u00f3gicas\u201d puderam florescer em muitas igrejas: recordo-me das iniciativas das igrejas protestantes, das reflex\u00f5es dos bispos brasileiros, dos apelos do Patriarca Bartolomeu de Constantinopla e, \u00e9 claro, das interven\u00e7\u00f5es do Papa Francisco, que teve, a este respeito, uma influ\u00eancia que vai muito para al\u00e9m do mundo cat\u00f3lico. Este \u201curdiu\u201d uma converg\u00eancia de grande alcance, que n\u00e3o pode cair no esquecimento e que se traduziu na quase simultaneidade da sa\u00edda da Carta Enc\u00edclica Laudato Si e da realiza\u00e7\u00e3o da COP de Paris em 2015. A Enc\u00edclica est\u00e1 escrita sob o signo da \u201cecologia integral\u201d, abrangendo a quest\u00e3o do clima e denotando uma compreens\u00e3o mais profunda do ambiente que n\u00e3o posso aqui desenvolver.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Tem defendido a ideia de decrescimento. Pode explicar em que consiste? \u00c9 a solu\u00e7\u00e3o para o desafio ecol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Conviria considerar dois tempos: o caminho feito at\u00e9 \u00e0 COP21\/Laudato Si e o caminho feito desde a\u00ed. Antes de 2015, era predominante uma concep\u00e7\u00e3o das amea\u00e7as ao ambiente centrada na polui\u00e7\u00e3o local e regional. Com o Acordo de Paris, emergiu, quase de um dia para o outro, a no\u00e7\u00e3o de uma emerg\u00eancia planet\u00e1ria. Embora solidamente baseada na ci\u00eancia, esta perspectiva parece a muitos abstracta e de dif\u00edcil compreens\u00e3o, o que deu espa\u00e7o ao negacionismo clim\u00e1tico. Mas como o aquecimento global progride inexoravelmente, todos come\u00e7amos a testemunhar algumas das suas consequ\u00eancias mais evidentes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O que tem isto a ver com as propostas de decrescimento? O incremento do efeito de estufa favorecido pelas emiss\u00f5es carb\u00f3nicas \u00e9, em grande medida, um efeito da actividade econ\u00f3mica humana. O produtivismo, ao globalizar-se, generalizou o culto do crescimento e ampliou as emiss\u00f5es. Ora, se \u00e9 ineg\u00e1vel que o crescimento \u00e9 um benef\u00edcio para aqueles povos que vivem abaixo de um certo limiar de pobreza, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente que ele continue a favorecer aqueles que, beneficiando j\u00e1 de uma vida material digna, v\u00e3o acabar por sofrer directa e indirectamente os efeitos da disrup\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico planet\u00e1rio, com todas as suas consequ\u00eancias ambientais, sociais e econ\u00f3micas. A \u201cjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d deve, pois, traduzir-se numa reavalia\u00e7\u00e3o constante dos objectivos da economia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Terminarei dizendo que, a meu ver, o decrescimento econ\u00f3mico s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel e desej\u00e1vel se as nossas sociedades reencontrarem a disponibilidade para se ocuparem de outros \u201ccrescimentos\u201d, \u00e0 cabe\u00e7a dos quais colocaria as dimens\u00f5es espirituais da vida humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Rubrica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20607,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[138],"tags":[],"class_list":["post-20606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20606"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20608,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20606\/revisions\/20608"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}