{"id":20597,"date":"2026-03-23T07:07:52","date_gmt":"2026-03-23T07:07:52","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20597"},"modified":"2026-03-22T12:44:38","modified_gmt":"2026-03-22T12:44:38","slug":"22-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-casa-da-lombinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/22-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-casa-da-lombinha\/","title":{"rendered":"22 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na casa da Lombinha"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"22 Mist\u00e9rio na casa da Lombinha\" width=\"640\" height='480' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bqNjoyQeFUM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J. e M. vasculham, entre os pap\u00e9is de Alberto Ferreyra, pressentindo-o distra\u00eddo na cria\u00e7\u00e3o de uma nova narrativa. Encontram os esbo\u00e7os de uma velha hist\u00f3ria de que desistira.<br \/>\nCome\u00e7ava assim\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longe, ouve-se o dobrar dos sinos. Lento, demorado, l\u00e2nguido, porque \u00e9 da morte que fala. Anuncia partida e transfigura em perguntas o rotinar dos dias.<br \/>\n&#8211; O Z\u00e9 da Lombinha. Triste coitado\u2026<br \/>\nEncontraram-no, debru\u00e7ado na cama, de olhos abertos \u2013 Porque a morte se enfrenta com coragem, dizia. \u2013 e uma folha com apenas uma frase escrita: \u2018onde guardo tesouros\u2019.<br \/>\nOs que primeiro o encontraram nada sabiam de arte. Teriam visto ali um novo quadro de David como se este fosse o repetir da morte de Marat.<br \/>\nEncontrara-a como sempre pretendera: no sossego da cama, e de olhar frontal. Ela n\u00e3o o surpreendera- Seria ele a surpreende-la a ela. Adivinhava-se o susto da morte ao encontra-lo vigilante.<br \/>\nA casa, modesta como a de um agricultor de aldeia, tinha um pequeno s\u00f3t\u00e3o, onde dormia. Cama simples, de arma\u00e7\u00e3o de ferro. Antiga. Velha de ferrugem.<br \/>\nSubia-se por um escad\u00f3rio de madeira rangente. Toda a casa rangia; do soalho \u00e0s portas, como se ali tivesse decidido o tempo esticar-se para escapar ao passado.<br \/>\nUm grande p\u00e1tio, desnivelado, abrigava-se sob uma ramada de cachos americanos. A do\u00e7ura das uvas adivinhava-se, por altura das vindimas, quando se agitavam, alvoro\u00e7adas, at\u00e9 que se lavassem os cestos, as afadigadas abelhas. O ranger dos soalhos fazia-se, ent\u00e3o, acompanhar do ininterrupto zumbido mel\u00edfero.<br \/>\nNas traseiras da casa, os cheiros eram outros. Para ali se descia por um escorregadio passeio cimentado, que levava ao curral das vacas, dos porcos, cabras e ovelhas, numa mistura que lembrava os tempos da velha alian\u00e7a, selada por a\u00e7\u00e3o de uma arca salvadora. Ao fundo, um grande avi\u00e1rio, que, ninhada ap\u00f3s ninhada, servia o sustento daquele pobre homem.<br \/>\nN\u00e3o se lhe conhecia o passado.<br \/>\nViera, para ali, j\u00e1 entrado na vida.<br \/>\nO sotaque aberto denunciava-lhe a origem nordestina. N\u00e3o se livrara, por isso, de lhe chamarem \u2018brasileiro\u2019.<br \/>\nComprara aquela modesta casa, n\u00e3o se lhe conhecendo mulher nem filhos. Vivia s\u00f3. Era homem de poucas falas. As necess\u00e1rias, apenas, para escoar uns litros de leite ou vender os porcos entretanto cevados.<br \/>\nTemiam-se-lhe os outroras da vida que tornaram desconfiados os seus primeiros meses naquelas terras.<br \/>\nAssim se passara o tempo e tudo parecia destinado a que se emparedasse para sempre numa solid\u00e3o sem janelas.<br \/>\nAt\u00e9 ao dia em que, por a\u00e7\u00e3o de um secreto benfeitor, foi adquirido pela igreja um novo \u00f3rg\u00e3o.<br \/>\nA igreja, de paredes totalmente cobertas de azulejo, era surpreendente na sua configura\u00e7\u00e3o \u2013 quem nela entrava, pelo lado dos cemit\u00e9rios, imaginava-lhe o altar em frente. Encontr\u00e1-lo-ia, por\u00e9m, do lado direito. Uma igreja l\u00fagubre, apelando \u00e0 interioridade, ampla como os pal\u00e1cios imperiais romanos\u2026 Em todo o per\u00edmetro, quadros com os ap\u00f3stolos.<br \/>\nAlvoro\u00e7ava-se o p\u00e1roco, procurando um Buxtehude que pudesse dar bom uso \u00e0quele generoso instrumento.<br \/>\nMas, nada\u2026<br \/>\nOs tempos foram enchendo de poeira as teclas.<br \/>\nDizia-se, por\u00e9m, que, enquanto os homens amoleciam com o torpor digestivo, se ouviam melodias que pareciam nascer do interior da igreja. Ningu\u00e9m conseguira, contudo, descobrir se o rumor era de fantasmas ou de um qualquer anjo humano.<br \/>\nFizeram-se desentorpecer e, numa das tardes sequiosas de ver\u00e3o, resistindo \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o da sesta, desvaneceu-se, de vez, o mist\u00e9rio. Z\u00e9 da Lombinha esgueirava-se, como se adivinhava que sempre tivesse feito, por uma estreita porta por que se subia para a torre sineira, para ali se esconder at\u00e9 que se fechassem as portas, ao fim do dia.<br \/>\n&#8211; Como aprendera a melodiar e harmonizar aquelas teclas? N\u00e3o era ele um modesto criador de gado e pobre agricultor?<br \/>\nN\u00e3o se lhe sacaram palavras com que explicasse o seu saber.<br \/>\nDoravante, contudo, a comunidade passou a contar com o acompanhamento do mestre brasileiro.<br \/>\n&#8211; No sangue de um brasileiro sempre corre sangue musical. \u2013 Iam dizendo as l\u00ednguas do povo.<br \/>\nVolvido o tempo, n\u00e3o longo, por\u00e9m, a torre sineira deu labor ao seu morador para anunciar a morte de quem melodias trouxera \u00e0 terra.<br \/>\nSobrava um reconhecimento feito de mist\u00e9rio e gratid\u00e3o, mas ningu\u00e9m parecia compreender a hist\u00f3ria daquele homem.<br \/>\nE acabar assim. S\u00f3, ainda que de olhar fixo e firme perante a morte. E um papel.<br \/>\nApenas um papel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Alberto Ferreyra interrompera a hist\u00f3ria aqui\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J. e M. olharam um para o outro.<br \/>\nHavia que tentar descobrir se a casa da Lombinha existira e se nela se reservaria o que pudesse ajudar a desvendar o mist\u00e9rio daquela narrativa.<br \/>\n\u2018Onde guardo tesouros\u2019\u2026<br \/>\nSeria uma afirma\u00e7\u00e3o ou uma interrompida interroga\u00e7\u00e3o?<br \/>\nSa\u00eddos da narrativa, cruzando o umbral onde se juntam a imagina\u00e7\u00e3o e a realidade, M. levou, pela m\u00e3o, o irm\u00e3o J.<br \/>\nDesceram pela pequena encosta que os levaria \u00e0 casa da Lombinha. Desfizeram os \u00faltimos degraus e pararam. Diante de si, a porta de duas folhas com que se acede \u00e0 cozinha da casa da Lombinha. A parte nova fora constru\u00edda muitos anos ap\u00f3s a parte central. Fora uma parte exterior e separada, at\u00e9 que os av\u00f3s da lombinha decidiram fech\u00e1-la, conferindo-lhe a unidade com que, agora, se apresentava.<br \/>\nEntraram. Subiram um pequeno degrau com que acederam ao soalho rangedor.<br \/>\nOs quartos eram pequenos, como era comum entre as casas antigas. Uma sala maior tinha uma porta verde, tamb\u00e9m ela de duas folhas, umas das quais fixa. S\u00f3 se abria em duas ocasi\u00f5es: uma, anual, por motivo da visita pascal; outra, que se esperava que muito tardia, por ocasi\u00e3o da morte de algu\u00e9m.<br \/>\nZ\u00e9 da Lombinha comprara a casa que mantivera nas condi\u00e7\u00f5es em que a encontrara.<br \/>\nNum canto da salinha, de que se podia aceder a todos os quartos, havia um pequeno ba\u00fa.<br \/>\n&#8211; Um pequeno ba\u00fa? \u2013 J. parecia adivinhar o significado do olhar parado de M. sobre aquela grande caixa de madeira castanha de cobertura abobadada.<br \/>\nAbriram-no.<br \/>\nDentro, s\u00f3 encontraram cartas.<br \/>\nCartas, cartas, cartas.<br \/>\nTodas destinadas a Jos\u00e9 Manuel Silva.<br \/>\nMas os remetentes multiplicavam-se, ainda que todos provindos do interior brasileiro.<br \/>\nJ. sentou-se. M. abria, s\u00f4frega, as in\u00fameras cartas.<br \/>\nFalava-se de gratid\u00e3o, de reconhecimento, de convites.<br \/>\nNuma delas, das imedia\u00e7\u00f5es de Manaus, agradecia-se a escola de m\u00fasica criada por Jos\u00e9 Manuel e que as saudades abundavam.<br \/>\nEnquanto M. lia, de l\u00e1grimas nos olhos, J. acotovelou-a.<br \/>\nReunira quatro peda\u00e7os de uma carta rasgada.<br \/>\nAo unir as partes, percebia-se o seu conte\u00fado. O reitor de uma universidade pedia desculpas pelo injusto processo que levara \u00e0 demiss\u00e3o do professor Jos\u00e9 Manuel Silva por den\u00fancia an\u00f3nima que lhe lan\u00e7ara o nome na lama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J. olhou, consternado, para M., que lamentou:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, o brasileiro decidira procurar ref\u00fagio neste long\u00ednquo lugar da Lombinha, emparedando-se entre os muros da sua sobriedade de falas. Morrera s\u00f3, mas enfrentara a morte porque se lia como tendo desistido da vida madrasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J. e M. abra\u00e7aram-se em choro condo\u00eddo. Assim ficaram, longamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M. voltou-se para Alberto Ferreyra. Fixou-o nos olhos, do modo poss\u00edvel \u00e0 personagem perante o seu criador, e devolveu-lhe o papel recolhido da m\u00e3o do Z\u00e9 da Lombinha j\u00e1 finado: \u2018\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o dos outros que se guardam os mais duradouros tesouros\u2019.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-20597","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20597","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20597"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20597\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20803,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20597\/revisions\/20803"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20597"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20597"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20597"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}