{"id":20572,"date":"2026-03-21T07:00:27","date_gmt":"2026-03-21T07:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20572"},"modified":"2026-03-19T10:02:47","modified_gmt":"2026-03-19T10:02:47","slug":"tiago-ramalho-xlii-9-glosas-a-breve-apologie-pour-un-moment-catholique-de-jean-luc-marion-cont-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-xlii-9-glosas-a-breve-apologie-pour-un-moment-catholique-de-jean-luc-marion-cont-2\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | XLIII | 10 | Glosas a &#8216;Br\u00e8ve apologie pour un moment catholique&#8217;, de Jean-Luc Marion (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Glosas a Br\u00e8ve apologie pour un moment catholique<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8211; Catholique et fran\u00e7ais &#8211;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>(pp. 15-47)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Cont.)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0[Primeiro texto: <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-xxxiv-glosas-a-breve-apologie-pour-un-moment-catholique\/\">aqui<\/a>.]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tiago Azevedo Ramalho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 12. <em><u>Dois exemplos. A divisa da Rep\u00fablica. <\/u>\u2013 <\/em>Pode ent\u00e3o o primeiro cap\u00edtulo avan\u00e7ar para a sua parte conclusiva. Destina-se ela a ilustrar a tipologia de servi\u00e7o que os crist\u00e3os podem oferecer \u00e0s sociedades contempor\u00e2neas. Justamente a oportunidade de, \u00e0 hora de hoje, tal servi\u00e7o assumir especial relevo, mostra a presen\u00e7a de um kair\u00f3tico <em>moment catholique<\/em>. \u00c9 a prop\u00f3sito de dois s\u00edmbolos maiores da Rep\u00fablica, a sua <em>divisa <\/em>e o regime da <em>la\u00efcit\u00e9, <\/em>que Marion procura mostrar de que modo os cat\u00f3licos podem contribuir para a vivifica\u00e7\u00e3o daquele regime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos pela divisa da Rep\u00fablica: <em>libert\u00e9, egalit\u00e9, fraternit\u00e9. <\/em>A tese sustentada por Marion: ainda que se pretenda que aquela divisa seja pr\u00f3pria de uma ordem pol\u00edtica secular, apenas pode ser plenamente vivida e experimentada na medida em que seja nutrida por uma pr\u00e1tica crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transcrevem-se, de seguida, algumas das mais belas p\u00e1ginas deste livro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abConsideremos a divisa da Rep\u00fablica, \u201cliberdade, igualdade, fraternidade\u201d. \u00c9 poss\u00edvel conceber que a Rep\u00fablica possa assegurar \u00e0 sociedade francesa a liberdade; sem d\u00favida com limites, aqueles que s\u00e3o impostos pela garantia da seguran\u00e7a e da ordem p\u00fablica, e tamb\u00e9m aqueles que o autoritarismo espont\u00e2neo do Estado imp\u00f5e; sem d\u00favida tamb\u00e9m que se tratar\u00e1 sempre mais de <em>liberdades <\/em>do que <em>da <\/em>liberdade, e que as liberdades t\u00e3o desmultiplicadas como formais, e at\u00e9 eventualmente contradit\u00f3rias entre elas. Mas admitamos que a Rep\u00fablica possa cumprir ao menos parcialmente a primeira parte da divisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos admitir tamb\u00e9m que a Rep\u00fablica possa promover na sociedade francesa a igualdade, ainda que n\u00e3o sem evidentes dificuldades. Se se trata da igualdade economicamente real, tal promo\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de, sem d\u00favida, produzir inevitavelmente um empobrecimento econ\u00f3mico global, n\u00e3o poder\u00e1 operar sen\u00e3o pela coac\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ao ponto de arriscar contradizer a instaura\u00e7\u00e3o da liberdade. Se n\u00e3o se trata de igualdade formal, parecer\u00e1 antes uma igualdade abstracta, mesmo ilus\u00f3ria, exasperando o sentimento de desigualdade. Mas admitamos ainda que a Rep\u00fablica consegue, mesmo que tangencialmente, a impor uma certa igualdade na sociedade francesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta a fraternidade. Como \u00e9 que o Estado, mesmo e sobretudo sob a figura da Rep\u00fablica, que n\u00e3o reconhece o menor dos deuses (nem, claro, o seu representante terrestre, o rei), pode pretender garanti-la? Para nos tornarmos irm\u00e3os, \u00e9 necess\u00e1rio provir de um pai, de um pai comum que precede universalmente a cada filho. A vontade comum, porque resulta da maioria, n\u00e3o o pode garantir. A vontade geral, se alguma vez se pudesse produzir, deveria, ela, preceder a reuni\u00e3o da comunidade nacional, e impor-se como que do exterior; ora, este milagre pol\u00edtico n\u00e3o se realiza nunca ou quase nunca, na melhor das hip\u00f3teses por curtos momentos hist\u00f3ricos. A p\u00e1tria n\u00e3o pode, na melhor das hip\u00f3teses, aparecer sen\u00e3o como uma <em>matria, <\/em>por vezes uma simples madrasta, mas sempre, segundo a express\u00e3o do direito romano, uma m\u00e3e certa que admite pais incertos. Como podemos n\u00f3s ter a for\u00e7a de considerar <em>sem excep\u00e7\u00e3o <\/em>todos os nossos concidad\u00e3os (sem mesmo mencionar todos os homens imigrados de outras na\u00e7\u00f5es) como nossos irm\u00e3os, se nenhum pai radicalmente comum no-lo permite? Como podemos n\u00f3s n\u00e3o ceder \u00e0 proscri\u00e7\u00e3o dos nossos inimigos interiores, reais ou supostos, editar uma lei de suspeitos, em suma, purificar o corpo social dos seus traidores confessos ou potenciais? Al\u00e9m do mais, n\u00e3o exercemos n\u00f3s o Terror desde que promulg\u00e1mos a fraternidade? N\u00e3o a concebemos desde logo para excluir os falsos irm\u00e3os? Para que uma fraternidade incoactiva mas verdadeira se nos torne pratic\u00e1vel, \u00e9 preciso n\u00e3o menos do que uma paternidade radical, incondicionada e imprescrit\u00edvel, \u201cdiante do Pai, a partir do qual toda a paternidade nos c\u00e9us e sobre a terra tira o seu nome\u201d (<em>Ef\u00e9sios<\/em> 3, 14-15). O \u00fanico Pai conceb\u00edvel que pode assegurar uma fraternidade justa e real, porque assegura a uni\u00e3o na comunidade, encontra-se nos c\u00e9us: \u00e9 somente assim que pode vir sobre a terra. Isto evidentemente que a Rep\u00fablica n\u00e3o pode incluir, nem na sua divisa, nem na sua constitui\u00e7\u00e3o. Mas os cat\u00f3licos podem, eles pr\u00f3prios, testemunhar esta paternidade numa sociedade de \u00f3rf\u00e3os.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a viv\u00eancia cat\u00f3lica que, pois, testemunha e \u00e9 sinal de transpar\u00eancia do sentido de fraternidade pretendido <em>politicamente <\/em>pela Rep\u00fablica \u2013 fazendo-o sem coac\u00e7\u00e3o, mas na liberdade fraterna daqueles que se reconhecem como iguais. Mesmo que esta se conserve sob um regime de <em>la\u00efcit\u00e9. <\/em>Passemos agora a esta segunda caracter\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Continua.)<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/wikiimages-1897\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=63022\">WikiImages<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=63022\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20574,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-20572","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20572","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20572"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20572\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20576,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20572\/revisions\/20576"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20574"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}