{"id":20502,"date":"2026-03-07T07:07:52","date_gmt":"2026-03-07T07:07:52","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20502"},"modified":"2026-03-01T23:31:43","modified_gmt":"2026-03-01T23:31:43","slug":"sabes-leitor-27-marca-de-agua-do-livro-woke-fizemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-27-marca-de-agua-do-livro-woke-fizemos\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 27 | Marca de \u00e1gua do livro &#8216;Woke fizemos?&#8217;"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O(s) autor(es) e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right; padding-left: 200px;\">Teresa Nogueira PINTO e Miguel C\u00d4RTE-REAL (COORD.), W<em>oke fizemos? Anatomia de um totalitarismo suave,<\/em> Alfragide, Oficina do Livro, 2025.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Woke fizemos?\u2019 \u00e9 uma obra plural. Tal como a interroga\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo. Coordenada por Teresa Nogueira Pinto e Miguel C\u00f4rte-Real, re\u00fane dezasseis ensaios de grande diversidade de estilos e de modos de leitura, correspondendo, ali\u00e1s, \u00e0 diversidade dos pr\u00f3prios autores: Professores de filosofia, historiador, de teoria pol\u00edtica, arquitetos, cientistas pol\u00edticos, criadores de fotografia e v\u00eddeo, jornalistas e cr\u00edticos de cinema, soci\u00f3logos, advogados, analistas pol\u00edticos, assegurando ao leitor um aut\u00eantico caleidosc\u00f3pico da realidade do wokismo nas sociedades atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em momento anterior desta rubrica analisei um livro sobre o \u2018wokismo\u2019, cuja leitura recomendo como complemento desta. Estou, ali\u00e1s, convencido de que h\u00e1 um antes e um depois desse livro \u2013 \u2018a religi\u00e3o woke\u2019, de F. Braunstein \u2013, por provir de um autor insuspeito (descrente e identificado como de esquerda). O seu aparecimento tornou mais tranquilo o reconhecimento de que est\u00e1vamos, efetivamente, perante um problema que atravessa a sociedade, de um ao outro lado do espetro pol\u00edtico. Dessa mesma consci\u00eancia nos d\u00e3o conta os pr\u00f3prios autores destoutro livro que, agora, apresento. Um deles afirma, mesmo: \u2018desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideol\u00f3gico restrito aos segmentos da direita: \u00e9 um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.\u2019 (Gon\u00e7alo Nabeiro, p. 221)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela diversidade complementar de leituras, e superada a d\u00favida de esta fosse uma mat\u00e9ria merecedora da preocupa\u00e7\u00e3o de apenas alguns, este livro torna-se, pela oportunidade e multiplicidade de abordagens, de visita recomend\u00e1vel, para que se perceba como nasceu e como chegou at\u00e9 n\u00f3s essa t\u00e3o implantada lente ocular com que, hoje, vemos, despertos (\u2018woke\u2019 \u2013 estar acordado), o mundo.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este livro serve, precisamente pela multiplicidade de \u00e2mbitos de que prov\u00eam os autores dos ensaios, multiplicidade que se repercute nos terrenos em que analisam a presen\u00e7a da cultura woke, para se perceber, com assombro, como esse \u2018modus cogitandi\u2019 (modo de pensar) se entranhou, profundamente, na cultura atual, tornando dif\u00edcil o distanciamento cr\u00edtico. Do cinema \u00e0s artes visuais, da literatura \u00e0 filosofia, do humor \u00e0 sexualidade, das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es mais individualmente consideradas, o wokismo chegou e entrou como suave \u2018perfume\u2019 que inebria. A ideia a que alude o subt\u00edtulo \u2018anatomia de um totalitarismo suave\u2019 permite-nos revisitar a hist\u00f3ria da r\u00e3 que, colocada em recipiente de \u00e1gua, \u00e9 cozinhada, progressivamente, sem de tal se dar conta. Desse mesmo modo, o wokismo, tantas vezes recusado pelos que dele recolhem dividendos, anestesia, sob a capa de uma genu\u00edna simpatia (Como n\u00e3o repudiar a injusti\u00e7a? A discrimina\u00e7\u00e3o? O racismo? A desigualdade?), criando, na sociedade, uma l\u00f3gica que repercute a <em>forma mentis<\/em> (a estrutura da mente) marxista que tudo reduz a luta de classes, agora reconfigurada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E f\u00e1-lo de um modo particularmente eficaz: n\u00e3o s\u00f3 critica e denuncia como, prontamente, criminaliza toda a oposi\u00e7\u00e3o, transformando em pensamento \u00fanico o modo de chegar \u00e0 meta da injusti\u00e7a, fazendo supor que um s\u00f3 \u00e9 o caminho para chegar \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Soma-lhe, ainda, uma outra estrat\u00e9gia, genialmente recordada no celeb\u00e9rrimo 1984 de George Orwell: \u2018quem controla o passado, controla o presente\u2019, pelo que, para promover o seu caminho, manipula a hist\u00f3ria, revisitando-a como lugar de exploradores e explorados, sem lugar poss\u00edvel para um qualquer \u2018encontro de culturas\u2019 ou de \u2018povos\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O wokismo prop\u00f5e-se despertar o mundo de um suposto adormecimento para a cong\u00e9nita injusti\u00e7a do mundo, mesmo que de tal n\u00e3o se sinta participante aquele a quem se atribuem as fun\u00e7\u00f5es de explorador e explorado. Mesmo que n\u00e3o seja explorador aquele sobre quem recai tal \u2018preconceito\u2019; ou \u2018explorado\u2019 aquele que se prop\u00f5em libertar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por efeito da chamada teoria cr\u00edtica, caldo em que germinou este modus cogitandi, a realidade deixa de ser tomada na sua objetividade por a ela sempre se estar impossibilitado de aceder, num registo p\u00f3s-moderno que recusa a \u00abverdade objetiva\u00bb. O corpo, ele mesmo realidade objetivamente considerada pelos \u2018n\u00e3o-wokes\u2019, \u00e9, agora, dispens\u00e1vel da considera\u00e7\u00e3o da identidade, sendo platonicamente relegado para a condi\u00e7\u00e3o de entrave \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o individual. O sexo \u00e9, assim, substitu\u00eddo pelo conceito de \u2018g\u00e9nero\u2019, termo que visibiliza a ideia de que a identidade sexual individual depende do pr\u00f3prio sujeito e do seu reconhecimento, isolando num solipsismo m\u00e1ximo o indiv\u00edduo a que os restantes s\u00f3 podem aceder por autoriza\u00e7\u00e3o deste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo se torna dilu\u00eddo, l\u00edquido (para evocar o pensamento de Zigmunt Bauman), sem suporte real, reduzido que est\u00e1 \u00e0 perce\u00e7\u00e3o individual. O indiv\u00edduo, no wokismo, \u00e9 a medida de todas as coisas (coisas j\u00e1 sem subst\u00e2ncia nem consist\u00eancia, pois totalmente dependentes do sujeito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante o sufoco que uma tal abordagem gera em quem se det\u00e9m a pensar nestas mat\u00e9rias, o livro deixa in\u00fameros sinais de que a procela possa estar a iniciar a dissipa\u00e7\u00e3o. Mas muito h\u00e1 a fazer, em particular, no que respeita ao dever de se manter em estado de vig\u00edlia e vigil\u00e2ncia. \u00c9 que, ironicamente, o wokismo nasceu de um torpor e adormecimento de que se aproveitou para se implantar, em nome de ser um despertador. Agora, come\u00e7amos a esticar os bra\u00e7os e a espregui\u00e7ar-nos, mas ainda s\u00f3 estamos na aurora\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O wokismo \u00e9 [\u2026] um totalitarismo suave: pretende educar consci\u00eancias, corrigir a linguagem, restringir o debate e condicionar comportamentos. N\u00e3o promete amanh\u00e3s que cantam, mas dedica-se \u00e0 reinven\u00e7\u00e3o do passado com o mesmo zelo com que regula o presente. \u00c9 sinal de um tempo de crise intelectual e moral, sintoma de uma \u00e9poca de ang\u00fastias e, qui\u00e7\u00e1, pren\u00fancio do fim de um ciclo.\u2019 (Nogueira Pinto, Pref\u00e1cio, p. 9)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A partir da influ\u00eancia da Teoria Cr\u00edtica, a abordagem da quest\u00e3o colonial deixar\u00e1 de se nortear paulatinamente por uma abordagem hist\u00f3rica interessada em documentos e factos. Ela ser\u00e1 conduzida doravante pela ideia arraigada de que o mundo se divide na confronta\u00e7\u00e3o entre opressor e v\u00edtima, havendo sempre dois discursos, duas narrativas, que expressam a rela\u00e7\u00e3o conflitual. Por um lado, h\u00e1 o discurso do colonizador, falando de uma modernidade triunfante, de um pensamento universal, do progresso da ci\u00eancia e das conquistas do conhecimento, do descobrimento da Am\u00e9rica, do \u00abencontro de culturas e de uma humanidade reunida em torno de \u00abvalores universais\u00bb. Por outro, o pressuposto discurso do colonizado: um discurso que, focado na v\u00edtima como conceito fundamental, denuncia a vontade de poder subjacente \u00e0 modernidade como o seu lado obscuro. Este seria o discurso que, negando a perspetiva do colonizador europeu, compreenderia que a rela\u00e7\u00e3o entre opressor e v\u00edtima n\u00e3o cessaria, na medida em que \u00e9 o pr\u00f3prio colono que, pela sua simples presen\u00e7a e exist\u00eancia, subordinando-a, faz (ou inventa) a sua v\u00edtima.\u2019 (Alexandre Franco de S\u00e1, p. 54)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A pergunta de James H. Sweet [Is History History?] tamb\u00e9m se ajusta ao que se passa em Portugal, onde h\u00e1 uma torrente de gente woke, levas sucessivas de alunos e professores que as universidades, na \u00e1rea das ci\u00eancias sociais e humanas, constantemente formam e deformam. \u00c9, tanto quanto posso avaliar, gente profundamente crente nos dogmas do p\u00f3s-modernismo e motivada para a milit\u00e2ncia (e vigil\u00e2ncia) woke contra aquilo a que chamam Hist\u00f3ria feita \u00e0 moda antiga, isto \u00e9, Hist\u00f3ria positivista. H\u00e1, por isso, fortes raz\u00f5es para temer que, sem uma reac\u00e7\u00e3o da parte s\u00e3 da sociedade, a ac\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria destas pessoas e concep\u00e7\u00f5es provocar\u00e1 um abalo irremedi\u00e1vel no cerne da investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, isto \u00e9, na busca da verdade e no respeito pelo rigor.\u2019 (Jo\u00e3o Pedro Marques, p. 82)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[O] que \u00e9 ensinado nas universidades, em particular no contexto anglo-americano [\u00e9] marcado pelo que Alexandre Franco de S\u00e1 chama \u00abmilitantes intelectuais\u00bb. Essa abordagem acad\u00e9mica baseia-se nas ideias popularizadas no final da d\u00e9cada de 1960, promovendo curr\u00edculos desenhados a partir dos tr\u00eas argumentos seguintes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; argumento identit\u00e1rio: a convic\u00e7\u00e3o de que a forma como vemos, interpretamos e conhecemos o mundo depende da nossa identidade (sexual, racial, etc.), pelo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar de um mundo comum e objectivo que esteja para l\u00e1 da nossa identidade;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; argumento das din\u00e2micas de poder: a convic\u00e7\u00e3o, inspirada no pensamento marxista, de que as din\u00e2micas sociais se traduzem sempre em din\u00e2micas de poder, pelo que aquelas identidades est\u00e3o em permanente tens\u00e3o e conflito para deverem e exercerem o poder;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; argumento activista: a convic\u00e7\u00e3o de que o privado \u00e9 pol\u00edtico, pelo que em todas as dimens\u00f5es da nossa vida devemos estar conscientes da nossa identidade e do modo como ela resulta de uma situa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio ou de opress\u00e3o, para podermos agir sobre o mundo e transformar essas rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir destes tr\u00eas pressupostos, generalizou-se no mundo acad\u00e9mico anglo-americano um sentimento de desprezo perante os valores ocidentais tradicionais, entendidos como mero resultado de opress\u00e3o da identidade branca (privil\u00e9gio branco), em particular do homem branco (patriarcado branco), visando subordinar e oprimis as restantes identidades (negros, BIPOC, o Sul Global) para manter o seu poder e o seu privil\u00e9gio. Este etno-masoquismo n\u00e3o \u00e9 um sentimento generalizado na popula\u00e7\u00e3o: nasceu nas elites universit\u00e1rias, mas tem vindo a aumentar a sua influ\u00eancia em resultado do crescente n\u00famero de estudantes no ensino superior. \u00c9, por isso, um aspeto fundamental para compreender as divis\u00f5es sociais actuais e os resultados pol\u00edticos que surpreendem as elites pol\u00edticas e intelectuais.\u2019 (Patr\u00edcia Fernandes, pp. 90-91)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A partir do momento em que a busca da verdade passou a ser uma ideologia, n\u00e3o existem curr\u00edculos ideologicamente neutros. Neste sentido, o embate educativo \u00e9 ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos assistido a uma redu\u00e7\u00e3o do assunto educativo art\u00edstico \u00e0 visualidade que pretende expandir o olhar humano para aquilo que se pode ver e ser visto e que visa ampliar os temos da arte o restrito objecto de estudo que esta convoca, mas levanta quest\u00f5es que merecem uma tenta discuss\u00e3o sobretudo dentro de uma matriz crist\u00e3. Essa conforma\u00e7\u00e3o \u00e0 estrita visualidade das coisas deixa-nos suscept\u00edveis \u00e0 hiperimagem da abund\u00e2ncia. \u00c9 preciso ver menos para ver mais. [\u2026] Temos de nos recentrar na visualidade crist\u00e3 do mundo. Uma visualidade intelectiva que vai muito para al\u00e9m daquilo que podemos ver e tocar. Voltar a ensinar a grande arte, o grande gosto e a grande cultura, que nos remeta para o significado original dessas cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Mais do que destrezas e manualidades, a educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica permite-nos a formula\u00e7\u00e3o de perguntas e mergulhar na profundidade do mist\u00e9rio humano.\u2019 (Ricardo Roque Martins, pp. 123-124)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a luta cultural preconizada pela Teoria Cr\u00edtica \u00e9 uma luta contra a biologia e que come\u00e7a por atacar o pr\u00f3prio facto da sexualidade bin\u00e1ria, sugerindo que a identidade sexual deve ser definida de forma mais diversa e flu\u00edda, desligada do corpo. \u00c9 como se cada indiv\u00edduo tivesse simultaneamente potencialidades femininas e masculinas dentro de si, \u00e0 espera de brotar, e a defini\u00e7\u00e3o da sua identidade sexual fosse um processo de descoberta gradual, criativo e pretensamente livre de press\u00f5es normativas. Nessa linha, o corpo \u00e9 entendido como uma pris\u00e3o que pode ser um fardo por diferentes motivos. Especialmente para a mulher, no entendimento da maior parte das feministas, o maior fardo que o corpo lhes imp\u00f5e \u00e9 a potencialidade da gravidez, pois limita as suas possibilidades pr\u00e1ticas durante, no m\u00ednimo, o longo per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o, e porque pode colidir com outros projectos pessoais, de ascens\u00e3o profissional e com a plena possibilidades de gozo de cada momento.\u2019 (Daniela Silva, p. 137)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para Yoram Hazoni, o wokismo pegou nos conceitos marxistas de luta e explora\u00e7\u00e3o de classes e transferiu essa dial\u00e9ctica, ou os polos dessa dial\u00e9ctica \u2013 explorador-explorado, burguesia-proletariado -, para outras dicotomias. Assim, ali onde os marxistas-leninistas opunham as classes econ\u00f3mico-sociais em guerra, os wokistas deixavam a imagina\u00e7\u00e3o dicot\u00f3mica \u00e0 solta, conforme as conveni\u00eancias e a urg\u00eancia da luta: \u00absupremacias brancas versus povos racializados\u00bb, \u00abpatriarcado versus mulheres\u00bb, \u00abheterossexuais cisg\u00e9nero versus LGBTQ+\u00bb (Feser, 2023).\u2019 (Jaime Nogueira Pinto, p. 151)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Questionar o movimento woke n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de considerar que n\u00e3o existem oprimidos e opressores. Existem e sempre existir\u00e3o. A forma de encarar tal equa\u00e7\u00e3o \u00e9 que ser\u00e1 discut\u00edvel e contest\u00e1vel. E neste caso, a condi\u00e7\u00e3o de ressentimento que domina a cultura woke, como afilhada de um marxismo ressuscitado, alimenta uma vis\u00e3o bipolar e extrema, assente num malabarismo argumentativo que p\u00f5e em causa a sabedoria popular, o que acaba por lhe retirar aprova\u00e7\u00e3o e ades\u00e3o e, por consequ\u00eancia, angariar oposi\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. O pensamento woke \u00e9 irrefutavelmente um pensamento que toma o niilismo no lugar da esperan\u00e7a, o relativismo no lugar do universalismo, e porventura \u00e9 incompat\u00edvel com a experi\u00eancia humana.\u2019 (Jo\u00e3o Pedro Marnoto, p. 188)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c0 falta de um contraponto \u00e0 altura e na propor\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o, s\u00f3 podemos contar, para inverter a tend\u00eancia, com uma gradual reac\u00e7\u00e3o do p\u00fablico por cansa\u00e7o ou overdose de doutrina\u00e7\u00e3o; com ac\u00e7\u00f5es c\u00edvicas de protesto, oposi\u00e7\u00e3o e boicote, como est\u00e3o j\u00e1 a acontecer nos EUA por parte de grupos de cidad\u00e3os e de associa\u00e7\u00f5es de pais e fam\u00edlias, particularmente contra a wok\u00edssima Disney; e com mudan\u00e7as no mercado, ou seja, por quedas ou decl\u00ednio das audi\u00eancias e dos resultados comerciais, que se reflectir\u00e3o no bolso de quem de direito e levar\u00e3o eventualmente a um atenuar do conte\u00fado woke nas s\u00e9ries de televis\u00e3o e streaming, ou mesmo a uma invers\u00e3o radical do rumo. Se, como notou um analista do meio, \u00aba ind\u00fastria das imagens em movimento segue o som do dinheiro\u00bb, talvez seja por a\u00ed que a mar\u00e9 do wokismo na fic\u00e7\u00e3o televisiva e em streaming possa come\u00e7ar a mudar.\u2019 (Eurico de Barros, pp. 197-198)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A Ideia de que se pode combater injusti\u00e7as e totalitarismos usando o humor \u00e9 comprovadamente uma ideia da mais ternurenta inoc\u00eancia \u2013 e ignor\u00e2ncia hist\u00f3rica e pol\u00edtica. Os cabar\u00e9s alem\u00e3es nos anos de 1920 e 1930 eram bastante conhecidos pelas actua\u00e7\u00f5es de comediantes \u2013 e n\u00e3o evitaram o nazismo. As piadas sovi\u00e9ticas eram popular\u00edssimas \u2013 e n\u00e3o evitaram o estalinismo. Henrique VIII tinha um bobo \u2013 que n\u00e3o evitou nenhuma decapita\u00e7\u00e3o. O humor pode servir para mostrar iniquidades, injusti\u00e7as, desigualdades, vaidades e del\u00edrios. \u00c9 habitual dizer-se que quando um s\u00e1bio aponta para a Lua, o tolo olha-lhe para o dedo. \u00c9 importante haver quem tenha essa vontade de olhar para o dedo do s\u00e1bio, \u00e0 procura de detalhes que outros n\u00e3o viam enquanto olhavam para a Lua. Mas da\u00ed a considerar que o papel do comediante \u00e9 cortar o dedo do s\u00e1bio, quando este discorda do tolo, ou tapar os olhos do tolo, quando se santifica o s\u00e1bio, \u00e9 um passo que muitos julg\u00e1vamos n\u00e3o vir a presenciar neste s\u00e9culo XXI.\u2019 (Nuno Amaral Jer\u00f3nimo, p. 206)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideol\u00f3gico restrito aos segmentos da direita: \u00e9 um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s um per\u00edodo de descren\u00e7a e de um certo declinismo \u2013 sentimentos, por sinal, compreens\u00edveis e justificados -, h\u00e1 motivos para acreditar no reaparecimento do senso comum e na restaura\u00e7\u00e3o da matriz cultural que nos define enquanto sociedade ocidental. Uma sociedade orientada para a liberdade, para o desenvolvimento e para as rela\u00e7\u00f5es de respeito m\u00fatuo entre indiv\u00edduos, cientes dos seus direitos e deveres para que possam dar \u00e0 comunidade aquilo que dela esperam.\u2019 (Gon\u00e7alo Nabeiro, p. 221)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a difus\u00e3o e enraizamento destas ideias perniciosas para a subsist\u00eancia do Ocidente civilizado que conhecemos, foi condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a substitui\u00e7\u00e3o do primado do intelecto, pr\u00f3prio da filosofia cl\u00e1ssica, pelo primado da vontade, que caracteriza a filosofia moderna. Mas isso n\u00e3o seria suficiente para que o wokismo vingasse como tem vindado: foi tamb\u00e9m preciso que houvesse fautores investidos em provocar o esmorecimento moral e civilizacional do Ocidente e idiotas \u00fateis, dispon\u00edveis para colaborar no processo. Os \u00faltimos s\u00e3o conhecidos e est\u00e3o a\u00ed: nas televis\u00f5es e nos jornais, nos parlamentos e nos governos, nas ruas e nas redes sociais. Os primeiros s\u00e3o mais dif\u00edceis de descodificar, identificar ou mesmo revelar.\u2019 (Jos\u00e9 Diogo Marques, p.226)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00e3o \u00e9 para mim uma coincid\u00eancia que os movimentos anti-woke estejam localizados, politicamente, junto da mesma direita que defende o fim da globaliza\u00e7\u00e3o globalista e o retorno da produ\u00e7\u00e3o (que \u00e9 o mesmo que dizer das empresas) \u00e0s comunidades locais. S\u00f3 o enraizamento do capitalismo nas comunidades locais permite verdadeiramente aproximar os gestores dos accionistas, reactivar o sentimento de perten\u00e7a dos trabalhadores a um corpo, eliminando a rela\u00e7\u00e3o distante que \u00e9 inerente ao contrato de trabalho hiperliberal, e recuperar a no\u00e7\u00e3o de propriedade privada. Enquanto isso n\u00e3o acontecer, o l\u00edder-gestor-especialista continuar\u00e1 a impor \u00e0 comunidade que serve [\u2026] aquilo que imagina como sendo o melhor para a comunidade, mesmo que a comunidade imagine o contr\u00e1rio. E, por isso, pelo menos no curto prazo, \u00abDEI will not die\u00bb.\u2019 (Jos\u00e9 Bento da Silva, p. 272)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para proteger a identidade de g\u00e9nero, tudo \u00e9 permitido. Inclusivamente, violar a consci\u00eancia dos atletas, como no caso dos profissionais de futebol da Liga francesa, ou ent\u00e3o, expor desportistas a formas de competi\u00e7\u00e3o profundamente injustas, em que nunca conseguir\u00e3o partir em p\u00e9 de igualdade, como no caso da nata\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. Pior do que isso, se necess\u00e1rio, exp\u00f5e as mulheres a uma viol\u00eancia absolutamente inaceit\u00e1vel, como a de partilhar um balne\u00e1rio ou uma casa de banho com uma pessoa transg\u00e9nero. [\u2026] A vit\u00f3ria woke \u00e9 o triunfo dos derrotados que conseguem impor a sua derrota, perseguindo at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias quem n\u00e3o quer ser derrotado como eles. Um acto de resist\u00eancia \u00e0 derrota tornou-se um passo para a conquista. A supera\u00e7\u00e3o e a resili\u00eancia s\u00e3o caracter\u00edsticas imprescind\u00edveis para um desportista, e \u00e9 tudo o que o wokismo pretende esmagar. N\u00e3o podemos permitir.\u2019 (Jos\u00e9 Maria Matias, p. 290.293)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Antes, n\u00e3o havia eleitores bons ou maus, esclarecidos ou equivocados. Havia eleitores, donos do seu voto, que os news media, por convic\u00e7\u00e3o ou com\u00e9rcio, respeitavam sem condi\u00e7\u00f5es. Hoje, tal respeito, nas noites eleitorais e nos per\u00edodos interm\u00e9dios, \u00e9 uma mem\u00f3ria remota e um anacronismo. Por convic\u00e7\u00e3o e por com\u00e9rcio.\u2019 (Alberto Gon\u00e7alves, p. 303)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O caso Rocco Buttiglione ilustra como, numa primeira fase, as causas fracturantes se tornaram dominantes independentemente do apoio que essas mesmas causas colhiam na sociedade: as maiorias comportavam-se como derrotadas, os seus l\u00edderes optaram por centrar o seu discurso nas quest\u00f5es econ\u00f3micas e deixaram \u00e0s minorias as quest\u00f5es de sociedade e culturais. [\u2026] Suprema ironia: enquanto destru\u00eda o centro-esquerda, o wokismo gerava o alargamento e a transforma\u00e7\u00e3o da direita. Esta ganhou eleitores, mas olha-se ao espelho e n\u00e3o gosta do que v\u00ea. N\u00e3o era assim que esperava ser. Mas vai ter de aprender a viver com isso porque na pol\u00edtica nunca se volta ao que se foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podia n\u00e3o ter sido assim? Precisamos de acreditar que sim, quanto mais n\u00e3o seja para continuarmos a acreditar que amanh\u00e3 ser\u00e1 diferente.\u2019 (Helena Matos, pp. 320.327)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018As ideias woke (como todas as ideias perversas) fizeram um caminho f\u00e1cil de rastrear: pensadas na academia com base na interpreta\u00e7\u00e3o enviesada dos fen\u00f3menos e realidades sociais, foram difundidas e at\u00e9 implementadas por ONG e movimentos que, ao n\u00edvel local, promoviam, punham em pr\u00e1tica e monitoriza\u00e7\u00e3o a implanta\u00e7\u00e3o das mesmas. Massificadas pela comunica\u00e7\u00e3o social com base nos relat\u00f3rios, casos e casinhos que as organiza\u00e7\u00f5es de milit\u00e2ncia identificavam, chegam ao poder pol\u00edtico depois de anos de sensibiliza\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, que pressiona os pol\u00edticos, dependentes\/sedentos de votos, a adaptar o seu discurso e trabalho \u00e0s novas reivindica\u00e7\u00f5es. [\u2026] \u00c9 muito cedo para gritarmos que o wokismo morreu. Quem o faz, encara este tema com demasiada leviandade, sem perceber que este movimento foi at\u00e9 ao detalhe mais banal da nossa vida.\u2019 (Rita Matias, pp. 332.346)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Foto recolhida da <a href=\"https:\/\/www.leyaonline.com\/pt\/livros\/historia-e-politica\/politica\/woke-fizemos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leya online<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20503,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-20502","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20502"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20502\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20504,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20502\/revisions\/20504"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20503"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}