{"id":20292,"date":"2026-01-28T20:29:30","date_gmt":"2026-01-28T20:29:30","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20292"},"modified":"2026-01-28T20:29:30","modified_gmt":"2026-01-28T20:29:30","slug":"cultura-crista-i-mateus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/cultura-crista-i-mateus\/","title":{"rendered":"Cultura crist\u00e3 (I) | Mateus"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Cultura crist\u00e3 | Uma parceria com o <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Correio do Vouga<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h2 style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>Mateus<\/strong><\/h2>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>O Evangelho de S\u00e3o Mateus \u00e9 o mais lido no presente ano lit\u00fargico, Ano A. Ainda no contexto do Domingo da Palavra, que este ano foi a 25 de janeiro, deixamos aqui algumas ideias para entender melhor o evangelista do ano. Primeira parte.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Pensava-se que era o primeiro dos evangelhos<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O Evangelho de Mateus \u00e9 o maior em extens\u00e3o, com mais de 18 mil palavras em grego. At\u00e9 ao s\u00e9culo XIX, pensava-se que era o mais antigo, o primeiro dos evangelhos. Por esta raz\u00e3o, aparece em primeiro lugar no Novo Testamento. Ao mesmo tempo, pensava-se que Marcos, contendo principalmente as a\u00e7\u00f5es de Jesus, era uma esp\u00e9cie de resumo de Mateus \u2013 por isso se valorizava mais Mateus, o evangelho mais lido na liturgia at\u00e9 \u00e0 reforma lit\u00fargica do Vaticano II. Hoje sabe-se que, na sua forma final, Marcos \u00e9 mais antigo que Mateus. E Mateus reproduz no seu evangelho cerca de 600 dos 661 vers\u00edculos de Marcos. Mateus usa ainda uma outra fonte, a chamada fonte Q (de\u00a0<em>Quelle<\/em>, que, em alem\u00e3o, quer dizer precisamente \u201cfonte\u201d). Trata-se de um escrito contendo principalmente palavras de Jesus, que tanto Mateus como Lucas teriam conhecido (o que explica as semelhan\u00e7as entre os dois evangelhos), mas que nunca se encontrou.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Escritos que refletem Jesus e as primeiras comunidades crist\u00e3s<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Na sua forma final, o Evangelho de Mateus \u00e9 posterior ao ano 70 (porque tem passagens que refletem a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, pelos romanos, no ano 70) e anterior ao ano 80. Passam-se, pelo menos, 40 anos ap\u00f3s a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. \u00c9 ing\u00e9nuo pensar que os evangelhos s\u00e3o uma reprodu\u00e7\u00e3o de factos, ainda que por vezes seja. Na realidade, o texto que temos hoje \u00e9 o resultado de um processo de cinco fases: 1) Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e an\u00fancio oral do kerigma (ou seja, o an\u00fancio b\u00e1sico entre contempor\u00e2neos: Jesus fez o bem, foi crucificado e ressuscitou segundo as Escrituras); 2) transmiss\u00e3o oral das palavras de Jesus entre os primeiros crist\u00e3os, que ainda estavam dentro do juda\u00edsmo. Neste per\u00edodo, at\u00e9 \u00e0 d\u00e9cada de 50, come\u00e7am a juntar-se como unidades independentes as par\u00e1bolas, os milagres, as controv\u00e9rsias, os relatos da paix\u00e3o; 3) at\u00e9 ao ano 60, come\u00e7am a surgir os primeiros escritos do que antes era simplesmente oral; os disc\u00edpulos e ap\u00f3stolos v\u00e3o morrendo, h\u00e1 que passar a escrito o que testemunharam; 4) nas d\u00e9cadas de 50 e 70, os crist\u00e3os est\u00e3o em conflito com os judeus e est\u00e3o a espalhar-se pelo mundo pag\u00e3o. As narrativas de Jesus s\u00e3o interpretadas teologicamente nos novos contextos e \u00e9 necess\u00e1rio ter algo \u2013 um escrito \u2013 que diga \u201cquem \u00e9 Jesus\u201d, \u201co que significa segui-lo\u201d; 5) entre o ano 65 e o ano 100, os relatos dispersos s\u00e3o organizados por te\u00f3logos e editores, a que chamados evangelistas, que selecionam tradi\u00e7\u00f5es, organizam materiais, adaptam \u00e0 sua comunidade e d\u00e3o unidade liter\u00e1ria ao conjunto, refletindo teologia pr\u00f3pria e situa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria espec\u00edfica. No caso de Mateus, parece claro que os destinat\u00e1rios s\u00e3o crist\u00e3os provenientes do juda\u00edsmo, na pr\u00f3pria Palestina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Quem foi Mateus?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O Evangelho de Mateus n\u00e3o diz quem \u00e9 o autor. Ali\u00e1s, nenhum dos evangelhos refere o seu autor. Apenas o quarto evangelho refere que foi o \u201cdisc\u00edpulo amado\u201d que o escreveu (que depois a tradi\u00e7\u00e3o o identifica erroneamente com o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o). Mas deixa algumas pistas para que se diga que \u00e9 Mateus o autor (que, como foi explicado, \u00e9 mais o redator do que propriamente autor). Uma das pistas \u00e9 o relato da voca\u00e7\u00e3o de Mateus (9,9). Este evangelho refere que o cobrador de impostos \u00e9 Mateus. Ou outros (Mc 2,14 e Lc 5,27) dizem que \u00e9 Levi. Ora, ser\u00e1 a mesma pessoa, s\u00f3 que Mateus usa o nome da nova vida. Ser chamado pelo Senhor muda tudo. E por isso, quando enumera os ap\u00f3stolos, \u00e9 o \u00fanico que diz \u201cMateus, o publicano\u201d. Sendo publicano ou cobrador de impostos, perceberia muito de finan\u00e7as. E este evangelho \u00e9 o que mais lida com n\u00fameros e dinheiro \u2013 mais um elemento (ou coincid\u00eancia), para dizer que foi escrito pelo cobrador de impostos. \u201cMateus\u201d, abrevia\u00e7\u00e3o grega de \u201cMatatias\u201d (hebraico \u201cMatatyahu\u201d) quer dizer \u201cDom de Deus\u201d, em latim seria \u201cTeodoro\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Porque se diz que o Evangelho de Mateus foi escrito para crist\u00e3os da Palestina?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">H\u00e1 em Mateus, diversos sinais de que se dirige a pessoas de cultura judaica. Os crist\u00e3os vindos do juda\u00edsmo, entre outras coisas, estavam familiarizados com os escritos b\u00edblicos (para eles, a B\u00edblia era ainda apenas o nosso Antigo Testamento), tinham como grandes refer\u00eancias Mois\u00e9s e o Rei David, evitavam dizer o nome de Deus em v\u00e3o, como estipulava o segundo mandamento\u2026 Fazendo o seu evangelho neste ambiente, Mateus \u00e9 o que usa mais o Antigo Testamento. Usa-os cerca de 130 vezes de maneira indireta, cita-o explicitamente 43 vezes e escreve onze vezes: \u201cIsto aconteceu para cumprir o que diz o Senhor pelo profeta\u2026\u201d Por outro lado, prefere a express\u00e3o \u201cReino dos C\u00e9us\u201d a \u201cReino de Deus\u201d. Significam o mesmo, mas a primeira evita o nome divino, como era pr\u00f3prio de ambientes culturais judaicos. Frederico Louren\u00e7o contesta que se assim fosse, este evangelho n\u00e3o seria t\u00e3o cr\u00edtico para com os judeus, nomeadamente os fariseus. Mas tal criticismo pode ser entendido precisamente como rea\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os sa\u00eddos do juda\u00edsmo \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es pelos judeus (como fez Paulo antes da convers\u00e3o), muito comuns depois do \u201cconc\u00edlio\u201d judaico de J\u00e2mnia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, seguindo uma ideia de Papias (ano 125), dizia-se que Mateus tinha escrito o seu evangelho em hebraico (a l\u00edngua escrita, culta, na Palestina) ou mesmo em aramaico (a l\u00edngua falada pelo povo \u2013 e por Jesus). Os exegetas abandonaram tal ideia porque o grego de Mateus n\u00e3o tem sinais de ser tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Porque se diz que o Evangelho de Mateus \u00e9 o \u201cevangelho eclesial\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Por duas raz\u00f5es. Primeiro, \u00e9 o \u00fanico que utiliza a palavra \u201cIgreja\u201d (em duas situa\u00e7\u00f5es, quando Jesus diz \u201cTu \u00e9 Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja\u201d, Mt 16,18, e quando se apela ao papel da comunidade na corre\u00e7\u00e3o fraterna, Mt 18,17. Depois, \u00e9 claramente o evangelho que revela uma comunidade crist\u00e3 consciente de ter sido fundada por Jesus de Nazar\u00e9 e de viver na e da sua presen\u00e7a como ressuscitado. Ou seja, \u00e9 o \u201cevangelho do Emanuel\u201d, de \u201cDeus connosco\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Porqu\u00ea \u201cevangelho do Emanuel?\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u201cEmanuel\u201d quer dizer \u201cDeus connosco\u201d e \u00e9 a palavra-chave para entender Mateus. Ou melhor \u00e9 a palavra que d\u00e1 sentido a todo o evangelho porque aparece no princ\u00edpio, no fim e o meio, expl\u00edcita ou implicitamente. De facto, no princ\u00edpio do evangelho lemos que \u201ca virgem conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho e h\u00e3o de cham\u00e1-lo Emanuel\u201d (1,23). No \u00faltimo vers\u00edculo (28,20), Jesus diz \u201cE sabei que Eu estarei sempre convosco at\u00e9 ao fim dos tempos\u201d. Algo como \u201cserei Emanuel at\u00e9 ao fim dos tempos\u201d. E sensivelmente no meio, em 18,20, Jesus diz: \u201cPois onde estiverem dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles\u201d. Ou seja, \u201csou Emanuel\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><strong>Em Mateus, Jesus \u00e9 o \u201cnovo David\u201d e \u201cnovo Mois\u00e9s\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Todos os evangelhos querem, simplesmente, dizer que \u00e9 Jesus, mostrar a sua mensagem e mostrar como O podemos seguir. Para Mateus, David e Mois\u00e9s s\u00e3o boas entradas para Jesus. N\u00e3o \u00e9 exclusivo deste evangelho, mas \u00e9 muito pr\u00f3prio deste evangelho, at\u00e9 porque os seus destinat\u00e1rios compreenderiam mais o significado e legado de David, o rei e l\u00edder, e Mois\u00e9s, a autoridade, o legislador. Para ficarmos apenas por duas passagens, podemos ver a genealogia de Jesus logo no in\u00edcio do evangelho. Jesus nasce na sequ\u00eancia de tr\u00eas per\u00edodos de 14 gera\u00e7\u00f5es. Ora, 14 \u00e9 o n\u00famero de David (porque a soma do valor das consoantes DVD d\u00e1 14, 4+6+4). Na simbologia de Mateus, a mensagem \u00e9 clara: Jesus \u00e9 tr\u00eas vezes David. Levar\u00e1 \u00e0 plena realiza\u00e7\u00e3o aquilo que em David n\u00e3o foi alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Podemos ver Jesus como o novo Mois\u00e9s no epis\u00f3dio das Bem-Aventuran\u00e7as. Se Mois\u00e9s tinha subido ao monte para dar ao povo os Dez Mandamentos, Jesus tamb\u00e9m sobe ao monte, senta-se (para ensinar como um mestre) e d\u00e1 os mandamentos do novo reino, as Bem-Aventuran\u00e7as. Mas Mateus vai mais longe no paralelismo. Se Mois\u00e9s era tido como o autor da Tor\u00e1, ou seja, os cinco livros do Pentateuco, Jesus n\u00e3o fica atr\u00e1s e tamb\u00e9m nos d\u00e1 cinco \u201clivros-discursos\u201d. Mas isso fica para a pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 240px;\">Foto: Voca\u00e7\u00e3o de Mateus [1599-1600] <a title=\"Caravaggio\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caravaggio\">Caravaggio<\/a>, atualmente na\u00a0<a class=\"new\" title=\"Capela Contarelli (p\u00e1gina n\u00e3o existe)\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Capela_Contarelli&amp;action=edit&amp;redlink=1\">Capela Contarelli<\/a> em S\u00e3o Lu\u00eds dos Franceses,\u00a0em\u00a0<a title=\"Roma\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Roma\">Roma<\/a>. [Foto de Lu\u00eds Silva]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura crist\u00e3 |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20293,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[230],"tags":[],"class_list":["post-20292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-crista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20292"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20294,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20292\/revisions\/20294"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}