{"id":20274,"date":"2026-02-23T07:07:22","date_gmt":"2026-02-23T07:07:22","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20274"},"modified":"2026-01-25T16:14:22","modified_gmt":"2026-01-25T16:14:22","slug":"21-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-terra-da-vala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/21-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-terra-da-vala\/","title":{"rendered":"21 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na terra da Vala"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"21 Mist\u00e9rio na terra da Vala\" width=\"640\" height='480' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nj9qoCCVpnI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M. apanhou, do ch\u00e3o, uma pequena pedra.<br \/>\nOlhou-a, com aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDemoradamente\u2026<br \/>\nDepois, aproximou-a do ouvido, como se quisesse ouvi-la.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 sussurros nas pedras. &#8211; Gracejou J..<br \/>\n&#8211; Que te ouvisse dizer isso o Ti\u2019 Am\u00e2ndio.<br \/>\nTi\u2019 Am\u00e2ndio nascera a ver, mas uma \u2018doen\u00e7a ruim\u2019 levou-lhe os dois olhos. Escondia, sob duas grossas lentes negras, as \u00f3rbitas vazias. Dizia que era para n\u00e3o assustar as muitas crian\u00e7as que vinham pedir-lhe hist\u00f3rias. E quantas sabia!&#8230; A cegueira fizera-o ver o outro mundo que se oculta aos que t\u00eam a ilus\u00e3o de ter nos olhos o mundo real.<br \/>\nVia-o como o veem os ouvidos.<br \/>\nEscutava o murmurar do tempo a ranger de esticar-se sobre o mundo. Ouvia o tremor da terra antes de ela se tornar um inesperado abanar de toda a seguran\u00e7a. E dizia escutar o crescer das pedras.<br \/>\n&#8211; Mas, se elas s\u00f3 diminuem\u2026<br \/>\n&#8211; Crescem. Crescem. \u2013 Sempre dizia.<br \/>\n\u2018Crescer\u2019 era, no pensar do Ti\u2019 Am\u00e2ndio, o que sobra dos trocos.<br \/>\n&#8211; Cresceu-te dinheiro?&#8230;<br \/>\nPedras cresciam. Sobra em cascalho quando se rompiam no desgastar do tempo. Cresciam, portanto. \u2018Sobravam\u2019 ao desgastar-se\u2026<br \/>\nE era isso que Ti\u2019 Am\u00e2ndio ouvia.<br \/>\nN\u00e3o!<br \/>\nEscutava\u2026<br \/>\nN\u00e3o apenas ouvia.<br \/>\nEscutava! Esse ouvir do cora\u00e7\u00e3o e do corpo todo. Pois se j\u00e1 n\u00e3o queriam ajudar os olhos!?&#8230;<br \/>\nOuvia com os ouvidos e com os olhos que o tinham abandonado. Ouvia duas vezes para satisfazer o desejo de ver que tantas vezes lhe assomava \u00e0 alma.<br \/>\nEra por t\u00ea-lo aprendido do Ti\u2019 Am\u00e2ndio que M. tentava, agora, escutar o crescer das pedras.<br \/>\nMas faltava-lhe n\u00e3o ver. Enquanto visse, n\u00e3o poderia, nunca, ouvir o murmurejar do mundo.<br \/>\nM. e J. subiam a encosta da Pereira para a terra da Vala. A encim\u00e1-la, havia uma pequena, mas bela, igreja dedicada a S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, o primo de Jesus cujo pai, Zacarias, emudecera, perante a not\u00edcia de que a esposa, Isabel, j\u00e1 adiantada na idade, iria ser m\u00e3e. Deus parecia n\u00e3o temer a fragilidade humana\u2026<br \/>\n&#8211; Aqui, em tempos, adormeci sobre a tampa de um po\u00e7o para onde convergia uma profunda vala que dava nome \u00e0 terra. \u2013 Lembrou J., na proximidade da terra cujo nome explicava. \u2013 S\u00f3 acordei j\u00e1 na cama do meu quarto. Uns anjos \u2013 Sim, ter\u00e3o sido anjos. Desses com quem nos cruzamos, todos os dias. Os que nos trazem ao quotidiano a mensagem da esperan\u00e7a. \u2013 levaram-me, em bra\u00e7os, a arder em febre. Estava com papeira. Uns dias de ch\u00e1 com mel e o aconchego de casa e tudo sarou.<br \/>\nJ. parou para olhar, ao longe, o pequeno ribeiro em que repousavam as duas encostas, como t\u00edmidos enamorados sempre escondidos em recantos sombrios\u2026<br \/>\nE prosseguiu:<br \/>\n&#8211; Aqui perto, vivia a Rute, uma menina de rosto bonito, sorriso simples e olhar fixo no c\u00e9u. Ao nascer, um parto demorado deixara-a paralisada. Diziam sentir no calor dos passos a tristeza do cora\u00e7\u00e3o. Cuidava dela a m\u00e3e. M\u00e3e de tr\u00eas filhos. Dois deles emigraram. Ficara com a Rute. Era ela a sua companhia. Vi\u00fava muito jovem, ficara, s\u00f3, com a beleza de Rute, pois que os dois outros filhos, livres e sem maleitas, levaram para longe o seu viver. S\u00f3 Rute permanecera com ela.<br \/>\nNunca deixara que dissessem da menina que era um peso. Era, antes, o al\u00edvio dos seus dias. Rute percebia, como ningu\u00e9m, como ia o seu cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e; como iam os cora\u00e7\u00f5es dos que lhe vinham pedir conselhos.<br \/>\n&#8211; Pedir conselhos? \u2013 J. interrompeu a narrativa de Alberto Ferreyra, voltando o olhar para o rosto do escritor, surpreendido com o que este contava. Pergunta recebida com assombro pelo pr\u00f3prio narrador. (Como ousava a personagem sair da hist\u00f3ria para dela se distanciar e interpelar a escrita? Ficou at\u00f3nito, mas prosseguiu\u2026 Devia ser del\u00edrio da sua imagina\u00e7\u00e3o.)<br \/>\nVinham das terras em volta pedir conselho \u00e0 pequena Rute. Esta escutava, com o mesmo escutar do Ti\u2019 Am\u00e2ndio, e um sorriso ou uma l\u00e1grima encaminhavam a decis\u00e3o. L\u00e1grimas fecundas, pois em redor da sua cadeira nasciam pequenas violetas, regadas de sal lacrimejante.<br \/>\nCerto dia, entre as visitas, contaram-lhe um sonho repetido.<br \/>\nUma pequena crian\u00e7a corria e dava um ligeiro pontap\u00e9 num montinho de terra que se transformava em bola. Logo se lhe juntavam duas equipas de anjos em jogo arbitrado pela pequena crian\u00e7a. De todos se via o rosto, menos do pequeno \u00e1rbitro.<br \/>\nO sonho repetia-se\u2026<br \/>\nNo dia em que contaram a Rute o repetido sonho, o seu rosto ficou sem express\u00e3o. N\u00e3o se lhe viu uma l\u00e1grima. N\u00e3o se lhe vislumbrou um sorriso.<br \/>\nO contador da hist\u00f3ria saiu sem que um qualquer Jos\u00e9 do Egito o ajudasse a desvendar o que o mundo on\u00edrico reservava.<br \/>\nPoucos dias volvidos, Rute deixou s\u00f3 aquela m\u00e3e.<br \/>\nViram-na, pouco tempo depois. Esperavam-na triste e sem esperan\u00e7a. Mas quem encontraram refulgia como que cheia de luz.<br \/>\n&#8211; Nesta noite, vi o sonho que nos tinham contado, h\u00e1 poucos dias. O sonho j\u00e1 completo.<br \/>\n&#8211; Diga! Diga!<br \/>\n&#8211; Uma crian\u00e7a pontapeou, de novo, um mont\u00edculo de terra que se transformou numa bola com que jogaram duas equipas de anjos. Hoje, por\u00e9m, pude ver o rosto da crian\u00e7a que corria e arbitrava aquele angelical jogo. Era a minha Rute! Na eternidade, somos inteiros. Deus faz-nos inteirinhos.<br \/>\nE abra\u00e7ou o Ti\u2019 Am\u00e2ndio que, sentado ao seu lado, a escutava com o olhar do cora\u00e7\u00e3o fixo nela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-20274","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20274"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20276,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20274\/revisions\/20276"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}