{"id":20243,"date":"2026-01-18T19:27:46","date_gmt":"2026-01-18T19:27:46","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20243"},"modified":"2026-01-20T20:58:45","modified_gmt":"2026-01-20T20:58:45","slug":"luis-manuel-p-silva-no-oitavario-de-oracao-pela-unidade-dos-cristaos-convite-ao-ecumenismo-quotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-no-oitavario-de-oracao-pela-unidade-dos-cristaos-convite-ao-ecumenismo-quotidiano\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva | [No oitav\u00e1rio de ora\u00e7\u00e3o pela unidade dos crist\u00e3os] Convite ao ecumenismo quotidiano"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanha-me, h\u00e1 muitos anos, um sonho: o de assistir ao restabelecimento da comunh\u00e3o entre catolicismo e ortodoxia.<br \/>\nQuando o partilho aos meus alunos, muitos desabafam: \u2018o professor tem cada sonho!\u2019.<br \/>\nPara quem vive, intensamente, o drama da desuni\u00e3o crist\u00e3 e reconhece os custos, na evangeliza\u00e7\u00e3o, dessa condi\u00e7\u00e3o, esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o menor. Para mais que ela frustra o desiderato cr\u00edstico que associa essa uni\u00e3o ao cr\u00e9dito que os demais dar\u00e3o: \u2018Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da unidade e assim o mundo reconhe\u00e7a que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim.\u2019 (Jo 17, 23 \u2013 segundo a tradu\u00e7\u00e3o de www.paroquias.org)<br \/>\nGrandes passos se foram dando, desde que, em 7 de dezembro de 1965, o Papa S. Paulo VI e o Patriarca Aten\u00e1goras suspenderam, reciprocamente, as excomunh\u00f5es que impendiam, mutuamente, sobre cada um das igrejas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ecumenismo: crit\u00e9rios e atitudes<\/strong><br \/>\nO Vaticano II deu-nos o crit\u00e9rio maior para a promo\u00e7\u00e3o deste caminho. No n\u00famero 11 do decreto conciliar sobre o ecumenismo, \u2018Unitatis Redintegratio\u2019, afirma-se que \u2018Na compara\u00e7\u00e3o das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou \u00abhierarquia\u00bb das verdades da doutrina cat\u00f3lica, j\u00e1 que o nexo delas com o fundamento da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 diferente.\u2019<br \/>\nBem certo que a aplica\u00e7\u00e3o de um tal crit\u00e9rio n\u00e3o dever\u00e1 fazer-se subjugado ao desejo de um falso irenismo que branqueia a verdade, mas convir\u00e1 recordar que, efetivamente, entre os crist\u00e3os, \u00e9 muito mais o que une do que o que divide, sendo que, historicamente, poder\u00e1 constatar-se que os motivos imediatos que assistiram \u00e0 rutura foram, muitas vezes, favorecidos por raz\u00f5es mais conjunturais do que centrais. O papel dos mediadores que, em 1054 (por ocasi\u00e3o do cisma do Oriente), ou em 1517, por ocasi\u00e3o da rutura com Lutero e a Reforma protestante, conduziram o processo de \u2018(des)encontro\u2019 entre Roma e os \u2018divergentes\u2019 pode ter sido mais determinante do que as pr\u00f3prias mat\u00e9rias em discuss\u00e3o e em \u2018lit\u00edgio\u2019.<br \/>\nUma leitura dispon\u00edvel e conciliadora dever\u00e1 recordar, no prisma cat\u00f3lico, que muito se aprendeu com Lutero no que respeita ao reconhecimento do \u2018sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is\u2019, ou no acesso \u00e0 Palavra de Deus com a respetiva tradu\u00e7\u00e3o em vern\u00e1culo (percurso lento e de s\u00e9culos), na assun\u00e7\u00e3o e recorda\u00e7\u00e3o permanente de que s\u00f3 por Cristo se opera a salva\u00e7\u00e3o, contra o risco de que o culto dos santos de Maria descentre do n\u00facleo ou, ainda, no que respeita ao reconhecimento de que todos os m\u00e9ritos humanos decorrem da a\u00e7\u00e3o de Cristo e que a gra\u00e7a n\u00e3o se nos imp\u00f5e contra a nossa vontade, carecendo, sempre do envolvimento do sujeito humano num processo que \u00e9, contudo, dom gratuito de Deus, muito para al\u00e9m de todos os m\u00e9ritos humanos.<br \/>\nO que aprendemos, com o protestantismo, carece, para que se efetive o caminho em comum, do reconhecimento de que o pensamento cat\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 a \u2018caricatura\u2019 com que frequentemente foi lido. N\u00e3o adoramos os santos; n\u00e3o adoramos a Virgem Maria; n\u00e3o adoramos imagens, em atitude idol\u00e1trica; n\u00e3o absolutizamos a \u2018tradi\u00e7\u00e3o\u2019; n\u00e3o absolutizamos os m\u00e9ritos humanos e n\u00e3o compramos a nossa salva\u00e7\u00e3o\u2026<br \/>\nO caminho em comum faz-se ouvindo o outro.<br \/>\nAssim tamb\u00e9m com a ortodoxia.<br \/>\nCabe-nos, a n\u00f3s, cat\u00f3licos, reconhecer quanto aprendemos com os irm\u00e3os ortodoxos e com as igrejas do oriente crist\u00e3o, de l\u00edngua grega.<br \/>\nDali nos v\u00eam, ali\u00e1s, os primeiros s\u00edmbolos (credos) e todos os conc\u00edlios do primeiro mil\u00e9nio, sendo curioso registar que o modo de concretizar a comunh\u00e3o era, nesse contexto, inspirador para o caminho que se nos pede, hoje. Valer\u00e1, a t\u00edtulo ilustrativo, recordar que o primeiro grande conc\u00edlio da hist\u00f3ria, de que se comemoraram, em 2025, os 1700 anos, n\u00e3o foi presidido pelo Papa, Bispo de Roma, que, ali\u00e1s, ali se fizera apenas representar por dois presb\u00edteros, assumindo as decis\u00f5es ali definidas, em comunh\u00e3o sinodal (\u2018em caminho conjunto\u2019). O dinamismo sinodal era pr\u00e1tica que a hist\u00f3ria documenta e que a Igreja Ortodoxa continua a preservar. O desafio, hoje retomado, pode ser motivo de ponte. H\u00e1 muito saber acumulado pela Igreja Ortodoxa que a n\u00f3s, Cat\u00f3licos, poder\u00e1 inspirar, assim como o exerc\u00edcio do primado de Pedro, garante da unidade na diversidade, pode ser o contributo rec\u00edproco da comunh\u00e3o cat\u00f3lica. Uns e outros muito temos a aprender em comum. Sabendo, como, ali\u00e1s, tamb\u00e9m recorda o Vaticano II (Lumen Gentium, n.\u00ba8), que a verdade \u2018subsiste\u2019 na Igreja Cat\u00f3lica, um reconhecimento humilde que a afirma\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica em que \u00e9 proferida n\u00e3o deixa margem para d\u00favidas: \u2018Esta Igreja, constitu\u00edda e organizada neste mundo como sociedade, subsiste na Igreja Cat\u00f3lica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em uni\u00e3o com ele, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santifica\u00e7\u00e3o e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes \u00e0 Igreja de Cristo, impelem para a unidade cat\u00f3lica.\u2019<br \/>\nAfirmar que \u2018subsiste\u2019 est\u00e1 j\u00e1 muito longe da ideia de que \u2018fora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u2019\u2026 Afirma-se que, indubitavelmente, a verdade est\u00e1 presente, de forma sublime, mas sem excluir que haja, nas outras comunidades, verdade a reconhecer. Porque o Reino n\u00e3o coincide com os limites da Igreja.<br \/>\nAlimento, por tudo isto, o sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O reavivar do sonho<\/strong><br \/>\nO Papa Le\u00e3o XIV d\u00e1-me motivos para crer que o possa ver realizado ainda durante a minha vida. Muitos foram os sinais que j\u00e1 foi evidenciando, tendo anunciado esperar decidir-se a data comum da P\u00e1scoa\u2026 Um importante sinal de que este caminho est\u00e1 a fazer-se\u2026<br \/>\nSeria, ali\u00e1s, interessante e curioso que um Le\u00e3o restabelecesse a unidade que se perdeu em tempo de pontificados de outros dois Le\u00f5es. Era Le\u00e3o IX quem pontificava em 1054, quando se deu o Cisma do Oriente. Era Le\u00e3o X que pontificava quando se deu a Reforma Protestante.<br \/>\nBem certo que o caminho com o protestantismo ser\u00e1 mais longo\u2026 Maior \u00e9 a dist\u00e2ncia entre Catolicismo e Protestantismo do que entre Catolicismo e Ortodoxia. Mas, quem sabe como poder\u00e3o operar-se os insond\u00e1veis caminhos do Esp\u00edrito!?<br \/>\nN\u00e3o resisto a recordar que este caminho \u2018quotidiano\u2019 de aproxima\u00e7\u00e3o entre confiss\u00f5es crist\u00e3s est\u00e1 em curso, em Portugal, sempre que ocorrem aulas de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica.<br \/>\nNa verdade, \u00e9 pouco sabido, mas em muitas turmas (muito por efeito, tamb\u00e9m, da imigra\u00e7\u00e3o), h\u00e1 alunos de diversas confiss\u00f5es crist\u00e3s que se matriculam nesta disciplina. Posso testemunh\u00e1-lo\u2026<br \/>\nEm muitas, o ecumenismo \u00e9 pleno: cat\u00f3licos, ortodoxos e protestantes est\u00e3o na mesma sala de aula, sabendo-se crist\u00e3os de diversas confiss\u00f5es.<br \/>\nE quantas oportunidades de di\u00e1logo assim se geram!<br \/>\nConto o ocorrido, ap\u00f3s ter falado sobre o significado das imagens para um cat\u00f3lico.<br \/>\nTomei por exemplo uma folha de papel.<br \/>\nUm papel \u00e9, apenas, um papel. Ao papel posso dar uso no contexto de uma cozinha, de um trabalho que imprimo, posso limpar, escrever, pintar, etc., posso, inclusive, servir-me de um papel na casa de banha\u2026 Um papel \u00e9, apenas, um papel.<br \/>\nMas, se sobre um papel (um papel igual a tantos pap\u00e9is) eu decidir imprimir uma foto da minha fam\u00edlia, essa nova \u2018realidade\u2019 que \u00e9 a folha de papel com a \u2018fotografia\u2019 dos meus j\u00e1 n\u00e3o utilizarei para fins como os de limpar ou cortar. N\u00e3o porque aquele papel tenha deixado de ser \u2018papel e tinta\u2019, mas porque a realidade que ele ali \u2018representa\u2019 (torna presente) lhe confere um novo significado, torna-o novo.<br \/>\nNuma aula em que me referi ao que significavam, para n\u00f3s, cat\u00f3licos, as imagens de Santos, utilizando esta met\u00e1fora, uma aluna, de confiss\u00e3o protestante desabafou que a tinha ajudado a ver de um outro modo a venera\u00e7\u00e3o com que nos dirigimos \u00e0s imagens. Elas s\u00e3o meios. N\u00e3o os fins. N\u00e3o as idolatramos. Assim como n\u00e3o idolatramos os santos que, por elas, veneramos. N\u00e3o os adoramos, pois s\u00f3 a Deus \u00e9 devido o culto de adora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 Umberto Eco lembrava que a \u2018constru\u00e7\u00e3o do inimigo\u2019 se faz caricaturando-o. O inimigo, dizia, nunca \u00e9 belo, inteligente, merecedor de apre\u00e7o.<br \/>\nOs irm\u00e3os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o inimigos. S\u00e3o irm\u00e3os. Devemos, por isso, sentar-nos \u00e0 mesa do quotidiano, olh\u00e1-los, olhos nos olhos, ouvi-los, partilhar a vida e descobrir que, afinal, h\u00e1 tanto que julgamos sobre o outro que, efetivamente, n\u00e3o \u00e9 o que ele \u00e9 ou pensa!<br \/>\nSe nos reunirmos em torno de causas que nos unem \u2013 as da justi\u00e7a, da paz, da defesa da vida e dignidade humanas (posso atest\u00e1-lo: nas caminhadas pela vida, muitos crist\u00e3os de diversas confiss\u00f5es se re\u00fanem, agregados numa causa comum\u2026), da constru\u00e7\u00e3o a fraternidade universal, do combate \u00e0 pobreza, do acolhimento dos que chegam, dos enlutados, dos padecentes, etc&#8230; \u2013 facilmente constataremos que, dos crist\u00e3os, o que espera o mundo \u00e9 que lhe diga que tem salva\u00e7\u00e3o, apesar dos sinais de andar errante e perdido.<br \/>\nE que essa salva\u00e7\u00e3o lhe vem d\u2019Aquele que \u00e9 a Presen\u00e7a maior de Deus, na Hist\u00f3ria: Cristo, que faz, de todos n\u00f3s, \u2018crist\u00e3os\u2019. Uns somo-lo, expl\u00edcita e reconhecidamente; outros s\u00ea-lo-\u00e3o, como dizia o te\u00f3logo cat\u00f3lico Karl Rahner, como \u2018crist\u00e3os an\u00f3nimos\u2019. Mas que se lhes fale do Cristo que os torna \u2018crist\u00e3os\u2019.<br \/>\nEntretanto, continuo a sonhar\u2026 Talvez, um dia, ainda nesta vida, assista \u00e0 reconstitui\u00e7\u00e3o da unidade!<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 320px;\">Imagem recolhida de <a href=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/papa\/news\/2025-11\/declaracao-conjunta-papa-leao-patriarca-bartolomeu.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vatican News<\/a> | Assinatura da Declara\u00e7\u00e3o Conjunta entre o Papa Le\u00e3o XIV e o Patriarca Bartolomeu I [29 de novembro de 2025]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20244,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[215,55],"tags":[],"class_list":["post-20243","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ecumenismo-um-olhar-sobre","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20243"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20262,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20243\/revisions\/20262"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20244"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}