{"id":20206,"date":"2026-01-10T07:00:22","date_gmt":"2026-01-10T07:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20206"},"modified":"2026-01-14T17:21:10","modified_gmt":"2026-01-14T17:21:10","slug":"tiago-ramalho-xxxiv-glosas-a-breve-apologie-pour-un-moment-catholique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-xxxiv-glosas-a-breve-apologie-pour-un-moment-catholique\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | XXXIV | 1 | Glosas a &#8216;Br\u00e8ve apologie pour un moment catholique&#8217;"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Glosas a <em>Br\u00e8ve apologie pour un moment catholique<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2013 Adresse: La croix sans la banni\u00e8re \u2013<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(pp. 7-14)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; 1. <u>\u00abSobre esta pedra\u2026\u00bb<\/u>. \u2013 <\/em>\u00c9 um imenso mar de nuvens que apresenta esta <em>Br\u00e8ve apologie pour un moment catholique, <\/em>da autoria de Jean-Luc Marion (Grasset, 2017). Mas n\u00e3o se trata de um mar de nuvens diante do qual se perfile, \u00e0 maneira rom\u00e2ntica, um viajante, fruindo desse frio arrepio de quem se descobre perante o <em>Erhabene, <\/em>o <em>Sublime, <\/em>aquilo que ultrapassa a claridade da luz, do contorno, da forma e da nitidez. N\u00e3o, olhamos melhor e vemos que este mar de nuvens n\u00e3o \u00e9 total, antes rasgado por um alto; e que nesse alto, imagina-se que sobre a rocha, se divisa a forma de um edif\u00edcio; e que dele se levanta, firme e determinado, um pin\u00e1culo que domina a paisagem. Cai a chuva, engrossam os rios, sopram os ventos, abate-se um manto de indistin\u00e7\u00e3o e de nevoeiro \u2013 e sobre o que est\u00e1 firme na rocha h\u00e1 uma presen\u00e7a que n\u00e3o desmobiliza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jean-Luc Marion (n. 1946), destacada figura da cena filos\u00f3fica francesa, sem com isso n\u00e3o menos assumir a respectiva condi\u00e7\u00e3o de intelectual cat\u00f3lico, arrisca, nesta <em>Br\u00e8ve apologie, <\/em>a usar da palavra em defesa desse \u00absinal de contradi\u00e7\u00e3o\u00bb que, a olhar de terceiros, a Igreja de todos os tempos sempre constituiu. F\u00e1-lo, pois, apresentando uma <em>apologia, <\/em>discurso de defesa ou de justifica\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 <em>ad extra.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O g\u00e9nero n\u00e3o \u00e9 novo, bem o sabemos. Data dos primeiros tempos da literatura patr\u00edstica o desenvolvimento de uma literatura apolog\u00e9tica, de que s\u00e3o testemunho exemplar as <em>Apologias <\/em>de S\u00e3o Justino (s\u00e9c. II), para n\u00f3s traduzidas por Fr. Isidro Lamelas, OFM (Justino, <em>Fil\u00f3sofo e m\u00e1rtir do s\u00e9culo II &#8211; Em defesa dos crist\u00e3os, <\/em>Paulus, 2019). Antes mesmo de semelhantes realiza\u00e7\u00f5es, a pr\u00f3pria literatura neotestament\u00e1ria apresenta j\u00e1 modelos de discurso apolog\u00e9tico, nem sempre com imediato sucesso, ali\u00e1s: \u00e9 o caso, entre outros, do discurso de Santo Estev\u00e3o perante as autoridades judaicas (<em>Act <\/em>7) ou de S\u00e3o Paulo em Atenas (<em>Act<\/em> 17, 22-34). Trata-se de uma modalidade de discurso de que \u00e9 sempre caracter\u00edstico um duplo movimento: a defesa ou justifica\u00e7\u00e3o da racionalidade da f\u00e9, primeiro, justamente a caracter\u00edstica que d\u00e1 nome a este registo liter\u00e1rio (<em>Apologia <\/em>significa discurso de defesa); mas em vista, depois, da sua proposta ao exterior. O que \u00e9 razo\u00e1vel \u2013 quer dizer, razoado, passado pelo filtro da raz\u00e3o \u2013 pode, porque o \u00e9, cativar aqueles a quem se comunica. Esta dupla dimens\u00e3o encontra-se bem presente, ali\u00e1s, no t\u00edtulo de Marion: trata-se, com efeito, de uma breve apologia \u00abpour un moment catholique\u00bb, em vista de um momento cat\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 2. <em><u>Apologia(s).<\/u> <\/em>\u2013 Ser\u00e1 esta a tradi\u00e7\u00e3o apolog\u00e9tica, a do primeiro cristianismo, que, imagino, Marion pretende evocar com este t\u00edtulo \u2013 e n\u00e3o outra, bem mais recente, desenvolvida no \u00e2mbito do catolicismo moderno p\u00f3s-tridentino, destinada a esgrimir, no quadro de conflitos interconfessionais, aquelas que seriam as boas, infal\u00edveis e indefect\u00edveis raz\u00f5es para a perman\u00eancia com a Igreja unida a Roma&#8230; Regresso \u00e0quele primeiro registo que se sa\u00fada, claro, embora n\u00e3o sem alguma apreens\u00e3o. Se este novo exerc\u00edcio apolog\u00e9tico se identifica com o registo das apologias da antiguidade, \u00e9 tamb\u00e9m porque se v\u00ea superado o modelo de sociedade \u00abcrist\u00e3o\u00bb que at\u00e9 h\u00e1 pouco caracterizava o mundo europeu, substitu\u00eddo por formas de conviv\u00eancia que relembram alguns tra\u00e7os das formas de vida da sociedade que lhe era anterior. A divis\u00e3o fundamental j\u00e1 n\u00e3o se d\u00e1 hoje, como h\u00e1 pouco ocorria, entre diferentes confiss\u00f5es da f\u00e9 crist\u00e3, adquirindo as suas divis\u00f5es internas uma relev\u00e2ncia mais secund\u00e1ria, mas entre qualquer uma delas e um vasto mundo exterior para o qual aquele evento \u00e9 inteiramente estranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0 Na Fran\u00e7a contempor\u00e2nea, h\u00e1, pois, algu\u00e9m que toma a palavra na condi\u00e7\u00e3o de como se dirigir a novos \u00abgentios\u00bb. Que o caso \u00e9 cr\u00edtico, revelam-no as palavras inaugurais do texto: \u00abN\u2019ayez pas peur!\u00bb, \u00abN\u00e3o tenhais medo!\u00bb (p. 7). Reconhece-se, nesta exorta\u00e7\u00e3o, as c\u00e9lebres palavras escritur\u00edsticas com que S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II inaugurou o seu pontificado. Mas, assim as emprega Marion, h\u00e3o-de elas agora ser ressignificadas, n\u00e3o apenas para exortarem j\u00e1 crist\u00e3os a uma ades\u00e3o determinada \u00e0 viv\u00eancia crist\u00e3, mas, de forma bem mais prosaica, de cat\u00f3licos para n\u00e3o cat\u00f3licos (e para cat\u00f3licos \u00abenvergonhados): a exorta\u00e7\u00e3o a que \u00abn\u00e3o tenhais medo!\u00bb entendida como \u00abn\u00e3o tenhais medo <em>de n\u00f3s<\/em>!\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Exorta\u00e7\u00e3o que se compreende, enfim, desde a radical estranheza que voltou a ser provocada pela profiss\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3 \u2013 \u2026um imenso manto de nevoeiro se abate sobre a realidade\u2026 \u2013, estranheza que, muito justamente, provoca hesita\u00e7\u00f5es e receio. E que por isso pede uma <em>Apologia<\/em>: discurso s\u00f3lido sobre a rocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 muito diferente a situa\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s? Algumas diferen\u00e7as haver\u00e1 \u2013 mas o assinal\u00e1vel decr\u00e9scimo na inicia\u00e7\u00e3o sacramental permite antever, com relativa seguran\u00e7a, que muito em breve os tra\u00e7os caracter\u00edsticos da f\u00e9 crist\u00e3 ser\u00e3o pouco mais do que inintelig\u00edveis para a grande massa da popula\u00e7\u00e3o. Uma experi\u00eancia exodal na pr\u00f3pria casa que pedir\u00e1 quem se proponha a fazer uma agora tornada necess\u00e1ria apologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Continua.)<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem recolhida das Edi\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/www.grasset.fr\/livre\/breve-apologie-pour-un-moment-catholique-9782246856801\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Grasset<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20207,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-20206","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20206"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20206\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20228,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20206\/revisions\/20228"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}