{"id":20201,"date":"2026-03-20T07:00:29","date_gmt":"2026-03-20T07:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20201"},"modified":"2026-03-20T11:12:20","modified_gmt":"2026-03-20T11:12:20","slug":"os-sete-dias-da-criacao-8-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-deus-disse-faca-se-a-luz-e-a-luz-foi-feita-deus-e-origem-atraves-da-sua-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-8-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-deus-disse-faca-se-a-luz-e-a-luz-foi-feita-deus-e-origem-atraves-da-sua-palavra\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |8| Lu\u00eds M. P. Silva &#8211; Ainda o primeiro dia: \u2018Deus disse: \u00abFa\u00e7a-se a luz.\u00bb E a luz foi feita.\u2019 Deus \u00e9 origem, atrav\u00e9s da Sua Palavra."},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste passo da nossa reflex\u00e3o sobre \u2018os sete dias da cria\u00e7\u00e3o\u2019, gostaria de enfrentar tr\u00eas aspetos que nos \u00e9 poss\u00edvel observar deste dens\u00edssimo vers\u00edculo 3 de Gn 1: o v\u00ednculo indissoci\u00e1vel entre \u2018a\u2019 Palavra e Deus; a bondade da cria\u00e7\u00e3o e, por fim, a dificuldade da rece\u00e7\u00e3o do texto perante as descobertas cient\u00edficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfrentemos o primeiro destas tr\u00eas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, para n\u00f3s leitores do s\u00e9culo XXI, j\u00e1 imbu\u00eddos da \u2018resolu\u00e7\u00e3o\u2019 da controv\u00e9rsia trinit\u00e1ria, \u00f3bvia a rela\u00e7\u00e3o entre a \u2018Palavra\u2019 de Deus e o pr\u00f3prio Deus. A \u2018Palavra\u2019 n\u00e3o \u00e9 um \u2018suplemento de Deus, mas a Sua a\u00e7\u00e3o pessoal criadora, indissoci\u00e1vel da Sua pr\u00f3pria natureza. A Palavra \u00e9 Deus, como Deus \u00e9, tamb\u00e9m, o princ\u00edpio. \u00c9 princ\u00edpio pela Sua Palavra e \u00e9 pela Palavra que d\u00e1 in\u00edcio a tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00f3s, isto \u00e9, hoje, claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, se recuarmos ao s\u00e9culo IV, ao contexto das controv\u00e9rsias que deram pretexto para o primeiro Conc\u00edlio ecum\u00e9nico (universal, de toda a \u2018terra habitada\u2019) do Cristianismo, perceberemos que esta constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o era, ent\u00e3o, assim t\u00e3o clara. Para Ario, o presb\u00edtero de Alexandria cujas teses Atan\u00e1sio, ainda di\u00e1cono do Bispo de Alexandria (de nome \u2018Alexandre), teve de enfrentar e refutar, em Niceia, em 325, a Palavra era a primeira das criaturas de Deus. N\u00e3o coincidia, n\u00e3o era da mesma subst\u00e2ncia (consubstancial, como dizemos no credo \u2013 que \u00e9 \u2018<em>niceno<\/em>constantinopolitano\u2019) de Deus. Havia um hiato entre Deus (princ\u00edpio absoluto, solit\u00e1rio, \u2018fechado em si\u2019) e a Sua Palavra. Ora, G\u00e9nesis torna clara esta unidade indissoci\u00e1vel entre \u2018Deus\u2019 e \u2018Palavra\u2019, mostrando que a a\u00e7\u00e3o de Deus se opera na e pela Palavra. A Palavra \u00e9 o \u2018nome\u2019, a \u2018pessoa\u2019 (condi\u00e7\u00e3o de diversidade em Deus) pela qual Deus todo (trinit\u00e1rio) cria. E isso \u00e9 not\u00f3rio na preocupa\u00e7\u00e3o com que o autor b\u00edblico nos descreve os atos criadores. Diz que \u2018Deus disse\u2019 e \u2018aconteceu\u2019. A Palavra de Deus \u00e9 eficaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, recuperemos uma constata\u00e7\u00e3o j\u00e1 insinuada em anteriores etapas deste nosso percurso reflexivo: a cria\u00e7\u00e3o, na perspetiva b\u00edblica, \u00e9 bondosa. No pensamento, no desejo de Deus, toda a sua criatura, toda a sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, contrariando aquilo que os v\u00e1rios manique\u00edsmos (o nome nasce de Manes, um nobre persa que viveu no s\u00e9culo III d.C., no contexto da religi\u00e3o zoroastrista, na P\u00e9rsia, que defendia que, na sua origem, a cria\u00e7\u00e3o tem dois princ\u00edpios antag\u00f3nicos: o do bem e o do mal. Esta tese sedutora exerceu muita influ\u00eancia, chegando, inclusive, a muitos crist\u00e3os. Recordemos, a t\u00edtulo ilustrativo que o pr\u00f3prio Santo Agostinho, no s\u00e9culo IV-V, sofreu, numa fase anterior \u00e0 sua convers\u00e3o ao cristianismo, influ\u00eancia desta perspetiva.) da hist\u00f3ria, repetidamente foram sustentando. Na vis\u00e3o b\u00edblica, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9, originariamente boa. Deus n\u00e3o \u00e9 um criador do mal; \u00e9 um criador do bem. O mal \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o, a degrada\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o correspond\u00eancia ao que Deus pretende e \u00e0 natureza pr\u00f3pria da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em terceiro lugar, enfrentemos uma interroga\u00e7\u00e3o que tem servido de lastro a toda a reflex\u00e3o que temos vindo a desenvolver \u2013 no confronto entre o texto b\u00edblico, literalmente analisado, e as conclus\u00f5es que a ci\u00eancia exata e experimental foi retirando, \u00e0 medida que foi apurando o seu m\u00e9todo, verificaram-se, em alguns momentos, disson\u00e2ncias, diverg\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guardemos, para j\u00e1, essa constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repitamo-lo: do confronto entre o texto b\u00edblico, lido em registo literalista, e as descobertas cient\u00edficas, ocorreram, em muitos momentos, desencontros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante que a tenhamos em conta, pois o caminho que nos propomos \u00e9 o de, enfrentando essa constata\u00e7\u00e3o, procurar uma via de encontro e converg\u00eancia que nos permita evitar repetir erros que a hist\u00f3ria j\u00e1 nos evidenciou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as tentativas de permitir atenuar a \u2018dureza\u2019 da constata\u00e7\u00e3o dessas disson\u00e2ncias encontra-se a chamada \u2018interpreta\u00e7\u00e3o acomodat\u00edcia\u2019, que fez longa escola. Na verdade, como recorda Agust\u00edn Ud\u00edas Vallina, no seu muito interessante \u2018<em>Ciencia y fe cristiana en la historia\u2019, <\/em>\u2018esta interpreta\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha sido utilizada com os textos que falam da Terra plana, sendo aceite a sua forma esf\u00e9rica j\u00e1 por autores como Beda, o Vener\u00e1vel e ao longo da Idade M\u00e9dia.\u2019 (p. 88) Recordemos que Beda, o vener\u00e1vel, viveu nos s\u00e9culos VII e VIII e que, como j\u00e1 vimos, em etapa anterior, toda a Idade M\u00e9dia pressupunha que a Terra era esf\u00e9rica, contrariamente ao preconceito repetidamente referido de que a Idade M\u00e9dia acreditava numa Terra plana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a pergunta a fazer \u00e9, precisamente, sobre como conciliaram os leitores atentos da b\u00edblia as suas m\u00faltiplas refer\u00eancias \u00e0 terra como plana com a tese \u2018cient\u00edfica\u2019 de que a Terra era esf\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interpreta\u00e7\u00e3o acomodat\u00edcia foi, durante muitos s\u00e9culos, uma das que vingaram, ao lado das abordagens alegoristas, podendo definir-se como a ideia de que os autores b\u00edblicos acomodaram (por isso \u2018acomodat\u00edcia\u2019) a sua escrita \u00e0s conce\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias dos seus tempos. Vallina diz que \u2018interpreta\u00e7\u00e3o acomodat\u00edcia significa que os textos est\u00e3o acomodados ao sentir da \u00e9poca em que foram escritos.\u2019 (p. 88)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma abordagem confort\u00e1vel e que serenou, durante muito tempo, os \u2018esp\u00edritos\u2019 de controv\u00e9rsia, mas valer\u00e1 a pena conservar uma interroga\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 uma abordagem suficiente? O literalismo para que procura ser resposta \u00e9 o modo exclusivo ou, sequer, o que dever\u00e1 adotar-se, na abordagem ao texto b\u00edblico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-lo-emos, ao longo da nossa posterior reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agust\u00edn Ud\u00edas Vallina, <em>Ciencia y fe cristiana en la historia<\/em>, Malia\u00f1o, Editorial Sal Terrae, 2021.<\/p>\n<p>Isidro Lamelas (coord.), <em>O primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico \u2013 Niceia 325: mem\u00f3ria e heran\u00e7a<\/em>, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus editora, 2025.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, Le\u00e7a da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.<\/p>\n<p>Santo Agostinho, <em>Da interpreta\u00e7\u00e3o do G\u00e9nesis: dois livros contra os maniqueus<\/em>, Prior Velho, Paulinas, 2021.<\/p>\n<p>Gerhard von Rad, <em>El libro del genesis<\/em>, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 1988<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/geralt-9301\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=9626654\">Gerd Altmann<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=9626654\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20203,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-20201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20201"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20588,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20201\/revisions\/20588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}