{"id":20196,"date":"2026-01-07T07:00:43","date_gmt":"2026-01-07T07:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20196"},"modified":"2026-01-04T13:25:24","modified_gmt":"2026-01-04T13:25:24","slug":"livros-e-leituras-recensao-de-livro-o-primeiro-concilio-ecumenico-niceia-325-memoria-e-heranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/livros-e-leituras-recensao-de-livro-o-primeiro-concilio-ecumenico-niceia-325-memoria-e-heranca\/","title":{"rendered":"Livros e leituras | Recens\u00e3o de livro: &#8216;O primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico &#8211; Niceia 325: Mem\u00f3ria e heran\u00e7a&#8217;"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>A Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura|Aveiro recomenda<\/strong><\/h3>\n<hr \/>\n<h5 style=\"padding-left: 160px; text-align: right;\">Isidro Lamelas (coord.), <em>O primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico \u2013 Niceia 325: mem\u00f3ria e heran\u00e7a<\/em>, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus editora, 2025.<\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: center;\">(Esta CDC&#8217;Aveiro organizou, em 9 de abril de 2025, <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/acontece-tertulias-2025-cufc-9-de-abril-21-30h-d-alexandre-palma-cristianismo-hoje-que-esperanca-nos-1700-anos-do-concilio-de-niceia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma tert\u00falia, com D. Alexandre Palma<\/a>, no contexto das celebra\u00e7\u00f5es dos 1700 anos de Niceia)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou um leitor exigente. Gosto de ler e terminar com o sentimento de que fui respeitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim aconteceu, ao ler \u2018O primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico \u2013 Niceia 325: mem\u00f3ria e heran\u00e7a\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como costumo fazer, anotei as datas em que comecei e terminei. Iniciei no dia 25 de dezembro de 2025, nuns tempinhos entre preparativos para as celebra\u00e7\u00f5es natal\u00edcias, e terminei no dia 2 de janeiro de 2026. Uma leitura entre as celebra\u00e7\u00f5es do Natal e do Ano Novo e entre textos e artigos oportunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era leitura que pretendia fazer ainda durante o ano em que se comemoravam os 1700 anos de Niceia, o primeiro conc\u00edlio que mereceu o t\u00edtulo de \u2018ecum\u00e9nico\u2019 (por \u2018oecumene\u2019 se referir a toda a terra habitada).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um conc\u00edlio em que estiveram representadas todas as igrejas da comunh\u00e3o cat\u00f3lica de ent\u00e3o. Curiosamente, o Bispo de Roma, o Papa Lib\u00e9rio, fizera-se representar por dois presb\u00edteros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os m\u00e9ritos \u00edmpares deste livro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queria perceber, tamb\u00e9m, com esta leitura, o verdadeiro contexto, como se eu mesmo estivesse na \u00e9poca. Pois, uma coisa \u00e9 olhar para Niceia, 1700 anos depois, outra, bem diferente, \u00e9 seguir o curso dos acontecimentos, \u00e0 medida que eles v\u00e3o ocorrendo, sem ter, antecipadamente, no\u00e7\u00e3o do seu desfecho. \u00c9 essa consci\u00eancia que, muitas vezes, n\u00e3o mantemos fresca, quando analisamos acontecimentos passados. Quando eles est\u00e3o a ocorrer, quem neles participa n\u00e3o sabe o seu desfecho. N\u00f3s, que os olhamos retrospetivamente, j\u00e1 o sabemos, mas \u00e9 um privil\u00e9gio que n\u00e3o possuem os seus contempor\u00e2neos. \u00c9, por isso, necess\u00e1rio ser honesto para se colocar \u2018nas botas\u2019 dos que percorreram a sucess\u00e3o dos tempos. E isso \u00e9 um dos enormes m\u00e9ritos deste livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, ainda, um livro muito honesto quanto ao reconhecimento do que nos permitem e n\u00e3o permitem saber as fontes que possu\u00edmos. N\u00e3o podemos saber, por exemplo, a data exata em que o conc\u00edlio ocorreu; sabemos que o imperador o convocou, mas n\u00e3o sabemos, com rigor, quem presidiu (h\u00e1 refer\u00eancias diversas: a Eust\u00e1quio de Antioquia, a \u00d3sio de C\u00f3rdova, a Eus\u00e9bio de Cesareia \u2013 n\u00e3o confundir com o Eus\u00e9bio de Nicom\u00e9dia. O de Cesareia \u00e9 autor da celeb\u00e9rrima \u2018Hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica. Seria, provavelmente, tamb\u00e9m seguidor do arianismo, mas menos ostensivamente do que o de Nicom\u00e9dia que apoiava, claramente, Ario, e foi um dos seus protetores, contra Alexandre, Bispo de Alexandria), ainda que saibamos, por exemplo, que o mesmo imperador adotou uma atitude de profundo respeito pelos bispos (ainda que, aludindo \u00e0 etimologia da palavra \u2018ep\u00edskopos\u2019, \u2018vigilante\u2019, ele mesmo assim se designe a si), esperando por autoriza\u00e7\u00e3o destes para intervir. N\u00e3o sabemos, tamb\u00e9m, se nele participou Ario.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim. O livro, com toda a verdade, permite-nos ter um \u2018estado da arte\u2019 sobre Niceia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao l\u00ea-lo, eu pretendia, ainda, entender o papel de Constantino e se, afinal, como, frequentemente, nos \u00e9 apresentado, Niceia e o \u00c9dito de Mil\u00e3o (em 313, permitiu que o cristianismo se tornasse religi\u00e3o aceite pelo imp\u00e9rio romano) s\u00e3o o in\u00edcio de uma nova Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tudo isso se fica a perceber com esta leitura, situando, com clareza, o que \u00e9 novo e o que \u00e9 continuidade, superando, claramente, a vis\u00e3o tendencialmente dualista de quem tem uma Igreja antes de Niceia e outra, muito diferente, depois de Niceia. Niceia \u00e9, antes, um ponto de converg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos o real decurso dos acontecimentos que levaram a Niceia; percebemos que havia uma cultura da \u2018sinodalidade\u2019 de que Niceia n\u00e3o \u00e9 o ponto inaugural, mas, como diz\u00edamos, acima, um ponto de converg\u00eancia; percebemos o papel real de Constantino, em nome da unidade e da paz, mas tamb\u00e9m percebemos que a f\u00e9 e a ortodoxia venceram ao andar \u2018titubeante\u2019 do imperador que olhava para as discuss\u00f5es teol\u00f3gicas como quest\u00f5es menores e f\u00fateis. Percebemos, ali\u00e1s, que a capacidade teol\u00f3gica de Constantino n\u00e3o foi o motivo para que se envolvesse na convoca\u00e7\u00e3o deste Conc\u00edlio. Antes a sua inten\u00e7\u00e3o de pacificar duas quest\u00f5es fundamentais (ainda que os 20 c\u00e2nones que nos chegaram enunciem outros assuntos muito interessantes):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A quest\u00e3o da data da P\u00e1scoa (pois, se o ocidente, com Roma e muitas outras igrejas, celebravam a P\u00e1scoa ao domingo, havia igrejas que a faziam coincidir, seguindo a data\u00e7\u00e3o judaica, em 14 de nisan, podendo ocorrer, ainda, que houvesse, no mesmo ano, duas celebra\u00e7\u00f5es desta mesma festa, dado que o calend\u00e1rio era lunar e n\u00e3o solar.). Saiu definida a data\u00e7\u00e3o que s\u00f3 em 1582 se modificou e para a data\u00e7\u00e3o que seguimos, atualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A quest\u00e3o ariana. Em s\u00edntese, trata-se de uma discuss\u00e3o iniciada em Alexandria, entre o Patriarca desta importante cidade eg\u00edpcia, de nome Alexandre, (das mais relevantes do oriente crist\u00e3o de ent\u00e3o) com um seu presb\u00edtero, de nome Ario, mas que tinha importantes correligion\u00e1rios \u2013 Eus\u00e9bio de Nicom\u00e9dia, entre os mais destacados. Em suma, a quest\u00e3o passava pela nega\u00e7\u00e3o, defendida por Ario, da divindade de Jesus, da sua igual natureza com o Pai, considerando Jesus Cristo como uma criatura (mesmo que mais considerada do que as restantes). A quest\u00e3o, de origem cristol\u00f3gica, repercutia-se na leitura teol\u00f3gica, isto \u00e9, trinit\u00e1ria. Se Jesus Cristo n\u00e3o \u00e9 Deus, ent\u00e3o, Deus \u00e9 unic\u00edssimo, um \u00fanico princ\u00edpio (tese defendida pelo monarquianismo), fechado em si mesmo, n\u00e3o trinit\u00e1rio, pondo-se em causa toda a f\u00e9 cat\u00f3lica que batiza \u2018em nome do Pai e do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u2019, que afirma, com Jo\u00e3o, que \u2018no princ\u00edpio era o Verbo, (\u2026) o Verbo era Deus\u2019, etc., e, como consequ\u00eancia principal, ficaria em causa a pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o, pois a verdadeira ponte entre Deus e o Homem ficava sem \u2018liga\u00e7\u00e3o\u2019 entre as duas margens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, contrariamente \u00e0 convic\u00e7\u00e3o do imperador, a mat\u00e9ria era central e, pela capacidade de influ\u00eancia de Ario e dos seus apoiantes, estava a dividir a \u2018oecumene\u2019. Era, por isso, necess\u00e1rio fazer-lhe face e sanar o assunto. Niceia f\u00ea-lo. A esta dist\u00e2ncia, e com os p\u00e9s \u2018empapados\u2019 na lama daquele tempo, percebemos que grandes figuras de ent\u00e3o, entre as quais se destaca Atan\u00e1sio, ent\u00e3o apenas um di\u00e1cono mas que, pela sua capacidade intelectual e teol\u00f3gica, Alexandre escolhe para seu \u2018assessor\u2019 em Niceia (vindo a ser, apenas tr\u00eas anos depois, seu sucessor na c\u00e1tedra da grande cidade de Alexandria), foram particularmente s\u00e1bias e atentas. As consequ\u00eancias da ced\u00eancia \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o ariana eram grandes e permaneceu essa sedu\u00e7\u00e3o, ao longo dos tempos. Percebemos, ali\u00e1s, que muito do clero que veio para a pen\u00ednsula ib\u00e9rica, com as invas\u00f5es b\u00e1rbaras, parecia enfermar de arianismo, o que trouxe a contenda para as nossas terras\u2026 E, hoje mesmo, a sedu\u00e7\u00e3o ariana continua, sempre que Jesus Cristo \u00e9 reduzido \u00e0 categoria de \u2018homem espetacular\u2019, \u2018super-her\u00f3i\u2019, etc., mas desprovido da Sua divindade\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro, nas suas partes\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro estrutura-se em nove partes, sendo duas delas um pref\u00e1cio de D. Rui Val\u00e9rio e uma introdu\u00e7\u00e3o que muito oportunamente nos permitem evidenciar a relev\u00e2ncia desta obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguem-se as sete partes nucleares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da primeira, da autoria de Isidro Lamelas (a quem devemos tr\u00eas sec\u00e7\u00f5es e o trabalho de coordena\u00e7\u00e3o de enorme qualidade), guarda-se a consci\u00eancia de que os primeiros s\u00e9culos da hist\u00f3ria crist\u00e3 viviam numa din\u00e2mica sinodal que \u2013 ouso dizer \u2013 temos de recuperar. Ali\u00e1s, este \u00e9 um dos enormes m\u00e9ritos deste livro. Ao l\u00ea-lo, percebemos a \u2018heran\u00e7a\u2019 que o contexto de Niceia nos deixa: o dinamismo sinodal (o conc\u00edlio participa deste dinamismo, bem certo) e algumas das solu\u00e7\u00f5es preconizadas parecem-me de enorme fecundidade para os nossos tempos. No final desta recens\u00e3o recolherei duas cita\u00e7\u00f5es que me parecem de particular atualidade\u2026).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda parte, ainda da autoria de Isidro Lamelas, recolhe-se a hist\u00f3ria dos \u2018credos\u2019 (designados como \u2018s\u00edmbolos\u2019 \u2013 aludindo-se \u00e0 pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o do conceito de \u2018s\u00edmbolo\u2019 que recolhe, bem certo, a ideia de algo que \u2018agrega e une\u2019, mas tamb\u00e9m a ideia de um \u2018penhor\u2019 de cr\u00e9dito para com a comunidade com a qual se professa o credo. Fica a consci\u00eancia de que o credo era, inicialmente, reservado, guardando-se, at\u00e9 j\u00e1 muito perto do final do s\u00e9culo III, a tradi\u00e7\u00e3o de proibir a sua escrita. O credo devia ser \u2018escrito\u2019 no cora\u00e7\u00e3o, pois era algo precioso e reservado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na terceira sec\u00e7\u00e3o, da autoria de Ad\u00e9lio Abreu, faz-se uma an\u00e1lise cuidadosa do que estava em causa na discuss\u00e3o sobre a data da P\u00e1scoa, mas tamb\u00e9m uma abordagem sobre os vinte c\u00e2nones de Niceia que se pronunciam sobre outras mat\u00e9rias, algumas delas conservando atualidade que a an\u00e1lise rigorosa deste estudo nos permite recuperar. A t\u00edtulo de exemplo, enunciou a discuss\u00e3o sobre como atuava a igreja, ent\u00e3o, perante os que tendo-se divorciado, queriam morrer na igreja. Diz o autor: \u2018Afinal, na antiguidade crist\u00e3, a gest\u00e3o jur\u00eddica do matrim\u00f3nio era da compet\u00eancia civil, e \u00abmalgrado o ensino elevado e ideal sobre o matrim\u00f3nio, os div\u00f3rcios civis estavam na ordem do dia\u00bb, desenvolvendo a Igreja \u00abuma pr\u00e1xis penitencial precisamente para responder \u00e0 necessidade das pessoas que, apesar da sua hist\u00f3ria pessoal, queriam viver e morrer na Igreja\u00bb (PETRAS, 2021, 149).\u2019 Quem sabe se esta pr\u00e1tica penitencial n\u00e3o poderia ser recuperada como modo de superar as dificuldades pastorais com que, hoje, situa\u00e7\u00f5es semelhantes geram a todos os pastores!?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na quarta sec\u00e7\u00e3o, analisa-se, com C\u00e1tia Tuna, o facto \u2018conc\u00edlio\u2019 como instrumento pol\u00edtico (a autora apresenta-nos uma interessante recolha hist\u00f3rica de alguns eventos em que os imperadores de diversas \u00e9pocas se socorreram deste \u2018instrumento\u2019 como ve\u00edculo para a promo\u00e7\u00e3o da unidade e sublinha como, atrav\u00e9s dos conc\u00edlios \u2018romanos\u2019, os imperadores tentaram exercer a sua a\u00e7\u00e3o de unifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 interessante, para al\u00e9m desta curiosidade hist\u00f3rica, o facto de ser claro como, depois de Niceia, se veio a sentir a necessidade de clarificar, com o Conc\u00edlio de Constantinopla, uma mat\u00e9ria de natureza tamb\u00e9m trinit\u00e1ria, que n\u00e3o ficara resolvida (n\u00e3o era problema, ali\u00e1s, nessa altura) com Niceia: a da divindade do Esp\u00edrito Santo. Niceia gravitara em torno da quest\u00e3o cristol\u00f3gica. O per\u00edodo seguinte gravitar\u00e1 em torno dos pneumat\u00f3macos e da d\u00favida sobre a divindade do Esp\u00edrito Santo que Constantinopla tentar\u00e1 sanar\u2026 De qualquer modo, fica clara a circunst\u00e2ncia de grande ebuli\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que foi este s\u00e9culo IV\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quinta sec\u00e7\u00e3o, da autoria de Teresa Bartolomei, apresenta-nos uma an\u00e1lise muito fina. Constantino conseguiu, aparentemente, o que pretendia: a unidade do imp\u00e9rio, mas, curiosa e paradoxalmente, defende a autora e eu revejo-me nessa tese, a conclus\u00e3o de Niceia, ao defender a divindade de Jesus Cristo e a conce\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria de Deus, estilha\u00e7a as conce\u00e7\u00f5es monopolista e \u2018monarquianas\u2019 que Constantino preconizava. Niceia, ao defender um Deus trinit\u00e1rio, p\u00f5e em crise todas as conce\u00e7\u00f5es que rejeitam a diversidade no exerc\u00edcio do poder\u2026 e todas as conce\u00e7\u00f5es monistas, solipsistas e \u2018individualistas\u2019, acrescento eu. \u00c9 interessante que a autora fa\u00e7a esta an\u00e1lise tomando por refer\u00eancia o pensamento de Erik Peterson, permitindo, tamb\u00e9m, fazer-lhe justi\u00e7a enquanto criador do conceito de \u2018reserva escatol\u00f3gica\u2019, tantas vezes atribu\u00eddo a K\u00e4semann, mas que, pela sua fecundidade, se imp\u00f5e que se lhe devolva. A \u2018reserva escatol\u00f3gica\u2019 \u00e9 a dist\u00e2ncia que o cristianismo trinit\u00e1rio assegura em rela\u00e7\u00e3o a todas as sedu\u00e7\u00f5es de identificar, na hist\u00f3ria, a realiza\u00e7\u00e3o definitiva do Reino, isto \u00e9, a tenta\u00e7\u00e3o dos messianismos pol\u00edticos. E esse \u00e9, certamente, um dos maiores m\u00e9ritos de Niceia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sexta sec\u00e7\u00e3o, da autoria de Maria Lu\u00edsa Resende, analisa o percurso titubeante do primeiro bispo de Lisboa de que h\u00e1 conhecimento, Pot\u00e2mio de Lisboa, que se correspondeu com Atan\u00e1sio, tomando este artigo por ponto de partida uma carta de resposta do bispo olissiponense ao ent\u00e3o j\u00e1 bispo de Alexandria (a carta de Pot\u00e2mio ser\u00e1 de depois de 359), em que Pot\u00e2mio evidencia a sua ortodoxia, mas depois de ter sido admoestado por aquele, pela sua atitude pouco firme. O artigo \u00e9 muito interessante por nos permitir, por um lado, perceber a dilig\u00eancia com que Atan\u00e1sio tomou esta mat\u00e9ria em m\u00e3os (veja-se que a Olissipo de ent\u00e3o \u00e9 uma distant\u00edssima cidade do extremo ocidente, e, certamente, sem a import\u00e2ncia que a hist\u00f3ria lhe vir\u00e1 a reservar\u2026) e, por outro, para se tomar consci\u00eancia de como o assunto n\u00e3o ficou sanado com Niceia. Os correligion\u00e1rios arianos eram, tamb\u00e9m eles, extremamente diligentes\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9tima sec\u00e7\u00e3o reserva-nos um tesouro. \u00c9 uma colet\u00e2nea dos documentos mais relevantes para a compreens\u00e3o do contexto de Niceia, sendo, em muitos casos, documentos traduzidos, pela primeira vez, em portugu\u00eas. Soma-se a este m\u00e9rito, que, mais uma vez, tem a m\u00e3o de Isidro Lamelas, a inclus\u00e3o de breves introdu\u00e7\u00f5es a cada documento, o que nos permite aquilatar a import\u00e2ncia de cada um deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da leitura de uma obra desta natureza resultam in\u00fameras consequ\u00eancias. Uma delas, bem certo, \u00e9 a not\u00edcia sobre como Niceia n\u00e3o \u00e9, apenas, o \u2018credo\u2019, mas sim quanto o \u2018seu\u2019 credo significa. Outra \u00e9 a tomada de conhecimento de nomes que, para a maioria dos seus leitores, eram ilustr\u00edssimos desconhecidos, assim como as leituras teol\u00f3gicas que representam: Ario, Eus\u00e9bio de Nicom\u00e9dia, Eus\u00e9bio de Cesareia, Alexandre e Atan\u00e1sio de Alexandria, \u00d3sio de C\u00f3rdoba, Sab\u00e9lio, Paulo de Sam\u00f3sata, \u2018adocionismo\u2019, \u2018monarquianismo\u2019, \u2018arianismo\u2019, ou, mesmo, Pot\u00e2mio de Lisboa, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o menor \u00e9, por\u00e9m, o reconhecimento, por um lado, da honestidade intelectual dos seus autores, que revelam respeitar, grandemente, os seus leitores e, por outro, o assombro em rela\u00e7\u00e3o aos protagonistas da \u2018contenda\u2019, em particular, Alexandre de Alexandria e, naturalmente, o seu di\u00e1cono e posterior sucessor, Atan\u00e1sio, que a Igreja vir\u00e1 a canonizar e reconhecer como Doutor da Igreja. Sem a sua a\u00e7\u00e3o diligente e perante a sedu\u00e7\u00e3o ariana (qu\u00e3o sedutora \u00e9, ainda hoje!) Jesus teria ficado reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de extraordin\u00e1rio humano, criatura especial\u2026 Continuar\u00edamos, por isso, \u00e0 procura da estrela, como magos do Oriente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dois c\u00e2nones em destaque<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De entre os 20 c\u00e2nones de Niceia, destaco dois, pela sua pertin\u00eancia para o discernimento eclesial contempor\u00e2neo, deixando impl\u00edcito um desafio do Vaticano II que considero que ainda n\u00e3o est\u00e1 devidamente cumprido: o do regresso \u00e0s fontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00famero 8. Sobre os chamados \u00abc\u00e1taros\u00bb (novacianos e outros)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Este santo e grande conc\u00edlio estabelece que aqueles que se chamam c\u00e1taros, isto \u00e9, puros, se quiserem ingressar na Igreja Cat\u00f3lica e Apost\u00f3lica, tendo recebido a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, permane\u00e7am no clero. \u00c9 necess\u00e1rio, por\u00e9m, antes de mais, que prometam por escrito aceitar e seguir os ensinamentos da Igreja Cat\u00f3lica e Apost\u00f3lica, ou seja, permanecer em comunh\u00e3o com os que se casaram duas vezes e com os que falharam durante a persegui\u00e7\u00e3o, mas observando o tempo e as circunst\u00e2ncias da penit\u00eancia. Por conseguinte, s\u00e3o obrigados a seguir em tudo as decis\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica e Apost\u00f3lica.<\/em> [\u2026]\u2019 (p. 225)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018N\u00famero 19. Dos que abandonam o erro de Paulo de Sam\u00f3sata e das diaconisas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quanto aos paulianistas, que pretendem passara para a Igreja Cat\u00f3lica, \u00e9 preciso observar a antiga prescri\u00e7\u00e3o de que sejam batizados sem falta. Se algum deles tiver pertencido ao clero, desde que seja completamente irrepreens\u00edvel, uma vez batizado, pode ser ordenado pelo Bispo da Igreja Cat\u00f3lica. Mas se o exame levar a concluir que s\u00e3o indignos, \u00e9 bom dep\u00f4-los. Este modo de atuar ser\u00e1 usado tamb\u00e9m com as diaconisas e, em geral, com aqueles que t\u00eam um minist\u00e9rio na Igreja. Quanto \u00e1s diaconisas que se encontram na mesma situa\u00e7\u00e3o, em particular, recordamos que elas, n\u00e3o tendo recebido a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, devem ser contadas sem qualquer d\u00favida entre os leigos<\/em>.\u2019 (p. 229)<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Foto recolhida da <a href=\"https:\/\/www.paulus.pt\/products\/o-primeiro-concilio-ecumenico-niceia-325-memoria-e-heranca?srsltid=AfmBOooZmw98TLZy28rchPxJ9znPaZxdVzLQNOGa1sr1eO_EuZGf5G-h\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paulus editora<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Diocesana<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20197,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,9,55],"tags":[],"class_list":["post-20196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-programa-diocesano-de-livros-e-leituras","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20196"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20200,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20196\/revisions\/20200"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}