{"id":20152,"date":"2026-01-23T07:00:35","date_gmt":"2026-01-23T07:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20152"},"modified":"2025-12-23T11:12:47","modified_gmt":"2025-12-23T11:12:47","slug":"20-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-terra-das-langorinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/20-alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-misterio-na-terra-das-langorinhas\/","title":{"rendered":"20 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na terra das langorinhas"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"20   Mist\u00e9rio na terra das langorinhas\" width=\"640\" height='480' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c4RvO9x56zo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma suave brisa de outono desprendia, firme, as derradeiras folhas fragilmente presas \u00e0s \u00e1rvores. Do interior da Igreja parecia ouvir-se a doce melodia de um \u2018requiem \u00e0 minha m\u00e3e\u2019, com a languidez de um murm\u00fario amargurado por perda precoce.<br \/>\nJ. e M. desciam a rua que parecia cindir a esperan\u00e7a da Igreja do temor desesperado da derradeira morada do \u00faltimo adormecer.<br \/>\nEnrolados em quentes cachec\u00f3is, pois que o pedia aquele frio\u2026<br \/>\n&#8211; Um cemit\u00e9rio, com as suas sepulturas em forma de cama\u2026 Um aut\u00eantico dormit\u00f3rio! Aqui se dorme, afinal! Para sempre? \u2013 J. lan\u00e7ava para o ar os pensamentos que assomavam ao mais \u00edntimo de si. M. seguia, ao seu lado, sem dar conta do que lhe dizia o irm\u00e3o. Contava, baixinho.<br \/>\nAssim foram at\u00e9 ao lugar das langorinhas, o v\u00e9rtice do mundo. A esquina para que confluem as vertiginosas descidas do tempo. Ficava encravada entre duas encostas: a de S\u00f3ligo e a do Cruzeiro. Uma converg\u00eancia densamente humana.<br \/>\nJ. ainda ousara quebrar aquele discreto sussurrar da irm\u00e3 que continuava a contar.<br \/>\n&#8211; Nestas terras, h\u00e1 lendas por cumprir. Por estas montanhas se escondeu, outrora, um pastor que assistiu, no tempo dos mouros, ao abandono de uma moura esposa pelo seu marido violento. Em lugar incerto, mas n\u00e3o longe daqui, deixara-a, sozinha, transformada em pedra at\u00e9 ao dia em que florissem as beldroegas. O oculto pastor procurou quebrar tamanho feiti\u00e7o, buscando saber o que seriam aquelas benfazejas verduras que, descobrindo-as, ele mesmo plantou, esperando voltar a ver encarnada aquela petrificada moura. Recuperada \u00e0 carne, com ela casou .<br \/>\nM. nada ouvia. Contava, apenas.<br \/>\nChegados \u00e0s Langorinhas, detiveram-se. J. n\u00e3o resistia a comentar o significado que lhe parecia esconder-se sob aquele nome.<br \/>\nM. suspendeu as suas contagens, ainda que fixando onde ia.<br \/>\n&#8211; M., lembras-te de vir aqui, quando \u00e9ramos pequenos? E de como sempre nos ficava a d\u00favida sobre se esta era a terra das langorinhas, se das longurinhas?<br \/>\n&#8211; Ou das \u2018longarinas\u2019? \u2013 Atalhou M., entusiasmada com a mem\u00f3ria recuperada pelo irm\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Pode dever-se o nome ao facto de ser uma longa terra. Teria sentido ser \u2018longurinha\u2019.<br \/>\n&#8211; Mas tamb\u00e9m poderia ser por nela haver uma longa viga que prendesse as ramadas de outrora. Uma longarina. \u2013 Acrescentou M., participando no divertimento.<br \/>\n&#8211; Agrada-me mais \u2018langorinhas\u2019. A ideia da demora, da languidez\u2026<br \/>\nM. meneou a cabe\u00e7a, como se assentisse, e retomou a contagem. Saltou por cima de um pequeno rego de \u00e1gua e prosseguiu. Encaminhou-se para os degraus que levavam \u00e0 leira sobranceira \u00e0 terra que servia de margem ao maior dos regatos de \u00e1gua daquele lugar. Quatro, no total: um, maior, ao longo de toda a terra; um, a encimar a leira, e dois, a ladear todo aquele lugar.<br \/>\n&#8211; 483 passos at\u00e9 aqui. \u2013 Rematou M. E continuou, enquanto se preparava para colocar o p\u00e9 no primeiro do sete degraus que levavam at\u00e9 \u00e0 leira. \u2013 484! 485! 486! 487! 488!489!<br \/>\nAo chegar ao sexto degrau, M. parou. O s\u00e9timo degrau era o maior de todos. Uma esp\u00e9cie de patim sobre o qual se podia descansar, antes de avan\u00e7ar. M. deteve-se, longamente, a olhar para o \u00faltimo degrau e para a leira.<br \/>\nAo centro, havia uma macieira. Sem folhas; estavam todas no ch\u00e3o. De cores diferentes, umas envelhecidas, outras mais novas. Nem uma folha havia nos ramos que, por\u00e9m, apresentavam uma forma perfeita. Como se um jardineiro da maior mestria as houvesse podado. Vista de todos os \u00e2ngulos, a forma daquela macieira parecia uma interroga\u00e7\u00e3o; um enorme e bem feito ponto de interroga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nM. percorria, com o olhar, a singularidade daquele lugar. Nos ramos, deliciosas ma\u00e7\u00e3s, apetitosas ao olhar; sedutoras!<br \/>\nJ. aguardava, no primeiro dos degraus. O tempo parecia ter-se detido. Sem que se avistassem aves, sentiam-se os seus trinados. A forma daquela leira era perfeita, mas apenas ocupada por uma \u00edmpar macieira.<br \/>\nM. decidiu n\u00e3o subir para o s\u00e9timo degrau. Desceu!<br \/>\nJ. aguardava-a, sem pressas.<br \/>\nEncaminharam-se para os salgueiros ao fundo da terra, abeirando-se do ribeiro.<br \/>\nPelas escadas, descia, entretanto, uma pequena serpente que M. n\u00e3o vira. Ter-se-ia assustado, ainda que o frio do outono fizesse adivinhar j\u00e1 n\u00e3o dever vir dali grande perigo.<br \/>\nMas, ainda assim, ter-lhe-ia valido um susto.<br \/>\n&#8211; Nestas \u00e1guas, apanh\u00e1mos r\u00e3s. Era t\u00e3o giro, M. Enquanto a av\u00f3 tratava das cabras que tinha, num curral aqui perto.<br \/>\n&#8211; Falas como se eu n\u00e3o soubesse. Como se te dirigisses a algu\u00e9m que nos estivesse a ouvir. Mas s\u00f3 aqui estamos n\u00f3s\u2026<br \/>\nRiram-se\u2026<br \/>\nMas o seu riso foi interrompido por passos.<br \/>\n&#8211; Parece-me que algu\u00e9m se est\u00e1 a encaminhar para a leira.<br \/>\nVoltaram-se.<br \/>\nReconheceram, ainda que envolvida nas vestes negras com que sempre se cobria depois da morte do marido e do filho \u00fanico, a dona Micas. Uma mulher sofrida, cujo tempo se fizera de dores.<br \/>\nPerdera, em curto tempo, o marido, muito amado, e o filho \u00fanico.<br \/>\nNos seus olhos de mulher solit\u00e1ria, tinham secado as l\u00e1grimas. Dizia-se que passara a viver das dores dos outros. Procuravam-na, para nela encontrarem esperan\u00e7a, os mais desgra\u00e7ados das redondezas. N\u00e3o se percebia, por\u00e9m, donde lhe vinha a for\u00e7a. Nunca se lhe ouvira um lamento.<br \/>\nAgora, estava ali.<br \/>\nM. pousara a m\u00e3o no bra\u00e7o de J. e apertava-o, temendo que falasse.<br \/>\nAguardava.<br \/>\nA dona Micas parara, com o p\u00e9 direito pousado no primeiro degrau.<br \/>\nElevara o olhar para a macieira, ao centro da leira.<br \/>\nDepois de um breve esperar, come\u00e7ara a subir. Sempre com o olhar elevado.<br \/>\nChegada ao \u00faltimo e s\u00e9timo degrau, come\u00e7ara a solu\u00e7ar.<br \/>\nChorou, demoradamente.<br \/>\nEnrolou-se sobre si mesma. Era um choro s\u00f3.<br \/>\nDepois, como se tomada por uma for\u00e7a sobre-humana, ergueu-se e dirigiu-se, vociferando, para a \u00e1rvore.<br \/>\nAo longe, M. e J. assistiam. S\u00f3 viam o movimento dos bra\u00e7os daquela pobre mulher. Mas nada ouviam.<br \/>\nDona Micas tinha o rosto hirto. Gritava. Barafustava. Desalinhava a roupa.<br \/>\nSubitamente, parecendo tomada de f\u00faria, esticou a m\u00e3o direita e prendeu uma das ma\u00e7\u00e3s. Puxou-a, ligeiramente para si, como se a fosse arrancar.<br \/>\nOs seus olhos pareciam vermelhos de revolta.<br \/>\nO momento alongou-se\u2026<br \/>\nA macieira, ao centro, despida de folhas; carregada de frutos.<br \/>\nAo lado, sem fazer qualquer sombra no ch\u00e3o, aquela mulher; de p\u00e9, de negro, destemida!<br \/>\nNa sua m\u00e3o, um dos frutos maduros daquela \u00e1rvore solit\u00e1ria na perfeita leira ladeada por murmurantes regatos de \u00e1gua. Prendia-o \u00e0 \u00e1rvore apenas um j\u00e1 fr\u00e1gil ped\u00fanculo, prestes a romper-se. O olhar daquela mulher parecia uma amea\u00e7a.<br \/>\nM. reparava, enquanto esta cena se detinha no tempo, como que eternizada, numa serpente que subia pelos degraus. Desejou avisar a mulher, mas a sua voz n\u00e3o se soltou.<br \/>\nAntes de se poder arrepender, aquela mulher largou o fruto e voltou a aligeirar os movimentos.<br \/>\nVoltou a alinhar a roupa, curvou-se sobre o ch\u00e3o. Tomou uma das folhas que guardou no bolso e desceu, pisando a cabe\u00e7a da serpente, em r\u00e1pida corrida.<br \/>\nDa \u00e1rvore totalmente despida caiu uma folha, j\u00e1 seca.<br \/>\nAcordados daquele cristalizado momento, J. e M. seguiram no encalce daquela al\u00edbera e vi\u00fava mulher, at\u00e9 \u00e0 entrada da igreja, mas n\u00e3o mais a viram.<br \/>\nNo cemit\u00e9rio ao lado, sobre a campa do mais novo adormecido, repousava uma pequena folha de macieira.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-20152","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20152"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20153,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20152\/revisions\/20153"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}