{"id":20141,"date":"2025-12-22T20:05:43","date_gmt":"2025-12-22T20:05:43","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20141"},"modified":"2025-12-22T20:06:17","modified_gmt":"2025-12-22T20:06:17","slug":"in-memoriam-pe-doutor-jose-de-oliveira-branco-diocese-de-coimbra-o-elogio-da-lucidez-e-da-clareza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/in-memoriam-pe-doutor-jose-de-oliveira-branco-diocese-de-coimbra-o-elogio-da-lucidez-e-da-clareza\/","title":{"rendered":"In Memoriam | Pe. Doutor Jos\u00e9 de Oliveira Branco (diocese de Coimbra): o elogio da lucidez e da clareza"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabo de receber a not\u00edcia do falecimento do Pe. Doutor Jos\u00e9 de Oliveira Branco, meu professor de diversas cadeiras de Filosofia, no \u2018saudoso\u2019 ISET, Instituto Superior de Estudos Teol\u00f3gicos, sedeado no Semin\u00e1rio Maior de Coimbra, casa que \u00e9, hoje, um importante centro de cultura, um exemplo a olhar com muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de prosseguir, expresso a minha gratid\u00e3o a esta dign\u00edssima institui\u00e7\u00e3o e \u00e0 Diocese de Coimbra, que t\u00e3o bem me acolheu e me recebeu como seu, durante os cinco anos em que ali vivi. A gratid\u00e3o \u00e9 o fruto vis\u00edvel de uma extensa \u00e1rvore cujas ra\u00edzes me deram firmeza em muitas tempestades. Obrigado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor Jos\u00e9 de Oliveira Branco foi meu professor no per\u00edodo em que frequentei o Semin\u00e1rio de Coimbra, entre 1990 e 1995. Passaram mais de duas d\u00e9cadas at\u00e9 que, em 2020, retom\u00e1mos o contacto, por correio eletr\u00f3nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 com 87 anos, o professor Jos\u00e9 de Oliveira Branco mantinha a lucidez de pensamento e a clareza que sempre o definiram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostar\u00e3o de saber os que, comigo, foram seus disc\u00edpulos, uma sua confid\u00eancia que ele me perdoar\u00e1 que publique. Dizia-me, num dos emails que troc\u00e1mos: \u201cFui mais professor que pedagogo, e psic\u00f3logo, e mestre&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que foram seus alunos compreendem porque cito esta confiss\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor Branco \u2013 assim lhe cham\u00e1vamos \u2013 era brilhante, fino no pensamento, mas tamb\u00e9m fino na verve quando se deparava com o que ele considerava \u2018pregui\u00e7a\u2019 ou \u2018indol\u00eancia\u2019. N\u00e3o as tolerava e cortava rente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disso guardar\u00e3o mem\u00f3ria muitos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem me recordo como, ainda no 12.\u00ba ano, j\u00e1 eu me preparava, mentalmente, para o encontro com o gigante \u2018Doutor Branco\u2019, que nos esperava, em Coimbra. Talvez essa prepara\u00e7\u00e3o me tenha predisposto para n\u00e3o me deixar atemorizar e, afinal, deixar deslumbrar pela l\u00f3gica do seu pensar, pela coer\u00eancia dos seus argumentos, pela ousadia de nos adentrar pelos mais modernos pensadores, a quem ia buscar o que deve permanecer, deixando-nos escolhos das margens, os cascalhos que n\u00e3o servem. Com ele conheci os tr\u00eas \u2018H\u2019s\u2019 &#8211; Hegel, Husserl e Heidegger \u2013 Sartre, Marcel, Bergson, mas tamb\u00e9m Kant, Leibniz, Spinoza e tantos outros com quem passei a conviver, ora para deles me afei\u00e7oar, ora para deles me afastar. Incentivava a procurar mais e mais e a n\u00e3o nos ficarmos pelo que ouv\u00edamos nas aulas. Foi assim que me fiz acompanhar de alguns dos maiores especialistas da Hist\u00f3ria da filosofia, de que Copleston se destacou porque mo sugeriu. Tinha, por este historiador, grande reconhecimento e julgo que o ter\u00e1 conhecido, na Gregoriana, em Roma: achava-o o melhor entre os que faziam a Hist\u00f3ria da Filosofia. E percebi porqu\u00ea, \u00e0 medida que fui comprando a sua extensa hist\u00f3ria da filosofia. Copleston explicava tudo o que envolvia a vida de um fil\u00f3sofo: este faz-se, n\u00e3o s\u00f3 de ideias, mas tamb\u00e9m da vida pisada e calcorreada\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para todos, ficar\u00e1, do Doutor Branco, por tudo isto, a finura e clareza do seu pensamento que a hist\u00f3ria, para sempre, reter\u00e1. Se o ouvissem mais os que, hoje, decidem os rumos do mundo, e a sua lapidar afirma\u00e7\u00e3o de que \u2018quem n\u00e3o distingue, confunde\u2019!&#8230; Em quanta confus\u00e3o se emaranham os rumos de hoje por n\u00e3o as ouvirem nem atenderem!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 de Oliveira Branco fez doutoramento sobre o \u2018humanismo cr\u00edtico de Ant\u00f3nio S\u00e9rgio\u2019, a cuja capacidade cr\u00edtica sempre regressava. Ousou, j\u00e1 adentrado na idade, fazer pontes, que continuam a ser pouco percorridas entre n\u00f3s, de encontro entre as \u2018margens\u2019 cient\u00edfica e teol\u00f3gica do conhecimento. Livros como \u2018o brotar da cria\u00e7\u00e3o\u2019, \u2018a pergunta de Job\u2019, \u2018o Deus que n\u00e3o temos\u2019 ficar\u00e3o, para sempre, como luzeiros da ousadia de recuperar o esp\u00edrito da aut\u00eantica pol\u00e9mica de que se faz emergir luz. Pena que n\u00e3o tenha sido secundado\u2026 Quem sabe se entre os seus disc\u00edpulos emerge o desejo de seguir as pisadas do mestre!?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 depois de ser seu disc\u00edpulo, e neste vai e vem de emails, descobri, gra\u00e7as ao seu livro \u2018uma via para a manh\u00e3\u2019, o pensamento de Ferdinand Ebner, um precursor do personalismo em que reencontrei muitas sintonias com a linha que venho eu pr\u00f3prio sustentando, nos meus escritos e palestras. De facto, o mestre deixa nos seus disc\u00edpulos marcas cuja fonte podemos desconhecer, mas que geram \u2018frutos l\u00f3gicos\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu \u00faltimo email \u00e9 de 9 de junho de 2023. De ent\u00e3o para c\u00e1, ficou apenas o sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E penitencio-me por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adiei a insist\u00eancia e, com esta not\u00edcia da sua partida para a eternidade, sinto-me em d\u00edvida. T\u00ednhamos conversas inacabadas que teremos de adiar at\u00e9 que a \u2018via para a manh\u00e3\u2019 abra o \u2018definitivo amanh\u00e3\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Honrarei, por\u00e9m, a sua demanda pelo \u2018esfor\u00e7o do conceito\u2019 de que sempre nos falava, repercutindo a exig\u00eancia rahneriana em que se revia, pois \u2018n\u00e3o se deseja o que \u00e9 desconhecido\u2019. S\u00f3 a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade pode fazer emergir em n\u00f3s o desejo sincero e abnegado de a pretender respeitar. A indol\u00eancia e a pregui\u00e7a de quem ignora amorti\u00e7am a vontade de saber e geram relativismos a quem qualquer marginal \u2018verdade\u2019 serve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os \u2018reconhecimentos\u2019 e nomes que me recordou, nas suas mensagens, referiu o do diretor do nosso jornal diocesano, Ant\u00f3nio Jorge Ferreira, um dos seus mais brilhantes alunos, deixando-nos aos dois um desafio que, esperando que seja fonte de frondosas \u00e1rvores, torno p\u00fablico em modo de compromisso: \u201c\u00c9 mto bom que voc\u00eas, e mais alguma gente de qualidade e empenhamento, tenham o vosso modo de Presen\u00e7a e interven\u00e7\u00e3o. Em \u00e1reas fulcrais. E definam rumos definam linhas de program\u00e1ticas para isso. A nossa igr. precisa tanto de gente capaz e que tenha a no\u00e7\u00e3o das defici\u00eancias da nossa pastoral!\u201d. Termino a cita\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A melhor homenagem que lhe poderemos prestar ser\u00e1, precisamente, a de secundar, com a\u00e7\u00e3o efetiva, este seu desiderato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se j\u00e1 o fomos tentando, \u00e9 certo, da morte se erguer\u00e1 vida mais perene.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode contar comigo, Doutor Branco. N\u00e3o ter\u00e3o sido em v\u00e3o os seus desafios de que n\u00e3o \u2018tenhamos medo\u2019 de pensar! E sei que n\u00e3o irei s\u00f3\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto recolhida do site da <a href=\"https:\/\/www.diocesedecoimbra.pt\/noticias\/faleceu-o-padre-manuel-doliveira-branco:2664\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Diocese de Coimbra<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20142,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,156],"tags":[],"class_list":["post-20141","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece","category-efemerides"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20141"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20144,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20141\/revisions\/20144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20142"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}