{"id":2009,"date":"2025-01-18T07:00:55","date_gmt":"2025-01-18T07:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=2009"},"modified":"2025-01-18T22:26:32","modified_gmt":"2025-01-18T22:26:32","slug":"abc-do-ecumenismo-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/abc-do-ecumenismo-i\/","title":{"rendered":"ABC do Ecumenismo I\/IV"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 280px;\">De 18 a 25 de janeiro, ocorre o oitav\u00e1rio de ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os. Neste contexto, a Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura|Aveiro republica o ABC do Ecumenismo (em quatro partes)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">ABC do Ecumenismo I\/IV [republica\u00e7\u00e3o]<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\">Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Anglicanos &#8211;<\/strong> <\/em>Os anglicanos s\u00e3o hoje, no mundo, cerca de 80 milh\u00f5es. Destes, 13 milh\u00f5es est\u00e3o na Inglaterra. Os outros est\u00e3o espalhados principalmente pelos pa\u00edses de l\u00edngua inglesa, a come\u00e7ar pelos EUA (onde se chamam Igreja Episcopal). O l\u00edder da Igreja Anglicana \u00e9 arcebispo de Cantu\u00e1ria, atualmente Justin Welby (105.\u00b0), mas a autoridade m\u00e1xima \u00e9 o rei ou rainha de Inglaterra. No in\u00edcio da separa\u00e7\u00e3o, no s\u00e9c. XVI, o anglicanismo foi um cisma. Henrique VIII fez-se nomear pelo parlamento chefe da igreja inglesa, rompendo com Roma. Progressivamente, os anglicanos aproximaram-se dos luteranos e dos calvinistas, mas s\u00e3o, ainda hoje, os protestantes mais pr\u00f3ximos da Igreja Cat\u00f3lica, tanto nos ritos como no Credo ou mesmo pela exist\u00eancia de vida religiosa em mosteiros e conventos. Quest\u00f5es pol\u00e9micas dentro do pr\u00f3prio anglicanismo, como a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres (desde h\u00e1 poucas semanas tamb\u00e9m no episcopado), dificultam o di\u00e1logo ecum\u00e9nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>B\u00edblia &#8211;<\/strong> <\/em>A B\u00edblia tem sido a fonte de quase todas as divis\u00f5es entre crist\u00e3os, pelo menos nos tempos modernos (na divis\u00e3o entre cat\u00f3licos e ortodoxos houve outras raz\u00f5es), em grande medida porque h\u00e1 dois grandes modos de interpretar a B\u00edblia na Igreja Cat\u00f3lica e nas restantes confiss\u00f5es. A Igreja Cat\u00f3lica defende que \u00e9 a pr\u00f3pria Igreja, assistida pelo Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 a autoridade que pode interpretar a B\u00edblia. Os protestantes, desde Lutero, defendem a livre interpreta\u00e7\u00e3o individual do texto sagrado. Se, por um lado, os estudos b\u00edblicos se desenvolveram muito mais no protestantismo at\u00e9 ao s\u00e9culo XX, gra\u00e7as ao livre acesso \u00e0 B\u00edblia e \u00e0 sua valoriza\u00e7\u00e3o como autoridade suprema (o \u201csola Scriptura\u201d, isto \u00e9, \u201cs\u00f3 a Escritura\u201d, contra a autoridade eclesi\u00e1stica e a Tradi\u00e7\u00e3o), por outro, foi imposs\u00edvel parar as subdivis\u00f5es de comunidades que as diferentes interpreta\u00e7\u00f5es geraram. E a pulveriza\u00e7\u00e3o continua nos dias de hoje. Atualmente, os estudos b\u00edblicos cat\u00f3licos est\u00e3o a par dos dos protestantes, a leitura da B\u00edblia \u00e9 aconselhada a todos os crist\u00e3os e a investiga\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 um dos palcos onde o ecumenismo tem dado mais frutos, sobressaindo a Tradu\u00e7\u00e3o Ecum\u00e9nica da B\u00edblia, feita por protestantes e cat\u00f3licos, na d\u00e9cada de 1970, em Fran\u00e7a. Outra quest\u00e3o \u00e9 se a B\u00edblia dos cat\u00f3licos \u00e9 igual \u00e0 dos protestantes. Dada a pluralidade de confiss\u00f5es protestantes, \u00e9 dif\u00edcil dar uma resposta completa em poucas linhas. A Igreja Anglicana segue a mesma B\u00edblia (com o mesmo n\u00famero de livros) que os cat\u00f3licos. O mesmo n\u00e3o acontece com diversos protestantes e evang\u00e9licos. A quest\u00e3o resume-se a isto: H\u00e1 livros do Antigo Testamento que n\u00e3o est\u00e3o na B\u00edblia Hebraica (mas est\u00e3o na B\u00edblia dos Setenta, em grego, que mais influenciou o cristianismo nascente) e por isso alguns protestantes n\u00e3o os aceitam. S\u00e3o eles: Tobias (ou Tobite), Judite, I Macabeus e II Macabeus, Sabedoria, Eclesi\u00e1stico (ou Sir\u00e1cide ou Ben Sir\u00e1), Baruc e ainda partes de Ester e de Daniel. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 confiss\u00f5es protestantes que os acrescentam como deuterocan\u00f3nicos (isto \u00e9, que entraram num segundo momento no c\u00e2none, na lista dos livros sagrados). O mesmo acontece com algumas cartas do Novo Testamento. Mas em rela\u00e7\u00e3o a estas (Tiago, Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 Jo\u00e3o\u2026), hoje, a generalidade das b\u00edblias protestantes inclui-as nas suas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Calvino &#8211;<\/strong> <\/em>Jo\u00e3o Calvino nasceu em Noyon, norte de Fran\u00e7a, no dia 10 de julho de 1509, e morreu em Genebra, Su\u00ed\u00e7a, no dia 27 de maio de 1564. Seguindo algumas das intui\u00e7\u00f5es de Lutero, quebrou com a Igreja Cat\u00f3lica em 1533, refugiou-se na Su\u00ed\u00e7a, e em 1536 publicou \u201cInstitui\u00e7\u00f5es da Religi\u00e3o Crist\u00e3\u201d (\u201cInstitutio Christianae Religionis\u201d). Em Genebra fundou um estado teocr\u00e1tico e persecut\u00f3rio (mais tarde, os calvinistas seriam os primeiros a pedir desculpas pelos pr\u00f3prios erros). Ap\u00f3s a morte de Calvino, os calvinistas franceses (ou huguenotes) foram dizimados na \u201cnoite de S\u00e3o Bartolomeu\u201d, em 1572. Os calvinistas, tamb\u00e9m conhecidos por Igreja Reformada e presbiterianos, s\u00e3o cerca de 70 milh\u00f5es, e est\u00e3o principalmente na Esc\u00f3cia, Holanda, Su\u00ed\u00e7a, Fran\u00e7a, \u00c1frica do Sul, Coreia do Sul, Austr\u00e1lia e Estados Unidos. Acreditam na predestina\u00e7\u00e3o, administram o Batismo, mas n\u00e3o acreditam na presen\u00e7a real de Jesus na Eucaristia. \u201cIsto \u00e9 o meu corpo\u201d, segundo os calvinistas, deve ser compreendido como \u201cisto significa o meu corpo\u201d. Defendem uma colabora\u00e7\u00e3o estreita entre leigos e pastores, fomentam o esp\u00edrito de iniciativa e preocupam-se com os problemas sociopol\u00edticos. Estas \u00faltimas caracter\u00edsticas do calvinismo, que alguns dizem ser consequ\u00eancia inesperada da teologia da predestina\u00e7\u00e3o (segundo a qual, Deus determina desde as origens cada ser humano para a perdi\u00e7\u00e3o ou a salva\u00e7\u00e3o), levou alguns pensadores a associarem o calvinismo ao capitalismo. Um dos maiores te\u00f3logos do s\u00e9culo XX, Karl Barth, \u00e9 calvinista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Divis\u00f5es &#8211;<\/strong><\/em> O cristianismo sempre foi marcado por lutas internas, ora superadas em conc\u00edlios ou no apelo a uma autoridade, ora resultando em divis\u00f5es. A primeira grande pol\u00e9mica, sobre se os pag\u00e3os tinham de se tornar judeus para poderem ser crist\u00e3os, foi resolvida no Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m (Atos dos Ap\u00f3stolos, cap\u00edtulo 15). Manteve-se a unidade. Houve, por\u00e9m, tr\u00eas grandes momentos de divis\u00e3o, nos s\u00e9culos V, XI e XVI. Em alguns conc\u00edlios, a procura da verdade da f\u00e9 n\u00e3o promoveu a unidade, mas consumou a separa\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo V, depois dos conc\u00edlios de \u00c9feso (431) e Calced\u00f3nia (452), cidades na atual Turquia, separaram-se os nestorianos e os monofisitas, que geraram as igrejas coptas, arm\u00e9nias, s\u00edrias, et\u00edopes e malabares, que ainda existem e t\u00eam na totalidade cerca de 20 milh\u00f5es de crist\u00e3os. Muitos deles s\u00e3o hoje perseguidos na instabilidade do M\u00e9dio Oriente. Com todos estes ramos antigos a Igreja Cat\u00f3lica tem \u00f3timas rela\u00e7\u00f5es. No s\u00e9culo XI, a grande cristandade dividiu-se em duas partes. Cat\u00f3licos no ocidente e ortodoxos no oriente europeu. Foi uma gota de \u00e1gua que consumou a divis\u00e3o, no ano 1054 \u2013 os cat\u00f3licos dizem que o Esp\u00edrito Santo procede do Pai e do Filho; os ortodoxos dizem que (s\u00f3) procede do Pai \u2013, mas ela na realidade h\u00e1 largos s\u00e9culos que se vinha cavando. Os sacramentos s\u00e3o os mesmos, mas a liturgia era diferente, tal como a legisla\u00e7\u00e3o e aspetos como o celibato dos padres (n\u00e3o obrigat\u00f3rio para os ortodoxos) e a barba (obrigat\u00f3ria para os ministros ortodoxos) e, acima de tudo, a l\u00edngua, que no oriente era o grego, quase por ningu\u00e9m entendido no ocidente, onde o latim era a l\u00edngua eclesi\u00e1stica e cient\u00edfica. No s\u00e9culo XVI, a Igreja Cat\u00f3lica viu-se atingida pelas mais tr\u00e1gicas divis\u00f5es. Primeiro, Lutero, em 1517, depois Calvino, em 1533 (alguns entendem o calvinismo como um desdobramento do luteranismo), e depois Henrique VIII, em 1534. Em poucas d\u00e9cadas, a Europa transfigura-se. Os pa\u00edses latinos, a Irlanda, a \u00c1ustria e parte dos eslavos continuam cat\u00f3licos. A Inglaterra torna-se uma igreja nacional, anglicana. A Alemanha divide-se entre cat\u00f3licos e luteranos. Os pa\u00edses escandinavos tornam-se todos luteranos. E o calvinismo domina na Holanda e em partes da Su\u00ed\u00e7a, Fran\u00e7a e Esc\u00f3cia. O Conc\u00edlio de Trento (15451563), convocado tardiamente se tivermos em conta os seculares apelos \u00e0 reforma, refor\u00e7ou a identidade cat\u00f3lica, mas n\u00e3o fez retroceder qualquer divis\u00e3o. Com a divis\u00e3o religiosa e muitos nacionalismos \u00e0 mistura, veio a disc\u00f3rdia internacional. A paz s\u00f3 chegou em 1648, no fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Diversos pensadores sustentam que as guerras religiosas dos s\u00e9culos XVI e XVII s\u00e3o ainda hoje a principal causa de indiferen\u00e7a religiosa e ate\u00edsmo na Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(<em>ABC do Ecumenismo<\/em> &#8211; <strong>parceria com o jornal diocesano,<em><a href=\"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Correio do Vouga<\/a>)<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De 18 a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2013,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48,46,71,13],"tags":[],"class_list":["post-2009","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antonio-jorge-pires-ferreira","category-autores","category-ecumenismo-nos-500-anos-da-reforma-protestante","category-olhares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2009"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2009\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18718,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2009\/revisions\/18718"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2013"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}