{"id":20028,"date":"2026-01-07T07:07:41","date_gmt":"2026-01-07T07:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=20028"},"modified":"2025-12-06T12:26:48","modified_gmt":"2025-12-06T12:26:48","slug":"sabes-leitor-25-marca-de-agua-de-antiqua-et-nova-nota-sobre-a-relacao-entre-a-inteligencia-artificial-e-a-inteligencia-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sabes-leitor-25-marca-de-agua-de-antiqua-et-nova-nota-sobre-a-relacao-entre-a-inteligencia-artificial-e-a-inteligencia-humana\/","title":{"rendered":"Sabes, leitor&#8230; | 25 | Marca de \u00e1gua de &#8216;Antiqua et Nova&#8217;: Nota sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a intelig\u00eancia artificial e a intelig\u00eancia humana"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Rubrica \u2018Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma p\u00e1gina\u2019** | <em>Marca de \u00e1gua de livros que deixam marcas profundas<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Parceria:<a href=\"https:\/\/www.federacaopelavida.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <em>Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa pela Vida<\/em><\/a> e<em> Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/strong><\/p>\n<pre style=\"padding-left: 80px;\"><strong>O(s) autor(es) e a obra<\/strong><\/pre>\n<h5 style=\"text-align: right; padding-left: 160px;\">DICAST\u00c9RIO PARA A DOUTRINA DA F\u00c9 E DICAST\u00c9RIO PARA A CULTURA E A EDUCA\u00c7\u00c3O, <em>Antiqua et Nova: Nota sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a intelig\u00eancia artificial e a intelig\u00eancia humana<\/em>, Apela\u00e7\u00e3o, Paulus Editora, 2025..<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 5 de junho de 2022, atrav\u00e9s constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Praedicate Evangelium<\/em>, o Papa Francisco fez uma reforma da C\u00faria romana de que se deu especial destaque \u00e0 possibilidade aberta a todos os crist\u00e3os batizados de exercerem fun\u00e7\u00f5es de governa\u00e7\u00e3o na C\u00faria. Com esta reforma, constituiu o Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 e o Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o (que resulta da fus\u00e3o entre a Congrega\u00e7\u00e3o para a Educa\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e o Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura), que assinam a nota que analisamos, agora.<br \/>\nS\u00e3o Prefeitos destes dois dicast\u00e9rios o Cardeal Victor Manuel Fern\u00e1ndez, que muitos consideram o \u2018te\u00f3logo do Papa Francisco\u2019, por serem not\u00f3rias, nos escritos do pont\u00edfice argentino, as marcas do pensamento e estilo de escrita deste antigo reitor da Universidade Pontif\u00edcia da Argentina e arcebispo de La Plata, e o nosso Cardeal Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a.<br \/>\nNum registo subjetivo, ouso evidenciar o significado da conflu\u00eancia dos esfor\u00e7os destes dois dicast\u00e9rios para o documento aqui em an\u00e1lise.<br \/>\nSendo evidente as implica\u00e7\u00f5es culturais e educativas da \u2018intelig\u00eancia artificial\u2019, poderia suscitar interroga\u00e7\u00e3o o envolvimento da \u2018doutrina da f\u00e9\u2019 nesta mat\u00e9ria.<br \/>\nUma leitura do artigo 69.\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Praedicate Evangelium<\/em> agu\u00e7ar\u00e1 o gume da interroga\u00e7\u00e3o que, por\u00e9m, com a leitura da nota \u2018antiqua et nova\u2019, se tornar\u00e1 menos cortante. Percebe-se, por esta leitura, que o alcance antropol\u00f3gico da \u2018intelig\u00eancia artificial\u2019 lhe confere o papel de catalisadora de um processo a que Francisco ousou designar como de \u2018mudan\u00e7a de \u00e9poca\u2019 (n.\u00ba4). Um tal alcance justifica o envolvimento do Dicast\u00e9rio da Doutrina da F\u00e9 numa reflex\u00e3o desta natureza, dado que a sua miss\u00e3o \u00e9 \u2018[\u2026] \u00e9 ajudar o Romano Pont\u00edfice e os Bispos no an\u00fancio do Evangelho em todo o mundo, promovendo e tutelando a integridade da doutrina cat\u00f3lica sobre a f\u00e9 e a moral, como a recebe do dep\u00f3sito da f\u00e9 e resulta de um entendimento cada vez mais profundo do mesmo face \u00e0s novas quest\u00f5es.\u2019 (Praedicate Evangelium, n.\u00ba 69).<br \/>\n\u00c9, por isso, digna de registo esta capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o, revelada pela Igreja Cat\u00f3lica com a publica\u00e7\u00e3o deste documento. Contrariando o preconceito de ter uma atitude reativa, a equilibrada abordagem evidenciada neste documento confere uma natureza \u2018prof\u00e9tica\u2019 (utilizando a terminologia teol\u00f3gica tantas vezes sublinhada, ap\u00f3s o conc\u00edlio Vaticano II, repercutindo o lastro veterotestament\u00e1rio desta considera\u00e7\u00e3o) \u00e0 proposta aqui sustentada.<br \/>\nConven\u00e7o-me, ali\u00e1s, de que este documento ser\u00e1 revisitado, vezes sucessivas, por quem pretende olhar com objetividade para as oportunidades e desafios colocados pela Intelig\u00eancia Artificial, evitando Cila e Car\u00edbdis.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Marcas de \u00e1gua <\/strong>\r\n\r\n<strong>(o que fica depois de se deixar o livro)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os discursos sobre a \u2018Intelig\u00eancia Artificial\u2019 andam entre o medo (que a demoniza) e o fasc\u00ednio (que a idolatra). \u2018Antiqua et Nova\u2019 encaminha o barco do pensamento entre as ciladas de ambos os promont\u00f3rios.<br \/>\nDesde logo, ousando questionar a pr\u00f3pria designa\u00e7\u00e3o, que considera equ\u00edvoca e \u2018falaciosa\u2019 (n.\u00ba 35), situando no devido registo o potencial que este recurso nos proporciona. O documento \u00e9 inequ\u00edvoco no reconhecimento de que a \u2018intelig\u00eancia\u2019, por n\u00e3o ser, apenas, uma potencialidade t\u00e9cnica e operativa, \u00e9 um exclusivo humano (e divino, bem certo!), devendo-se apenas por analogia referir que o que se opera, pela \u2018IA\u2019, seja, de facto, \u2018intelig\u00eancia\u2019.<br \/>\nUm tal reconhecimento coloca, no devido \u00e2mbito, o que seja a \u2018intelig\u00eancia artificial\u2019: um meio. Um meio carregado de potencialidades, mas um meio.<br \/>\nEsta leitura permite recuperar o reconhecimento da centralidade do crit\u00e9rio \u00e9tico que atribui apenas ao ser humano a condi\u00e7\u00e3o de fim, devendo ser, sempre, tratado como meio aquilo que o \u00e9: os instrumentos de que dispomos para melhor conhecer o \u2018mundo\u2019.<br \/>\nA este reconhecimento associa-se, naturalmente, a interroga\u00e7\u00e3o sobre a dimens\u00e3o da responsabilidade, mat\u00e9ria excruciante na abordagem sobre a intelig\u00eancia artificial: sendo a IA um instrumento jamais se lhe poder\u00e1 atribuir a condi\u00e7\u00e3o de \u2018entidade respons\u00e1vel\u2019 pelas a\u00e7\u00f5es que ela opere.<br \/>\nDesta constata\u00e7\u00e3o adv\u00eam as m\u00faltiplas consequ\u00eancias nos diversos \u00e2mbitos do agir humano em sociedade pelos quais circula este documento: as rela\u00e7\u00f5es laborais, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, a desinforma\u00e7\u00e3o, a prote\u00e7\u00e3o da casa comum, a guerra e a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o do humano consigo mesmo e com Deus. Em todos estes \u00e2mbitos se coloca a quest\u00e3o fundamental de saber se a IA nos auxilia ou nos substitui, nos humaniza ou nos desumaniza.<br \/>\nEm todas estas circunst\u00e2ncias, a posse de conhecimento dever\u00e1 encaminhar-se para al\u00e9m de si mesmo, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, que implica, sempre, uma intelig\u00eancia capaz de discernir entre o erro e a coer\u00eancia, possibilidade reservada ao humano, criado como ser aut\u00f3nomo, livre e, por isso, capaz de responder pelas suas decis\u00f5es (\u00e9 isso a \u2018responsabilidade\u2019).<br \/>\n\u2018Antiqua et Nova\u2019 contribuir\u00e1, certamente, para uma leitura mediocr\u00e1tica (n\u00e3o do \u2018med\u00edocre&#8217;, mas sim \u2018do justo equil\u00edbrio\u2019) do mundo que a IA abre diante de n\u00f3s: entre a Cila da idolatria e a Car\u00edbdis da demoniza\u00e7\u00e3o. E contribuir\u00e1, tamb\u00e9m, para que se compreenda que da Igreja Cat\u00f3lica se pode esperar ser a s\u00e1bia jangada com que cruzaremos os mares que banham os promont\u00f3rios da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><strong>Na mesma p\u00e1gina que o autor (cita\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 considera o dom da intelig\u00eancia um aspeto essencial da cria\u00e7\u00e3o do ser humano \u00ab\u00e0 imagem de Deus\u00bb (Gn 1,27). Partindo de uma vis\u00e3o integral da pessoa e da valoriza\u00e7\u00e3o do chamamento a \u00abcultivar\u00bb e \u00abcuidar\u00bb a terra (cf. Gn 2, 15), a Igreja sublinha que este dom deveria encontrar express\u00e3o atrav\u00e9s de um uso respons\u00e1vel da racionalidade e da capacidade t\u00e9cnica ao servi\u00e7o do mundo criado.\u2019 (n.\u00ba1)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018As capacidades e a criatividade do ser humano v\u00eam d\u2019Ele e, quando usadas corretamente, d\u00e3o gl\u00f3ria a Deus, enquanto reflexo da sua sabedoria e bondade.\u2019 (n.\u00ba2)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] existe um amplo consenso de que a IA marca uma nova e significativa fase na rela\u00e7\u00e3o da Humanidade com a tecnologia, colocando-se no centro daquilo que o Papa Francisco descreveu como uma \u00abmudan\u00e7a de \u00e9poca\u00bb. [\u2026] Uma vez que a IA continua a avan\u00e7ar rapidamente para patamares cada vez maiores, \u00e9 extremamente importante considerar as suas implica\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas e \u00e9ticas. Isto passa n\u00e3o s\u00f3 por mitigar riscos e a preven\u00e7\u00e3o dos danos, mas tamb\u00e9m a garantia de que as suas aplica\u00e7\u00f5es s\u00e3o direcionadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do progresso humano e do bem comum.\u2019 (n.\u00ba4)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[Neste documento], pretende-se, em primeiro lugar, distinguir o conceito de \u201cintelig\u00eancia\u201d em refer\u00eancia \u00e0 IA e aos seres humanos. Em segundo lugar, considera-se a perspetiva crist\u00e3 sobre a intelig\u00eancia humana, oferecendo um quadro geral de reflex\u00e3o baseado na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica da Igreja. De seguida, prop\u00f5em-se algumas linhas orientadoras com o objetivo de assegurar que o desenvolvimento e a utiliza\u00e7\u00e3o da IA respeitam a dignidade humana e promovem o desenvolvimento integral do indiv\u00edduo e da sociedade.\u2019 (n.\u00ba6)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Embora cada aplica\u00e7\u00e3o da IA \u2018estreita\u2019 esteja calibrada para uma tarefa espec\u00edfica, muitos investigadores esperam chegar \u00e0 chamada \u201cintelig\u00eancia artificial geral\u201d (AGI),ou seja, a um \u00fanico sistema o qual, operando em todos os dom\u00ednios cognitivos, seria capaz de realizar qualquer tarefa ao alcance da mente humana. Alguns defendem que tal IA poder\u00e1 um dia atingir o est\u00e1dio de \u201csuperintelig\u00eancia\u201d, ultrapassando a capacidade intelectual humana, ou contribuir para a \u201csuperlongevidade\u201d gra\u00e7as aos avan\u00e7os na biotecnologia. Outros receiam que estas possibilidades, por mais hipot\u00e9ticas que sejam, venham um dia a ofuscar a pr\u00f3pria pessoa humana, enquanto outros acolhem com agrado esta poss\u00edvel transforma\u00e7\u00e3o.\u2019 (n.\u00ba9)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018No que diz respeito ao ser humano, a intelig\u00eancia \u00e9, de facto, uma faculdade relativa \u00e0 pessoa como um todo, enquanto, contexto da IA, \u00e9 entendida num sentido funcional, assumindo frequentemente que as atividades caracter\u00edsticas da mente humana podem ser decompostas em etapas digitalizadas, de modo a que as m\u00e1quinas tamb\u00e9m as possam replicar.\u2019 (n.\u00ba10)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] no caso da IA, a \u201cintelig\u00eancia\u201d de um sistema \u00e9 avaliada de forma metodol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m reducionista, com base na sua capacidade de produzir respostas adequadas, ou seja, aquelas que est\u00e3o associadas ao intelecto humano, independentemente da forma como essas respostas s\u00e3o geradas.\u2019 (N.\u00ba11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para o efeito, conv\u00e9m recordar que a riqueza da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e da teologia crist\u00e3 oferece uma vis\u00e3o mais profunda e abrangente da intelig\u00eancia, que, por sua vez, \u00e9 central no ensinamento da Igreja sobre a natureza, a dignidade e a voca\u00e7\u00e3o da pessoa humana.\u2019 (n.\u00ba12)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Desde os prim\u00f3rdios da reflex\u00e3o da humanidade sobre si pr\u00f3pria, a mente tem desempenhado um papel central na compreens\u00e3o do que significa ser \u201chumano\u201d. Arist\u00f3teles observou que \u00abtodos os seres humanos tendem, por natureza, para o conhecimento\u00bb. Este conhecimento humano, com a sua capacidade de abstra\u00e7\u00e3o que apreende a natureza e o significado das coisas, distingue-os do mundo animal. A natureza exata da intelig\u00eancia tem sido objeto de investiga\u00e7\u00e3o por parte de fil\u00f3sofos, te\u00f3logos e psic\u00f3logos, que se debru\u00e7aram tamb\u00e9m sobre o modo como o ser humano compreende o mundo e faz parte dele, ocupando neles um lugar peculiar. Atrav\u00e9s destas pesquisas, a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 chegou a compreender a pessoa como um ser constitu\u00eddo por corpo e alma, ambos profundamente ligados a este mundo e, ao mesmo tempo, indo para al\u00e9m dele.\u2019 (n.\u00ba13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Na tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, o conceito de intelig\u00eancia \u00e9 frequentemente declinado nos termos complementares de \u201craz\u00e3o\u201d (ratio) e \u201cintelecto\u201d (intellectus). N\u00e3o se trata de faculdades separadas, mas, como explica S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, de dois modos de atua\u00e7\u00e3o da mesma intelig\u00eancia: \u00abo termo intelecto deriva da \u00edntima penetra\u00e7\u00e3o da verdade; enquanto raz\u00e3o deriva da busca e do processo discursivo\u00bb. Esta descri\u00e7\u00e3o concisa permite-nos destacar as duas prerrogativas fundamentais e complementares da intelig\u00eancia humana: intellectus refere-se \u00e0 intui\u00e7\u00e3o da verdade, ou seja, \u00e0 sua apreens\u00e3o com os \u201colhos\u201d da mente, que precede e funda a pr\u00f3pria argumenta\u00e7\u00e3o, enquanto a ratio diz respeito ao racioc\u00ednio propriamente dito, ou seja, ao processo discursivo e anal\u00edtico que conduz ao ju\u00edzo. Juntos, intelecto e raz\u00e3o constituem as duas faces do \u00fanico ato de intelligere, \u00aba opera\u00e7\u00e3o do homem enquanto homem\u00bb.\u2019 (n.\u00ba14)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Apresentar o ser humano como um ser \u201cracional\u201d n\u00e3o significa reduzi-lo a um modo espec\u00edfico de pensamento; significa antes reconhecer que a capacidade de compreens\u00e3o intelectual da realidade molda e permeia todas as suas atividades, constituindo, al\u00e9m disso, exercitada para o bem e para o mal, um aspeto intr\u00ednseco da natureza humana.\u2019 (n.\u00ba15)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O pensamento crist\u00e3o considera as faculdades intelectuais no quadro de uma antropologia integral que concebe o ser humano como um ser essencialmente corp\u00f3reo. Na pessoa humana, o esp\u00edrito e a mat\u00e9ria \u00abn\u00e3o s\u00e3o duas naturezas unidas, mas a sua uni\u00e3o forma uma \u00fanica natureza\u00bb. Por outras palavras, a alma n\u00e3o \u00e9 a \u201cparte\u201d imaterial da pessoa contida num corpo, assim como este n\u00e3o \u00e9 o inv\u00f3lucro exterior de um \u201cn\u00facleo\u201d subtil e intang\u00edvel, mas \u00e9 o ser humano inteiro que \u00e9, ao mesmo tempo, material e espiritual.\u2019 (n.\u00ba16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o esp\u00edrito humano n\u00e3o realiza o seu modo normal de conhecimento sem o corpo. Deste modo, as capacidades intelectuais do ser humano s\u00e3o parte integrante de uma antropologia que reconhece que ele \u00e9 uma \u00abunidade de alma e corpo\u00bb.\u2019 (n.\u00ba17)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018(\u2026) a intelig\u00eancia humana n\u00e3o \u00e9 uma faculdade isolada, mas exerce-se nas rela\u00e7\u00f5es, encontrando a sua plena express\u00e3o no di\u00e1logo, na colabora\u00e7\u00e3o e na solidariedade. Aprendemos com os outros, aprendemos atrav\u00e9s dos outros.\u2019 (n.\u00ba18)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Mais sublime ainda do que saber muitas coisas \u00e9 o compromisso de cuidar uns dos outros, porque mesmo que \u00abeu conhecesse todos os mist\u00e9rios e tivesse toda a ci\u00eancia [\u2026] se n\u00e3o tivesse caridade, nada seria\u00bb (1Cor 13,2).\u2019 (n.20)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A intelig\u00eancia humana \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um \u00abdom de Deus feito para colher a verdade\u00bb. No duplo sentido de intellectus-ratio, ela permite \u00e0 pessoa penetrar nas realidades que ultrapassam a mera experi\u00eancia sensorial ou a utilidade, porque o \u00abdesejo da verdade pertence \u00e0 pr\u00f3pria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porqu\u00ea das coisas \u00e9 uma propriedade natural da sua raz\u00e3o\u00bb. (N.\u00ba21)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como observa o Papa Francisco, \u00abna era da intelig\u00eancia artificial, n\u00e3o podemos esquecer que a poesia e o amor s\u00e3o necess\u00e1rios para salvar o humano\u00bb.\u2019 (n.\u00ba 27)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Segundo o seu des\u00edgnio, a intelig\u00eancia, entendida em sentido pleno, inclui tamb\u00e9m a possibilidade de saborear o verdadeiro, o bom e o belo, pelo que se pode dizer, segundo as palavras do poeta franc\u00eas do s\u00e9culo XX, Paul Claudel, que a \u00abintelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nada sem deleite\u00bb. Tamb\u00e9m Dante Alighieri, quando alcan\u00e7a o mais alto dos c\u00e9us, no Para\u00edso, pode testemunhar que o ponto culminantes deste prazer intelectual se encontra na \u00abLuz intelectual, cheia de amor; \/ amor do verdadeiro bem, cheia de alegria; \/alegria que transcende toda a tristeza\u00bb.\u2019 (n.\u00ba28)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] uma correta conce\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia humana n\u00e3o pode reduzir-se \u00e0 mera aquisi\u00e7\u00e3o de factos ou \u00e0 capacidade de realizar certas tarefas espec\u00edficas; pelo contr\u00e1rio, implica a aberta da pessoa \u00e0s quest\u00f5es \u00faltimas da vida e reflete uma orienta\u00e7\u00e3o para o Verdadeiro e o Bem. [\u2026] A verdadeira intelligentia \u00e9 plasmada pelo amor divino, que \u00abfoi derramado nos nossos cora\u00e7\u00f5es pelo Esp\u00edrito Santo\u00bb (Rm 5,5). Daqui se deduz que a intelig\u00eancia humana possui uma dimens\u00e3o contemplativa essencial, ou seja, uma abertura desinteressada ao que \u00e9 Verdadeiro, Bom e Belo para al\u00e9m de qualquer utilidade particular.\u2019 (n.\u00ba29)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] embora a IA processe e simule certas express\u00f5es de intelig\u00eancia, esta permanece fundamentalmente confinada a um dom\u00ednio l\u00f3gico-matem\u00e1tico, o que lhe imp\u00f5e certas limita\u00e7\u00f5es inerentes. Enquanto a intelig\u00eancia humana se desenvolve continuamente de forma org\u00e2nica no decurso do crescimento f\u00edsico e psicol\u00f3gico de uma pessoa e \u00e9 moldada por uma mir\u00edade de experi\u00eancias vividas no corpo, a IA n\u00e3o tem capacidade para evoluir neste sentido. Embora os sistemas avan\u00e7ados possam \u201caprender atrav\u00e9s de processos como a aprendizagem autom\u00e1tica, este tipo de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente diferente do desenvolvimento do crescimento da intelig\u00eancia humana, uma vez que esta \u00e9 moldada pelas suas experi\u00eancias corporais: est\u00edmulos sensoriais, respostas emocionais, intera\u00e7\u00f5es sociais e o contexto \u00fanico que caracteriza cada momento. Estes elementos moldam e formam o indiv\u00edduo na hist\u00f3ria pessoal. Em contrapartida, a IA, que n\u00e3o tem um corpo f\u00edsico, baseia-se no racioc\u00ednio e na aprendizagem computacionais sobre vastos conjuntos de dados que incluem experi\u00eancias e conhecimentos recolhidos pelos seres humanos.\u2019 (n.\u00ba31)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] embora a IA possa simular alguns aspetos do racioc\u00ednio humano e realizar certas tarefas com uma rapidez e efici\u00eancia incr\u00edveis, as suas capacidade computacionais representam apenas uma fra\u00e7\u00e3o das possibilidades mais vastas da mente humana.\u2019 (n.\u00ba32)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Ao estabelecer uma equival\u00eancia demasiado forte entre a intelig\u00eancia humana e a IA, corre-se o risco de sucumbir a uma vis\u00e3o funcionalista, segundo a qual as pessoas s\u00e3o valorizadas em fun\u00e7\u00e3o das tarefas que podem realizar.\u2019 (n.\u00ba34)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00c0 luz de tudo isto, como observa o Papa Francisco, \u00abo pr\u00f3prio uso da palavra \u201cintelig\u00eancia\u201d\u00bb para se referir \u00e0 IA \u00ab\u00e9 falacioso\u00bb e corre o risco de fazer esquecer o que h\u00e1 de mais precioso na pessoa humana. Nesta perspetiva, a IA n\u00e3o deve ser vista como uma forma artificial de intelig\u00eancia, mas como um dos seus produtos.\u2019 (n.\u00ba35)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Podemos reconhecer com gratid\u00e3o que a tecnologia \u00abdeu rem\u00e9dio a in\u00fameros males, que afligiam e limitavam o ser humano\u00bb, e todos nos podemos regozijar com este facto. Todavia, nem todas as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas representam, por si mesmas, um verdadeiro progresso. Por isso, a Igreja op\u00f5e-se de modo particular \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es que amea\u00e7am a santidade da vida ou a dignidade da pessoa. Como qualquer outra atividade humana, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico deve ser orientado para o servi\u00e7o da pessoa e contribuir para a realiza\u00e7\u00e3o de \u00abmais justi\u00e7a, mais fraternidade mais ampla e uma organiza\u00e7\u00e3o mais humana das rela\u00e7\u00f5es sociais\u00bb que t\u00eam \u00abmais valor que os progressos no dom\u00ednio t\u00e9cnico\u00bb. As preocupa\u00e7\u00f5es com as implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas do desenvolvimento tecnol\u00f3gico s\u00e3o partilhadas n\u00e3o s\u00f3 pela Igreja, mas tamb\u00e9m pelos cientistas, pelos estudiosos da tecnologia e pelas associa\u00e7\u00f5es profissionais, que apelam cada vez mais a uma reflex\u00e3o \u00e9tica para orientar responsavelmente este progresso.\u2019 (n.\u00ba40)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para responder a estes desafios, \u00e9 necess\u00e1rio chamar a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da responsabilidade moral baseada na dignidade e na voca\u00e7\u00e3o da pessoa. [\u2026] Entre uma m\u00e1quina e um ser humano, s\u00f3 este \u00faltimo \u00e9 verdadeiramente um agente moral, ou seja, um sujeito moralmente respons\u00e1vel que exerce a sua liberdade nas suas decis\u00f5es e aceita as consequ\u00eancias;[\u2026]\u2019 (n.\u00ba39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Como qualquer produto do engenho humano, tamb\u00e9m a IA pode ser orientada para fins positivos ou negativos. [\u2026] Onde a liberdade do homem permite a possibilidade de escolher o que \u00e9 mau, a avalia\u00e7\u00e3o moral desta tecnologia depende da forma como \u00e9 endere\u00e7ada e utilizada.\u2019 (n.\u00ba40)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] tanto os fins como os meios utilizados numa determinada aplica\u00e7\u00e3o da IA, bem como a vis\u00e3o geral que ela encarna, devem ser avaliados para garantir que respeitam a dignidade humana e promovem o bem comum.\u2019 (n.\u00ba42)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O compromisso de garantir que a IA defenda e promova o valor supremo da dignidade de cada ser humano e a plenitude da sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 um crit\u00e9rio de discernimento [\u2026].\u2019 (n.\u00ba43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A an\u00e1lise das implica\u00e7\u00f5es deste princ\u00edpio pode, portanto, come\u00e7ar por considerar a import\u00e2ncia da responsabilidade moral. Uma vez que a causalidade moral em sentido pleno s\u00f3 pertence aos agentes pessoais, e n\u00e3o aos artificiais, \u00e9 da m\u00e1xima import\u00e2ncia poder identificar e definir quem \u00e9 respons\u00e1vel pelos processos de IA, especialmente aqueles que incluem possibilidades de aprendizagem, corre\u00e7\u00e3o e reprograma\u00e7\u00e3o. [\u2026] Para resolver este problema, h\u00e1 que ter em aten\u00e7\u00e3o a natureza dos processos de atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidade (accountability) em contextos complexos e com elevada automatiza\u00e7\u00e3o, em que os resultados s\u00e3o, muitas vezes, apenas observ\u00e1veis a m\u00e9dio-longo prazo. Por conseguinte, \u00e9 importante que a pessoa que toma decis\u00f5es com base na IA seja responsabilizada pelas mesmas e que seja poss\u00edvel prestar contas da utiliza\u00e7\u00e3o da IA em todas as fases do processo de decis\u00e3o.\u2019 (n.\u00ba44)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Al\u00e9m da determina\u00e7\u00e3o das responsabilidades, \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer quais s\u00e3o os objetivos atribu\u00eddos aos sistemas de IA. [\u2026] Coloca-se assim o problema cr\u00edtico de como garantir que os sistemas de IA sejam ordenados ao bem das pessoas e n\u00e3o contra elas.\u2019 (n.\u00ba45)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o conceito de \u201cresponsabilidade\u201d deveria ser entendido n\u00e3o apenas no seu sentido mais restrito, mas como \u00abcuidar do outro, e n\u00e3o apenas [\u2026] prestar contas do que se fez\u00bb.\u2019 (n.\u00ba47)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O Papa Francisco advertiu que \u00abos dados obtidos at\u00e9 agora parecem sugerir que as tecnologias digitais tenham servido para aumentar as desigualdades no mundo. N\u00e3o s\u00f3 diferen\u00e7as na riqueza material, que s\u00e3o importantes, mas tamb\u00e9m diferen\u00e7as no acesso \u00e0 influ\u00eancia pol\u00edtica e social\u00bb. Neste sentido, a IA poderia ser utilizada para prolongar situa\u00e7\u00f5es de marginaliza\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o, criar novas formas de pobreza, alargar o \u201cfosso digital\u201d e agravar as desigualdades sociais.\u2019 (n.\u00ba52)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] o facto de a maior parte do poder sobre as principais aplica\u00e7\u00f5es de IA estar, atualmente, concentrado nas m\u00e3os de algumas empresas poderosas levanta preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas significativas. A agravar este problema est\u00e1 tamb\u00e9m a natureza intr\u00ednseca dos sistemas de IA, em que nenhum indiv\u00edduo consegue fazer uma supervis\u00e3o completa dos vastos e complexo conjuntos de dados utilizados para o c\u00e1lculo.\u2019 (n.\u00ba53)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Al\u00e9m disso, existe o risco de a IA ser utilizada para promover aquilo a que o Papa Francisco chamou de \u00abparadigma tecnocr\u00e1tico\u00bb, que pretende resolver todos os problemas do mundo apenas com meios tecnol\u00f3gicos. [\u2026] a IA deve ser posta \u00abao servi\u00e7o de um outro tipo de progresso, mais saud\u00e1vel, mais humano, mais social e mais integral.\u2019 (n.\u00ba54)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Para alcan\u00e7ar tal objetivo, \u00e9 necess\u00e1ria uma reflex\u00e3o mais profunda sobre a rela\u00e7\u00e3o entre autonomia e responsabilidade, porque uma maior autonomia implica uma maior responsabilidade de cada pessoa nos v\u00e1rios aspetos da vida em comum. Para os crist\u00e3os, o fundamento desta responsabilidade \u00e9 o reconhecimento de que todas as capacidades humanas, incluindo a autonomia da pessoa, prov\u00eam de Deus e t\u00eam por objetivo ser postas ao servi\u00e7o dos outros.\u2019 (n.\u00ba55)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Embora a IA \u201cgenerativa\u201d seja capaz de produzir textos, discursos, imagens e outros outputs avan\u00e7ados que s\u00e3o, normalmente, a\u00e7\u00f5es de seres humanos, deve ser entendida pelo que \u00e9: uma ferramenta, n\u00e3o uma pessoa.\u2019 (n.\u00ba59)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] deve ser sempre evitada a representa\u00e7\u00e3o err\u00f3nea da IA como uma pessoa, e faz\u00ea-lo para fins fraudulentos constitui uma grave infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica que pode corroer a confian\u00e7a social.\u2019 (n.\u00ba62)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Num mundo cada vez mais individualista, h\u00e1 quem se tenha voltado para a IA em busca de rela\u00e7\u00f5es humanas profundas, de simples companheirismo ou mesmo de la\u00e7os afetivos. No entanto, embora reconhecendo que os seres humanos s\u00e3o feitos para viver rela\u00e7\u00f5es genu\u00ednas, deve ser reiterado que a IA s\u00f3 as pode simular.\u2019 (n.\u00ba63)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] ao contr\u00e1rio dos benef\u00edcios anunciados, as atuais abordagens tecnol\u00f3gicas podem, paradoxalmente, desqualificar os trabalhadores, sujeit\u00e1-los a uma vigil\u00e2ncia automatizada e relega-los para tarefas r\u00edgidas e repetitivas.\u2019 (n.\u00ba67)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] Se for utilizada para substituir os trabalhadores humanos em vez de os acompanhar, existe um \u00abrisco substancial de uma vantagem desproporcionada para alguns \u00e0 custa do empobrecimento de muitos\u00bb.\u2019 (n.\u00ba68)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] \u00e9 bom ter sempre presente que \u00aba ordem das coisas deve estar subordinada \u00e0 ordem das pessoas e n\u00e3o ao contr\u00e1rio\u00bb.\u2019 (n.\u00ba69)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a IA deve ajudar, e n\u00e3o substituir, o discernimento humano, assim como nunca deve degradas a criatividade ou reduzir os trabalhadores a meras \u00abengrenagens de uma m\u00e1quina\u00bb.\u2019 (n.\u00ba70)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00abTemos de romper com o imagin\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o, segundo o qual educar consiste em encher a cabe\u00e7a de ideias. Desta forma, educamos aut\u00f3matos, macroc\u00e9falos, n\u00e3o pessoas. Educar \u00e9 correr riscos na tens\u00e3o entre cabe\u00e7a, cora\u00e7\u00e3o e m\u00e3os.\u00bb\u2019 (n.\u00ba78)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018A presen\u00e7a f\u00edsica do professor cria uma din\u00e2mica relacional que a IA n\u00e3o pode reproduzir, uma din\u00e2mica que aprofunda o compromisso e alimenta o desenvolvimento integral do estudante.\u2019 (n.\u00ba79)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a vasta utiliza\u00e7\u00e3o da IA na educa\u00e7\u00e3o poderia levar a uma maior depend\u00eancia dos estudantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia, afetando a sua capacidade de desenvolver determinadas atividades de forma aut\u00f3noma e agravando a sua depend\u00eancia dos ecr\u00e3s.\u2019 (n.\u00ba81)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Em vez de formar os jovens para acumularem informa\u00e7\u00e3o e darem respostas r\u00e1pidas, a educa\u00e7\u00e3o deveria \u00abenvolver a tarefa de promover liberdade respons\u00e1veis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e intelig\u00eancia\u00bb.\u2019 (n.\u00ba82)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a utiliza\u00e7\u00e3o da IA deve ser sempre transparente e nunca amb\u00edgua.\u2019 (n.\u00ba84)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] \u00c0 medida que deepfakes induzem as pessoas a questionar tudo, num panorama em que prolifera o conte\u00fado falso gerado pela IA, corr\u00f3i-se a confian\u00e7a no que \u00e9 visto e ouvido, e a polariza\u00e7\u00e3o e o conflito s\u00f3 aumentar\u00e3o. Um engano assim generalizado n\u00e3o \u00e9 um problema menor: atinge o cora\u00e7\u00e3o da Humanidade, demolindo a confian\u00e7a fundamental sobre a qual as sociedades se regem.\u2019 (n.\u00ba88)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Combater as falsifica\u00e7\u00f5es alimentadas pela IA n\u00e3o \u00e9 apenas um trabalho dos especialistas do setor, mas exige os esfor\u00e7os de todas as pessoas de boa vontade.\u2019 (n.\u00ba89)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018O risco de vigil\u00e2ncia excessiva deve ser monitorizado por organismos de controlo adequados, de modo a garantir a transpar\u00eancia e a responsabilidade p\u00fablica.\u2019 (n.\u00ba93)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Embora as capacidades anal\u00edticas da IA possam ser utilizadas para ajudar as na\u00e7\u00f5es a procurar a paz e a garantir a seguran\u00e7a, a \u00abutiliza\u00e7\u00e3o b\u00e9lica da intelig\u00eancia artificial\u00bb pode ser altamente problem\u00e1tica.\u2019 (n.\u00ba99)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018As atrocidades j\u00e1 cometidas a longo da hist\u00f3ria da Humanidade s\u00e3o suficientes para suscitar profundas preocupa\u00e7\u00f5es quanto ao potencial abuso da IA.\u2019 (n.\u00ba102)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018[\u2026] a presun\u00e7\u00e3o de substituir Deus por uma obra das pr\u00f3prias m\u00e3os \u00e9 idolatria, contra a qual a Sagrada Escritura adverte (por exemplo, Ex 20,4M 32,1-5; 34,17). Al\u00e9m disso, a IA pode ser ainda mais sedutora do que os \u00eddolos tradicionais: ao contr\u00e1rio destes \u00faltimos, que \u00abt\u00eam boca e n\u00e3o falam, t\u00eam olhos e n\u00e3o v\u00eaem, t\u00eam ouvidos e n\u00e3o ouvem\u00bb (Sl 115,5-6), a IA pode \u201cfalar\u201d ou, pelo menos, dar a ilus\u00e3o de o fazer (cf. Ap 13,15). \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que a IA n\u00e3o passa de um p\u00e1lido reflexo da Humanidade, produzida por mentes humanas, treinada a partir de material produzido por seres humanos, predisposta a est\u00edmulos humanos e sustentada por trabalho humano. [\u2026] Em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 a IA que \u00e9 deificada e adorada, mas o ser humano, que se torna, assim, escravo da sua pr\u00f3pria obra.\u2019 (n.\u00ba105)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018\u00abquanto mais cresce o poder do ser humano, mais se estende e alarga a sua responsabilidade\u00bb.\u2019 (n.\u00ba108)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018S\u00f3 a pessoa humana pode ser considerada moralmente respons\u00e1vel, e os desafios da sociedade tecnol\u00f3gica dizem respeito, em \u00faltima an\u00e1lise, ao se esp\u00edrito. Por isso, enfrentar estes desafios \u00abexige um revigoramento da sensibilidade espiritual\u00bb.\u2019 (n.\u00ba111)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><strong>**(T\u00edtulo retirado de Daniel Faria, <em>Dos l\u00edquidos<\/em>, Porto, Edi\u00e7\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o, 2000, p. 137)<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217;, &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Foto recolhida da <a href=\"https:\/\/www.paulus.pt\/products\/antiqua-et-nova-nota-sobre-a-relacao-entre-a-inteligencia-artificial-e-a-inteligencia-human?srsltid=AfmBOoqannGAQIS3m3Li9h9AEeJe76TpFaiNAdMTQSBnNw4KBegAJDEp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editora Paulus<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubrica \u2018Sabes, leitor,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20030,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,198],"tags":[],"class_list":["post-20028","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-sabes-leitor-que-estamos-ambos-na-mesma-pagina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20028","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20028"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20028\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20032,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20028\/revisions\/20032"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}