{"id":19999,"date":"2025-11-23T07:00:45","date_gmt":"2025-11-23T07:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19999"},"modified":"2025-12-16T13:41:45","modified_gmt":"2025-12-16T13:41:45","slug":"alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-18-misterio-na-casa-da-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-18-misterio-na-casa-da-mata\/","title":{"rendered":"18 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na casa da Mata"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"18   Mist\u00e9rio na casa da Mata\" width=\"640\" height='480' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-3W-g1suOR0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00e3o mesmo estreitos estes degraus! N\u00e3o admira que o pai aqui tenha ca\u00eddo, segundo nos conta, nas v\u00e9speras da sua primeira comunh\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Outros tempos! Se fosse hoje, ter\u00edamos mem\u00f3rias fotogr\u00e1ficas das in\u00fameras mazelas com que ter\u00e1 ficado. \u2013 Atalhou M. \u2013 Mas, desses tempos, s\u00f3 nos ficaram as palavras contadas.<br \/>\nJ. e M. percorriam o passado, visitando-o do cimo das estreitas escadas que levam at\u00e9 \u00e0 primeira leira da casa da Mata, uma humilde casa de aldeia, da cor do salm\u00e3o, com r\u00e9s-do-ch\u00e3o e primeiro andar. Como em todas estas simples moradias de camponeses, no andar t\u00e9rreo, havia um modesto lagar, onde, segundo recordavam as mem\u00f3rias repetidas vezes narradas, se chegara a dormir de tanto cansa\u00e7o.<br \/>\nUma exterior escada de pedra levava \u00e0 parte nova da casa, onde se acrescentaram pequenos quartos para visitas, cujo ch\u00e3o era de soalho. Tudo rangia. Como o tempo entre as articula\u00e7\u00f5es de um homem.<br \/>\nA \u00e1gua, sempre farta, corria, sem se deter, no pequeno tanque repousado sobre um eternizado lama\u00e7al. Lugar perfeito para um robusto tapete de marias-moles, deleite desejado dos galin\u00e1ceos que por ali cirandavam.<br \/>\nAo fundo, percorridas algumas leiras e atravessada a estrada, o rio! Lento e demoradamente atento. O rio de todas as mem\u00f3rias, de hoje, do passado e do futuro. Um rio \u00e9 sempre um reservat\u00f3rio de mem\u00f3rias. Se n\u00e3o das vetustas, das vindouras. Pois n\u00e3o h\u00e1 nascente que n\u00e3o apele a uma foz. Disso se faz um rio.<br \/>\nDo cimo das escadas, ouvia-se, por isso, o som do rio. N\u00e3o agreste, pois aquele n\u00e3o \u00e9 o lugar de um leito r\u00e1pido. Antes o de uma prolongada estadia. O Vouga gosta daquela margem de Pessegueiro e ali se deleita\u2026 Era, por isso, um lugar de espera e de misteriosos aconteceres.<br \/>\nO Rio demorava-se e fazia-se sentir como serena voz das esperas. De todas as esperas. As que se viam, mas, principalmente, as que ouviam, sem que as vissem os olhos.<br \/>\nUm tal esperar-se o tempo que se alonga n\u00e3o podia sen\u00e3o ecoar no modo de ser. O modo pr\u00f3prio do ser da Mata.<br \/>\n&#8211; Como dizia, tantas vezes, a av\u00f3, duas pessoas da Mata podiam sair para a missa sem partilharem, at\u00e9 aos \u2018Santos\u2019, uma palavra que fosse. \u2013 Gracejou J. \u2013 Mas confiavam umas nas outras, como cegos firmes na m\u00e3o que os leva.<br \/>\nE silenciou-se, enquanto colhia pequenas violetas nascidas na sempre humedecida terra que repousava sobre o muro em que se encostavam aqueles degraus que davam para um pequeno curral.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o era ali que estavam os coelhinhos que o pai nos disse que o levara a querer descer, apressadamente, estas estreitas escadas, quando pequeno? \u2013 Recordou M., apontando para a porta velha e mal fechada que deixava adivinhar uma longa hist\u00f3ria de sucessivas ninhadas de l\u00e1paros.<br \/>\nUma luz, atravessando as j\u00e1 pronunciadas frestas daquela enrugada porta, fez parar a narrativa de M.<br \/>\nJ. continuava distra\u00eddo, de olhos abertos, a apanhar violetas.<br \/>\nErguendo-se, como que seduzida por uma voz misteriosa, M. encaminhou-se para o fundo dos degraus.<br \/>\nA medo, de olhos arregalados e cheios de mist\u00e9rio, abriu, pouco decidida, a porta que resistiu \u00e0 sua parca for\u00e7a.<br \/>\nNada!<br \/>\nA luz apagou-se.<br \/>\nRegressou ao lugar donde sa\u00edra.<br \/>\n&#8211; O que te mordeu? \u2013 Perguntou, com um certo tom de mal\u00edcia, J. \u2013 Havia coelhos em ninhada?<br \/>\nE voltou a dirigir os olhos para o que estava a fazer.<br \/>\nM. ficou, por\u00e9m, incomodada. Estava certa de ter visto uma luz. A rea\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o deixara-a com a certeza da sua incompreens\u00e3o. Decidiu, por isso, dispensar-se de lhe contar.<br \/>\nEstava, por\u00e9m, entre estes pensamentos quando voltou a parecer-lhe que algo luminoso parecia emergir do interior daquele sombrio curral.<br \/>\n&#8211; J., est\u00e1s a ver o mesmo que eu?<br \/>\nJ. ergueu os seus olhos das violetas e tentou perceber o que M. via.<br \/>\nEra ele, agora, que estava at\u00f3nito.<br \/>\nDe um salto, p\u00f4s-se junto \u00e0 porta, de olhos assombrados. Abriu-a e, tal como acontecera com M., a luz extinguiu-se.<br \/>\nSem jeito, com m\u00e3os e p\u00e9s trocados, subiu os degraus at\u00e9 junto da irm\u00e3.<br \/>\nO seu respirar era t\u00e3o tr\u00f4pego como o seu andar.<br \/>\n&#8211; Porque se apaga a luz quando abrimos a porta? Assusta-me isto.<br \/>\nEncostaram-se um ao outro, \u00e0 espera de que mais alguma coisa acontecesse.<br \/>\nNisto, nova luz emergiu.<br \/>\nM., mais corajosa, decidiu-se a enfrentar aquele mist\u00e9rio.<br \/>\nCompassadamente, aproximou-se da porta. A luz continuava intensa. Abriu, com cuidado, a porta. \u00c0 medida que a abria, a luz ia diminuindo de intensidade.<br \/>\nDecidiu voltar a fech\u00e1-la.<br \/>\nA luz voltou a robustecer-se.<br \/>\nPercebeu que, se abrisse a porta, n\u00e3o conseguiria que a luz se mantivesse acesa.<br \/>\nFechou, por momentos, os olhos para pensar, voltando costas \u00e0 porta, a que se encostou.<br \/>\nSem se aperceber, de olhos cerrados, uma ligeira brisa abriu, vagarosamente, a porta.<br \/>\nA luz mantinha-se acesa. Para J., por\u00e9m, a luz extinguia-se.<br \/>\nS\u00f3 para M. se mantinha a luz acesa, que se voltou para o interior do curral.<br \/>\nDe olhos fechados, via que a luz iluminava aquele modesto espa\u00e7o, que ganhava vida.<br \/>\nUm vulto estava sentado a um canto, num pequeno mocho, de queixo repousado sobre um velho cajado.<br \/>\nM. conservava os olhos fechados. Via, assim, toda aquela cena. Do cimo das escadas, J., confundido, nada percebia daqueles eventos. Aquele recanto era, para ele, apenas breu.<br \/>\nO homem, sentado no mocho e de queixo pousado sobre o velho cajado, sussurrou ao ouvido de M.:<br \/>\n&#8211; S\u00f3 de olhos fechados se pode ver a verdade de um homem.<br \/>\nM. abriu os olhos e tudo foi devolvido \u00e0 escurid\u00e3o.<br \/>\nSubiu as escadas, at\u00e9 junto do irm\u00e3o.<br \/>\nM. brilhava. Todo o seu rosto, o seu corpo era luz.<br \/>\nAbra\u00e7ou o irm\u00e3o, deu-lhe um suave beijo no rosto e pediu-lhe:<br \/>\n&#8211; Olha para mim\u2026 N\u00e3o! De olhos fechados!&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-19999","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19999"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20101,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19999\/revisions\/20101"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}