{"id":19963,"date":"2026-01-20T07:00:01","date_gmt":"2026-01-20T07:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19963"},"modified":"2025-11-15T20:41:50","modified_gmt":"2025-11-15T20:41:50","slug":"os-sete-dias-da-criacao-7-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-no-principio-criou-deus-deus-criador-nao-um-demiurgo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/os-sete-dias-da-criacao-7-luis-m-p-silva-ainda-o-primeiro-dia-no-principio-criou-deus-deus-criador-nao-um-demiurgo\/","title":{"rendered":"&#8216;Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o&#8217; |7| Lu\u00eds M. P. Silva &#8211; Ainda o primeiro dia: \u2018No princ\u00edpio criou Deus\u2026\u2019 \u2013 Deus Criador; n\u00e3o um demiurgo!"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">(\u2018Os Sete Dias da Cria\u00e7\u00e3o\u2019 | Rubrica dedicada ao di\u00e1logo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo originalmente publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.movimento-acr.pt\/historia-mundo-rural\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8216;Mundo Rural&#8217;<\/a><\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">A densidade de Gn 1,1 d\u00e1-nos pretexto para que regressemos, as vezes necess\u00e1rias, a este vers\u00edculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz-nos regressar a ele, destarte, a compreens\u00e3o do alcance da ideia de \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019. Apesar do paralelismo com que a nossa linguagem pretende aproximar este termo da a\u00e7\u00e3o do artista (quando, efetivamente, o movimento deveria ser o contr\u00e1rio: a a\u00e7\u00e3o do artista \u00e9 que \u2018se inspira\u2019 na do Criador), fazendo supor a ideia de uma a\u00e7\u00e3o sobre mat\u00e9ria previamente dada, o texto de G\u00e9nesis \u00e9 inequ\u00edvoco. Como lembra Gerhard von Rad, no seu cl\u00e1ssico \u2018o livro do G\u00e9nesis\u2019, o termo utilizado pelo autor b\u00edblico, para se referir \u00e0 a\u00e7\u00e3o criadora de Deus [\u00e9] \u2018um criar carente por completo de analogias. Com raz\u00e3o se diz que o verbo <em>bara\u2019, <\/em>\u2018criar\u2019 cont\u00e9m por um lado a no\u00e7\u00e3o de uma total aus\u00eancia de esfor\u00e7o e por outro a ideia de uma <em>creatio ex nihilo<\/em>, pois nunca foi ligado \u00e0 men\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria.\u2019 (p. 58). Esta abordagem pode ser confirmada pela leitura da entrada \u00abbara\u2019\u00bb no dicion\u00e1rio de Luis Alonso Sch\u00f6kel que, ap\u00f3s enunciar os diversos significados do termo (\u2018criar, dar o ser, tirar do nada, fazer, produzir, fundar, formar, plasmar\u2019), acrescenta \u2018o sujeito \u00e9 Deus\u2019 (p. 116).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o b\u00edblica sobre a cria\u00e7\u00e3o exclui, por isso, a conce\u00e7\u00e3o de um deus demi\u00fargico, t\u00e3o apraz\u00edvel aos gregos e aos mesopot\u00e2micos, um \u2018deus menor\u2019 a quem cabia apenas moldar uma mat\u00e9ria pr\u00e9-existente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o sedutora de um deus demi\u00fargico, que erra na interpreta\u00e7\u00e3o do texto b\u00edblico que \u00e9 inequ\u00edvoco, fez \u2018escola\u2019 e encontrou, ao longo dos tempos, novos seguidores. Santo Agostinho, nos s\u00e9culos IV e V, enfrenta uma das \u2018cabe\u00e7as da Hidra\u2019 \u00abdemi\u00fargica\u00bb nos maniqueus, aos quais ele mesmo tinha pertencido at\u00e9 \u00e0 sua convers\u00e3o ao cristianismo, tendo, ap\u00f3s essa \u2018revolu\u00e7\u00e3o espiritual\u2019, dedicado particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dessa abordagem sedutora, da qual, por\u00e9m, ainda hoje se manifestam alguns lampejos na pr\u00f3pria leitura de alguns crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, \u00e0 abordagem demi\u00fargica, que pensava Deus como um \u2018criador de segunda ordem\u2019, por apenas lhe caber moldar uma mat\u00e9ria pr\u00e9-existente, associava-se a convic\u00e7\u00e3o inerente de que a Deus caberia atribuir a causa do bem, mas tamb\u00e9m do mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho, na obra que sugiro, abaixo, enfrenta esta quest\u00e3o, afirmando que o mal \u00e9 a aus\u00eancia de bem<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, tal como as trevas s\u00e3o a aus\u00eancia da luz e o sil\u00eancio a aus\u00eancia do som. Reportando-se ao que \u00e9 dito no vers\u00edculo 4 (\u2018separou a luz das trevas\u2019), o bispo de Hipona comenta que \u2018n\u00e3o se diz neste passo \u00abDeus fez as trevas\u00bb pois estas [\u2026] mais n\u00e3o s\u00e3o que a aus\u00eancia da luz e, portanto, simplesmente procedeu \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre ambas. De igual modo n\u00f3s, gritando, produzimos a voz; e estando calados, produzimos o sil\u00eancio, porque a cessa\u00e7\u00e3o da voz \u00e9 o pr\u00f3prio sil\u00eancio: e todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do sil\u00eancio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos sil\u00eancio.\u2019 (p. 67)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, uma aus\u00eancia n\u00e3o carece de criador. Mas sim \u2018algo\u2019, o \u2018ser\u2019, carece de criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 toda uma outra vis\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um deus demi\u00fargico molda, confusamente, o cosmos e o caos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Deus criador cria, do nada, algo. Esse algo \u00e9, em si mesmo, como dir\u00e1 o autor b\u00edblico, no mesmo vers\u00edculo 4, \u2018bom\u2019. (Veremos, em outros momentos da nossa reflex\u00e3o, o alcance total deste reconhecimento das realidades criadas como \u2018boas\u2019. Para j\u00e1, enunciemos, apenas essa constata\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, \u00e9 de \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019 que nos fala o autor b\u00edblico. E, para o sublinhar, o autor deste primeiro relato da cria\u00e7\u00e3o, autor que a an\u00e1lise exeg\u00e9tica designa como \u2018sacerdotal\u2019 e identifica com a letra \u2018P\u2019 (de \u2018Priester\u2019) estrutura uma narrativa que, como bem constata D. Ant\u00f3nio Couto, come\u00e7a e acaba com a ideia de \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, a primeira narrativa da cria\u00e7\u00e3o comp\u00f5e-se como uma unidade observ\u00e1vel entre Gn 1,1 e Gn 2,4a. E, olhando com aten\u00e7\u00e3o, verificamos que esta estrutura liter\u00e1ria come\u00e7a com \u2018no princ\u00edpio, Deus criou?\u2019 e termina, em Gn 2,4a, com \u2018esta \u00e9 a origem da cria\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us e da terra\u2019. (A tradu\u00e7\u00e3o proposta por D. Ant\u00f3nio Couto \u00e9 ainda mais significativa: \u2018No princ\u00edpio CRIOU Deus os c\u00e9us e a terra; [\u2026] Esta \u00e9 a hist\u00f3ria dos c\u00e9us e da terra quando foram CRIADOS<em>\u2019).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se est\u00e1 a falar de outra coisa, neste texto: apenas e s\u00f3 da \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sublinhemos, para o objetivo que nos leva a formular estas reflex\u00f5es [o encontro entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o crist\u00e3], que o foco da reflex\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no \u2018modo como\u2019 Deus cria, mas sim, na afirma\u00e7\u00e3o de que \u2018Deus cria\u2019, pelo que, \u2018o que Deus cria\u2019 tem o sinal de provir dele: a bondade intr\u00ednseca. Esta leitura da radical bondade origin\u00e1ria contrasta, de forma surpreendente (\u2018inspirada\u2019, diremos, enquanto religiosos), com as cosmologias circundantes ao povo hebreu: grega, babil\u00f3nica, fen\u00edcia e eg\u00edpcia (cfr. D. Ant\u00f3nio Couto, p. 19). Nestas, o bem e o mal convivem e combatem-se, em plano de igualdade ou, at\u00e9, no limite, dando a preced\u00eancia ao mal em rela\u00e7\u00e3o ao bem (o bem nasce do caos e fica em permanente \u2018coniv\u00eancia\u2019 (p. 18) com ele), n\u00e3o permitindo esperar uma salva\u00e7\u00e3o. A tal se deve a condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica das mitologias envolventes \u00e0 leitura b\u00edblica. E da\u00ed, tamb\u00e9m, ser de sublinhar a \u2018novidade\u2019 que esta traz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que possa haver reminisc\u00eancias das mitologias circundantes, nos termos originais hebraicos (a refer\u00eancia ao \u2018abismo\u2019 \u00e9 uma delas, sendo que o termo hebraico \u00abteh\u00f4m\u00bb (abismo) pode evocar a ideia de \u2018Tiamat\u2019, o monstro vencido na luta com Marduk, na mitologia mesopot\u00e2mica, com cuja carca\u00e7a se faz o c\u00e9u), toda a narrativa toma essas \u2018alus\u00f5es\u2019 e reminisc\u00eancias para as reconfigurar num novo relato em que n\u00e3o h\u00e1 margem para ambiguidades: h\u00e1 um s\u00f3 Criador, que cria, pela sua vontade, a partir do nada, originando, do que \u00e9 espiritual (bom em si mesmo), o que \u00e9 material. Fica, assim, de um s\u00f3 \u2018trago\u2019, devorado todo o dualismo que op\u00f5e mat\u00e9ria a esp\u00edrito, bem a mal, como se de duas naturezas antag\u00f3nicas se tratasse. Com Santo Agostinho, poderemos concluir que o mal fica reduzido ao que \u00e9: um nada que \u00e9 aus\u00eancia!<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\">Sugest\u00f5es bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis Alonso Sch\u00f6kel, <em>Dicion\u00e1rio B\u00edblico Hebraico-Portugu\u00eas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 2014<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2013\">\n<li>Ant\u00f3nio Couto, <em>O livro do G\u00e9nesis<\/em>, Le\u00e7a da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho, <em>Da interpreta\u00e7\u00e3o do G\u00e9nesis: dois livros contra os maniqueus<\/em>, Prior Velho, Paulinas, 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones S\u00edgueme, 1988<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Suportado na vis\u00e3o agostiniana, venho defendendo que o mal deveria pensar-se, antes, como a \u2018insufici\u00eancia\u2019 do bem, permitindo compreender, de forma mais compassiva, a destrutiva a\u00e7\u00e3o do mal moral, voluntariamente determinado ou consentido.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/didgeman-153208\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1746506\">Thomas<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1746506\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2018Os Sete Dias<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19965,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,214],"tags":[],"class_list":["post-19963","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-luis-manuel-pereira-da-silva","category-os-sete-dias-da-criacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19963"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20202,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19963\/revisions\/20202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19965"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}