{"id":19895,"date":"2025-11-03T15:07:14","date_gmt":"2025-11-03T15:07:14","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19895"},"modified":"2025-11-07T10:37:37","modified_gmt":"2025-11-07T10:37:37","slug":"luis-manuel-p-silva-habituamo-nos-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-p-silva-habituamo-nos-a-morte\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel P. Silva | Habitu\u00e1mo-nos \u00e0 morte\u2026"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Artigo publicado na <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/habituamo-nos-a-morte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Ecclesia<\/a><\/h6>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo de tr\u00e1gico e dram\u00e1tico em ter-se uma boa resposta, mas n\u00e3o se lhe encontrar pergunta correspondente. Como a chave ca\u00edda na cal\u00e7ada, \u00e0 qual s\u00f3 um acaso poder\u00e1 vir a restituir utilidade, ao encontrar-se de novo a porta em que encaixava e que permitia abrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me residir, aqui, a mais profunda causa da crise das religi\u00f5es tradicionais. Possuem s\u00e1bias e demoradas respostas para interroga\u00e7\u00f5es entretanto sumidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Soma-se, por\u00e9m, \u00e0 tragicidade original e essencial daqui decorrente um segundo n\u00edvel tr\u00e1gico: as perguntas nunca deveriam ter-se sumido, dada a sua natureza de condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 exist\u00eancia do perguntador. Se n\u00e3o pergunta sobre si mesmo e a perman\u00eancia de si aquele que pergunta, sobre o que perguntar\u00e1? Bastar-se-\u00e1 nas perguntas ef\u00e9meras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9, por isso, apenas tr\u00e1gico para as religi\u00f5es constatarem que possuem respostas para perguntas que, entretanto, se esfumaram. \u00c9-o, principalmente, pela natureza das perguntas sumidas. De outro modo: a verdadeira tragicidade est\u00e1 em que o sujeito humano tenha desistido de se interrogar, tenha desistido de se perguntar sobre si, tenha desistido, afinal, de ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da emerg\u00eancia evolutiva do ser humano pode fazer-se a partir da capacidade de o humano se deixar interpelar pela unicidade e inevitabilidade da morte. No processo evolutivo, sabemos estar perante comunidades humanas porque as vemos associadas a (mesmo que rudimentares) sinais do culto dos mortos. H\u00e1 humanos onde h\u00e1 a interroga\u00e7\u00e3o sobre a \u2018questionabilidade\u2019 do morrer. Os animais n\u00e3o t\u00eam culto dos mortos. N\u00e3o se interrogam sobre o que \u00e9 morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um olhar fino percebe a concomit\u00e2ncia entre a interroga\u00e7\u00e3o sobre o morrer e a resposta que \u00e9 viver. A lenta, mas consolidada hist\u00f3ria, do reconhecimento da dignidade do que \u00e9 ser-se humano faz-se do confronto perante a inevitabilidade, unicidade e incontornabilidade da morte, perante a qual se torna necess\u00e1rio assegurar condi\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o. \u00c9 que a essas notas com que se afigura a morte soma-se uma \u00faltima: a irreversibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O reconhecimento da necessidade de se proteger esse \u2018algo\u2019 considerado \u2018dignidade humana\u2019 encontra o seu ber\u00e7o neste inconsciente confronto com a impossibilidade de reverter a a\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, os tempos em que vivemos trazem-nos uma radical novidade que a hist\u00f3ria da humanidade nunca ousara permitir-se: \u2018desdensificou\u2019 (anulou a densidade) a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, morre-se como se j\u00e1 n\u00e3o se vivesse: sem drama! Acresce a isto um salto para a frente: pretende-se, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o evitar a morte, mas, inclusive, assegurar que se pode pretend\u00ea-la e obt\u00ea-la. A morte ficou ao alcance da \u2018m\u00e3o que embala o ber\u00e7o\u2019, do desejo feito direito sussurrado sob a capa da compaix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sucumbem, assim, de uma s\u00f3 tirada, a dramaticidade da morte e a inviolabilidade do viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deveriam incomodar-nos as mortes solit\u00e1rias, na ordem das centenas, que s\u00e3o levadas \u00e0 terra, sem a companhia de qualquer familiar. (Ouvir <a href=\"https:\/\/rr.pt\/fotoreportagem\/renascenca-reportagem\/2025\/10\/17\/ha-cada-vez-mais-nomes-estrangeiros-imigrantes-sao-quase-um-quarto-dos-funerais-solitarios-em-lisboa\/444114\/\">https:\/\/rr.pt\/fotoreportagem\/renascenca-reportagem\/2025\/10\/17\/ha-cada-vez-mais-nomes-estrangeiros-imigrantes-sao-quase-um-quarto-dos-funerais-solitarios-em-lisboa\/444114\/<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deveriam p\u00f4r-nos em sobressalto os n\u00fameros dos suic\u00eddios por solid\u00e3o (https:\/\/youtu.be\/wKSIN7hIi0Y), nas sociedades do bem-estar e modernas. A modernidade favoreceu a emerg\u00eancia de um modo de nos pensarmos radicalmente solipsista, autossuficiente, vis\u00e3o que venho designando como intrinsecamente \u2018inumana\u2019, pois o humano \u00e9, por natureza, um ser dependente, nascido sempre de dois, necessitado de mais do que de dois para se saber existente, carente dos outros para ter uma cultura, uma l\u00edngua, um ch\u00e3o para pisar. Mas uma certa modernidade (n\u00e3o tinha de ser assim! A modernidade esqueceu-se de que a autonomia \u00e9 a interioriza\u00e7\u00e3o da lei e n\u00e3o a capacidade de o sujeito \u2018criar a lei\u2019) tomou o rumo de nos isolar, negando-nos como \u2018pastores do ser\u2019 (Heidegger), como aqueles que recebem o ser que devem proteger e cuidar. Iludimo-nos, pensando-nos originariamente \u2018eus\u2019 sem \u2018tus\u2019. Mas a g\u00e9nese dos sujeitos \u00e9 a invertida a esta: primeiro, est\u00e1 o \u2018tu\u2019, diante do qual emerge e nasce o \u2018eu\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte \u00e9, assim, enquanto experi\u00eancia antecipada no morrer dos outros, ocasi\u00e3o de densa interroga\u00e7\u00e3o sobre o viver. No morrer dos outros, reconhecidos como \u2018tus\u2019, renascemos como humanos que regressam \u00e0 fonte de todas as perguntas. Se perdemos a capacidade de nos deixarmos incomodar com o morrer, se tornamos ass\u00e9ptica a morte, n\u00e3o \u00e9 apenas a morte que deixa de o ser, mas o pr\u00f3prio viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, por isso, urgente \u2018desabituarmo-nos\u2019 da morte. H\u00e1 que devolver-lhe a sua unicidade, a sua dramaticidade, a sua condi\u00e7\u00e3o de lugar de inquietude. \u2018Nenhuma pergunta \u00e9 proibida\u2019 \u2013 assim dever\u00e1 manter-se, perante a morte, como dizem os dominicanos, na sua academia de Bagdad.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada morrer, em cada morte, cria-se a cova de um ber\u00e7o de um renascimento: regressamos \u00e0 humanidade, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o do ser feito de \u2018h\u00famus\u2019, fr\u00e1gil, vulner\u00e1vel, e disso sempre consciente. N\u00e3o alienado ou distra\u00eddo de si. Presente a si! Densamente perturbado pela morte para, na resposta da esperan\u00e7a, buscar a quietude nunca acomodada ou sossegada.<\/p>\n<p>Como diz o poeta Jos\u00e9 Rui Teixeira, no seu \u2018Hitoritabi\u2019:<\/p>\n<p>\u2018Disseram-me que foi uma morte s\u00fabita.<\/p>\n<p>A morte \u00e9 sempre um processo, pensei.<\/p>\n<p>E a esperan\u00e7a lastimou em fa\u00falhas,<\/p>\n<p>do outro lado do arame farpado,<\/p>\n<p>esse modo t\u00e3o esbranqui\u00e7ado do frio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Tenho-me convencido das minhas incertezas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A f\u00e9 \u00e9 uma ferramenta sem descanso.\u2019<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/kasunchamara-2976103\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1550501\">Kasun Chamara<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1550501\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado na<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19896,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[146,55],"tags":[],"class_list":["post-19895","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19895"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19895\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19926,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19895\/revisions\/19926"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19896"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}