{"id":19874,"date":"2025-10-23T07:07:08","date_gmt":"2025-10-23T06:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19874"},"modified":"2025-12-16T13:41:37","modified_gmt":"2025-12-16T13:41:37","slug":"alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-17-misterio-na-quinta-dos-bichos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/alberto-ferreyra-mysterios-lusitanos-contos-texto-e-locucao-17-misterio-na-quinta-dos-bichos\/","title":{"rendered":"17 | Alberto Ferreyra | Myst\u00e9rios lusitanos [contos &#8211; texto e locu\u00e7\u00e3o] | Mist\u00e9rio na quinta dos bichos"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Myst\u00e9rios lusitanos<\/em> | A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitamos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distra\u00e7\u00e3o, ocultas, sob m\u00faltiplos disfarces, at\u00e9 que algu\u00e9m as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou ca\u00e7ar o grasnar das gralhas. Est\u00e1-lhe, por isso, muito grato&#8230;)<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Alberto Ferreyra*<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"17   Mist\u00e9rio na quinta dos bichos\" width=\"640\" height='360' src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ajzi14RnrxM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os olhos fechados\u2026 Tudo \u00e9 realidade que entra pelas narinas.<br \/>\nJ. e M. sentem, no rosto, o afago da natureza que se estende diante de si. Sob as p\u00e1lpebras corridas, cheiram, ao longe, as rumorejantes \u00e1guas do rio Vouga, lento e demorado. Uma suave brisa embala o l\u00e2nguido movimento do baloi\u00e7o onde descansam. S\u00f3 os dois e o mundo! O mundo e a solid\u00e3o acompanhada.<br \/>\nCom o vento pregui\u00e7oso, os odores do tempo.<br \/>\nAlfazema\u2026<br \/>\nLaranjeira\u2026<br \/>\nAlecrim\u2026<br \/>\nJasmim\u2026<br \/>\nOs olhos n\u00e3o veem, mas o encanto do tempo assoma-lhes, pelas narinas despertas, ao mais \u00edntimo de si.<br \/>\nSonham que o mundo \u00e9 s\u00f3 perfume, sem poder possuir-se em recipiente que cont\u00e9m e ret\u00e9m. Um ondular sem corpo\u2026<br \/>\nNisto, J. desperta M., dando-lhe para a m\u00e3o um vaso de barro cru. Pede-lhe que volte a fechar os olhos e aproxime o vaso do seu nariz.<br \/>\n&#8211; O que v\u00ea o teu nariz?<br \/>\nPerplexa, M. hesita, como se tomada por um s\u00fabito pavor. Pareceu-lhe ver, com clareza, um rosto de uma mem\u00f3ria j\u00e1 long\u00ednqua.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o te assustes. \u2013 Insistiu J. \u2013 Volta a fechar os olhos e v\u00ea o que sentes\u2026<br \/>\nM. anuiu.<br \/>\nFechou, de novo, com for\u00e7a, os olhos, aproximou, do seu rosto, o vaso de barro cru, e deixou-se transportar.<br \/>\nSentia-se levada por subtis perfumes a que se ligavam viv\u00eancias de que se esquecera ou que nem sua mem\u00f3ria eram. Eram mem\u00f3rias contidas nos cheiros do fluir do tempo. Cada odor era um lugar, uma pessoa, um tempo, uma sombra ou uma luz\u2026 O seu ser era s\u00f3 odores! Tudo era cheiros, perfumes ou desprez\u00edveis odores f\u00e9tidos.<br \/>\nJ. apreciava\u2026<br \/>\nAs rugas na testa de M. faziam supor momentos nebulosos a que se seguiam longos tempos de testa lisa. Os tempos sucediam-se.<br \/>\nNo interior de M., apenas odores.<br \/>\n&#8211; Sonhamos poder conter com cheiros o que vivemos, mas o olfato \u00e9 o mais espiritual dos sentidos. Nada o consegue reter.<br \/>\nJ. parecia estar a pensar em alta voz.<br \/>\nE continuou\u2026<br \/>\n&#8211; Sempre desej\u00e1mos prend\u00ea-lo, grav\u00e1-lo e reproduzi-lo, mas o esquivo sabor do ser esvai-se por entre os dedos\u2026 Pelas narinas, para ser mais preciso! Quem o puder, um dia, conter, saber\u00e1 qual o cheiro do C\u00e9u. Mas, at\u00e9 l\u00e1, restar\u00e1 este vaso de barro cru.<br \/>\nM. pareceu acordar de um sonho.<br \/>\n&#8211; Onde o encontraste?<br \/>\n&#8211; H\u00e1, aqui perto, uma pequena quinta. N\u00e3o \u00e9 bem uma quinta, fechada e retida. \u00c9 uma escassa l\u00edngua de terra entre a estrada e o rio. \u00c9 atravessada por um pequeno curso de \u00e1gua onde dizem ter-se saciado, em tempos long\u00ednquos, um afamado ciclista nacional, em prova muito aplaudida. \u00c9 uma esp\u00e9cie de o\u00e1sis num deserto de eucaliptos. Resoluta contra o fogo, a vegeta\u00e7\u00e3o faz-se de \u00e1rvores j\u00e1 longevas, resistentes a toda a viol\u00eancia e f\u00faria. Assim o decidira o seu dono, renitente em abater as mem\u00f3rias que lhe vinham dos seus antepassados que ali deixaram crescer robustas recorda\u00e7\u00f5es em formas verdes. Em boa hora o determinara. Naquele escasso recanto, resistia-se. E, sob a folhagem rasteira, verde, sempre verde, fervilha vida em nutritiva terra de que se recolheu o barro com que se fez este vaso. Nele, os odores ret\u00eam-se para poderem reproduzir-se. Aprecia!<br \/>\nM. voltou a fechar os olhos. E novas mem\u00f3rias lhe assomaram \u00e0 mente. Vivas&#8230; Muito vivas!<br \/>\nO viver transfigurava-se em odores muito firmes, determinados, quase carnais. Sentia-os como se vivesse cada momento, agora. Agora, mesmo! Odores de tempos vividos, uns por si mesma, outros como mem\u00f3rias de fam\u00edlia, tangidas de dores e sofrimentos.<br \/>\nAo longe (num longe feito tempo, que n\u00e3o espa\u00e7o\u2026), sente o odor das primeiras chuvas que enchem do sabor a terra as entranhas da alma. Regressa ao lugar que fez a inf\u00e2ncia dos av\u00f3s.<br \/>\nSente um seco odor a p\u00f3 que a leva a voar at\u00e9 ao lugar onde se vota, em tempos de ditadura, num general que o regime derrubar\u00e1 \u00e0 lei da bala.<br \/>\nAssaltam-lhe a mente as mem\u00f3rias contadas pelo seu av\u00f4.<br \/>\nO odor seco do p\u00f3 leva-a ao interior da sala de soalho de madeira onde se vota.<br \/>\nPor entre as frinchas do soalho, caem os votos dos opositores, para que a contagem confirme a perman\u00eancia dos autocratas.<br \/>\n&#8211; Sr. Cruz, e se fal\u00e1ssemos do fontan\u00e1rio tantas vezes adiado?! \u2013 Interroga o representante do regime ao delegado da oposi\u00e7\u00e3o, levando-o para longe do lugar onde se fazem as contas de uma enviesada elei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEsfuma-se a mem\u00f3ria e continua a voar pelas ondas do odor\u2026<br \/>\nSente o cheiro das \u00e1guas calmas do rio, ladeado de perfumados laranjais.<br \/>\nDeixa-se levar ao tempo de um s\u00e9culo passado em que um renomado abade, de nome Santiago, pagou, com oito mil cruzados, a ponte, n\u00e3o distante dali, que continua a unir o que estava separado, como o pretendera o homem da igreja. Pois de que se faz a miss\u00e3o de um eclesi\u00e1stico sen\u00e3o de unir o que est\u00e1 separado?!<br \/>\nVai, ainda, ondulando pelos odores das laranjeiras, ao tempo em que um homem, de nome Severi, governava aquelas terras, mal sabendo que do seu nome restaria marca perene na topon\u00edmia da regi\u00e3o.<br \/>\nOdores! S\u00f3 odores!<br \/>\nSente, muito impregnado nas f\u00edmbrias da alma, o clamoroso odor de sangue de inocente derramado \u00e0s m\u00e3os de um cruel pai rei ciumento dos amores do filho por uma donzela de nome In\u00eas.<br \/>\nO seu viajar pelos odores leva-a ao mosteiro onde se tumulam os amores subitamente derrotados ao fio da espada. E v\u00ea, sob o t\u00famulo da donzela, os rostos dos carrascos sobre que fizeram o escultor repousar o t\u00famulo, como sinal da vit\u00f3ria do bem sobre o mal. Alcoba\u00e7a perpetuaria, no transepto da sua Igreja monasterial, a imagem de que os cru\u00e9is do mundo n\u00e3o sair\u00e3o vencedores\u2026 Mas o odor do sangue inocente \u00e9 penetrante!<br \/>\nProfundas rugas se cavam sobre os olhos de M. \u00c9 perturbadora aquela imagem, ainda que esquiva, como os odores que a provocam.<br \/>\nT\u00e3o esquivos s\u00e3o os odores! Como se escapam qual almas incont\u00edveis!<br \/>\nTudo ali, naquele vaso.<br \/>\nJ. estava feliz. Sentia, no rosto de M., o fasc\u00ednio de fruir do milagre a que a humanidade estava impedida de aceder: conter e reproduzir os odores de outros tempos e lugares.<br \/>\nQuando o conseguir\u00e1 fazer um novo Galileu, j\u00e1 n\u00e3o do sentido a que acedemos pelo olhar, mas do olfato que nos antecede?<br \/>\nJ. recolheu, das m\u00e3os de M., o vaso.<br \/>\nLogo se lhe abriram, de novo, os olhos.<br \/>\nBrilhava como a vis\u00e3o do transfigurado.<br \/>\nN\u00e3o pretendia, por\u00e9m, ali armar nova tenda. Havia que descer \u00e0 quinta de onde recolhera a terra para fazer aquele miraculoso vaso.<br \/>\nCorreram\u2026<br \/>\nN\u00e3o deram conta de como com eles correra, tamb\u00e9m, o tempo.<br \/>\nAp\u00f3s curvas, muitas curvas, chegaram \u00e0 pequena quinta dos bichos. Bem lhes apetecia mudar-lhe o nome. O \u2018lugar ad\u00e2mico\u2019, melhor seria.<br \/>\nComo se daquela fecunda terra se tivesse feito corpo de Ad\u00e3o, reservando-lhe Deus o poder de guardar na sua inacess\u00edvel mem\u00f3ria os cheiros de que se faria a sua vida.<br \/>\nM. parecia ouvir, no rumorejar das \u00e1guas que desciam em dire\u00e7\u00e3o ao Vouga, a cad\u00eancia de um vers\u00edculo ausente de G\u00e9nesis: \u2018Ficar\u00e1, como sinal da tua vergonha, a maldi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poderes tornar acess\u00edveis os perfumes do teu viver.\u2019<br \/>\nJ. fez rolar, pelas \u00e1guas do pequeno ribeiro, o vaso que logo se dissolveu, como se sal para salgar.<br \/>\nRecordava-se de que, pelas narinas, Deus insuflara o Seu esp\u00edrito\u2026<br \/>\nNos perfumes do mundo, reavivar-se-ia, para sempre, a mem\u00f3ria do primeiro momento. Para sempre inacess\u00edvel o mundo dos cheiros. Como mem\u00f3ria de que o homem se faz de corpo e alma. De um corpo que n\u00e3o consegue conter toda a alma\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/tumisu-148124\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Tumisu<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4203628\">Pixabay<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da m\u00e3o de algu\u00e9m nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antu\u00e3, em abril de 2024. \u00c9, por isso, um prematuro autor liter\u00e1rio, germinado da inspira\u00e7\u00e3o que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de g\u00e9nios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel Garc\u00eda Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fict\u00edcio e o hist\u00f3rico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo j\u00e1 depois de fechado o conto. O real continua a fecundar hist\u00f3rias na mente de quem l\u00ea Ferreyra. Cada conto, feito dos mist\u00e9rios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espa\u00e7o, esticando-o at\u00e9 ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se &#8216;sil\u00eancio&#8217; (&#8216;myst\u00e9rio&#8217; alude \u00e0 etimologia grega da palavra, que remete para o &#8216;fazer sil\u00eancio&#8217;, &#8216;emudecer-se&#8217;&#8230;) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito &#8216;branquinho&#8217;, fazem emergir, do real em que se enredam, hist\u00f3rias que, nascendo da imagina\u00e7\u00e3o de Ferreyra, permanecem como realidades poss\u00edveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o foi real, Ferreyra o criar\u00e1, inspirado numa cosmovis\u00e3o que tanto deve \u00e0quela religi\u00e3o que fez do encarnado a condi\u00e7\u00e3o fundamental do existir.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vinte e tr\u00eas (23) de cada m\u00eas, habitaremos o mundo pelo imagin\u00e1rio de Alberto Ferreyra&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Myst\u00e9rios lusitanos |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[208,209],"tags":[],"class_list":["post-19874","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-ferreyra","category-mysterios-lusitanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19874"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20100,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19874\/revisions\/20100"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}