{"id":19817,"date":"2025-10-08T16:33:42","date_gmt":"2025-10-08T15:33:42","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19817"},"modified":"2025-10-04T16:38:49","modified_gmt":"2025-10-04T15:38:49","slug":"luis-manuel-pereira-da-silva-o-desafio-de-fazer-amanhecer-para-tempos-de-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/luis-manuel-pereira-da-silva-o-desafio-de-fazer-amanhecer-para-tempos-de-noite\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva | O desafio de fazer amanhecer: para tempos de noite\u2026"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite e o dia s\u00e3o portentosas met\u00e1foras, densos s\u00edmbolos da condi\u00e7\u00e3o \u00e9tica do ser humano, coletivamente pensado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia \u00e9 esse tempo em que um sol comum orienta o agir humano. Refer\u00eancias comuns iluminam o caminhar, tamb\u00e9m ele comum, dos descendentes de Ad\u00e3o, essoutra imagem simb\u00f3lica da condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil que a todos caracteriza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite dos tempos, por\u00e9m, apaga-se a luz comum e fica a penumbra ou, mesmo, a densa escurid\u00e3o. Fr\u00e1gil, como no dia, o homem procura n\u00e3o se deixar abater pelo peso das trevas. E emergem as bruxuleantes centelhas de luz pr\u00f3pria. J\u00e1 n\u00e3o a luz comum, mas as autogeradas fontes de luminosidade. E, na aus\u00eancia de uma natural luz comum, brotam as robustas luzes nas trevas, que se imp\u00f5em, como holofotes, aos mais hesitantes e esperan\u00e7osos de um novo amanhecer, s\u00e1bios de uma mem\u00f3ria que lhes lembra que n\u00e3o s\u00e3o, eles mesmos, a luz. E densifica-se o poder dos que, na sombra, encandeiam os demais e lhes imp\u00f5em o seu irradiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque \u00e9 a terra que gira em torno do sol, unem-se as m\u00e3os do que as fazem rodopiar sobre si, de modo a provocar um novo amanhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele poder\u00e1 tardar. Muitas luzes se sumir\u00e3o sob a incandesc\u00eancia dos fortes, mas a noite n\u00e3o durar\u00e1 para sempre. \u00c9 preciso \u00e9 n\u00e3o confundir, entre as sombras, as agita\u00e7\u00f5es do vento do caminhar de um Homem. E permanecer peregrinante na esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tempos s\u00e3o de noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os nomes com que se queria proteger o Homem renomearam-se e s\u00e3o, agora, a sua fonte de destrui\u00e7\u00e3o. Dos direitos ditos protegidos da tenta\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria resta um vago desejo, reconfigurados que est\u00e3o sob a capa de um individualismo que tornou sol um relampejo solit\u00e1rio de luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem invertido isolou-se, fechou-se, amarfanhou-se numa ilus\u00e3o de si, convencido de que o foco que leva na m\u00e3o o tornou um novo pirilampo. Mas a sua luz n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 a de uma natureza protegida de todos os assaltos. Buscava, no dia, a luz para onde se projetava. Projeta-se, agora, como luz de si mesmo. Oh, v\u00e3 cegueira de um olhar apagado pela incandesc\u00eancia da pr\u00f3pria luz!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abandonou o seu ser de peregrino. Tornou-se um errante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3. Olha em redor e v\u00ea-se isolado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o v\u00ea, afinal. Pressente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o dia vir\u00e1\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia j\u00e1 veio, ali\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa outra noite\u2026 Na aurora dos tempos, a noite dos homens deu lugar ao dia de Deus e a semente da esperan\u00e7a foi escavada na rocha e lan\u00e7ada \u00e0 terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terra foi tomada em m\u00e3os, girando de si sobre si e aguarda a Hora. O dia vencer\u00e1, j\u00e1 vencedor que \u00e9. E os \u2018eus\u2019 j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o s\u00f3 somados, mas comunionados como pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque ser-se indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9, ainda, ser si mesmo. S\u00f3 no outro se \u00e9 si mesmo. Sem \u2018tus\u2019, n\u00e3o h\u00e1 ainda, dia. \u2018Tus\u2019 que irmanam, \u2018tus\u2019 que s\u00e3o irm\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia vir\u00e1\u2026 O dia j\u00e1 veio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim o lembrou o s\u00e1bio rabino Pinchas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abRabi Pinchas perguntou aos seus disc\u00edpulos como \u00e9 que se reconhece o momento em que acaba a noite e come\u00e7a o dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 momento em que h\u00e1 luz suficiente para distinguir um c\u00e3o de um carneiro?&#8221;, perguntou um dos disc\u00edpulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o&#8221;, respondeu o rabi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 o momento em que conseguimos distinguir uma tamareira de uma figueira?&#8221;, perguntou o segundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 esse momento&#8221;, replicou o rabi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ent\u00e3o \u00e9 quando chega a manh\u00e3?&#8221;, perguntaram os disc\u00edpulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tamb\u00e9m n\u00e3o. \u00c9 no momento em que olhamos para o rosto de qualquer pessoa e a reconhecemos como nosso irm\u00e3o ou nossa irm\u00e3&#8221;, replicou o rabi Pinchas. E concluiu: &#8220;Enquanto n\u00e3o o conseguirmos, continua a ser noite&#8221;.\u00bb<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite dos tempos, sente-se, j\u00e1, o calor da aurora, meu irm\u00e3o!<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Tomas Hal\u00edk, <em>A noite do confessor: a f\u00e9 crist\u00e3 numa era de incerteza<\/em>, Prior Velho, Paulinas, 2014, p. 277.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor, Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Autor de &#8216;Bem-nascido&#8230; Mal-nascido&#8230; Do &#8216;filho perfeito&#8221; ao filho humano&#8217;, &#8216;Ensaios <em>de<\/em> liberdade&#8217; e de &#8216;Teologia, ci\u00eancia e verdade: fundamentos para a defini\u00e7\u00e3o do estatuto epistemol\u00f3gico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg&#8217;<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/stocksnap-894430\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2563389\">StockSnap<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2563389\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Manuel Pereira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19818,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[146,55],"tags":[],"class_list":["post-19817","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata","category-luis-manuel-pereira-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19817"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19817\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19820,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19817\/revisions\/19820"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19818"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}