{"id":19813,"date":"2025-10-01T12:49:31","date_gmt":"2025-10-01T11:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=19813"},"modified":"2025-10-01T12:49:31","modified_gmt":"2025-10-01T11:49:31","slug":"tiago-azevedo-ramalho-a-solidao-de-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-azevedo-ramalho-a-solidao-de-israel\/","title":{"rendered":"Tiago Azevedo Ramalho | A Solid\u00e3o de Israel"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Direto ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No nome Israel recobre-se uma ambiguidade que importa desimplicar \u2013 para depois manter. Quem \u00e9 Israel? O Estado moderno que sobe da costa interior do Mediterr\u00e2neo at\u00e9 ao alto de Jerusal\u00e9m? Ou a comunidade dos filhos de Jacob, depois chamado Israel, que nesse mesmo espa\u00e7o veio a constituir um Reino que depois foram dois, comunidade deportada uma e outra vez, at\u00e9 que, desde a definitiva destrui\u00e7\u00e3o do Templo j\u00e1 de si uma vez destru\u00eddo e reconstru\u00eddo, corria o ano de 70 d.C., se encontra dispersa pelas sete partidas do mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deste segundo Israel, volvidos os horrores do Holocausto, todos \u2013 \u2026ao menos fossem todos\u2026 \u2013 se apiedam; mas sobre aquele primeiro impende uma impiedosa acusa\u00e7\u00e3o. <em>J\u2019accuse, j\u2019accuse, j\u2019accuse\u2026<\/em> um zunido fustiga o espa\u00e7o, dardejando contra o acusado o excepcionalismo da sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria. Acusa\u00e7\u00e3o repetida e impediosa, acusa\u00e7\u00e3o de inimigos jurados, mas tamb\u00e9m de amigos prometidos. Dolorosa acusa\u00e7\u00e3o\u2026 \u00abse o ultraje viesse de um inimigo, eu poderia suport\u00e1-lo; se a agress\u00e3o partisse de quem me odeia, talvez dele me escondesse. Mas \u00e9s tu, meu companheiro, meu familiar e meu amigo, com quem vivia em doce intimidade e nas festas frequentava a casa de Deus\u00bb [Sl 54 (55), 13-14].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pode distinguir-se o primeiro do segundo Israel? Pode uma oposi\u00e7\u00e3o radical ao Estado de Israel evitar o anti-juda\u00edsmo? Em tese pode. Mas o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel em tese? Dif\u00edcil \u00e9 agir no tempo, e prevenir a repeti\u00e7\u00e3o daquelas l\u00f3gicas a que j\u00e1 bastas vezes se deu manifesta\u00e7\u00e3o. Dois mil anos de experi\u00eancia imp\u00f5em o reconhecimento de que n\u00e3o v\u00eam sendo f\u00e1ceis as paragens judaicas em lugar algum, e que a aus\u00eancia de um espa\u00e7o pr\u00f3prio, onde quer que ele se seja, vem significando a plena exposi\u00e7\u00e3o aos fara\u00f3s de cada momento. Sem o primeiro Israel, como se sust\u00e9m o segundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os sinais est\u00e3o \u00e0 vista, e permitem reconhecer um padr\u00e3o j\u00e1 v\u00e1rias vezes usado. S\u00f3 para recordar eventos recentes: o cancelamento de eventos onde intervenham nacionais israelitas \u2013 a intimida\u00e7\u00e3o crescente \u2013 aqui bem ao lado, a perturba\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica numa competi\u00e7\u00e3o desportiva disputada por quem levava as cores daquele Estado, e tudo isto com activo aplauso das inst\u00e2ncias governamentais. Boicotes, suspens\u00e3o da ordem, guetiza\u00e7\u00e3o. Que tudo isto especialmente ocorra nos espa\u00e7os que, ainda ontem, se jactavam do zelo com que perseguiam o segundo Israel, \u00e9 ponto que deveria conduzir a um cuidado exame de consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, no limite, nada disto tem que ver com Gaza, mesmo que no-lo repitam \u00e0 saciedade. \u00c9 claro que o mecanismo do bode expiat\u00f3rio, para poder funcionar, pressuporia essa ou outra justifica\u00e7\u00e3o. Para ser sacrificado, o bode expiat\u00f3rio h\u00e1-de ter uma qualquer excresc\u00eancia, tra\u00e7os do inomin\u00e1vel, rosto insuport\u00e1vel; h\u00e1-de, pela sua abominabilidade, como que exigir a pr\u00f3pria elimina\u00e7\u00e3o. H\u00e1-de reconhecer a sua culpa, a sua \u00edndole desenfreada, a sua aberrante condi\u00e7\u00e3o. E haver\u00e1 pervers\u00e3o maior do que a suprema v\u00edtima de ontem se tornar o agressor de hoje, logo que encontrando fr\u00e1geis presas para a sua sede de viol\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Excepto se o acusado rejeitar a acusa\u00e7\u00e3o, e, recusando-a, denunciar a viol\u00eancia daqueles que de si se aproximam. Quem n\u00e3o a v\u00ea? Quem n\u00e3o a quer ver? H\u00e1-de crer-se que, numa longa mancha verde que derramada entre Rabat, na costa ocidental de \u00c1frica, e Jacarta, j\u00e1 em pleno Sudeste asi\u00e1tico, a grande usurpa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 num pequeno territ\u00f3rio, al\u00e9m do mais numa importante parte quase ou inteiramente des\u00e9rtico, na borda do Mediterr\u00e2neo? H\u00e1-de crer-se que, n\u00e3o obstante as m\u00faltiplas redefini\u00e7\u00f5es de fronteiras no fim de um grande conflito, esta e esta s\u00f3, a de Israel, e apesar do que precedeu a constitui\u00e7\u00e3o deste Estado, \u00e9 a \u00fanica intoler\u00e1vel? Na ordem das vidas perturbadas e atingidas por um conflito, n\u00e3o h\u00e1 medida para a dor dos que tudo perdem, e nenhuma grada\u00e7\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel. Mas h\u00e1-a na ordem da pol\u00edtica. E, nela, quem \u00e9 o menor e quem \u00e9 o maior? Olha-se em redor e o que se v\u00ea? \u00abManadas de touros me cercaram, touros de Bas\u00e3 me rodeiam. Abrem as fauces contra mim, como le\u00e3o que devora e ruge\u00bb [Sl 21 (22), 13-15].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nenhuma das linhas anteriores pretende justificar uma s\u00f3 ac\u00e7\u00e3o militar que seja. Quem n\u00e3o disp\u00f5e de um aprofundado e imparcial conhecimento dos factos deve abster-se de ju\u00edzos temer\u00e1rios; al\u00e9m de que pode preferir colocar a sua fidelidade numa outra ordem em que a for\u00e7a de quaisquer potentados humanos ser\u00e1 reduzida \u00e0 impot\u00eancia. Ainda assim, uma exig\u00eancia pode formular-se desde j\u00e1 de modo incondicionado, decidido e intransigente: que, uma vez entrado Israel na ordem da pol\u00edtica, n\u00e3o se lhe aplique um <em>double standard, <\/em>recusando-lhe como Estado o que a todos os mais se admite, e mesmo se exige, e mesmo se aplaude. E, se se \u00e9 crist\u00e3o, uma exig\u00eancia segunda, adicional: que se permane\u00e7a radicalmente com este povo de quem se herdou, e com quem se partilha, a f\u00e9 e a esperan\u00e7a. Pode estar-se totalmente com um povo e com o seu Estado, mas ao mesmo tempo conservar a liberdade de censura de alguma ac\u00e7\u00e3o que leve ele a cabo? Certamente que sim. Ent\u00e3o que se esteja, e que se esteja incondicionalmente, e que n\u00e3o tenha Israel de atravessar a solid\u00e3o a que se viu exposto o primeiro dos seus filhos.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/chenspec-7784448\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5943155\">Chen<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5943155\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,144],"tags":[],"class_list":["post-19813","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direto-ao-contraditorio","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19813","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19813"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19813\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19815,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19813\/revisions\/19815"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19813"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19813"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19813"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}